quarta-feira, 31 de maio de 2017

A TEOLOGIA PIROMANÍACA





Os escolhidos
Lucas 9

As coisas de Deus nem sempre ficam claras para nós, não porque haja falta de transparência da parte de Deus, mas porque a nossa visão limitada nos impede de compreender com absoluta clareza a sua vontade e o seu agir. Sem a ação do Espírito Santo, somos incapazes de discernir as coisas espirituais e aplicar de forma correta o conteúdo das Escrituras. Os discípulos de Jesus deram uma demonstração desse conhecimento limitado. No início da narrativa do capítulo nono do Evangelho se Lucas, Jesus envia os seus discípulos para pregar o Reino de Deus e lhes dá poder e autoridade para expulsar demônios e para curar, o que eles executam prontamente (Vs. 1-6). Depois disto, eles presenciaram o grande milagre da multiplicação dos pães para uma multidão faminta (vs. 12-17). Todos esses sinais e milagres não deixaram dúvidas de que eles estavam diante de Cristo, o Filho do Deus vivo, como declarou Pedro (vs. 18-21). Oito dias após estes episódios, os apóstolos Pedro, Tiago e João presenciaram a transfiguração de Jesus (vs. 29-36) e a aparição de Moisés e Elias ao lado dele. Descendo eles do monte onde estavam, no dia seguinte, outro fato miraculoso foi presenciado; a expulsão do demônio de um menino a pedido do seu pai (vs. 37-43). Logo depois, após anunciar que a sua morte estava próxima, percebendo um questionamento entre os seus discípulos de quem seria o maior, o Senhor deu-lhes um exemplo de humildade ao chamar para perto de si uma criança, afirmando que o menor seria o maior (vs. 46-48). Vemos quantos sinais, maravilhas e ensinamentos os apóstolos tiveram a respeito da natureza e da missão de Jesus em tão pouco tempo. Eles não eram apenas espectadores, mas aprendizes que viviam na prática as lições dadas pelo Mestre. Aquilo que Jesus era e os sinais que Ele fazia haveriam de acompanhá-los também em seu ministério. Eles eram os “escolhidos”.


Desejo equivocado
Lucas 9:54

Como apóstolos, os doze haviam sido chamados com a mesma autoridade daquele que os chamara e com esta mesma autoridade eram enviados a pregar o Evangelho. Eles possuíam uma identidade com Cristo não somente porque foram comissionados por Ele, mas porque andavam com Ele e criam na sua natureza messiânica. Muitos são chamados, mas poucos os escolhidos, e eles possuíam essas duas prerrogativas (Jo 15:16; Mt 4:17,19; 10:2-4; Mc 3:13-19; Lc 6:12-16). Parece-nos, porém, que nem sempre todos eles compreenderam totalmente a natureza daquele que os chamou nem a razão do seu chamamento. O evangelista Lucas relata algo inusitado: após Jesus ter sido rejeitado em Samaria, por onde deveria passar em viagem a caminho de Jerusalém, Tiago e João, tomando as suas dores, perguntam ao Senhor se Ele queria que eles mandassem descer fogo do céu para consumir aquelas pessoas. Talvez por terem sido escolhidos, por terem presenciado e também operado tantos sinais e maravilhas, os dois discípulos se acharam imbuídos de um poder tal que lhes dava autoridade para destruir quem ou o que desejassem. Como judeus, a sua relação com os samaritanos não era nada boa, porque ambas as partes se odiavam e se evitavam. Estava ali uma oportunidade para por fim a essa desavença histórica, destruindo o fruto do desafeto dos judeus. Não era essa, todavia, a natureza do Cristo, o Filho do Deus vivo. Tiago e João são chamados na Bíblia por Jesus de “filhos do trovão” (Mc 3:7) e agora parecem querer se utilizar disso para punir os samaritanos. Olhando para o Evangelho de João e as suas epístolas, vemos como ocorreu uma transformação radical na maneira de enxergar as pessoas desse apóstolo do Senhor e, com certeza, também de Tiago. João escreve que quem ama a Deus, ama de igual forma a seu irmão (1 Jo 4:21).


A pregação do fogo
Lucas 9:55,56

Algumas versões, como a Bíblia de Jerusalém, omitem o conteúdo da repreensão de Jesus: “vós não sabeis de quê espírito sois. Pois o Filho do Homem não veio para destruir as vidas dos homens, mas para salvá-las” (vs. 55,56), que a ARA coloca entre colchetes, mas que é mantida na King James. Pensa-se ser um acréscimo dos copistas, talvez Marcion. Todavia, isso não é conclusivo. Sendo ou não um acréscimo, esta fala de Jesus revelou aos dois discípulos uma verdade: o objetivo de Deus não era destruir, mas salvar; não era condenar, mas oferecer-se a si mesmo como oferta para a justificação do pecador. Os sinais que seguiam as pregações de Jesus apontavam para o seu Reino de amor, onde os mais indignos de misericórdia poderiam alcançá-la. Hoje encontramos muitos cristãos e muitas teologias que se assemelham à intenção dos “filhos do trovão” de incendiarem aqueles que não creem em Cristo. Muitas músicas evangélicas colocam o crente num patamar superior, no palco, sendo aplaudidos pelos que estão na plateia. Prega-se que os inimigos do povo de Deus serão destruídos e envergonhados, enquanto o crente será exaltado. A missão de Cristo é fruto do amor de Deus (Jo 3:16) e a mesma deve ser a missão da Igreja. O Evangelho que pregamos fala de salvação, embora também fale sobre juízo (Jo 3:36). Deus não fará descer fogo do céu sobre o descrente, mas enviou o seu Espírito Santo para dar poder e autoridade à sua Igreja para pregar o Evangelho (At 1:8). Se queremos que o fogo de Deus alcance aqueles que rejeitam a Palavra – e isto num sentido figurado – devemos arder em amor para com eles, praticando a Missão Integral, importando-nos com o seu sofrimento, pregando a verdade que pode libertá-los. Esse é o verdadeiro fogo: o fogo das boas obras, da doação, da solidariedade, do testemunho, do compromisso irrestrito com o Reino de amor.


Mizael de Souza Xavier 




terça-feira, 30 de maio de 2017

EVANGELISMO E TESTEMUNHO PESSOAL




A questão do testemunho pessoal pode ser considerada, em certo sentido, algo muito controverso na pregação da Palavra de Deus. Como veremos aqui, existem quatro tipos de testemunho: o testemunho da Palavra, isto é, a pregação direta do Evangelho; o testemunho de vida como fruto da conversão, o que envolve a santidade e a influência do crente no mundo; o testemunho da experiência, das conquistas a partir da conversão, como curas, libertações e bênçãos alcançadas; e o testemunho solidário. Ao estudarmos cada um, veremos a sua importância e o cuidado que devemos tomar em cada um deles, para que o nosso testemunho seja sempre correto, condizente com a Palavra de Deus.

O testemunho da Palavra. Testemunhar da Palavra significa pregar de forma verbal o Evangelho, proclamando as verdades bíblicas que podem conduzir o homem à salvação. Essa Palavra é fiel e digna de inteira aceitação (1 Tm 4:9). A exortação de Paulo a Timóteo foi; “prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda longanimidade e doutrina” (2 Tm 4:2; cf. um conselho semelhante a Tito: Tt 2:15). Como temos aprendido aqui, o foco da evangelização cristã é a pregação do Evangelho, o testemunho da Palavra de Deus que é o poder para a salvação do pecador. Qualquer outro testemunho, por mais impressionante que seja (a cura de um câncer, por exemplo), se não mostrar a Cristo como o Messias, o Salvador do mundo, não surtirá o efeito que o verdadeiro evangelismo propõe. O impressionante nem sempre é o mais importante.

