segunda-feira, 17 de outubro de 2016

NEEMIAS: LIDERANÇA E INTEGRIDADE




Introdução[1]
2 Coríntios 8:21

Líderes íntegros usados por Deus, esta é uma das grandes necessidades da Igreja nos dias de hoje. Vemos homens e mulheres à frente de grandes denominações, preocupados em lotar templos e em oferecer a sua própria imagem e carisma como porto seguro para a fé dos seus congregados. Vemos grandes oradores que arrastam multidões com o poder da neurolinguística e com a oferta de uma teologia pobre e egocêntrica, que molda uma imagem destorcida de Deus e faz com que as pessoas acreditem que elas mesmas são deuses. Vemos também pastores doentes e desanimados por não se dobrarem a esse tipo de liderança e ao mesmo tempo encontrarem barreiras para continuar pregando e vivendo o verdadeiro Evangelho de Cristo. Vemos, ainda, aqueles que jamais se deixam desanimar e enfrentam o inimigo com a força da sua fé e do seu caráter cristão, entendendo que quantidade não é qualidade e que meia dúzia de pessoas reunidas num templo é a Igreja do Senhor. Mas também vemos depravação, corrupção, estelionato, adultério, demonstrando uma total falta de referenciais, o desprezo às Escrituras, um viver carnal e distante do Espírito Santo.
Precisamos de lideranças que se deixem impregnar totalmente com a santidade da Palavra de Deus, que sejam pessoas íntegras e guerreiras, que entendam que a soberania de Deus não é negociável e que não tenham o caráter moldado pelo mundo, mas pela cruz de Cristo. Temos na Bíblia grandes exemplos de líderes moldados por Deus e poderosamente usados. Não eram super-humanos, mas pessoas comuns que possuíam algo incomum: a vontade de servir àquele que os comissionara. Neemias foi um desses grandes líderes. A sua história e o seu caráter nos ajudarão a pensar sobre que tipo de líderes somos e que tipo de líderes Deus espera que sejamos, líderes íntegros usados para os propósitos eternos do seu Reino.

Leitura complementar: Lucas 16:10,11; Provérbios 10:9; 11:3; 1 Pedro 3:16; Colossenses 3:23.


Liderança e influência
Neemias 1:1-3

Falar sobre liderança envolve questões complexas e profundas. Além da Palavra de Deus como supremo referencial, temos uma variedade imensa de autores que pesquisaram e escreveram sobre o tema; muitos deles, líderes que produziram ótimos estudos a partir da sua própria vivência, como John Maxwell. Um dos conceitos básicos sobre o que é ser um líder é: líder é aquele que faz as coisas através das outras pessoas. Maxwell resumiu a essência da liderança em “influência”. Ambas as definições estão corretas, tendo em vista que o líder deve ser capaz de influenciar os outros a agirem em prol da construção de algo. Esse tipo de atitude é o que vemos claramente no líder Neemias. A história de Neemias é uma história que traz lições profundas para aquele que deseja exercer liderança na obra do Senhor. O líder Neemias se destaca por dois aspectos muito importantes entre aqueles que iremos estudar: ele era um homem de oração e de confiança em Deus.
Neemias exercia uma importante posição trabalhando para o rei da Pérsia (445 a.C.), mas abriu mão dela ao saber que os judeus estavam sofrendo e que a cidade de Jerusalém estava destruída, os seus muros derrubados e as suas portas queimadas (1:1-3). Analisando os principais fatos da vida de Neemias, observando a sua constante dependência de Deus, sua inteireza de caráter e sua firmeza na obra do Senhor, certamente nos animaremos a viver uma liderança voltada para o princípio da fé e da esperança. Assim como Neemias, a primeira pessoa a ser influenciada por uma visão transformadora da realidade deve ser o próprio líder. Se ele não estiver motivado a agir, se a missão que Deus lhe deu não irradiar a sua mente e o seu coração, dificilmente contagiará os outros e os influenciará a agir. Neemias era um líder convicto do seu propósito e sabia que o sucesso não estava em suas mãos, mas nas mãos do Deus de Israel!

