quinta-feira, 17 de novembro de 2016

CAIÇARA DO RIO DOS VENTOS (RN): AÇÃO MISSIONÁRIA DA IGREJA DE CRISTO NO BRASIL




Quem pretende fazer missões deve estar preparado para enfrentar todas as situações e circunstâncias, por mais adversas que sejam. Cair em campo para pregar o Evangelho significa talvez abrir mão do conforto que desfrutamos em nosso lar e aceitar o desconforto, a sede, a fome, a falta de estrutura, o inesperado e o inusitado. Todo esse trabalho só pode ser motivado pelo amor a Deus e às almas. Ninguém faz missões esperando receber algo em troca ou obter algum tipo de lucro. É preciso disposição para se dar e se doar de maneira altruísta. Muitas igrejas não investem em missões talvez porque não entendem a sua importância ou porque não enxergam seus lucros eternos.
Na missão em Caiçara experimentamos o que é estar no campo, no dia 12 de novembro. Ao menos duas denominações estavam envolvidas na presença dos seus participantes: a Igreja de Cristo no Brasil (Vale do Sol e Rosa dos Ventos) e a Igreja Cristã Eterna Aliança. O alvo da missão foi dar suporte aos obreiros que estão no campo e que fazem parte da Missão Evangélica Pentecostal do Brasil. Isso nos lembra que fazer missões não é defender placa de denominação, mas pregar o Evangelho do Reino de Deus. Cada pessoa é parte da Igreja orgânica e todas estão a serviço do Evangelho, independente da nomenclatura que as suas congregações carregam.
Alguns fatos marcaram a nossa ida a Caiçara. Encontramos uma cidade minúscula e com pessoas muito pobres. A seca castiga aquela região de tal forma que o rio secou e a água potável só chega duas e às vezes somente uma vez por semana. Aqueles que podem, armazenam o quanto conseguem. Também não há empregos. Não existe plantação nem colheita, não há o que se fazer na construção civil e o comércio é praticamente inexistente. As pessoas ali se viram como podem e quando podem. Quando a situação se torna desesperadora, a velha imigração para as cidades vizinhas e os grandes centros torna-se uma opção.
Algo que pessoalmente observei ao caminhar por aquela cidade, foram crianças, adolescentes e jovens perambulando pelas ruas, andando de bicicleta, moto ou a pé, indo e vindo como quem de fato não tem um rumo certo a tomar. Lembrei das palavras de Jesus ao contemplar as pessoas de Jerusalém e compará-la como ovelhas que não têm pastor (Mt 9:35-37). Lembrei também das suas palavras, quando disse que a seara é grande, mas são poucos os trabalhadores. De fato, poucos esperam colher espigas de milho do meio da caatinga brava. Poucos enxergam os campos esbranquiçados de puro algodão pronto a ser colhido em uma comunidade como aquela. Os missionários querem ir morrer em outros países e não se importam em viver missões na sua própria casa. Missões parecem estar ligadas a turismo. E ainda existem aquelas denominações que, por visarem o lucro financeiro, não querem gastar seu tempo investindo em algo que não lhes der o retorno – lucro – esperado.
Mas nem tudo era sertão seco naquele lugar. O coração dos missionários que ali labutam arde de amor pela obra, pelas almas perdidas e pelos corpos onde estas almas vivem. Dois alimentos são oferecidos ali: o que salva a alma – a Palavra de Deus – e o que mantém de pé o invólucro momentâneo da alma – o pão. Esta é a visão correta de Evangelho, onde as pessoas são tratadas de maneira integral. Levamos doações de alimentos e roupas para suprir aquela missão, que podemos chamar alegremente de Missão Integral. Como afirma o apóstolo Tiago, a verdadeira religião é isto: cuidar dos necessitados (Tg 1:27), além de estar no mundo sem contaminar-se com ele. A fé sem obras é morta (Tg 2:14-26). E as obras sem amor, nada são, segundo o apóstolo Paulo (1 Co 13:3). Mas ali vimos muito amor.