O testemunho da conversão. Esse testemunho diz respeito à nossa conduta pessoal após a conversão, a mudança de vida operada em nós, que passa a ser percebida pelas pessoas que nos conhecem. A conduta do evangelista deve ser irrepreensível, de modo que ele faça a diferença e não se torne motivo de tropeço para ninguém nem de escárnio para o Evangelho (1 Co 1:8; 10:31,32; 2 Co 6:1-3; Ef 1:4). Em Cristo, ele é sal e luz (Ef 5:13-16) e deve, por meio das suas boas obras, levar os homens a glorificarem a Deus. Quando a sua vida brilha com a luz de Cristo, o mundo é iluminado. Seja na prática do dia a dia ou no testemunho para alguém da obra que Cristo operou na sua vida, o evangelista deve evocar a sua antiga natureza pecaminosa e demonstrar como a conversão a Jesus mudou todo o seu ser. Deve ficar bastante claro para o ouvinte que ele está na mesma condição pecaminosa e precisa urgentemente de salvação. E também que a conversão produz resultados práticos: além de uma vida íntegra, compromisso incondicional com Deus, obediência à sua Palavra e prática das boas obras (Ef 2:8-10). O testemunho pessoal não visa converter ninguém, mas intenciona levar as pessoas ao conhecimento de Cristo.

O testemunho da experiência. Este é um dos principais testemunhos ouvidos nas igrejas. Geralmente diz respeito às experiências pessoais do crente com Deus, das curas físicas e espirituais que ele experimentou, de milagres, da solução de problemas financeiros, da conquista de bênçãos, do alcance de promessas. Quando esses testemunhos são verdadeiros, edificam a Igreja e a leva a glorificar a Deus (embora isso deva acontecer sempre, mesmo se não houver cura, bênçãos materiais, prosperidade, etc.). Todavia, quando direcionados a descrentes com o intuito de lhes apresentar Deus, o efeito pode não ser o esperado. Isto é: quem está passando por sérios problemas financeiros, de saúde, familiares ou quaisquer outros e ouve esse tipo de testemunho, logo se animará a abraçar a fé cristã, porque deseja ter seus problemas resolvidos e obter a cura. Essas adesões, no entanto, não são conversões genuínas, não envolveram a proclamação do Evangelho, não confrontaram o perdido com o seu pecado e não apresentaram a Jesus como Salvador e Senhor. Embora o número de membros da Igreja possa aumentar significativamente, não de pode dizer o mesmo sobre o número de verdadeiros discípulos de Jesus. O evangelista precisa absorver e decorar esta verdade: Cristo veio nos libertar e salvar dos nossos pecados, não dos nossos problemas pessoais.

O testemunho solidário. Este testemunho envolve dois fatores: o primeiro já foi abordado, é o “evangelismo relacional”; o segundo veremos mais a frente, no módulo 4, sobre “evangelismo e cosmovisão cristã”. Trata-se da demonstração do amor de Deus na prática, onde a Igreja demonstra o poder de Deus na busca e no exercício da justiça, praticando aquilo que Tiago chamou de “a religião pura e sem mácula” (Tg 1:27).


A Palavra e a experiência. Cabe aqui um importante comentário. A Palavra de Deus está acima da experiência humana. Entretanto, ela é pregada em muitas igrejas com base nas experiências pessoais de alguns pregadores. Infelizmente, essas experiências nem sempre falam de um arrependimento estrutural e uma vida transformada pela graça de Deus, mas da conquista de bênçãos, como dito acima e como acontece muito em igrejas neopentecostais da Teologia da Prosperidade. Todavia, se a revelação de Deus está limitada à experiência humana, o que acontecerá quando o ser humano falhar, quando ele pecar e se desviar? O que acontecerá quando a bênção tão desejada não vier, mas, ao contrário, permanecer o sofrimento, a doença, as tribulações? Os “crentes” permanecerão firmes nessa Palavra fundamentada na experiência dos outros? A Palavra do Senhor terá falhado e já não será mais digna de confiança? Não fomos comissionados para pregar as nossas experiências e conquistas pessoais, muitas vezes mesquinhas, mas o Evangelho de Cristo, a mensagem redentora do seu Reino de amor. O que deve sair da nossa boca é a Palavra infalível de Deus, verdadeira, soberana, imutável e eterna. Assim, todo aquele que se converter ao Senhor saberá com certeza: independente de qualquer coisa, Ele é Deus e continuará sendo Deus.

OBS: Este estudo faz parte da apostila CURSO DE FORMAÇÃO DE EVANGELISTAS, no módulo OS MÉTODOS EVANGELÍSTICOS.

Mizael de Souza Xavier  




quinta-feira, 25 de maio de 2017

ÉTICA CRISTÃ E MINISTERIAL - UMA INTRODUÇÃO




O ser humano é um ser moral. Os animais se relacionam por meio dos seus instintos, não possuindo nenhuma concepção daquilo que é certo ou errado, ou do bem e do mal, da verdade e da mentira. Abrir mão da prerrogativa moral humana é rebaixar-se à qualidade dos animais irracionais. Entretanto, qualquer tentativa de viver longe da ética e da moral já demonstra o quanto somos humanos, pois somente os seres humanos podem escolher o ser ou o não ser, de modo que sempre somos o que somos. Portanto, é preciso estabelecer os padrões éticos e morais exigidos por Deus aos seus obreiros, padrões que regulamentam e determinam o seu comportamento como Igreja, como servos e como membros comuns da sociedade. O viver cristão é um viver ético, compatível com os valores presentes nas Sagradas Escrituras, valores que não são mutáveis nem perecíveis, mas que carregam a santidade e a eternidade de Deus consigo, mostrando o caminho certo a trilhar em busca da excelência espiritual e ministerial, onde “andar no Espírito” é o ethos exigido do obreiro de Deus.
Não é possível abarcar aqui todas as questões que dizem respeito à ética e que envolvem questões filosóficas, que podem ser mais bem estudadas em outra ocasião. A compreensão de seus elementos básicos, porém, é necessária para entendermos a sua importância para o desenvolvimento de um caráter íntegro e uma atuação santa e eficaz na obra do Senhor. Todos os temas abordados neste estudo são temas éticos em primeira e última instância. Por exemplo: faltar com a verdade é um problema ético. A consciência limpa requerida do diácono em 1 Timóteo 3:9, só é possível a partir do momento em que as suas ações são coerentes com as suas palavras e o seu ensino, o que pede uma postura ética diante de Deus e dos homens. Mais adiante, ao abordar-se a saúde do obreiro e a sua qualidade de vida, ficará bastante claro que representa falta de ética com os ministros do Senhor não prover-lhes as condições necessárias para o desempenho das suas funções no ministério. Quando o líder de uma denominação não cuida dos seus obreiros, está faltando com a ética cristã, que tem as suas bases firmadas na Palavra de Deus e no amor.
A ética é um conceito que serve a diversas práticas. De acordo com o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, ética é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”.  Grenz et al (2000, p. 52) define ética como a “Área da investigação filosófica e teológica que busca identificar o certo e o errado, i.e., os padrões morais, bem como o que é bom e o que significa viver bem.” Ainda segundo o autor (idem), “A ética busca oferecer discernimento, princípios ou mesmo um sistema de orientação na busca pela boa vida ou pela forma correta de agir nas situações gerais e específicas”. Então podemos pensar em várias éticas, cada uma voltada para uma cultura diferente, ainda que carregadas de valores gerais, como o ideal de justiça e equidade. A ética, contudo, não tem a ver com o campo da especulação, mas é um conjunto de valores e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A diversidade humana pede uma diversidade ética, padrões morais diferentes e que variam de acordo com a cultura, os costumes e as épocas. Na verdade, os princípios éticos são universais, enquanto que as variantes culturais nós chamamos de “normas morais”, variando os “atos morais” de pessoa para pessoa. O pastor de uma Igreja possui a sua ética, assim como o traficante também possui a sua. Cada ética dependerá do conjunto de crenças e valores de cada indivíduo, podendo os atos morais divergirem. . Muitos pastores roubam o dinheiro que entra no caixa da sua congregação, enquanto muitos traficantes abominam outras práticas criminosas, como o estupro, por exemplo.