Leitura complementar: Mateus 20:20-28; Lucas 5:1-11; Filipenses 2:8; João 8:14; Colossenses 3:1.


Paixão e zelo pela glória de Deus
Neemias 1:4

Logo no início da narrativa do livro de Neemias encontramos aquilo que motivou as suas ações dali por diante: a paixão e o zelo pela glória de Deus (1:4). O que tocou o coração de Neemias não foi a necessidade de um grande empreendimento, nem tampouco a ambição de entrar para a História do seu povo como o homem que reconstruiu os muros de Jerusalém, embora consequentemente isso tenha acontecido. Sua motivação era a paixão pela glória de Deus. Jerusalém era a cidade de Deus e o templo, o símbolo da sua presença. O zelo de Neemias era muito mais pela reconstrução dos muros, era pelo que ela representava em matéria de glória de Deus. Este zelo se demonstrou mais tarde na expulsão de Tobias do templo (13:4-9), e no cuidado com a guarda do sábado, que era o dia do Senhor (13:15-22). Neemias traça, então, um parâmetro essencial para a liderança: ele deve ser para a glória do Senhor.
Mesmo que o líder seja alguém proeminente entre os seus, capacitado, inteligente; mesmo que suas obras sejam grandiosas e seu exemplo de liderança seja padrão para os seus liderados, ele não está interessado senão em glorificar a Deus. A paixão por Deus e pela sua obra o consome. A indignação contra tudo aquilo que afeta a santidade de Deus provoca zelo nele. O líder usado por Deus não consegue ficar parado enquanto não completar a obra para a qual foi chamado, sem requerer qualquer crédito por ela. Esse tipo de liderança tem sido trocado pela influência através da propaganda e do marketing religioso, cuja finalidade não está em glorificar a Deus nem em preservar a santidade da Igreja, mas divulgar o poderio abençoador da denominação e o carisma dos seus líderes. Em algumas fachadas de templos, a foto do seu líder fundador é posta em evidência. Quem está sendo glorificado: Deus ou os que se dizem seus servos e obreiros?

Leitura complementar: Mateus 4:23; 22:34-40; Marcos 10:21; João 13:14,15; 6:66-71; 11:33-35.


Sensibilidade
Neemias 1:5,6

O que falta em muitos líderes da atualidade, acima de tudo aqueles que possuem grandes ministérios, isto é, um número muito grande de almas para cuidar, é a capacidade de estar ao lado do outro, ouvir as suas queixas, entender as suas dores, socorrê-lo nos seus problemas. Neemias demonstrava essa sensibilidade tão importante ao líder. Podemos crer que as palavras de Hanani também despertaram em Neemias profunda comoção pelos seus irmãos que padeciam no exílio ou dispersos (1:3-4). Logo, Neemias era sensível às necessidades das pessoas. Uma prova disso é a sua oração, onde ele ora pelos filhos de Israel (vs. 5,6). A paixão e o zelo por Deus devem despertar no líder uma profunda preocupação com as pessoas. O objetivo de Neemias era glorificar a Deus, mas isso é algo que necessariamente passa pelas pessoas. Um líder que não se compadece com o sofrimento dos outros jamais poderá servir plenamente a Deus.
O desejo e o chamado de Neemias era, além de reconstruir os muros, reunir os judeus como uma nação. No curso sobre liderança e integridade, o Dr. Shedd ensinou que ser líder é exercer deliberadamente influência dentro do grupo em direção ao alvo que soluciona problemas e necessidades dentro desse grupo. Disse, ainda, que a melhor maneira de exercer liderança não é pagando pra as pessoas virem para a Igreja, mas ajudando pessoas que não têm motivo para viver a descobrir soluções para a vida delas. Um bom líder consegue fazer isso. Para se envolver com as pessoas, cuidar delas e levá-las de um ponto a outro, líder precisa ter a habilidade de desenvolver bons relacionamentos, estimulando os outros a se motivarem a gastar tempo, estudo e esforço em seu crescimento espiritual e ministerial. Um líder sensível às pessoas é aquele que é sensível à voz do Espírito Santo e que tem o seu coração repleto do amor de Deus.

