sábado, 5 de novembro de 2016

A CERTEZA DA SALVAÇÃO NA CARTA AOS HEBREUS




O autor do livro de Hebreus apresenta de forma brilhante a superioridade da Nova Aliança em Cristo sobre a Antiga Aliança baseada na Lei. Cristo é exaltado como a revelação suprema e final de Deus, sendo Ele o próprio Deus cuja Majestade está nas alturas e cujo nome é superior a todo nome (1:1-4). Ele é superior aos anjos (1:4-14) e o seu sacerdócio é superior ao antigo (4:14 – 10:18). E é esta superioridade que traz um caráter definitivo à sua obra salvítica, porque tudo aquilo que pela Lei fora impossível ao homem conquistar, Jesus, como sacerdote e vítima, conquistou para ele no Calvário.
            Deus não está limitado às condições previsíveis da Criação, mas Ele é o mesmo sempre, não muda, jamais tem fim (1:10-12). Por esta razão, afirma o autor, o cristão deve se apegar à Palavra de Deus para não se desviar nem negligenciar a sua salvação (2:1-3). Crendo na Palavra de Deus, apegando-nos a ela, podemos estar certos do cumprimento de todos os seus decretos. O sofrimento de Cristo e a sua morte na cruz poderiam ter desanimado muito dos seus discípulos. É provável que muitos daqueles que o seguiam perderam a sua fé ao vê-lo humilhado na cruz. Mas para aqueles que criam nele, a cruz foi apenas um caminho para o que estava por vir, pois Cristo “foi coroado de glória e de honra, para que, pela graça de Deus, provasse a morte por todo homem” (v. 9). Ele não morreu por alguns, mas “por todo homem”.
            Por meio do seu sacrifício perfeito, Cristo tornou-se o autor da nossa salvação (v. 10; cf. 12:2). E como perfeito salvador, Ele também é capaz de conduzir os seus filhos à glória. A obra de Cristo destruiu completamente o poder da morte sobre nós e fez a propiciação pelos nossos pecados. Isto significa que ele “cobriu”, “apagou” os nossos pecados, de modo que estamos absolvidos da condenação e podemos ter comunhão com Deus. E de tal modo Ele sofreu que é poderoso para socorrer os que são tentados (vs. 11-18). Se Cristo foi tentado e resistiu, certamente nós poderemos resistir no dia da tentação, pois o que habita em nós é o Espírito de Cristo, cuja obra santificadora está em consonância com a obra salvítica de Jesus Cristo. Aquele que nos salva totalmente também nos preserva totalmente nesta salvação.
            Os que estão em Cristo não estão mais sob a marca do pecado, mas possuem uma nova e celestial vocação (3:1). Como Apóstolo por excelência, Cristo é o representante supremo de Deus, o Sumo Sacerdote que tem o ofício eterno de nos salvar. Mas esta salvação também requer uma demonstração da nossa parte, não como condição à salvação, mas como seu fruto imediato, que é a fidelidade: “Cristo, porém, como Filho, em sua casa; a qual casa somos nós, se guardamos firme, até o fim, a ousadia da exultação da esperança” (v. 6). Não guardamos a esperança até o fim para sermos salvos; nós a guardamos porque somos salvos, pois somente quem põe em Cristo a sua confiança pode ser livre da morte e estar seguro da sua vocação celestial. Abrir mão da esperança em Cristo é apostatar da fé, e negar a eficácia e a superioridade do seu sacrifício. Se perdemos a esperança, é porque, na verdade, nunca a tivemos enraizada em nós.
            O autor de Hebreus faz uma comparação entre o povo de Israel e o cristão para asseverar a necessidade da constância na fé, não para a salvação, mas como confirmação desta salvação. O povo de Israel era um povo duro de coração (3:8), tentava a Deus (v. 9), tinha o coração perverso (v. 12), era rebelde (v. 16), era desobediente (v. 18) e incrédulo (v. 19). O que o autor afirma é que o cristão não pode portar-se desta maneira, sob o risco de não entrar no descanso de Deus, assim como aqueles não entraram. A incredulidade pode fazer com que não entremos no descanso de Deus. Isto não significa que aquele que se tornar como o povo de Israel perderá a salvação, mas sim que jamais foi salvo. A incredulidade de Israel impediu que muitos daquela nação entrassem no descanso de Deus. Eles não estavam no descanso de Deus e foram tirados de lá; eles simplesmente não entraram por causa de todos os motivos listados acima. A incredulidade nos impede de acreditar em Deus para a salvação e nos afasta dele (v. 12), além de endurecer o nosso coração pelo pecado (v. 13).