Ética cristã

A ética cristã, que é aquela que se requer do obreiro, está fundamentada nos princípios e valores absolutos da Palavra de Deus e dela não pode se desviar. O crente não pratica aquilo que bem entende de acordo com a sua vontade, as circunstâncias ou a cultura do seu meio, mas tem a sua vontade moldada pela ética de Deus e isso o faz agir sempre da mesma maneira em todas as situações. A Igreja não cria uma ética, apenas segue um padrão de comportamento pré-estabelecido na Bíblia. Não se pode negar, é claro, que uma má interpretação do texto bíblico levará inevitavelmente a uma aplicação deturpada de sua ética. De modo geral e ideal, o crente deve se adequar aos padrões existentes na Bíblia, padrões que regerão o seu comportamento em todas as esferas da sua existência. Isso o levará à compreensão de que não existe uma “vida cristã” e uma “vida secular”, mas onde quer que ele esteja, estará pensando, falando e agindo como cristão, seguindo a ética de Deus. Quando se observa o comportamento ético de um indivíduo que se declara discípulo de Jesus, é possível determinar seu grau de compromisso com aquilo em que afirma crer, percebendo até que ponto ele é verdadeiramente discípulo do Senhor. Essa observação pode ser feita, inclusive, no ambiente ministerial.
No exercício do seu ministério, o obreiro estará sempre enfrentando questões que envolverão as divergências entre bem e mal, verdade e mentira, certo e errado. As respostas que ele dará a cada uma dessas questões envolvem os valores sobre os quais a sua fé e o seu caráter estão alicerçados. A Bíblia oferece respostas suficientes para que o servo do Senhor aja sempre de acordo com aquilo que representa o bem, que conduza à verdade e seja certo. Quando alguém procura o pastor para um aconselhamento pastoral, geralmente está envolvido em algum problema com uma ou mais soluções e deseja que lhe seja apontado um caminho. É necessário avaliar atentamente cada situação, dando respostas bíblicas precisas sobre o que deve ser feito com base na ética de Deus. Sejam problemas de ordem conjugal, profissional, ministerial ou qualquer outra, o direcionamento deverá sempre conduzir ao bem, à verdade e ao que é correto, através das implicações morais e éticas da Palavra de Deus. Toda escolha é uma escolha ética; toda decisão também é uma decisão ética.
Na ética cristã, espiritualidade e ética se encontram. A vida cristã envolve aquilo que é espiritual. Entretanto, é impossível separar o homem carne do homem espírito: ambos coexistirão até a gloriosa volta do Senhor. Uma ação qualquer envolve ética e espiritualidade, porque ambos dizem respeito ao comportamento humano. Todos os problemas que o obreiro encontrará na sua própria vida, no exercício do seu ministério e na vida das pessoas com quem se relacionará dizem respeito a questões existenciais em todas as esferas: o relacionamento do homem consigo mesmo, o relacionamento do homem com Deus e o relacionamento do homem com os seus pares. O nível de espiritualidade do crente (a sua relação com Deus e a sua Palavra) refletirá na sua forma de lidar com o mundo a sua volta e todas as suas demandas, despertando sentimentos e atitudes que sempre envolverão o fazer ético. A sua espiritualidade abrangerá aquilo que deve ser feito, enquanto a ética – como produto dessa espiritualidade – mostrará os meios para que isso seja realizado.


Ética e moral

Não importa o papel que o indivíduo desempenhe na sociedade e na Igreja, as questões éticas sempre estarão envolvidas. Entender-se como pessoa, como cidadão e, acima de tudo, como servo de Deus transmite ao obreiro a mensagem de que o seu padrão ético precisa ser elevado. Algumas atitudes são requeridas do obreiro, e isso demonstra a qualidade do seu caráter. O seu pensamento e as suas ações estão sujeitos ao conhecimento daquele que o salvou, conforme está revelado por Deus nas Escrituras, de modo que “Ele morreu por todos, para os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2 Co 5:15). O servo do Senhor possui uma nova natureza, com uma nova vontade e objetivos (Ef 2:10). Logo, o seu padrão moral é diferente daquele que ele vivenciava antes da sua conversão (Ef 2:1-3). É interessante fazer-se, neste ponto, a diferenciação entre a “ética” e a “moral”. Enquanto a ética determina os padrões para o comportamento humano, a moral trata da atividade humana como ela é, o comportamento resultante do conhecimento ético, sua moralidade. Enquanto a ética é normativa, a moral é descritiva. A palavra “ética” é derivada do termo grego ethos (caráter, modo de ser de uma pessoa); já a palavra “moral” tem origem no termo latino morales, que significa “relativo aos costumes”. Enquanto a ética é o princípio, a moral são os aspectos de condutas específicas; enquanto a ética é permanente, a moral é temporal; enquanto a ética é universal, a moral é cultural; enquanto a ética é a regra, a moral é a conduta da regra; enquanto a ética é teoria, a moral é prática.
Como se pode perceber, existe uma sensível diferença entre a ética e a moral, o que determinará o que é ético e o que é moral. Um indivíduo pode ter uma postura ética, o que se demonstrará na sua prática de vida, isto é, na sua moralidade. Se ele obedecer a um conjunto de regras específico – como a Bíblia, por exemplo – a sua conduta moral está de acordo com os princípios estabelecidos neste conjunto de regras. Se, a despeito de haver uma regra específica a ser seguida, as suas ações não seguem os padrões determinados, a sua conduta moral poderá ser considerada como marginal ou imoral, fora dos padrões. Isto significa que a moral de cada um não é determinada por nenhuma lei externa, mas está restrita ao indivíduo ou grupo de indivíduos, baseados naquilo que eles decidem fazer com relação aos padrões estabelecidos. Hebreus 10:25 exemplifica isso. O padrão ético da Igreja cristã era de se congregar, mas alguns seguiam o seu próprio costume, deixando de manter a comunhão com os outros irmãos. O pecado é justamente a quebra da regra, do padrão, do costume estabelecido pela Palavra de Deus. O autor prossegue: “Porque, se vivemos deliberadamente em pecado [ato moral individual], depois de termos recebido o pleno conhecimento da verdade [o padrão ético estabelecido por Deus], já não resta sacrifício pelo pecado; pelo contrário, certa expectação horrível de juízo e fogo vingador prestes a consumir os adversários [consequência da conduta antiética]”. Agir de forma antiética e imoral não significa apenas ferir um princípio, mas envolve ofender a Deus.
A conduta moral de todo obreiro, de todo crente, está fundamentada nas Escrituras e delas não diverge. Isto significa que ele pratica aquilo que crê, age de acordo com os mandamentos (padrões éticos e morais) estabelecidos por Deus em sua Palavra. Assim como Deus é Santo, ele também é santo (1 Pe 1:16). A predestinação do crente visa a sua identificação com Cristo (Mt 5:16; 2 Co 3:18; Rm 8:29). Como nova criatura, ele não está limitado aos padrões que possuía no mundo nem à moralidade presente na sua carne, mas vive de modo totalmente diferente, não tentando equilibrar a ética cristã com a sua conduta moral, mas vivendo de modo íntegro (2 Co 5:17; Lc 14:33). A carne (moralidade) milita contra o Espírito (padrão divino), de modo que o resultado dessa luta é a vivência integral dos valores do Reino de Deus (Gl 5:17). E é este o fator determinante para estabelecer a integridade das ações do crente: a presença do Espírito Santo. O crente não pode ter um comportamento diferente do padrão, porque ele morreu para o pecado e agora vive para Cristo (Rm 6:2-11; Gl 2:19; 6:14). Ele está morto com Cristo para os rudimentos deste mundo (Gl 2:20) e agora pode viver para a justiça (1 Pe 2:24), não vivendo mais para satisfazer os seus próprios desejos (moralidade), mas a vontade de Deus (ética; 1 Pe 4:2).
A conduta dos fariseus na época de Jesus exemplifica claramente a diferença entre a ética e a conduta moral. Todo o capítulo 23 do Evangelho segundo Mateus é dedicado a tratar deste tema. O Senhor inicia o seu discurso afirmando que “Na cadeira de Moisés, se assentaram os escribas e os fariseus” (v. 2). Tal cadeira simboliza a autoridade legislativa de Moisés, por intermédio de quem veio a Lei. Escribas e fariseus orgulhavam-se por serem zelosos estudiosos e observadores da Lei, tratando com desprezo o povo comum, iletrado, que não possuía o mesmo conhecimento formal da Lei mosaica que eles. Logo, escribas e fariseus eram profundos conhecedores dos padrões de comportamento divinos estabelecidos nas Escrituras. No entanto, a sua conduta moral estava muito longe da integridade requerida por Deus em sua Lei, de modo que o povo deveria observar aquilo que eles diziam (a ética presente na Lei de Deus), porém, não deveria imitá-los em suas obras (conduta moral), porque não faziam aquilo que diziam (v. 3). O Senhor não poupa adjetivos para reprovar a atitude hipócrita daqueles religiosos, que eram semelhantes a sepulcros caiados, mostrando-se belos por fora, mas interiormente, “cheios de ossos mortos e de toda imundícia” (v. 27). A diferença, portanto, entre a ética e a moral está entre o “saber o que fazer” e o “fazê-lo”; ou o “saber o que não fazer” e o “não fazê-lo”, conforme lemos em Tiago: “Portanto, aquele que sabe que deve fazer o bem e não o faz nisso está pecando” (4:17). Os atos omissos também são atos morais.