Leitura complementar: Marcos 2:27; 10:21; Mateus 23:3; 28:18-20; Lc 9:22-27; 18:29,30.


Confissão de pecados
Neemias 1:6-11

Mas Neemias não escondia o seu erro, ao contrário, ele estava pronto para reconhecer o seu pecado, confessá-lo e deixá-lo (vs. 6-11). Ele aprendeu um princípio importante para o líder: admitir os erros presentes para ter sucesso no futuro. E os próximos capítulos deixam bem claro que Neemias alcançou o sucesso no seu ministério e concluiu a obra para a qual Deus lhe convocara. Reconhecer seus erros e ser capaz de abandoná-los faz do líder uma pessoa com autoridade. Muitos pensam que reconhecer os próprios erros é sinal de fraqueza, e muitos líderes vivem uma vida hipócrita por medo de perder a autoridade diante dos seus colaboradores e a confiança deles. Mas com Neemias aconteceu o inverso. O capítulo 2 mostra que esse grande líder motivou as pessoas com o seu caráter e a sua visão contagiante, como veremos mais adiante.
Como líderes, possuímos um caráter que iremos passar adiante, seja no lar ou na Igreja. Se não aprendemos a valorizar e a praticar os valores eternos da Palavra de Deus, como esperamos que as pessoas vejam Cristo em nós ao ponto de reconhecerem a nossa autoridade como líderes? Reconhecimento e confissão de pecados é sinal de maturidade.  Líderes imaturos são pessoas em quem não podemos confiar. Os líderes maduros, espirituais, aceitam a Palavra do Senhor (1 Co 3:1-3). Os mestres serão avaliados por Deus com maior rigor (Tg 3:1), logo, a maturidade treinada e experimentada é fundamental para liderar. Um dos grandes líderes da Bíblia, o apóstolo Paulo, era alguém que possuía um conceito bastante equilibrado acerca de si mesmo. Ele tinha autoridade espiritual para oferecer-se ao mesmo como modelo a ser seguido pela Igreja (1 Co 4:16), mas também reconhecia a sua limitação humana e a sua propensão a pecar (1 Tm 1:15; Rm 7:12-25). Isso em nada diminuiu a autoridade de Paulo e o amor que lhe era devotado.

Leitura complementar: Filipenses 3:17; 1 João 1:8,9; Provérbios 28:13; Lucas 17:3,4; Tiago 5:16.


Vida de oração
Neemias 2:4

Neemias possuía o que falta a muitos líderes: uma vida dinâmica de oração. Desde o inicio do seu chamado, ele se colocou diante de Deus nas mais diversas situações (1:5-11; 4:9). Em suas orações Neemias lembra a Deus das suas promessas e intercede pelo povo (1:4-11). Diante do rei Artaxerxes, ele expôs a sua necessidade e, numa oração rápida, ele intercede pela resposta que receberia do rei ao seu pedido de ir reconstruir os muros de Jerusalém (2:4). Quando sitiado pelos seus adversários, Neemias ora mais uma vez pedindo auxílio (4:8,9). Posteriormente, encontramos toda a nação de Israel envolvida em oração de arrependimento e confissão dos seus pecados (cap. 9). Um líder que ora reconhece a sua dependência de Deus e contagia aqueles que com eles estão a orarem também.
Os apóstolos desde o início da sua caminhada pós-ascensão de Jesus demonstraram grande dependência de Deus, o que podemos ver na escolha de Matias como substituto de Judas (At 1:23-26). Em Atos 13:1-5 vemos como não se escolhe líderes sem a direção do Espírito Santo. Essa dependência nos ajuda a escolher pessoas de boa reputação, aprovadas pela Igreja e pela sociedade (At 16:12). Quando não oramos, quando tomamos decisões arbitrárias baseadas nos nossos interesses institucionais, surgem os problemas. A oração, a busca incessante pela direção de Deus, traz a segurança que o líder precisa de estar fazendo a coisa certa. As suas metas precisam estar alinhadas com os planos de Deus para a sua Igreja, alicerçadas sobre a Bíblia, de modo que as pessoas se sintam seguras em segui-lo. Sem intimidade com a Palavra de Deus e com o Deus da Palavra, o que resta é a sabedoria e o poder humanos. A oração nos conforma aos valores e aos desígnios de Deus, uma vez que nos despimos das nossas barreiras pessoais e permitimos que Ele trabalhe na nossa vida por completo.