            Todavia, como cristãos, já estamos no descanso de Deus, já fazemos parte do seu Reino, da sua ressurreição, aguardando apenas o momento de adentrarmos no céu para estarmos com Ele eternamente. Esta salvação pela fé exclui a possibilidade de estarmos salvos se vivemos na incredulidade. Estar em Cristo e tornar-se incrédulo é negar a fé, isto é, apostatar. O verdadeiro cristão não apostata da sua fé; quem o faz, é porque jamais foi salvo. Mas se temos esta esperança superior em Cristo, se mesmo sem ver as ruas de ouro e o lugar que Cristo foi preparar para nós continuamos crendo, podemos ter certeza de que entraremos no seu descanso. Se muitos do povo de Israel não puderam entrar por causa da sua incredulidade, nós, pela nossa fé, entraremos.
            Esta maravilhosa promessa de entrar no descanso de Deus nos foi dada no Evangelho, nas boas-novas da salvação, mas exige a aceitação pela fé (4:1,2). Reiterando o que dissera no capítulo três, o autor de Hebreus declara que a exclusão de Israel do descanso do Senhor se deve à sua incredulidade, porque “a palavra que ouviram não lhes aproveitou, visto não ter sido acompanhada pela fé naqueles que a ouviram”. Se não entramos no descanso de Deus é porque falhamos em não crer que ele existe, que é real e palpável. Dos vs. 1 ao 3 há uma clara distinção entre dois grupos: 1) aquele formado por indivíduos que falham em não crer e por isso não podem ser salvas. Não se trata de pessoas que perderam a salvação, mas de pessoas que jamais puderam ser salvas por causa da sua incredulidade. 2) e aquele grupo que inclui o próprio autor da epístola: “Nós,porém, que cremos, entramos no descanso” (v. 3). Ele não diz que entraremos, mas que já estamos no descanso de Deus. Isto nos dá segurança de que estamos salvos, isto é, que já somos participantes de todos os benefícios prometidos por Deus através de Jesus Cristo.
            O descanso de Deus está aberto àqueles que ainda irão entrar nele, enquanto alguns se mantêm desobedientes, mesmo tendo ouvido as boas-novas (v. 6). E pela quarta vez o autor declara a Palavra de Deus: “Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais o vosso coração” (v. 7). Desta forma, a eterna salvação é algo pessoal e deve ser recebido pela fé quando o Evangelho é pregado. O fato de o povo de Israel ter endurecido o coração à voz do Senhor mostra que existe uma atitude da parte do homem com relação a Deus, a de crer. É o Espírito Santo quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo, mas isto só poderá ser apreendido pela fé. Os judeus receberam as boas-novas, mas ainda assim se mantiveram rebeldes. Da mesma forma muitas pessoas hoje não poderão entrar no descanso de Deus, porque ouvem o Evangelho e não crêem.
A exortação do autor é que devemos nos esforçar “por entrar naquele descanso, a fim de que ninguém caia, segundo o mesmo exemplo de desobediência” (v. 11). Aqueles que caem, todavia, não são os que creram, mas os desobedientes, que não entraram no descanso de Deus por causa da sua incredulidade. Este descanso prometido por Deus é celestial e pode ser usufruído agora (v. 9), mas será mais plenamente usufruído na glória. Logo, o fato de já gozarmos hoje da glória vindoura significa que podemos ter certeza da nossa salvação. O hoje e o amanhã eterno já fazem parte da nossa realidade de salvação. Entender esta realidade que o Livro de Hebreus mostra acerca da superioridade de Cristo pode responder a muitas questões e tirar inúmeras dúvidas de quem ainda acredita que a salvação pode ser perdida.