Boa consciência

A integridade requerida nos princípios éticos e na moralidade cristã pode ser traduzida como “boa consciência”, como o apóstolo Paulo escreve a Timóteo: “mantendo fé e boa consciência, porquanto alguns tendo rejeitado a boa consciência, vieram a naufragar na fé” (1 Tm 1:19). Vê-se claramente que a fé cristã clama por uma vida coerente com aquilo que se crê. Isto é: a nossa conduta moral deve estar integrada à nossa regra de fé, gerando comportamentos compatíveis com os padrões divinamente estabelecidos. Naufragar na fé não está ligado, nesse texto, ao desviar-se de uma verdade para outra, mas em não viver a verdade na qual se crê. O crente que não vive de modo digno do Evangelho, já perdeu a sua fé, embora a continue proclamando. Em sua defesa perante o Sinédrio, Paulo declarou que a sua conduta diante de Deus garantia-lhe uma boa consciência (At 23:1). Ele de nada tinha de se envergonhar, uma vez que expressava a fé através dos seus atos em favor do Evangelho. O autor de hebreus pede oração aos irmãos, dizendo: “Orai por nós, pois estamos persuadidos de termos boa consciência, desejando em todas as coisas viver condignamente” (Hb 13:18). Esse viver condigno é aquele que mantém a coerência com o Evangelho. A relação entre a ética e a conduta moral fica ainda mais clara em 2 Coríntios 1:12, onde Paulo afirma: “Porque a nossa glória é esta: o testemunho da nossa consciência, de que, com santidade e sinceridade de Deus, não com sabedoria humana, mas, na graça divina, temos vivido no mundo e mais especialmente para convosco”. Aquele que vive no mundo, possui um padrão que confere verdade à sua moral: santidade e sinceridade diante de Deus. Aqueles que não são sinceros, são imorais, eles pregam, mas não praticam.
A crença correta em Deus produz práticas corretas, que são demonstradas por meio de um caráter santo que revela o compromisso do crente com a sua fé. Para que isso aconteça, é necessário ir além da prática do que é certo, passando a rejeitar aquilo que é errado. O mesmo Paulo escreve: “Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a Palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade” (2 Co 4:1,2). O mesmo principio da prática da fé aliada a uma consciência pura é repetido em outros textos (p. ex.: 1 Ts 2:10; 1 Tm 1:5,19; 3:9; 2 Tm 1:3; Hb 9:14; 1 Pe 3:16,21). O autor de Hebreus, falando a respeito do privilégio que o crente possui do acesso à presença de Deus, escreve: “aproximemo-nos com sincero coração, em plena certeza de fé [ética], tendo o coração purificado de má consciência [moral] e lavado com água pura”. A moral cristã parte de princípios morais elevados. Quando as ações do crente não são compatíveis com a fé que ele professa, a própria fé em si fica comprometida. A Palavra de Deus não é adulterada apenas quando se tira ou acrescenta algo do seu conteúdo, mas quando se deixa de praticar aquilo que ela ensina ou se vive o contrário do que ela ordena. No casamento entre o crente e a sua fé não pode haver adulteração: eles são apenas um. Quando um dos princípios bíblicos é desprezado, o adultério acontece.

O texto de Filipenses 4:8 estabelece alguns princípios que devem nortear o pensamento cristão: “Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso que ocupe o vosso pensamento”. O pensamento daqueles irmãos era alimentado por aquilo que aprenderam, receberam, ouviram e viram em Paulo (ética, padrão) e que deveria se transformar em prática (conduta moral, caráter; v. 9). Escrevendo a Tito, Paulo o exorta a tornar-se padrão de boas obras, mostrando integridade e reverência no ensino, além de linguagem sadia e irrepreensível, “para que o adversário seja envergonhado, não tendo indignidade nenhuma que dizer a nosso respeito” (Tt 2:7,8). Quando o crente anda retamente, praticando os mandamentos de Deus, ele não somente se torna modelo para aqueles que o observam, como também impede que seu comportamento seja motivo de tropeço para o Evangelho. Na Igreja moderna, entretanto, líderes e obreiros parecem não se importar com o testemunho que dão diante dos irmãos e do mundo, permitindo que práticas indignas de um servo do Senhor escandalizem a Igreja e o Senhor da Igreja. O caráter do obreiro precisa ser irrepreensível (Fp 1:9,10), moldado pelo padrão de Deus, não pelo padrão do mundo (Rm 12:2). 


Este texto faz parte do livro OBREIRO APROVADO: AÇÕES ESTRATÉGICAS DE GESTÃO DE PESSOAS, no capítulo ÉTICA CRISTÃ E VALORES, de autoria de Mizael de Souza Xavier. 



terça-feira, 23 de maio de 2017

ÉTICA CRISTÃ E POLÍTICA




1 INTRODUÇÃO

Ao falarmos a respeito de ética, política e o envolvimento do cristão na política devemos responder a algumas questões. Primeira: o que é ética? Em se tratando da Igreja, este conceito precisa estar impregnado dos valores da Palavra de Deus. A ética bíblica nem sempre encontra eco na ética secular. A ética de Deus é baseada em princípios absolutos e soberanos, enquanto a ética do mundo é relativista e está em constante estado de mutação. Segunda: sobre o que estamos falando quando nos referimos à política? A política tanto é um conceito filosófico como também corresponde à prática a partir desse conceito. Mesmo o indivíduo que se declara apolítico tem a sua política: a de ser apolítico. O sistema de crenças e práticas envolvendo o conceito de política leva à formação da política partidária, uma forma de fazer político. Logo, a política não é necessariamente partidária. Terceira: qual o nível de envolvimento da Igreja com as questões políticas? Questiona-se a respeito da participação do crente na política, se é correto ou não o seu envolvimento político-partidário. Mas questiona-se, também, a natureza (motivação) e a qualidade desse envolvimento, o que envolve muitas questões éticas pertinentes.


2 O QUE É ÉTICA?

            A ética é um conceito que serve a diversas práticas. De acordo com o Dicionário Aurélio Buarque de Holanda, ÉTICA é "o estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana susceptível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente à determinada sociedade, seja de modo absoluto”. Então podemos pensar em várias éticas, cada uma voltada para uma cultura diferente, ainda que carregadas de valores gerais, como o ideal de justiça e equidade. A ética, contudo, não tem a ver com o campo da especulação, mas é um conjunto de valores e princípios que norteiam a conduta humana na sociedade. A diversidade humana pede uma diversidade ética, padrões morais diferentes e que variam de acordo com a cultura, os costumes e as épocas. Na verdade, os princípios éticos são universais, enquanto que as variantes culturais nós chamamos de “normas morais”, variando os “atos morais” de pessoa para pessoa.