Leitura complementar: Salmo 4:3; 37:7; 65:2; 66:18; Isaías 65:24; Mateus 7:8; 21:22; Lucas 18:1-8.


Vida sacrificial
Neemias 2:5

A vida de Neemias nos traz um princípio importante para a nossa liderança atual: o líder precisa ter uma vida sacrificial. Neemias saiu de uma alta e bem paga posição no reinado de Artaxerxes, rei da Pérsia, para implementar a visão que Deus lhe dera num terreno totalmente adverso, sem conforto, repleto de dificuldades, sofrendo perseguições, tendo de lutar contra o inimigo que o perseguia. Que líder hoje aceitaria deixar o conforto do seu lar, a prosperidade do seu emprego, uma posição confortável na sua congregação para seguir uma visão que certamente lhe traria dor e sofrimento? Poucos. Mas Neemias o fez, porque o que estava em questão não era a sua realização pessoal, mas a glória de Deus. Neemias confiava no Deus que lhe chamara, sabia que Ele não o abandonaria, que estaria sempre presente em todos os momentos, bons ou ruins. Neemias se sacrificou para que o Nome do Senhor fosse exaltado.
O problema de muitas pessoas que não possuem essa visão sacrificial, que não se entregam totalmente à obra de Deus é porque não são vocacionadas para a área em que estão atuando. Aquele que é vocacionado, que possui o chamado para liderar, faz por querer e por reconhecer o valor da obra que realiza. Quando não vocacionados, desistimos assim que os problemas começam a surgir. Paulo não somente era um líder vocacionado, como conhecia a natureza da sua vocação e não abria mão da sua missão, por maiores que fossem as suas tribulações (2 Co 4:16). É necessário permanecer firmes para produzir frutos (Lc 12:45; Ef 6:13; At 20:24). Nós seremos recompensados de acordo com o sacrifício e fidelidade com que servimos o Senhor, de modo que a nossa recompensa será diferente na eternidade. O tanto que nos sacrificamos seremos galardoados. Investir no hoje é um investimento para o futuro, embora não devamos jamais esperar algo em troca da parte de Deus.

Leitura complementar: 1 Pedro 2:24; 3:15; Salmo 44:22; 1 Coríntios 15:31; 2 Coríntios 4:10.


Planejamento
Neemias 2:4-8

Diante da necessidade apresentada e da possibilidade de empreender uma grande obra para a glória de Deus, Neemias apresentou ao rei os seus planos (2:4-8). Neemias não sairia dali sem saber o que fazer, sem ter uma estratégia montada para a implementação da visão que Deus lhe dera. Ele possuía planos bem definidos e implementou todos eles ao reconstruir os muros de Jerusalém. Isso nos mostra que não basta ter uma visão correta daquilo que precisa ser feito, é preciso planejar. O planejamento não envolve apenas o “como” fazer, mas também diz respeito a todas as implicações e as consequências daquilo que faremos. Muitos líderes não pesam esses dois fatores e se lançam na obra sem contar com o que encontrarão pela frente. Além de muitas vezes tecnicamente despreparados, também são espiritual e moralmente frágeis. Além de estar disponível, é preciso conhecer a natureza da obra. Quando um jovem demonstrou vontade de seguir a Jesus, logo foi informado das circunstâncias presentes no ministério (Lc 9:57,58).
Sem planejamento, corremos o risco de soltar o arado e olhar para trás, o que não é uma atitude correta para o Reino de Deus (Lc 9:61). O líder que é aprovado por Deus está sempre disponível e pronto para se encaixar na posição que Deus o colocou. Ele não vai forçado, mas faz por amor. Sabe das consequências, mas planeja o seu caminho sob a direção do Espírito Santo. Neemias sabia para onde estava indo, as condições do ambiente, a situação caótica que encontraria pela frente. Mas ele planejou ser vitorioso porque estava comprometido com algo muito maior que ele e tinha fé naquele que ia adiante. Um erro grave é achar que não precisam planejar, porque o crente não deve se preocupar com o dia de amanhã, porque o Espírito Santo trará a direção certa. O que acontece? Resultados medíocres, frutos da falta de planejamento.