A mensagem de Hebreus é uma mensagem de esperança. Quando o povo estava no deserto após a sua saída do Egito, Deus proveu todos os meios de lhes dar esperança: a travessia do mar vermelho, o maná, a coluna de fogo, a água que brotou da rocha, as sandálias que jamais se desgastaram, as codornizes, as suas leis. Deus estava presente em todos os momentos lembrando-se da aliança que fizera com eles de que lhes daria uma terra que emanava leite e mel. Entretanto, a sua rebeldia em aceitar os decretos divinos, a sua dureza de coração diante dos milagres que os acompanhavam, a sua murmuração e a sua idolatria, os afastou do ideal de Deus e lhes tirou a parte que lhes cabia na promessa. Mas Deus não teria os seus planos frustrados, porque outra geração tomou posse da terra e nós, de maneira mais perfeita, também tomamos posse da herança que nos é dada em Cristo: a vida eterna.
Esta nossa confissão, porém, deve ser preservada. Mais adiante aprenderemos um pouco sobre a perseverança dos santos. Mas de imediato o autor de Hebreus nos diz que só nos é possível perseverar em manter firme a nossa confissão porque temos “a Jesus, o Filho de Deus, como sumo sacerdote que penetrou os céus” (v. 14). Ele nos dá a segurança e a confiança de nos aproximarmos do trono da graça (v. 16), onde recebemos misericórdia e achamos graça para socorro em ocasião oportuna. Esta segurança é uma constante no Livro de Hebreus, que não cessa de apontar para a nossa esperança em Cristo como sumo sacerdote. De fato, o seu intuito principal parece ser de mostrar que tão grande obra de salvação deve tirar de nós qualquer resquício de dúvida, fazendo-nos esperar com alegria a glória que está para ser revelada na parousia.
A superioridade do sacerdócio de Cristo demonstra-se na sua obediência pelas coisas que sofreu (5:8), e “tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem” (v. 9). O caráter eterno do sacerdócio de Cristo mostra que a sua obra redentora foi perfeita, de modo que não resta obra nenhuma a ser feita. E se foi perfeita, também é eficaz. Esta salvação eterna é concedida aos que lhe obedecem e esta obediência é produzida pela fé (cf. Rm 10:9; Tg 2:14-26). Deste modo, a partir do momento em que pela fé aceitamos a Jesus como o nosso Senhor e Salvador, a salvação prometida por Deus aos que crêem já opera em nós. Esta salvação, como temos visto neste estudo, não é fruto da nossa perseverança ou pode ser perdida pela nossa pecaminosidade, mas existe para sempre, pois é eterna. Não há como fazer perecer aquilo que é imperecível.
Os vs. 4 a 6 do sexto capítulo de Hebreus já foram debatidos na terceira parte deste estudo. E prosseguindo, o autor nos mostra que a atitude do cristão deve ser a mesma daqueles que, no Antigo Testamento, tiveram fé em Deus, herdando as promessas que confiadamente esperaram (vs. 9-12). Ser indolente seria seguir o exemplo daqueles que não creram, que foram infiéis e por isso não herdaram as promessas. Mais adiante (cap. 11), o autor vai mostrar o caráter e a fé de algumas personagens da história bíblica que obtiveram a vitória por crer nas promessas de Deus. Mais uma vez percebemos que é a falta de fé que impede o homem de obter aquilo que Deus lhe tem prometido. Aqueles que não crêem na segurança da salvação não podem ser diligentes para a plena certeza da esperança (v. 11), pois em seus corações não crêem que já possuem a promessa do Senhor reservada desde os tempos eternos aos que crêem. Eles não vêem que se assemelham ao povo que não entrou na terra prometida, no descanso de Deus: ouvem as boas-novas, experimentam os milagres, recebem a promessa, mas continuam incrédulos em seus corações. Deus lhes diz: A terra é de vocês! E eles permanecem sem acreditar.