3 O GOVERNO É ORDENADO POR DEUS

            É impossível negarmos o fato de que vivemos numa sociedade regida por formas de governo. Essas formas variam de acordo com cada país: governos absolutistas, monárquicos, democráticos, patriarcais, entre outros. Esses governos, eleitos ou não pelo povo, são responsáveis por comandar a nação, manter a ordem, criar e aplicar as leis, promover o crescimento individual e coletivo. No caso do Brasil, vivemos um governo eleito democraticamente, o que envolve a nossa responsabilidade para com aqueles em quem votamos. A existência de governo é determinada por Deus em sua Palavra, o que podemos ver na presença de líderes que comandavam o povo, como Abraão e Moisés, e nas formas de governo posteriores (juízes, profetas e reis). Vemos explícitos na teocracia mosaica os poderes do governo (cf. Êx 21:23-25; 1 Sam 8:7,22; 10:24; 23:1), como também o domínio de Deus sobre as nações gentílicas (Dn 4:25; 2:7). Se Deus organizou a sociedade de maneira a haver sempre a presença do governo, significa que isso é essencialmente bom e precisa ser valorizado. Levanto em conta que ter aqueles que governam significa ter aqueles que são governados, o governo não é uma via de mão única, mas chama à responsabilidade ambas as partes de construir um governo justo e democrático. Quando não pensamos dessa forma, deixamos de fazer a nossa parte e permitimos que os governos exerçam o seu poder da forma como bem entenderem.
            O Novo Testamento repete a mesma ideia de governo do Antigo Testamento. Na época em que os seus livros foram escritos, a sociedade do ambiente bíblico vivia sob o domínio do Império Romano, que era o governo vigente. Vemos em vários textos que Deus ordenou o governo (cf. Mt 22:21; Jo 19:11; 1 Tm 2:2; Tt 3:1; 1 Pe 2:13,14). Havia, ainda, as autoridades religiosas que comandavam o povo, os fariseus, com todas as suas normas de fé e de conduta. É interessante notar quem em momento algum Jesus ou os seus discípulos ensinam que não se deve obedecer as leis ou que os governos devem ser desprezados. Quando Jesus foi questionado a respeito do pagamento de impostos à César, Ele não se negou a fazê-lo, mas afirmou que o que era de César, era de César (Mt 22:17-22). Com relação à autoridade dos fariseus, entretanto, o Senhor levantou diversos questionamentos.
A Bíblia nos ensina a obedecer às leis e os magistrados porque eles são ministros de Deus; também não devemos temê-los, a não ser que pratiquemos o mal, conforme lemos em Romanos 13:1-7. Quando a Bíblia fala de autoridade, certamente não se está referindo às pessoas que exercem essa autoridade, mas à própria autoridade em si. A autoridade é constituída para criar leis, executá-las e julgá-las. Essas leis não devem promover desigualdades nem devem ser aplicadas de forma injusta, mas igualitária. Os governos totalitários, as ditaduras, não estão a serviço da justiça, mas dos seus próprios interesses. Governantes eleitos de forma corrupta, incluindo compra de votos, que agem corruptamente em seus cargos não estão praticando a justiça. Eles estão em um cargo de autoridade, mas não são “a autoridade”. A autoridade está no cargo e não na pessoa. A justiça está nas leis e não nos magistrados, que são pessoas falhas, pecadoras e podem se corromper, se vender, se enganar, usar da máquina do Estado para promover seus interesses espúrios. Pela lógica, os próprios magistrados devem ser os primeiros a estarem sujeitos à autoridade. Eles devem ser os primeiros a fazer o bem para obter louvor dela.
                       

4 O CRISTÃO E A POLÍTICA

A realidade expressa no parágrafo anterior demonstra a importância do envolvimento cristão na vida política do seu país. É impossível a existência de um indivíduo apolítico, pois, como já dissemos, a própria decisão pelo não envolvimento em questões de natureza política já é uma decisão política. O próximo passo é definirmos: 1) se é moralmente certo o envolvimento do crente nas questões políticas; 2) como deve ser e ética  desse envolvimento. Ao se falar em política, é interessante que nos desapeguemos, por hora, do seu aspecto negativo perpetrado por indivíduos inescrupulosos que se utilizam da política para seu próprio benefício. A política é uma realidade e é necessária. A Igreja do Senhor está totalmente envolvida nela, ainda que não queira nem aceite. Qualquer decisão política do país afeta a Igreja, podendo ser na área econômica, social e até mesmo religiosa. Somos guiados pela Bíblia e regidos pela Constituição Federal. As nossas ações neste mundo não dizem respeito apenas àquilo que Deus espera de nós, mas também àquilo que as leis esperam que cumpramos. Toda decisão política é do interesse da Igreja e deve ser levada em conta. Quando o Congresso Nacional aprova uma Lei, a Igreja não está isenta de cumpri-la.  Quando o crente desobedece uma Lei, não está isento de sofrer as devidas penalidades. As leis são justas, mesmo sendo contrárias à Palavra de Deus, porque são equânimes.
Se a política é algo que afeta a vida de todas as pessoas - para o bem ou para o mal - é moralmente correto o envolvimento da Igreja nas questões políticas. Embora não fazer política já seja um ato político, o não envolvimento é uma declaração de indiferença com relação a algo que afeta tão profundamente a vida dos cidadãos. Isto significa que quando deixamos de nos envolver nas questões políticas, aceitamos as coisas como eles são de maneira conformista e fatalista, o que demonstra, no mínimo, falta de amor próprio e pelas pessoas que são afetadas por uma política mal intencionada.  Não discutir política nem se importar com os rumos do país e moralmente errado. A ética cristã tem como base fundamental o amor. Se não amamos, todos os nossos atos serão contaminados pelo egoísmo, incluindo os atos políticos. Seja desenvolvendo uma consciência política sadia ou envolvendo-se ativamente na vida política do país por meio de cargos eletivos, o crente é chamado a se importar, a erguer uma voz santa e profética em meio a uma geração perversa e corrupta. Se a Igreja não fizer a diferença, quem a fará?


5 O AMOR COMO ÉTICA SUPREMA

Como vimos, fazer política e envolver-se em questões políticas é moralmente certo, porque envolve a prática do amor. Se amamos as pessoas, importamo-nos com elas. As discussões sobre fazer ou não o bem ao próximo, mesmo aos que não são cristãos, não pode girar em torno de debates sobre a corruptibilidade do mundo ou a iminente volta triunfal do Senhor Jesus Cristo. Isto é diminuir o valor do Evangelho e limitar o alcance do Reino de Deus. O ideal de Deus para a humanidade é bem mais abrangente e pode ser visto em toda a extensão das Escrituras. O Evangelho de Mateus nos mostra um embate teológico entre os fariseus e Jesus Cristo acerca de qual seria o grande mandamento da Lei (22:34-40). Segundo comentário da Bíblia Shedd para a inquirição dos fariseus, eles haviam abstraído do Antigo Testamento nada menos que 248 preceitos afirmativos, além de 365 negativos. Talvez a resposta do Senhor Jesus aos fariseus em sua dialética racional deva responder à dialética teológica que gira em torno da ética da Igreja com relação à política: a igreja deve se preocupar apenas com a salvação da alma ou precisa levar em conta, em sua evangelização, o corpo onde essa alma habita? Isso nos levará ao ideal de Missão Integral, onde o fazer político está totalmente inserido.
A resposta contundente dada pelo Senhor a respeito do amor a Deus e ao próximo como os pilares nos quais se sustentam a Lei e os Profetas, é também a chave de entendimento da veracidade da vivência política que a igreja deve praticar. O mandamento é o amor e é o amor que nos identifica como discípulos de Cristo, como filhos de Deus e seus servos (cf. Jo 13:34; 14:15; 1 Jo 2:3-7). O apóstolo João escreveu: “E o amor é este: que andemos segundo os seus mandamentos. Este mandamento, como ouvistes desde o princípio, é que andeis nesse amor” (2 Jo 6). O versículo 4 fala a respeito de andar na verdade “de acordo com o mandamento que recebemos da parte do Pai”. E este mandamento é o amor. Logo, obedecer aos mandamentos significa praticar o amor. Se amamos, nossos atos serão atos de amor e esses atos serão legitimados pela Palavra de Deus como atos de justiça. Assim, tanto o agir político quanto a prática da política partidária estarão alicerçados sobre o valor absoluto e imutável do amor. Todas as nossas ações políticas devem ser baseadas no amor e m tudo aquilo que lhe diz respeito.
O Senhor Jesus Cristo nos deixa bastante claro que a prática do amor extrapola as barreiras de fé e se estende mesmo àqueles que para nós são dignos de desprezo. Ele enfatizou: “Ouvistes o que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem... Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos o mesmo?... Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste” (Mt 5:43-48). Vale salientar que a expressão “odiarás o teu inimigo” não pertence ao Antigo Testamento, mas à tradição popular dos judeus. Em contraponto ao amor segregacionista dos judeus, Jesus mostra a forma perfeita de amar: sendo perfeitos iguais a Deus, cujo amor é universal. Quem é de Cristo não limita a prática do seu amor aos que fazem parte do seu círculo familiar e de fé, mas tem no amor universal sua fonte de piedade. Isso redimensiona o fazer político e a ética cristã: a nossa visão é bem mais abrangente que imaginamos e, juntamente com ela, a nossa responsabilidade diante das causas sociais, que envolvem invariavelmente questões políticas.


