segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A GRAÇA SOBERANA DE DEUS E A CERTEZA DA SALVAÇÃO




1 A QUEDA DO HOMEM

            Conforme aprendido em sala de aula durante as aulas do curso de soteriologia, a doutrina da salvação possui um histórico de controvérsias envolvendo diferentes teólogos ao longo dos séculos. Todas essas questões têm como ponto de partida o problema causado pela Queda, como descrito em Gênesis 3:1-24. O mundo, tanto geográfico quanto o estado de coisas pós-Queda, é um lugar destituído da presença direta de Deus tal qual ele a possuía no paraíso. No mundo, destituído da glória de Deus, o homem vive sob a presença da ira divina e a maldição do pecado. Embora a graça comum de Deus ainda esteja agindo através da sua lei e da sua providência, o mundo é o palco das ações malignas praticadas pelo homem pecador. Somente a graça de Deus faz com que esse mal não ultrapasse certos limites, permitindo ao homem ainda cultivar sentimentos de justiça e equilíbrio mental que o impedem de extrapolar o seu próprio mal. A leitura do homem pós-Queda não é das mais animadoras. Ele foi criado por Deus e posto no paraíso para viver eternamente e em plena comunhão com Ele. Se no Éden o homem andava com Deus, passeava com ele naquele lindo jardim, após a Queda a sua presença dessa forma pessoal foi suprimida e o homem pecador passou a ter de invocá-lo, o que vemos a partir do nascimento de Enos, filho de Sete (Gn 4:26).
A narrativa da Queda se inicia bem antes da própria Queda em si, no momento em que Deus estabeleceu limites para o agir humano no paraíso que criara. Após dar a Adão e Eva domínio e liberdade sobre todas as coisas criadas, o Senhor os advertiu: “De toda árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás: porque no dia em que dela comerdes, certamente morrereis” (Gn 2:16,17). A transgressão de Adão e Eva veio pela desobediência a uma lei de Deus. Se havia uma lei que eles deveriam obedecer, significa que havia a possibilidade nata da desobediência. Junto com a lei, a consequência da sua quebra. Nota-se que Deus afirmou que comer do fruto da “árvore proibida” redundaria em morte. Este aviso serviu como um contra-argumento de Satanás: “É certo que não morrereis” (3:4), revelando-o como o pai da mentira (Jo 8:44).
Na Queda, a situação confortável e favorável do ser humano foi transformada, porque o homem desobedeceu a Deus, atraindo maldição para si e para toda a criação. Se antes da Queda o homem tinha uma inclinação positiva para Deus, após a Queda ele se tornou escravo do mal. A sua perfeição tornou-se imperfeição, a sua vontade tornou-se maligna e a sua liberdade foi suprimida pela escravidão do pecado. Somos, então, seres caídos, destituídos da glória de Deus, herdeiros do pecado do primeiro casal e carentes de uma salvação que somente em Cristo podemos obter. Em Romanos 5:12, essa realidade está explicitada: o pecado e a morte são herdados por toda a humanidade. É um evento de proporções mundiais e que se estende por todos os tempos até a volta de Jesus. Nenhum ser humano nascido a partir da Queda está isento do pecado original nem da necessidade de fé e arrependimento para a salvação. Todos somos pecadores (Jo 8:34; 1 Jo 1:8,9; 3:8; Rm 7:14-17; Pv 28:13; Sl 32:1,5; 25:11).
Conforme aprendido, Agostinho (354-430) sistematizou o que chamou de “os quatro estados da alma”. Em primeiro lugar, define-se Deus como non posse peccare (não posso pecar), referindo-se a sua impossibilidade de pecar (cf. Lv 11:44; 1 Sm 2:2; Hc 1:13; Tg 1:13). O pecado é algo particular do ser humano e que não encontra em Deus nenhuma culpa. Agostinho definiu:

1.      Pré-Queda: posse peccare, posse non peccare (posso pecar, posso não pecar). Embora o homem tivesse sido criado com a posse peccare, isto é, com uma capacidade nata para cair, antes da Queda ele podia escolher somente aquilo que era agradável a Deus, vivendo em estado constante de submissão (posse non peccare).
2.      Pós-Queda: non posse non peccare (não posso não pecar). A partir do momento em que desobedeceu a Deus e perdeu a comunhão com Ele que desfrutava no paraíso, a sua presença pessoal, o homem passou a não ter mais possibilidade de “não pecar”. A sua inclinação é totalmente depravada, impossibilitada de escolher não pecar, senão pela graça de Deus. Este é o conceito de “depravação total” ensinado pelo Calvinismo.
3.      Renascido: posse peccare et posse non peccare (posso pecar e posso não pecar). Em Cristo, o homem é remetido à situação anterior experimentada no Éden, isto é: a possibilidade de escolher não pecar. Isso é possível pela graça de Deus que o alcançou e pela presença do Espírito Santo em seu coração.
4.      Glorificado: non posse peccare. Em seu estado glorificado após a sua inserção no céu, o homem não terá mais a possibilidade de pecar. No céu não haverá a presença do pecado e a salvação terá sido completada pelo Senhor.

Outros estudiosos da Bíblia, acima de tudo Pelágio (350-423) pensavam e ensinavam de forma diferente e contrária ao ensino de Agostinho. Ele foi proibido de lecionar e os seus ensinos foram declarados como heréticos nos concílios de Cartago (418), Éfeso (431) e Orange (529). Dentre as distorções do ensino claro das Escrituras a respeito da Queda e das suas consequências, podemos destacar suas afirmações infundadas que a alma humana não foi maculada pelo pecado, que Adão foi apenas um mau exemplo e não herdamos dele a culpa hereditária; sendo assim, Deus não precisa atuar na vida humana nem salvar o pecador (tecnicamente não existe pecador). Para ele, o homem tem a possibilidade, mesmo após a Queda, de não pecar, isto é, de escolher sem a intervenção de Deus fazer aquilo que o agrada. Pelágio deu grande ênfase ao “livre-arbítrio”, o contrário de Agostinho, que cria tão somente na “livre agência”. As doutrinas de Pelágio desembocarão nos fundamentos de fé de Armínio (1560-1609).

2 OS CINCO PONTOS DO CALVINISMO

            Outros temas aprendidos estão atrelados à doutrina da salvação: conversão, arrependimento e fé. Quando falamos em conversão, outros temas nos vêm à mente e implicam em algumas dificuldades para entendermos a genuína conversão. Se pensarmos em ternos de arminianismo, entenderemos que o ser humano não é corrompido totalmente e por isso ainda possui uma capacidade dada pela “graça preveniente” de Deus de responder positivamente ao chamado à conversão. Logo, esta partiria de um entendimento humano da sua condição pecaminosa e a sua resposta ao chamado gracioso de Deus para abraçar a salvação oferecida a todos por Cristo. Pensando sob o ponto de vista calvinista e a depravação total do ser humano, a conversão parte de um chamado eficaz do Senhor aos seus eleitos, que não veem outra opção senão se converterem a Ele. A isso se chama “graça irresistível”. Não há como resistir ao chamado de Deus.  Este chamado é “especial” ou “eficaz”. Embora o arminianismo creia que a salvação é em Cristo somente, por meio da graça, o fato de o pecador escolher ou não ser salvo, afeta negativamente a soberania de Deus e torna o homem participante da sua salvação (sinergismo), uma vez que cabe a ele dizer sim ou não a Deus. Na doutrina calvinista, a obra da conversão, inclusive a própria fé que salva (Ef 2:8,9), é exclusivamente de Deus e não há participação alguma do pecador nesse processo (monergismo).
            Segundo o meu entender, não é possível sustentar a doutrina arminiana, que em tudo nos recorda a heresia pelagiana. Enxergar o ser humano como alguém capaz de buscar a Deus por sua própria vontade e ser salvo através de uma cooperação com o Espírito Santo, é desprezar o sacrifício de Cristo na cruz e ir contra os propósitos eternos de Deus. Como alguém que se encontra morto em seus delitos e pecados (Ef 2:1) pode buscar a vida por uma vontade nata? Além disso, o livre-arbítrio também não parece ser condizente com o ensino geral das Escrituras Sagradas, onde a soberania de Deus se mostra em cada passo da vida humana rumo a um fim já planejado. Dessa forma, a explicação agostiniana estudada no capítulo anterior e desenvolvida posteriormente por João Calvino (1509-1564) demonstra-se uma forma clara de entendimento das Sagradas Escrituras naquilo que diz respeito à salvação do pecador. De acordo com Calvino, toda a raça humana herdou a corrupção e a culpa oriundas da Queda, de modo que somos totalmente depravados, participantes do pecado de Adão. Ele também enfatizou a vontade soberana de Deus contra a ideia do livre-arbítrio pregada por Armínio. Assim sendo, o homem é totalmente mal e incapaz de por si só buscar a Deus. outra ênfase de Calvino foi sobre a eleição divina de alguns indivíduos para alcançarem a salvação, em contraponto à eleição de um povo (igreja) ensinada por Armínio.
            Abraçar os cinco pontos do calvinismo determinados pelo sínodo de Dort (1619-1618), ao menos para mim, não é de todo simples, tendo em vista certa resistência à ideia da eleição incondicional. Todavia, entender a condição humana como sendo de depravação total, a sua impossibilidade de buscar a salvação por sua própria vontade e a soberania indiscutível de Deus, faz-nos entender que só existe uma forma para o pecador alcançar a salvação: quando chamado por Deus e convencido do pecado pelo Espírito Santo, onde a própria fé é um dom de Deus dado ao pecador para que Ele creia. Assim sendo, segue a minha compreensão sobre aquilo que creio ser a vontade de Deus referente à salvação do pecador, baseado nos cinco pontos do calvinismo.