Mas não há como desacreditar das promessas de Deus. Não há como duvidar do seu descanso eterno reservado para os que crêem. Quando Deus fez a promessa a Abraão de lhe dar uma terra e fazer dele uma grande nação, jurou não por aquilo que perece, mas por aquilo que é eterno: por Si mesmo (vs. 13-20). Esta promessa é, então, imutável, pois Deus não pode mentir, não pode voltar atrás naquilo que firmou em pacto conosco. A salvação do cristão é certa e segura, pois Deus é imutável. Podemos descansar na certeza de que “já corremos para o refúgio, a fim de lançar mão da esperança proposta” (v. 18). Esta esperança nós já possuímos e é a âncora da nossa alma, “segura e firme e que penetra além do véu” (v. 19). A nossa entrada no céu já está garantida, porque o nosso precursor entrou por nós (v. 20).
A esperança do cristão é uma esperança superior a da Antiga Aliança, pois se baseia naquilo que é perfeito e o conduz até Deus (7:19). O sacerdócio de Cristo torna a nossa situação diante de Deus igualmente imutável (v. 24). A salvação em Cristo não pode ser revogada, pois não pertence à Lei que muda se mudar o sacerdócio, mas à graça que pertence ao sacerdócio eterno de Cristo. Tendo tal sacerdócio imutável e eterno, Jesus “pode salvar totalmente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles” (v. 25). Jesus não tem fim de dias, mas vive eternamente para interceder por nós (v. 27). A Nova Aliança de Cristo é instituída sobre superiores promessas firmadas com Deus (8:10), que em Cristo perdoa e esquece os nossos pecados (v. 12). Este perdão é total e não pode ser revogado, pois a promessa é superior e a Aliança, eterna.
            O capítulo nove do livro de Hebreus mostra ainda mais claramente a superioridade da Nova Aliança de Cristo sobre a Antiga Aliança da Lei. É através desta superioridade que podemos perceber a enormidade da obra de Cristo e as suas conseqüências na nossa vida. O autor de Hebreus mostra que a Antiga Aliança era somente sombra daquilo que estava por vir, com todos os seus preceitos de serviço sagrado e o seu santuário terrestre (v. 1). Todos os sacrifícios que no Tabernáculo eram praticados, eram ineficazes para o aperfeiçoamento daquele que o oferecia (v. 9), pois não passavam de ordenanças “impostas até ao tempo oportuno de reforma” (v. 10). Todos os sacrifícios prescritos e as demais observâncias da Lei tinham como objetivo principal apontar para aquilo que era maior e definitivo: o sacrifício de Cristo na cruz.
            Em Cristo aquilo que é antigo torna-se obsoleto e Ele mesmo torna-se autor de Aliança muito superior, uma vez que pelo seu próprio sangue fez propiciação pelos nossos pecados, “entrando no Santo dos Santos, uma vez por todas, tendo obtido eterna redenção” (v. 11). Propiciação significa que Cristo morreu no nosso lugar, assumindo toda a nossa culpa sobre Ele para expiá-la. Em Cristo não há mais necessidade de sacrifício, pois Ele fez a paz entre nós e Deus. O autor de Hebreus afirma: “muito mais o sangue de Cristo, que, pelo Espírito eterno, a si mesmo se ofereceu sem mácula a Deus, purificará a nossa consciência de obras mortas, para servirmos ao Deus vivo! Por isso mesmo, ele é o Mediador da nova aliança, a fim de que, intervindo a morte para a remissão das transgressões que havia sob a primeira aliança, recebam a promessa da eterna herança aqueles que têm sido chamados” (vs. 14,15).
            O sacrifício eterno de Cristo na cruz nos garante: 1) eterna redenção; 2) remissão dos pecados; 3) recebimento da promessa da eterna herança. Através do seu sangue que foi derramado sobre a cruz, temos certeza de que fomos remidos dos nossos pecados (v. 22). Não há mais necessidade de sacrifícios, pois o sacrifício de Cristo foi o suficiente. E se o seu sacrifício é poderoso para nos salvar, como haveríamos de perecer uma vez tendo crido nele? Em Hebreus entendemos plenamente a eficácia do sacrifício de Jesus, que “se manifestou uma vez por todas, para aniquilar, pelo sacrifício de si mesmo, o pecado” (v. 26). Este sacrifício é a certeza de que aquele que nele crê está definitivamente salvo, aguardando apenas o momento em que Cristo voltará para levar os seus: “E, assim como aos homens está ordenado morrerem uma só vez, vindo, depois disto, o juízo, assim também Cristo, tendo-se oferecido uma vez para sempre para tirar os pecados de muitos, aparecerá segunda vez, sem pecado, aos que o aguardam para a salvação” (vs. 27,28).