6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            O que se pode concluir parcialmente diante do que foi exposto é que e Igreja possui uma ética superior à ética vigente no mundo e que é justamente esse o fator motivador maior para o envolvimento dos cristãos nas questões que afetam diretamente a sociedade em que eles estão inseridos. Se a ética relativista secular clama por uma sociedade justa e igualitária, muito mais forte a ética cristã, baseada nos valores absolutos e divinos da Bíblia, clamará. Se não estamos envolvidos diretamente em questões políticas, mas procuramos sublimar as questões sociais à nossa volta, não estamos cumprindo o mandamento do Senhor de amá-lo acima de todas as coisas e ao nosso próximo como a nós mesmos. A ética cristã parte do princípio de que vivemos em comunidade e que o bem individual não pode estar acima do bem comum nem existir em detrimento deste. Isso está exemplificado nas palavras do Senhor Jesus: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” (Mt 7:12). Se queremos o bem a nós mesmos, devemos desejá-lo a todos. Se esperamos receber a justiça, devemos agir com justiça.
            O ensino teológico nas igrejas atuais pouco envolve o debate político. Os crentes não são ensinados sobre o valor da política e como esta os afeta em todas as áreas da sua vida. Faz-se a dicotimização entre vida espiritual e vida social, como se fosse possível o ser religioso abster-se do ser político. Todavia, assim como a espiritualidade caminha juntamente com o viver/fazer político, este não pode se desvencilhar da espiritualidade: todos formam uma realidade só e presente na vida de cada crente. Desta forma, podemos concluir que: 1) parte da falta de consciência política deve-se ao despreparo ou a má vontade dos líderes eclesiásticos em contribuir para a construção do pensamento político entre os seus fiéis, abstendo-se de questões que envolvam a política em detrimento de uma vida fantasiosa e desprovida de prática; 2) essa falta de consciência política tem levado a Igreja do Senhor a trilhar caminhos tortuosos no que diz respeito àquilo que acontece à sua volta e que envolve diretamente os fatos e atos políticos. Em primeiro lugar, produz analfabetos políticos, cidadãos incapazes de pensar e viver de forma plena a sua cidadania e de lutar por seus direitos. Em segundo lugar, promove um estado de inconsciência capaz de permitir que crentes negociem o seu voto e se deixem enredar por currais eleitorais e o “voto de cabresto”. Uma igreja não politizada é um desserviço ao País e uma oportunidade para a ação de políticos inescrupulosos. Logo, a ética cristã nos leva a crer que ser político e fazer política é moralmente correto e é bíblico.


BIBLIOGRAFIA


BARROS, Wilson Tadeu de Barros. Ética Cristã. Parnamirim, 1996.

XAVIER, Mizael de Souza. Missão Integral: evangelismo e responsabilidade social na dinâmica solidária do Reino de Deus. Parnamirim, 2015.




Mizael de Souza Xavier

segunda-feira, 22 de maio de 2017

EVANGELIZAÇÃO DE CRIANÇAS - CRIANÇAS VÃO PARA O INFERNO?




Ao ordenar a pregação do Evangelho a toda criatura, com certeza o Senhor Jesus estava incluindo as crianças, pois a sua vontade é que ninguém se perca (Mt 18:14), mas que todos cheguem ao arrependimento e sejam salvos (1 Tm 2:4; 2 Pe 3:9). O pecador irá para o inferno por sua própria vontade, direta ou indireta (Mt 25:41), e isto inclui os infantes. Uma das grandes questões a respeito do evangelismo e da salvação é se realmente as crianças vão para o inferno. Os argumentos contra envolvem questões emocionais, uma vez que um pai ou uma mãe não conseguem admitir que seu filho, ainda “inocente”, possa merecer o inferno. Isso traz inúmeras implicações. A primeira diz respeito à situação pecaminosa herdada pelo ser humano após a Queda. Se esta é uma condição para todas as pessoas que nasceram a partir de Adão, o que fica comprovado na carta de Paulo aos crentes de Roma, segue-se que todos já nascem debaixo de condenação, perdidos, carentes da glória de Deus, o que inclui as crianças, porque todos nascemos crianças (Rm 5:12). A segunda envolve a questão do merecimento: não existe nada que possamos fazer para merecer a salvação, inclusive sermos crianças. Não merecer ir para o inferno implica merecer ir para o céu. Todavia, a salvação não é por obras de mãos humanas, mas pela redenção que há em Cristo. Façamos algumas observações importantes sobre o evangelismo de crianças:

As crianças são pecadoras. É preciso aceitar o fato de que as crianças, assim como o rei Davi, nascem em pecado. Após reconhecer e confessar o seu pecado diante de Deus (Sl 51:1-4), Davi declara: “Eu nasci na iniquidade, e em pecado me concebeu minha mãe” (v. 5). O seu pecado era fruto da sua natureza depravada herdada de Adão. No Salmo 58:3, ele mostra que a impiedade humana vem desde a sua concepção: “Desviam-se os ímpios desde a sua concepção; nascem e já se desencaminham, proferindo mentiras”. Ninguém há de duvidar que desde sempre as crianças mentem! Pode existir alguma “mentira inocente”? Jó questiona: “Que é o homem, para que seja puro? E o que nasce da mulher para que seja justo?” (Jó 15:14). Em sua conversa com Nicodemos, o Senhor Jesus deixa claro que aquele que não é nascido do Espírito, é nascido da carne (Jo 3:6). Isto significa duas coisas: ao nascermos somos carne, isto é, estamos debaixo de pecado; e somente pelo novo nascimento através do Espírito é possível haver a regeneração. Antes da regeneração, do novo nascimento, estamos mortos em nossos delitos e pecados (Ef 2:1-3). Salomão afirma que “a criança se dá a perceber pelas suas ações, se o que faz é puro e reto” (Pv 20:11), o que significa que poderá não ser. Em Provérbios 22:15, ele diz que a estultícia (insensatez) está ligada ao coração da criança.
A inocência da criança está na sua falta de consciência com relação ao pecado que existe dentro dela. Pode-se argumentar que a criança é ainda mental e moralmente incapaz de deliberadamente praticar o pecado ou entender que aquilo que ela está fazendo é pecado, e por isso se torna desculpável diante de Deus. Logo, se ela morrer nesse estado de inocência, irá para o céu, pois “Deus não leva em conta os tempos da ignorância” (At 17:30), conforme argumento da lição sobre evangelismo de crianças do blog sub-ebd.blogspot.com.br. Entretanto, é preciso atentar que o texto não está fazendo referência à ignorância do pecado presente nas crianças. E mais: o autor também diz: “agora, porém, notifica aos homens que todos, em toda parte, se arrependam”. O tempo da ignorância passou, agora temos o Evangelho, sabemos que estamos em pecado e que devemos nos arrepender e crer em Cristo para a salvação, porquanto Deus “estabeleceu um dia em que há de julgar o mundo com justiça, por meio de um varão que destinou e acreditou diante de todos, ressuscitando-o dentre os mortos” (v. 31). Apenas o existir o argumento acerca do tempo da inocência e da ignorância com relação ao próprio pecado já denuncia que a criança nasceu em pecado. O pecado não é consequência de uma consciência madura, mas da Queda.  Portanto, devemos crer que as crianças nascem em pecado e, assim como os adultos, carecem de salvação.