2.1 Depravação total

“Depravação total” significa que o homem está de todo corrompido pelo pecado, de modo que não pode mais escolher não pecar nem buscar a Deus. A Queda trouxe-nos a presença da concupiscência. A concupiscência é a propensão humana para o pecado, a busca pelo paraíso por meio da sensualidade. É interessante definirmos o que é o pecado. O pecado é uma inclinação interior para fazermos aquilo que Deus desaprova. Como vimos, não temos possibilidade de escolha, pois esta nos foi suprimida após a Queda. O pecado é, também, a rebelião e a desobediência contra Deus. Não somos pecadores porque ferimos um conjunto de normas morais humanas que balizam o nosso comportamento na sociedade; nós o somos por causa de uma avaliação feita pelo próprio Deus (Rm 3:23,24). A incapacitação espiritual também á uma característica do pecado. O homem é um ser incapaz de se relacionar com Deus sem a salvação. Estamos todos mortos antes de sermos convencidos pelo Espírito Santo, afastados de Deus; somos pecadores não-arrependidos (Ef 2:1). Qualquer tentativa de aproximação de Deus sem ser por meio de Cristo, qualquer ação de autojustiça praticada pelo homem é rejeitada por Deus (Rm 3:9-18). O pecado também é chamado de idolatria, o que vai muito além de se prostrar e adorar ídolos. Significa tirar Deus do seu lugar, não importa o que se coloque no lugar dele. Todo pecado é, na verdade, a idolatria de si mesmo, quando se tira Deus do seu lugar soberano e se faz prevalecer a vontade do pecador.

2.2 Eleição, expiação e graça

            A meu ver, a doutrina da eleição incondicional, juntamente com a expiação limitada, é uma das mais difíceis de se compreender. A doutrina da eleição – ou predestinação – tem como base a ideia de que Deus elegeu dentre a humanidade aqueles que deseja salvar – os eleitos –, enquanto que os outros – os não-eleitos – deixou sob condenação. Tal doutrina afirma ser a eleição incondicional e baseia-se inteiramente na livre vontade de Deus em atrair e salvar o homem, pois este está perdido de tal forma e de tal maneira morto espiritualmente, que não pode fazer nada por si mesmo, muito menos crer para a salvação. Assim, Deus escolheu alguns e os predestinou a crer. No momento por Ele planejado, Deus abre o coração do eleito para que possa crer e seja salvo. Neste caso, a regeneração não é fruto da fé, mas precede a fé, pois somente o homem regenerado é capaz de crer. Esta doutrina, defendida pelos calvinistas, tem a seguinte base:

·         É Deus quem escolhe os que serão salvos (cf. Jo 15:16; At 13:48; Sl 65:4; Fp 2:13).
·         A eleição se baseia no propósito de Deus (cf. Ef 1:11; 2 Tm 1:9; Rm 8:28).
·         O homem é incapaz de buscar a Deus por iniciativa própria, por isso Deus toma a frente (cf. Jo 6:44; Mt 11:27; Hb 12:2; At 16:14; Lc 17:5).
·         A vontade de Deus não pode ser frustrada e será sempre realizada (cf. Is 55:11).

O meu entendimento das Escrituras sempre me levou a acreditar que Deus elegeu em Cristo toda a raça humana. Isto é: a morte de Cristo na cruz foi providencial para apagar o pecado de todos os que por Ele se achegassem a Deus. O texto mais conhecido e citado da Bíblia – João 3:16 – serve como explicação para a expiação ilimitada de Cristo. Ora, se todos pecaram e carecem da glória de Deus, como Paulo afirma aos romanos, porque nem todos podem ser salvos? Porque Deus usaria de ira para com todos e de misericórdia somente a poucos eleitos? Paulo parece fornecer uma resposta ao pensamento da eleição limitada: Deus encerrou a todos sob a condenação do pecado para que pudesse usar de misericórdia para com todos (11:32). Todavia, nem todos abraçarão a salvação oferecida por Deus, pois nem todos crerão, e crer é indispensável para que o pecador possa salvar-se por meio da graça que lhe é proposta.
O desejo de Deus que todos os homens cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1 Tm 2:4) e alcancem a salvação é estendido a todos nós, tendo como única condição a fé. É o que Paulo escreve a Tito: “Porquanto a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens” (2:11). O caráter da graça de Deus é salvador e se manifestou na obra expiatória de Cristo, não apenas aos judeus, a uma casta de eleitos, mas a todos os homens, trazendo consequêcias positivas sobre as suas vidas. Deus se deu em resgate por todos (1 Tm 2:6), testemunho que Paulo dava aos gentios, para o qual foi designado pregador, apóstolo e mestre (v. 7).
João afirma pelo Espírito Santo que Jesus é Deus e por isso existia antes dos tempos eternos, de modo que tudo o que foi feito, foi feito por Ele e, sem ele, nada do que foi feito se fez. O v. 4 afirma que a vida estava nele e a vida “era a luz dos homens” (v. 4). Como testemunha da luz, Ele veio “a fim de todos virem a crer por intermédio dele” (v. 7). Como luz vinda ao mundo, ele “ilumina a todo homem” (v. 9). João começa aqui a traçar o perfil do amor de Deus e do ministério de Cristo: o amor de Deus é universal, isto é, abarca toda a humanidade caída, pois não são apenas os eleitos que estão nas trevas e precisam vir para a luz, mas toda raça humana caminha nos mesmos passos.
A rejeição de Israel é tema do livro de Romanos, por terem rejeitado a Jesus como Messias, crucificando-o na cruz (cf. Rm 9). Apenas um remanescente será preservado, que serão aqueles que creem em Jesus (Rm 9:27). E esse remanescente não é segundo a eleição da carne – da circuncisão – mas segundo a eleição da graça (Rm 11:5). E segundo a eleição da graça “todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus” (3:23,24). A eleição da graça salva os gentios, independente da circuncisão. Porque, como afirma João: “a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, a saber, aos que crêem no seu nome” (1:12). Então, a expiação é ilimitada, estendida a todos os homens, sem distinção alguma.
Seguindo essa linha de pensamento, sempre rejeitei o fato de Deus haver escolhido alguns eleitos para salvá-los, tendo em vista que todos pecaram, então todos precisam e podem ser salvos. Entretanto, o fato de crer na corrupção total do ser humano me traz um entrave: se é preciso a fé para crer e ser salvo, como seres humanos de todo corrompidos podem crer? É necessária a intervenção divina, o agir de Deus no coração do pecador por meio do seu Santo Espírito. Porém, se creio que esse agir se estende a todos os pecadores incondicionalmente, devo admitir que existe a possibilidade de alguém dizer não a Deus, isto é: Deus falha em sua ação de salvar o pecador e torna-se dependente da resposta que este lhe dará. A graça passa a ser resistível. Isto também significa negar a soberania de Deus e acreditar no livre-arbítrio humano, o que de fato está fora de cogitação. Deixo aqui o meu entendimento em aberto, de modo que continuarei estudando para chegar a uma compreensão completa da questão.