            A salvação do cristão não está alicerçada sobre aquilo que é passageiro, mas sobre aquilo que é eterno. O caráter eterno do sacrifício de Cristo demonstra o caráter imutável da nossa salvação. Ele nos salvou para sempre, definitivamente, não podendo nos perder ou não necessitando de novo sacrifício. Se fosse possível perder a salvação pro conta dos nossos pecados, o sacrifício de Cristo teria sido imperfeito e insuficiente. Mas o autor de Hebreus nos garante que em Cristo o pecado foi aniquilado. Aquilo que é aniquilado não pode voltar à vida, a menos que algo superior o traga de volta. Mas se Deus trouxesse o pecado de volta às nossas vidas, estaria indo totalmente contra a sua Palavra o seu eterno propósito para nós. Além disso, se o pecado pudesse ser mais uma vez imposto sobre nós, a Bíblia não estaria correta em afirmar que ele foi aniquilado.
            No capítulo dez o autor dá prosseguimento ao seu pensamento afirmando que o caráter do ministério de Cristo é “uma vez por todas” (v. 10), não necessitando de apresentar sacrifícios diários que jamais podem remover os pecados. O sacrifício de Cristo é único e suficiente para aperfeiçoar para sempre todos os que estão sendo santificados (vs. 12-14), não restando mais necessidade de qualquer oferta pelo pecado (vs. 15-18). Entender esta verdade é crucial para compreendermos que a vontade de Deus se cumpre em Cristo (Rm 5:19) e, uma vez firmados nele, podemos estar seguros quanto à certeza e a segurança da nossa salvação. Se Cristo se ofereceu uma vez por todas para nos reconciliar com Deus, a salvação que Ele nos oferece pela sua graça também é uma vez por todas. Não pode haver sacrifício perfeito se houver salvação imperfeita.
            O autor de Hebreus, então, nos anima a entrarmos com intrepidez no Santo dos Santos pelo novo e vivo caminho, que é Jesus (vs. 19,20). O homem regenerado tem acesso irrestrito e definitivo à presença de Deus, com “sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura” (v. 22). Todavia, como nos aproximar de Deus sem fé? Como entrar através do véu sem a certeza de que realmente estamos salvos? Negar a certeza da salvação é excluir-nos da presença do Senhor, pois é somente através da certeza de que o sacrifício de Cristo é suficiente para nos salvar para sempre que podemos nos apresentar na presença de Deus. Sem esta fé não há como vencer a barreira do pecado, pois é esta fé que nos mostra que o pecado foi definitivamente aniquilado e por isso podemos nos aproximar de Deus sem sermos consumidos.
Por isso somos exortados de modo que “Guardemos firme a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (v. 23). Que esperança é esta? Como já vimos no comentário de Romanos 8:24 e veremos ainda nos comentários de Tito 3:4-7 e 1 Pe 3:15, a nossa esperança é Jesus Cristo ressuscitado. E que promessa o Deus fiel tem para nós? É a promessa de entrar nos seu descanso (cf. Hb cap. 4). Se cremos em Deus, podemos ter certeza que Ele é fiel às suas promessas e poderoso para nos levar a salvo até o seu descanso eterno nos céus. Aquele que confessa a Cristo como Senhor e Salvador – a nossa esperança – pode estar certo que no fim será recompensado, porque Deus não pode mentir.