Visitamos a residência de dois irmãos. Na primeira deixei duas Bíblias, cumprindo o planejamento do meu ministério pessoal: "Por uma Igreja pensante". Elas foram recebidas com muita alegria pelo homem da casa e sua filha. Mais tarde dei outra Bíblia para sua filha mais nova, pois me disseram que ela ficara ávida por também ganhar uma. Dali partimos para a residência do irmão Tácio. Eu havia sido informado com antecedência que aquele irmão estava ansioso para estudar a Bíblia, mas não tinha nenhuma orientação, nenhum material de apoio. Então preparei uma apostila que há alguns o meu irmão, o pastor Handerson, criou, chamada "Crescendo na fé", com um curso bastante completo de discipulado. Reunida toda a equipe na casa do irmão Tácio, foi-lhe dada a apostila, que ele recebeu com lágrimas nos olhos. Isso me levou a inúmeros questionamentos sobre o desprezo que é dado ao estudo das Escrituras por quem possui todas as condições, materiais, métodos e mestres para estudá-las. As escolas bíblicas dominicais, os cultos de doutrina e os seminários de teologia na grande maioria das igrejas evangélicas estão cada vez mais vazios. Nós quem deveríamos chorar, mas de arrependimento e de vergonha pela nossa falta de amor à Palavra de Deus.
O irmão Tácio, sua esposa e filhos também foram abençoados com a promessa de que empreenderíamos uma campanha para a arrecadação de material de construção para que eles possam deixar para trás o aluguel – que nem sempre têm como pagar, porque estão desempregados – para sonhar alto e ver seus dias um pouco aliviados. Isto é fazer missões: olhar para o ser humano com um olhar de amor e misericórdia como Jesus olhava. É enxergar além de um número estatístico, além de um membro a mais a dar o dízimo, mas um ser integral que necessita de cuidados. Não importa se alguns teólogos da Missão Integral estão envolvidos com o marxismo ou se eles beberam da Teologia da Libertação de Leonardo Boff. Importa que nós bebemos da água pura da Palavra de Deus e ela nos ensina a amarmos uns aos outros como Deus nos amou.
Ainda outra coisa me chamou muito atenção nesta viagem missionária. O nosso missionário Anderson relatou que o pastor que dirige a missão ali em Caiçara sofre perseguição de outras igrejas locais por conta da sua visão voltada para o Evangelho além das palavras, dos templos, dos dízimos; do Evangelho voltado para o cuidado amoroso para com os irmãos pobres. Isto está na Bíblia! Sofrer por fazer a coisa certa, por pregar e viver se forma prática e transformadora a verdade. Outra informação ainda mais aterradora é que em uma das comunidades assistidas e auxiliadas pelo missionário Anderson, os jovens que se convertem são desprezados por suas famílias católicas que deixam de suprir suas necessidades mais básicas. É o pastor da Igreja quem acolhe esses jovens e cuida deles. No Brasil, não no Oriente Médio, em plena democracia do século XXI estas coisas acontecem! Será uma nova "santa Inquisição"?
Após essas ações e o jantar, fomos participar do culto na cruzada evangelística que tinha sido organizada naquela cidade pela Missão Evangélica Pentecostal no Brasil. Confesso que há muitos anos não participava de um culto tão maravilhoso e abençoado. Os louvores que foram ali cantados e a Palavra ministrada pelo missionário Anderson verdadeiramente tocaram o meu coração. Na segunda-feira teríamos notícias que o impacto foi muito mais além. Não sou pentecostal, mas bradei glórias a Deus.  Duas pessoas entregaram sua vida para Jesus. O culto matutino contou com a presença de pessoas descrentes e a comunidade manifestou o anseio por mais uma cruzada missionária, porque Deus nunca tinha falado com eles daquela forma. A semente foi plantada, regada e Deus é quem dá o crescimento.

Existem ótimas perspectivas para aquela cidade e as comunidades circunvizinhas. Sonhamos os sonhos de Deus e desejamos levar a sua Palavra para iluminar àqueles que se encontram nas trevas. Os desafios são imensos e a perseguição é garantida, mas o amor é grande e a recompensa é certa. Em Caiçara urge a implantação de um estudo bíblico que permita aos irmãos conhecerem as principais doutrinas bíblicas e também a como lerem e estudarem a Bíblia. O discipulado com os novos convertidos também é muito importante e serve para firmar a fé abraçada e fundamentá-la segundo as Escrituras. Outro trabalho a ser implantado é com crianças, cuidando dos alicerces da sua fé para que cresçam debaixo da graça do Senhor. Existe muito o que ser feito e de uma coisa tenho certeza: a viajem à Caiçara só serviu para aumentar a intensidade da chama missionária que arde dentro de mim.






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