2.3 Perseverança dos santos

            Neste ponto, não me restam dúvidas de que a declaração “uma vez salvo, salvo para sempre” está correta. Pensando no Evangelho de João, especialmente João 3:16, e meditando nas suas verdades à luz da certeza e da segurança da salvação, descobrimos que Jesus garante firmemente que aquele que nele crê jamais entrará em condenação. Jesus mostra a Nicodemos que assim como Moisés levantou a serpente no deserto (Nm 21:8,9), importava que o Filho do Homem fosse levantado (v. 14). A serpente levantada por Moisés é ilustrativa e demonstra a forma eficaz da salvação operada pelo Messias levantado na cruz. Da mesma forma como aqueles que olhavam para a serpente de bronze eram curados e salvos da morte, todo aquele que põe a sua confiança em Cristo – para a salvação –, que aceita a mensagem da cruz, é salvo da condenação eterna. Se temos a vida eterna, jamais pereceremos e Deus nos ressuscitará no último dia. Eis a grande verdade: Jesus Cristo nos dá a certeza hoje de que já temos a vida eterna ainda a se revelar no último dia. Ainda que experimentemos a morte física, não passaremos pela condenação eterna, pois não estamos mais mortos espiritualmente, mas Cristo nos deu vida: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá eternamente” (11:25,26).
Ainda no Evangelho segundo João, Jesus Cristo nos garante que jamais abrirá mão daquele que o Pai lhe dá (Jo 6:37), porque a vontade de Deus é que nenhum se perca e Ele o ressuscitará no último dia (v. 39,40). Jesus é o pão vivo que garante a vida eterna a todo aquele que nele crê (v. 50,51). Quem comer deste pão jamais terá fome (6:35), e quem beber do seu sangue, jamais terá sede. É impossível comer deste pão e perecer (6:50,51,58). Aqueles que estão em Cristo são as suas ovelhas protegidas e jamais se perderão (10:10,11). Ele é o bom pastor que conhece as suas ovelhas pelo nome e elas o conhecem e ouvem a sua voz (10:4,14). Se somos ovelhas de Cristo, não precisamos temer o vale da sombra da morte nem o lobo voraz. Ainda que algum de nós se extravie dos seus caminhos, Ele deixa tudo e vai nos resgatar, e nos traz em seus braços de volta ao seu aprisco, se não nesta vida, na outra.
O apóstolo Paulo fala sobre a segurança da salvação em todas as suas epístolas. Quando estudamos o livro de Romanos, por exemplo, descobrimos duas realidades contrastantes: a do nosso pecado que nos separa de Deus (3:23) e a sua maravilhosa Graça que nos justifica em Cristo Jesus (3:24). Todo o livro é um resumo daquilo que Deus vem revelando ao homem desde Gênesis: a justificação pela Graça, por meio da fé. Romanos não somente nos mostra o caminho seguro da salvação, como nos consola com estas palavras eternas: “Agora, pois, já nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8:1). Eis um resumo dos pontos principais a respeito da segurança eterna do crente;

·         6:8-1 – Estamos mortos para o pecado e vivos para Deus.
·         6:12-14 – O pecado não tem domínio sobre nós.
·         6:14,18 – Somos servos da justiça.
·         8:1,2 – Nenhuma condenação para os que estão em Cristo.
·         8:9-11 – Somos habitação do Espírito.
·         8:16,17 – Somos filhos de Deus.
·         8:24 – Temos a esperança eterna.
·         8:29,30 – A obra de Cristo é completa.
·         8:35-39 – O cristão vence o mundo.
·         9:31-33 – Quem está em Cristo não é confundido.
·         11:29 – Os dons de Deus são irrevogáveis.
·         14:4 – O Senhor é poderoso para nos suster.
·         16:25,26 – Somos confirmados segundo o Evangelho.