Existe, porém, a possibilidade de o cristão retroceder na sua esperança, que é o que tem acontecido com muitos que negam que o sacrifício de Cristo tenha sido ineficaz, pois não se sentem salvos totalmente. Quem não tem certeza de que está salvo e não possui a segurança de que assim permanecerá para sempre, pode por ventura entrar com intrepidez na presença do Senhor? O que nos permite entrar no santo dos santos é o sangue de Cristo. Ele é o novo e vivo caminho que nos conduz diretamente a Deus pelos seus méritos. No v. 35 o autor de Hebreus diz: “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão”. Desta forma, ele nos exorta a guardar a nossa esperança da vida eterna que o Senhor nos deu. Retroceder não significa pecar para perder a salvação, mas abandonar a esperança nas promessas de. Deste modo, não é perseverança na fé, mas perseverança na esperança e na confiança para alcançar a promessa; sem esta perseverança, não existe a fé. Dizer que o cristão pode retroceder para a perdição (cf. v. 38) é contradizer a Palavra de Deus. Nós não somos dos que retrocedem para a perdição, isto é, os apóstatas, aqueles que não querem esperar pelo cumprimento da promessa do Senhor. Somos os que vivem pela fé (v. 38), aguardando firmemente o grande Dia, conservando a nossa alma (v. 39).
A fé que nos salva é a mesma que nos faz confiar em Deus e nas suas promessas (11:1-3). Se Deus nos prometeu a vida eterna por meio de Cristo, a sua promessa não pode falhar. Nós esperamos pela fé a vinda do Senhor para nos levar, e embora os nossos olhos ainda não possam enxergar o que Deus tem preparado para nós, pela fé já podemos contemplar as nossas mansões celestiais. Sem esta fé é impossível agradar a Deus (v. 6). Não basta crer em Deus, é preciso confiar nele. Muitas pessoas afirmam a sua crença em Deus, mas estão tão desesperadas e descrentes que relutam em afirmarem-se eternamente salvas. Não crêem que o sacerdócio de Cristo seja eterno e a sua salvação seja total. Na verdade, o ofício de Cristo está limitado à capacidade que essas pessoas tem de pecar, porque a qualquer momento de suas vidas elas podem cair e invalidar a promessa de Deus por causa da sua queda. Em outras palavras: aquilo que Deus operou poderosamente em Cristo e nos deu pela sua maravilhosa graça pode se perder todas as vezes que pecamos.
Os heróis da fé, entretanto, faziam parte de um grupo de pessoas que acreditavam em Deus e esperavam nele. A sua fé era baseada numa confiança inabalável de que Deus era poderoso para cumprir com a sua palavra, independente das circunstâncias. Muitos morreram crendo, mas sem ter obtido as promessas, vendo-as apenas de longe como peregrinos sobre a terra, até herdarem pátria superior, isto é, celestial (v. 13). Todos estes suportaram toda sorte de intempéries e obtiveram bom testemunho pela sua fé, acreditando nas promessas de Deus e esperando pela sua concretização. A terra prometida – Canaã – era apenas figura da terra verdadeira – Jesus Cristo – que a si mesmo se deu para que em nós as promessas de Deus se concretizassem.
O capítulo doze se inicia com uma forte injeção de ânimo para que não percamos de vista aquilo que Deus já nos deu, tendo em Cristo o nosso exemplo de perseverança: “Portanto, também vós, visto que temos a rodear-nos tão grande número de testemunhas, desembaraçando-nos de todo peso e do pecado que tenazmente nos assedia, corramos, com perseverança, a carreira que nos está proposta, olhando firmemente para o Autor e Consumador da nossa fé, Jesus, o qual, em trocas da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz, não fazendo caso da ignomínia, e está assentado à destra do trono de Deus. Considerai, pois, atentamente, aquele que suportou tamanha oposição dos pecadores contra si mesmo, para que não vos fatigueis, desmaiando em vossa alma” (vs. 1-3). O que ele está nos dizendo é que devemos manter bem os nossos olhos constantemente fixos no Senhor. Não em nós mesmos, nas nossas limitações, mas em Cristo, o Autor e Consumador perfeito da nossa fé e da nossa eterna salvação. Somente mantendo os nossos olhos fixos em Jesus Cristo é que poderemos permanecer firmes e inabaláveis. Somente olhando para aquele que pode nos salvar totalmente é que poderemos nos sentir totalmente salvos.