Argumentos contra esses fatos. Quando alguém argumenta contra a condenação de crianças ao inferno, geralmente, como já foi dito, apela para o lado emocional, afirmando que Deus não seria injusto ao condenar um “inocente” à danação eterna. O site abibliaexplica.com.br questiona: “A Palavra do Senhor diz que Ele é o justo juiz (Salmos 7:11, Gênesis 18:25b). Ele é o Justo Juiz pelo fato de nunca cometer injustiças, isso porque como um Deus onisciente, tem todo o conhecimento da verdade e dos fatos. Apesar disso acredito que muitos cristãos se consideram juízes, pois afirmam categoricamente que uma criança que morre em seus primeiros anos de vida está condenada ao inferno”. Como argumento, o autor do estudo utiliza a salvação do ladrão ao lado de Jesus na cruz, que poderia ter sido condenado pelo nosso olhar julgador, mas que foi salvo pelo Senhor. Todavia, é certeza de que aquele ladrão não era criança. Ainda outros exemplos são utilizados na defesa da salvação de crianças: a morte do filho de Davi (2 Sm 12:23), a morte do filho da sunamita (2 Rs 4) e as crianças sacrificadas a Moloque (Ez 16:21). O autor questiona: “Esses pequeninos, que morreram nos braços ardentes de Moloque como criancinhas, eram filhos de Deus. Porventura esses inocentes não receberiam de Deus o descanso eterno, visto serem seus filhos?”.
Todavia, nenhum desses textos traz qualquer conteúdo com relação à salvação da alma nem dão apoio aos argumentos do autor do site. O próprio autor se contradiz quando argumenta que os filhos dos crentes não são necessariamente salvos. Ele declara: “Dessa forma, ao afirmar que as crianças poderiam ser salvas à parte da fé, mas não à parte de Cristo, o Evangelho não é comprometido”. Ele compromete ainda mais o seu argumento ao dizer: “Cristo salva adultos em conjunção com uma fé consciente; mas Cristo salva crianças à parte de uma fé consciente. Não somos salvos por causa da fé, mas por causa de Cristo. Nossa fé é uma manifestação da salvação. Ela não é a causa da salvação, mas o efeito da salvação”. Isto vai totalmente contra a doutrina da salvação que envolve o tripé: fé-arrependimento-conversão. Essa fé envolve consciência de um pecado que já existe e é condenatório. Por isso o batismo de infantes é biblicamente errado: a criança não tem consciência da sua condição caída, não pode ouvir a Palavra e raciocinar sobre o que escutou. Portanto, não pode ser salva e, por conseguinte, batizada. Lembremos que a questão aqui não é o batismo, mas a salvação em si, pois o batismo não é necessário à salvação, embora o catolicismo romano, por exemplo, pratique o batismo infantil como um meio de garantir que as crianças sejam salvas, como um dom especial de Deus. Mas isso não é bíblico.

Predestinação. Alguns argumentam que 100% das crianças que morrem antes de atingir a idade da razão estão predestinadas ao céu. Quando pensamos sobre isso, devemos recorrer à Bíblia para ver o que ela tem a nos ensinar. Quando fazemos isso, vemos que essa teoria não é bíblica. O que a Bíblia diz a respeito da predestinação é que Deus nos elegeu em Cristo antes da fundação do mundo e nos predestinou para Ele, “para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito da sua vontade”, conforme escreveu Paulo aos efésios (1:4,5). O objetivo dessa predestinação é para que sejamos para o louvor da sua glória, nós os que de antemão esperamos em Cristo (v. 12). Paulo escreve, ainda: “em quem também vós, depois que ouvistes a palavra da verdade, o evangelho da vossa salvação, tendo nele crido, fostes selados com o Espírito Santo da promessa” (v. 13). Como vemos, a predestinação envolve crer em Cristo após a escuta da Palavra da verdade. A salvação não é por outro meio senão a fé (Ef 2:8,9). Aquele que está predestinado a crer em Cristo para a salvação não morrerá sem antes crer, por isso muitas crianças creem a Jesus de coração sincero e o servem pelo resto de suas vidas. Há injustiça da parte de Deus em permitir que uma criança vá para o inferno? Pelo contrário, há imensa misericórdia em permitir que algumas vão para o céu. Deus tem misericórdia de quem lhe aprouver, segundo o beneplácito da sua soberana vontade. Assim, “não depende de quem quer ou de quem corre, mas em usar Deus a sua misericórdia” (Rm 9:15).

Delas é o Reino dos céus. Um argumento usado a favor da salvação de crianças está nas palavras de Jesus quando os discípulos queriam impedir que algumas crianças fossem até Ele: “Deixai os pequeninos, não os embaraceis de vir a mim, porque dos tais é o reino dos céus” (Mt 19:13,14). Se aceitarmos que, por meio desse texto, todas as crianças serão salvas, independente de crerem ou não em Cristo, devemos aceitar que todos os pobres também o serão, pois o Senhor afirmou em Lucas 6:20: “Bem-aventurados vós os pobres, porque vosso é o reino de Deus”. Então o fato de alguém ser pobre já lhe garante morada no céu? Quando lemos o texto de Lucas 6:20 na versão de Mateus 5:3, percebemos que esses pobres são “pobres de espírito” (ou “humildes de espírito”), indivíduos que se reconhecem falidos espiritualmente, carentes da uma salvação que não podem prover para si próprios e que somente Deus pode lhes dar. Quando lemos Mateus 19:13,14 na versão de Lucas 18:16, percebemos que o Reino de Deus não pertence às crianças porque elas são crianças, mas pertence àqueles que o recebem como uma criança. Jesus não está afirmando que todas as crianças estão salvas, mas está demonstrando uma predileção por elas, desejando que aqueles que se supõem religiosos e tementes a Deus, tomem-nas como exemplo de humildade, de subserviência e louvor a Deus (Mt 21:15,16; cf. Sl 8:2). Embora as crianças gozem de uma proteção especial de Deus (Mt 18:10), elas não estão livres das questões espirituais que possam afetá-las, a começar pela realidade do pecado. Em Marcos 9:14-29, encontramos a história de um jovem possesso por um espírito mudo desde a sua infância (v. 21). As crianças estão sujeitas a todas as investidas do diabo, a todas as influências da carne e à sedução do mundo, o que demonstra que são pecadoras e carentes de salvação.

Filho de crente, crente não é. Um dos grandes erros de muitas crianças, adolescentes e jovens que são filhos de crentes, que frequentam assiduamente uma igreja, que participam da escola bíblica, que realizam apresentações de dança e teatro em ocasiões especiais é achar que tudo isso as torna crentes. Muitos adultos frequentam a Igreja nessa mesma situação, servem do seu jeito, vivem uma vida religiosa, mas jamais aceitaram a Jesus como seu Senhor e Salvador. Mesmo que tenha sido educada dentro dos princípios da Palavra de Deus e, juntamente com sua família, pratique muitos desses princípios, ainda assim a criança precisa passar pela experiência da conversão para se considerar salva. A salvação não é uma doença transmitida de uma pessoa para outra ou uma molécula de DNA dos pais que passa a fazer parte intrinsecamente dos seus filhos. Todos devemos conhecer histórias de pastores que possuem filhos nas drogas;  de crianças que foram criadas dentro da Igreja e que pararam de frequentá-la assim que entraram na adolescência. Da mesma forma ouvimos histórias de crentes que estão firmes no Senhor e que se converteram ainda crianças, com menos de dez anos de idade, às vezes aos cinco anos. Quando Paulo fala, em 1 Coríntios 7:14 a respeito da santificação dos filhos pela presença de um crente na família, não está afirmando que esses filhos sejam crentes. Se assim o fosse, o marido descrente seria crente pela fé da esposa e vice-versa. Numa família de crentes, as crianças estão sob a influência de Deus por meio dos seus pais, o que não acontece numa família de descrentes, onde a influência é totalmente maligna.