Leitura complementar: 1 Coríntios 12:16; Filipenses 2:19,20; Lucas 14:28,29; Salmo 37:3-7.


Visão contagiante
Neemias 2:11-16

Uma das maiores características da liderança de Neemias era a sua visão contagiante. Ao chegar a Jerusalém, Neemias encontrou uma cidade assolada e um povo disperso, dividido e desanimado; muitos estavam no cativeiro e os que ali se encontravam, tentavam levar a obra adiante. Mas está claro que aquele povo não contava com uma liderança eficaz (2:11-16). Neemias expôs a situação (v. 17) e convocou o povo a agir. A visão que Deus dera a Neemias era contagiante e por isso o povo respondeu positivamente a sua convocação (cap. 3). Este é um exemplo para a nossa liderança: uma visão contagiante e apaixonada, baseada em fé e esperança, em uma vida de amor a Deus e à sua obra. Esse é o tipo de líder que as pessoas seguem de boa vontade. Neemias é um grande exemplo de esperança e ânimo, mesmo diante das dificuldades. Mesmo com toda a oposição que enfrentou, jamais desanimou, muito pelo contrário: estava sempre firme para motivar seus companheiros a prosseguirem na edificação.
Assim como Neemias, um líder da igreja do Senhor precisa ter esperança para repassá-la aos seus colaboradores. É fácil ter esperança quando tudo vai bem, quando as coisas estão saindo conforme o planejado, quando todas as metas e objetivos estão sendo alcançados e não há oposição por parte de nada ou ninguém. O apóstolo Paulo enfrentou grande dificuldade na igreja da Galácia, lutando contra a heresia judaizante que estava colocando a perder todo o seu trabalho de ensino (Gl 3:4; 4:11). Além disso, a luta com a igreja de Corinto era constante. Mas Paulo sabia que a obra era do Senhor e por isso não desanimava (2 Co 4:1,16). Além disso, ele conseguia enxergar por entre as nuvens e ver que a suprema meta superava todo e qualquer sofrimento (v. 17). Neemias era um homem de oração e confiava no cumprimento da Palavra de Deus para a sua vida.

Leitura complementar: João 8:14; Colossenses 3:1; Mateus 28:19,20; 1 Coríntios 11:1; Lucas 5:10.