Também o autor do livro de Hebreus fala a respeito da salvação eterna e apresenta de forma brilhante a superioridade da Nova Aliança em Cristo sobre a Antiga Aliança baseada na Lei. Cristo é exaltado como a revelação suprema e final de Deus, sendo Ele o próprio Deus cuja Majestade está nas alturas e cujo Nome é superior a todo nome (1:1-4). Ele é superior aos anjos (1:4-14) e o seu sacerdócio é superior ao antigo (4:14 – 10:18). E é esta superioridade que traz um caráter definitivo à sua obra salvítica, porque tudo aquilo que pela Lei fora impossível ao homem conquistar, Jesus, como sacerdote e vítima, conquistou para ele no Calvário.
No cap. 9, vemos que a esperança do cristão é superior a da Antiga Aliança, pois se baseia naquilo que é perfeito e o conduz até Deus (7:19). O sacerdócio de Cristo torna a nossa situação diante de Deus igualmente imutável (v. 24). A salvação em Cristo não pode ser revogada, pois não pertence à Lei que muda se mudar o sacerdócio, mas à graça que pertence ao sacerdócio eterno de Cristo. Tendo tal sacerdócio imutável e eterno, Jesus “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (v. 25). Jesus não tem fim de dias, mas vive eternamente para interceder por nós (v. 27). A Nova Aliança de Cristo é instituída sobre superiores promessas firmadas com Deus (8:10), que em Cristo perdoa e esquece os nossos pecados (v. 12). Este perdão é total e não pode ser revogado, pois a promessa é superior e a Aliança, eterna.
O sacrifício eterno de Cristo na cruz nos garante: 1) eterna redenção; 2) remissão dos pecados; 3) recebimento da promessa da eterna herança. Através do seu sangue que foi derramado sobre a cruz, temos certeza de que fomos remidos dos nossos pecados (v. 22). Não há mais necessidade de sacrifícios, pois o sacrifício de Cristo foi o suficiente. E se o seu sacrifício é poderoso para nos salvar, como haveríamos de perecer uma vez tendo crido nele? Em Hebreus entendemos plenamente a eficácia do sacrifício de Jesus, que “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (v. 26). Este sacrifício é a certeza de que aquele que nele crê está definitivamente salvo, aguardando apenas o momento em que Cristo voltará para levar os seus: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (vs. 27,28).

Por isso somos exortados de modo que “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (v. 23). Que esperança é esta? Como podemos ver em Romanos 8:24, Tito 3:4-7 e 1 Pe 3:15, a nossa esperança é Jesus Cristo ressuscitado. E que promessa o Deus fiel tem para nós? É a promessa de entrar nos seu descanso (cf. Hb cap. 4). Se cremos em Deus, podemos ter certeza que Ele é fiel às suas promessas e poderoso para nos levar a salvo até o seu descanso eterno nos céus. Aquele que confessa a Cristo como Senhor e Salvador – a nossa esperança – pode estar certo que no fim será recompensado, porque Deus não pode mentir. A perseverança dos santos é possível porque eles não perseveram para a salvação, mas porque são salvos. Eles jamais perecerão porque não foram salvos por suas próprias forças nem por elas podem se manter de pé, mas porque a graça de Deus os escolheu, aproximou, regenerou, salvou, santificou e continua a santificar todos os dias. A perseverança dos santos está fundamentada no amor providencial de Deus em Cristo, na sua soberana vontade e no seu poder.

OBS: Estudo apresentado na aula de SOTERIOLOGIA, no Seminário Teológico Potiguar (Parnamirim, RN), em janeiro de 2017.