O evangelismo começa em casa. As razões do evangelismo de crianças já ficaram óbvias. Além de serem pecadoras, elas possuem uma alma imortal (Ez 18:4). Ao invés de desanimar os pais, a realidade da condenação de crianças deve animá-los a educar seus filhos nos caminhos do Senhor, a orar por eles e evangelizá-los. Uma coisa é ensinar a criança a desenvolver valores cristãos, outra coisa é comunicar-lhe que esses valores só poderão ser desenvolvidos se ela se converter. Muitos pais querem que seus filhos tenham atitudes próprias de discípulos de Jesus sem eles jamais terem se tornado discípulos de Jesus. É preciso haver conversão. As crianças podem perfeitamente crer em Jesus e segui-lo conscientemente (Mt 18:6). Timóteo é um exemplo de como alguém desde criança pode se dedicar a Deus (2 Tm 3:15). O lar é o local onde o evangelismo de crianças deve começar. Se elas não tiverem o exemplo e a pregação dos seus pais, dificilmente aceitarão de outras pessoas. Este evangelismo no lar envolve:

·         Ensino. A apresentação do Evangelho por meio da educação dos pais é o contato mais direto que a criança terá com a Palavra de Deus. Os pais crentes devem educar os seus filhos na disciplina e na admoestação do Senhor (Ef 6:4). Em Provérbios 22:6, Salomão nos instrui: “Ensina a criança no caminho em que deve andar, e, ainda quando for velho, não se desviará dele”. A criança que cresce num lar cristão deve receber instruções morais baseadas na Bíblia, aprendendo a amar a Deus e a obedecê-lo, sendo íntegra, justa, obediente, honesta, amorosa, praticante do bem, solidária, amante da Bíblia. Ela deve ser estimulada a ter intimidade com Deus por meio da oração. O ensino da palavra de Deus no lar leva a criança ao desenvolvimento mental (Pv 1:1-4; Sl 119:130), físico (Pv 3:2; 4:20-22), emocional (Sl 119:24, 25, 40, 44, 45, 49, 50, 88, 93, 107, 154, 165), social (Pv 3:1-4; Sl 119:23, 24, 42, 51, 52), moral e espiritual (Pv 3:1-3; 4:4-12; 6:6-27; Sl 119:9-11,24, 29, 30, 59, 60, 163).
·         Testemunho pessoal. Diante de tudo o que é ensinado à criança a respeito de Deus e da sua Palavra, o exemplo dos pais é que falará ainda mais alto. Não adianta ensinar à criança algo que ela percebe no próprio testemunho dos pais que aquilo não está sendo verdade, não é praticado. Os pais precisam educar os seus filhos por meio de um testemunho coerente, praticando aquilo que ensinam.
·         Evangelização. Por fim, o ensino e o testemunho pessoal devem vir acompanhados da evangelização. Isto é: a criança deve ser orientada quanto à realidade do seu pecado e a necessidade de crer em Jesus para ser salva. A prática da Palavra só é possível a partir da conversão, quando o pecador recebe o Espírito Santo que o estimula e capacita para praticá-la. A educação cristã para aqueles que não são crentes serve como um ensino moral elevado capaz de promover o bem e formar boas pessoas e bons cidadãos; mas se o aprendizado não vier acompanhado da conversão, não produz pessoas salvas.

A ação evangelística na Igreja. Para a família crente, o evangelismo começa no lar. A Igreja pode e deve apoiar os pais nessa obra santa de pregar o Evangelho aos pequeninos, dando-lhes o suporte espiritual de competência do corpo de Cristo, com seus dons e ministérios. Existem grupos e instituições especializados na evangelização de crianças, como a APEC. A Internet está repleta de técnicas interessantes para falar do amor de Deus aos infantes. É importante que a Igreja tenha uma boa equipe pedagógica para ensinar às crianças a Palavra de Deus. Vamos comentar aqui duas ações possíveis:

·         EBD. Ensino do plano de salvação na Escola Bíblica Dominical, deixando claro para as crianças que elas são pecadoras e carecem de salvação. Este ensino deverá ser numa linguagem que alcance a capacidade intelectual das crianças, podendo utilizar uma pedagogia lúdica, por meio de histórias, filmes, desenhos, teatro, música, entre outros. O mesmo princípio para os adultos se aplica aqui: o conteúdo a ser ensinado é o Evangelho da cruz. Não basta ensinar as crianças sobre o “papai do céu”; elas precisam saber quem de fato Ele é e o que Ele espera delas. Falar sobre céu e inferno também deve estar no cronograma de ensino. Se queremos que nossas crianças sejam salvas, precisamos apresentar-lhes as duas realidades: a do pecado e a da fé para se salvar. Aqui pode-se incluir a escola bíblica de férias.
·         Cultos realizados por crianças e para crianças. O departamento infantil da Igreja pode realizar cultos com a participação de crianças já convertidas, orientando-as a testemunharem a respeito da sua fé para crianças que ainda não se converteram, criando um ambiente de pregação evangelística com todos os recursos capazes de chamar a atenção dos pequeninos, entendendo que, assim como nos adultos, a salvação das crianças é operada pelo Espírito Santo.
·         Formas lúdicas de evangelismo de crianças. Lição com objetos, histórias da Bíblia, fantoches, flanelógrafo, música, drama, trilhas sonoras, celebrações especiais, etc.

Ação evangelística fora da Igreja. Nem todas as crianças que frenquentam a Igreja possuem pais crentes. Alguns pais descrentes permitem que suas crianças frequentem a igreja evangélica, principalmente quando é perto de casa, por entenderam o valor da educação cristã para os seus filhos, ou porque um parente ou vizinho convertido as levam. Neste caso, as crianças não possuem suporte espiritual dos pais. Além dessa situação, existem crianças que jamais frequentaram uma Igreja e não o fariam se muitos cristãos não levassem até elas a Palavra de Deus. A Comunidade Evangélica Bara (hoje Igreja Cristã Eterna Aliança), há alguns anos manteve um trabalho com crianças no bairro de Passagem de Areia, em Parnamirim, RN, que atendia em torno de cem crianças, que todos os domingos se reuniam numa escola da comunidade para ouvir a Palavra de Deus. Muitas delas se converteram e ainda servem a Jesus. A Igreja pode criar estratégias para atingir as crianças por meio das suas famílias ou atingir as famílias por meio das suas crianças. As formas de se fazer isso são infindas.

O que fazer e o que não fazer? O evangelista de crianças precisa ter conhecimento do mundo infantil, da forma como a criança entende e lida com as coisas da vida, como ela compreende Deus. Assim ele saberá que linguagem utilizar, que temas abordar e a melhor forma de repassá-los. Uma das primeiras lições é o conhecimento do pecado. Não pode haver conversão sem quem alguém se entenda pecador. A criança precisa ter consciência que seus atos não são “coisas de criança”, mas ofensas contra Deus. Não podemos subestimar a capacidade do infante de saber o que é certo e o que é errado. Uma criança de peito já consegue manipular a mãe para lhe dar o que ela tanto quer: leite, por exemplo. Nos primeiros anos ela já demonstra egoísmo, raiva, mentira, inveja. Marilene do Amaral Silva Ferreira, no site monergismo.com, nos alerta a respeito de cuidados que precisamos tomar na evangelização de crianças. Eis alguns deles:

·         Jamais forçar uma conversão. A criança precisa fazer a sua decisão para Cristo por meio do convencimento do Espírito Santo. Uma conversão forçada irá gerar dúvidas na mente da criança ou o falso entendimento de que é crente, quando na verdade não é.
·         Não oferecer brindes e recompensas para quem aceitar a Jesus. Além de ser uma barganha com a criança, ensina-a a barganhar com Deus. Não vamos levar para o mundo infantil essa prática deplorável já utilizada no mundo adulto.
·         Não manipular as crianças com perguntas, muitas vezes constrangedoras, para forçá-las a aceitarem a Jesus. Por exemplo: quando perguntamos “Quem quer aceitar a Jesus?” e alguma criança responde que sim, as outras podem se sentir constrangidas em aceitar também para não ficar diferentes da outra, por amizade com aquela que aceitou, etc.
·         Não meter medo falando do inferno com insistência. Embora o inferno seja uma realidade, a forma como a criança compreenderá isso irá diferir do adulto. Ela precisa apenas entender-se pecadora e saber que se crer em Jesus poderá ir para o céu.
·         Algumas ações positivas: manter um relacionamento saudável com a criança, demonstrando interesse nela, incentivando sempre a sua expressão e participação. A criança gosta de se sentir amada e valorizada. Não podemos menosprezar a dignidade da criança como ser humano nem suas potencialidades. Elas são inteligentes, espertas, criativas e têm muito a contribuir. O plano de salvação deve ser apresentado no nível de conhecimento das crianças, utilizando métodos lúdicos ou não. Elas devem ser incentivadas a trabalhar, participar, e sempre elogiadas quando o fazem. Após a conversão da criança, os pais devem tomar conhecimento e encaminhá-las no seu crescimento espiritual com a colaboração da Igreja. Em se tratando de filhos de descrentes, os pais devem ser comunicados e a Igreja deve se disponibilizar a acompanhar a criança convertida e seus pais.


Este estudo é parte integrante da apostila CURSO DE FORMAÇÃO DE EVANGELISTAS do ministério AÇÃO MISSIONÁRIA POR UMA IGREJA PENSANTE.

Mizael de Souza Xavier