Compromisso incondicional
Neemias 2:19,20

Outro princípio da liderança de Neemias era o compromisso incondicional com a obra do Senhor, o que fez com que ele agisse com firmeza diante dos seus adversários. Desde o início Neemias encontrou pessoas que se opunham a ele, apresentando-lhe dificuldades, chamando-o de irresponsável (2:19). Mas ele não estava ali sozinho, Deus estava com ele, não havia o que temer (2:20). Seu principal adversário, Sambalaque, de modo algum estava satisfeito com a reedificação dos muros e passou a representar forte oposição à obra de Neemias (cap. 4). Durante a edificação, Neemias encontrou várias ameaças : o desencorajamento, (4:1-6), o ataque dos seus inimigos (4:7-23), a desunião interna (5:1-9) e acusações falsas (6:1-14) . Mas ele não se deixava intimidar e prosseguiu até terminar o muro (6:15; 7:4). Nem todos os personagens bíblicos terminaram bem a sua carreira, muitos foram mortos de forma cruel, como lemos em Hebreus 11. Apenas 15% terminaram de forma tranquila.
Sempre haverá tribulação, perseguição, barreiras, principalmente no início. Para Deus não importa tanto como começamos, mas como iremos terminar. O que decidirá o nosso sucesso será o nível de compromisso com a obra de Deus e a nossa integridade. Assim como Neemias, José enfrentou duras penas até chegar ao ponto planejado por Deus. Mesmo diante de todas as circunstâncias adversas, ele não se dobrou, não negociou os seus valores. Temos uma reação natural de pagar o mal com o mal, entretanto Deus nos convoca a uma resignação santa, fruto de uma fé confiante, tendo a certeza de que Ele está no controle (Rm 8:28). A Igreja precisa de muitos Neemias e muitos Josés, líderes bons que glorificaram a Deus. O líder só será bom se estiver sendo liderado pelo Senhor. O seu primeiro compromisso é com Jesus e a sua Palavra. Assim, poderá reconstruir o que foi derrubado e construir coisas ainda melhores.

Leitura complementar: 1 Timóteo 3:1-13; Tito 1:5-10; Romanos 3:23; 5:12; 1 Coríntios 6:9-11; Gálatas 5:17.


Estratégia
Neemias 4:16-23

O que leva muitos ministérios ao fracasso e diversos pastores ao estresse e ao esgotamento físico e mental é a falta de uma estratégia que lhes garanta a segurança de estar fazendo tudo da maneira correta, encaminhando-se para o alcance dos objetivos. Outro princípio forte da liderança de Neemias estava na sua capacidade de liderar estrategicamente. Ele mostrou ao rei a sua estratégia para socorrer o seu povo e reedificar a sua cidade (2:1-8). Diante da investida dos seus adversários, Neemias tomou decisões estratégicas para proteger a cidade (4:16-23). Ele também tomou medidas contra a usura (5:1-12). O líder não pode prosseguir sem uma estratégica que garanta segurança na execução da obra do Senhor. Muito mais que boa vontade, é necessário saber como fazer as coisas. Vemos como Neemias delegou tarefas e colocou cada pessoa no seu lugar, aproveitando todos os talentos disponíveis. Deus deu talentos e dons à sua Igreja para treinar e capacitar os seus membros para o ministério (Ef 4:7-16).
O líder precisa treinar os seus liderados. Pessoas treinadas para exercer qualquer função no corpo de Cristo serão mais bem sucedidos que aquelas que não foram. Se existe a vocação, deve existir o desenvolvimento dessa vocação por meio de treinamento. Alguns recebem o talento e o enterram (Mt 25:14-31). Algo que deve estar sempre em mente é: um lugar para cada pessoa, cada pessoa no seu lugar. Colocar as pessoas certas nos lugares certos é o primeiro passo para pensar estrategicamente. Após isso vem a avaliação das necessidades, a organização dos meios (pessoas, estruturas, finanças, etc.) e a implementação. Jesus cuidou de todas as etapas do seu ministério, separando e ensinando homens, capacitando-os, dando-lhes uma missão e garantindo que eles a cumpririam. O mesmo fizeram os seus apóstolos e tem sido assim até aos dias de hoje.

Leitura complementar: Atos 2:42; 1 Timóteo 2:4; Lucas 14:28-33; 16:1-8; Mateus 13:44-52; Lucas 19:11-26.