A seguir, o autor nos coloca na posição de filhos de Deus, tendo como prova desta filiação a disciplina que vem de Deus (vs. 4-13). Era obrigação de o judeu prover a educação dos seus filhos nos caminhos do Senhor, aplicando medidas disciplinares quando necessário. Esta disciplina era muitas vezes infligida com chicote, quando havia necessidade de disciplinar. Então, se o cristão está debaixo da correção de Deus (do seu chicote), isto lhe deve ser como motivo de grande alegria, pois é uma prova da sua filiação divina. Mas se rejeitamos esta correção, se não aceitamos passar pela disciplina de Deus, corremos o risco de entrarmos em rebeldia contra Ele. E por outro lado, se não temos a disciplina que vem de Deus e que tem como objetivo produzir em nós santidade (vs. 10,11), não fazemos parte da sua família, logo, não somos dele nem Ele é nosso.
Como vemos, é importante que tenhamos certeza de que lado estamos. Muitas pessoas se afastam da igreja e do Evangelho, não para a perda da sua salvação, mas porque jamais possuíram uma filiação divina. Como dissemos no início, nem todos estão na igreja pelos motivos corretos (fé e arrependimento), mas porque desejam soluções imediatas e miraculosas para os seus problemas, de modo que não sofram mais e isto sem muito esforço da sua parte. Esta fé não produz salvação, não torna o pecador justificado diante de Deus nem o introduz como membro da sua família celestial. Por isso o autor de Hebreus exorta: “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor, atentando, diligentemente, por que ninguém seja faltoso, separando-se da graça de Deus” (v. 14,15). Assim como Esaú (vs. 16,17), existem muitas pessoas na igreja sem compromisso real com Deus, que estão inseridas dentro de um contexto eclesiástico sem jamais terem sido salvas. E por que elas continuam assim, por que não mudam a sua atitude? Simplesmente porque não há lugar de arrependimento em seus corações.
Aqueles que estão em Cristo, porém, estão seguros: “Mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anhos, e à universal assembléia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus [não arrolados como membros de uma denominação], e a Deus, o Juiz de todos, e aos espíritos dos justos aperfeiçoados, e a Jesus, o Mediador da nova aliança, e ao sangue da aspersão que fala de coisas superiores ao que fala o próprio Abel” (vs. 22-24). Esta realidade já é algo palpável na vida do cristão, algo do que ele já começa a participar aqui na terra. Aqui somos apenas peregrinos, como bem afirmou o apostolo Pedro (1 Pe 2:11), porque a nossa verdadeira pátria está nos céus (cf. Fp 3:20). E se já possuímos uma pátria celestial e se já fazemos parte das bênçãos futuras, podemos estar certos de que em breve estaremos na nossa eterna morada. Hebreus nos dá absoluta certeza disso, não nos deixando espaço para duvidar, para acharmos que poderemos perder a nossa filiação divina e a nossa herança com Cristo na glória. Se fosse possível perder estas coisas, o sacerdócio de Cristo não seria eterno e a sua expiação não seria perfeita.

Mais uma vez, porém, o autor nos exorta quanto a nossa responsabilidade diante de Deus. Quando Moisés subiu ao monte para receber a lei de Deus, o povo em sua incredulidade preparou para si um bezerro de outro para adorá-lo no lugar de Deus (Ex 32:4). Ora, se o povo de Israel deveria temer aquele cuja voz vinha da terra – Moisés – muito mais nós devemos temer a voz que vem dos céus. Todas aquelas coisas que tinham sido abaladas e que eram passageiras foram substituídas por aquilo que é eterno (vs. 26,27). O reino que temos agora é superior ao da Antiga Aliança, pois é um reino eterno, do qual nós fazemos parte pela graça de Deus (v. 28). Esta certeza e esta esperança estão firmadas sobre uma realidade: “Jesus Cristo, ontem e hoje, é o mesmo e o será para sempre” (13:8). E é esta verdade, baseada na doutrina verdadeira, que confirma o nosso coração na graça (v. 9), porque aqui não temos cidade permanente, mas esperamos a que há de vir (v. 14).



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