Vida exemplar
Neemias 5:1-19

Neemias tinha uma vida reta e exemplar. Ao definir medidas contra a usura, Neemias tratou logo de ser exemplo aos seus companheiros (5:1-19). Ele não era como muitos líderes que não pautam sua liderança pela integridade, antes se tornam pessoas sem confiança, incapazes de ter por muito tempo as pessoas ao seu lado. Mesmo diante das investidas dos seus inimigos e do descrédito, Neemias podia contar com a participação de todos naquela obra, porque era uma pessoa íntegra e inspirava confiança. O que fazia de Neemias um líder excepcional era a consciência da sua vocação. Ele se destacava como líder e como exemplo de caráter porque sabia em quem cria, conhecia o valor da Lei de Deus e estava certo de que havia uma missão divina para a sua vida. As pessoas que mais se destacam no ministério são aquelas que sabem que Deus as escolheu com um propósito. Assim como Cristo, elas vivem uma vida útil, perseverante, sendo responsáveis e fiéis (Rm 5; 2 Tm 2:2). O fruto do Espírito é percebido em suas atitudes.
O líder que possui uma vida exemplar é alguém que deixa um legado, um chamado a utilizar bem a nossa vida, a não desperdiçá-la, mas a olhar para Cristo (Hb 13:7). Aquilo que eles fizeram deixa consequências após subirem para a glória. O que temos deixado? Devemos obediência àqueles líderes que merecem ser obedecidos, pois muitos não possuem caráter nem autoridade para nos servir como exemplo. Jesus é digno de ser imitado em todas as coisas. Ele possuía equilíbrio entre autoridade e poder. Só podemos ser líderes se tivermos autoridade, mas todos querem apenas o poder. Não vamos entrar no céu pelo poder que temos, mas pela nossa obediência à Deus (Mt 7:21). Líderes que glorificam a Deus jamais se esquecem do equilíbrio entre autoridade e poder. Do seu exemplo nascem crentes inspirados a dar a vida pela obra do Senhor.

Leitura complementar: 2 Coríntios 3:2,3; Mateus 5;16; Salmo 139:23,24; 1 Timóteo 4:12; 1 Pedro 2:12.


Líder educador
Neemias 8:1-12,18

Neemias era um líder educador. A reconstrução de Jerusalém não era apenas um trabalho estrutural e físico, mas espiritual. Muitas vezes queremos melhorar as nossas estruturas e nos esquecemos do fundamental: o ensino da Palavra de Deus. Qualquer estrutura só estará bem firme se estiver fundamentada na Bíblia. Neemias fez o povo lembrar a lei do Senhor (8:1-12,18). Um povo sem educação estará fadado a repetir sempre os mesmos erros. É preciso que o líder esteja sempre disposto a educar, a lembrar aos seus liderados da vontade de Deus para a Igreja. A falta de conhecimento da Palavra é o que leva muitas pessoas a pecarem e se distanciarem do ideal de Deus (Salmos 119:11). Jesus foi um Líder educador por excelência. Ele chamou 12 homens improváveis, dentre as pessoas comuns e os ensinou. Se Jesus não tivesse chamado aqueles homens, eles teriam sido totalmente esquecidos na história.
O líder é aquele que pega uma pessoa comum e transforma a sua realidade, estimulando-a a realizar grandes coisas para Deus. Ele precisa investir em pessoas, capacitando-as para a obra do Senhor. O fracasso de alguns liderados pode estar ligado a tipo de educação dada pelo seu líder. Além do conhecimento, o líder precisa ter o respeito dos seus liderados. Muitos líderes não são seguidos nem obedecidos porque não criam uma unidade entre seus liderados, não são um com eles e não servem como modelo de vida cristã. Se o conhecimento não gerar comunhão entre as pessoas, não terá surtido o efeito esperado. O líder precisa estar apto para ensinar, o que pressupõe aptidão para aprender. E não há ensino melhor que o testemunho de uma vida coerente com aquilo que ensina. Quanto tempo passamos com aqueles que lideramos? O que sabemos sobre seus problemas e seus sonhos? Que exemplo lhes temos dado? O líder educador é aquele que fará a diferença.

Leitura complementar: 1 Timóteo 3:2; Romanos 12:6-8; Mateus 28:20; Provérbios 9:10; Deuteronômios 6:5-7; 2 Timóteo 3:16,17.


Aversão ao pecado
Neemias 13:23-29

Por ter no coração a Palavra de Deus como bússola para a sua vida e o seu ministério, Neemias era alguém que tinha aversão ao pecado (13:23-29). Neemias faz o povo lembrar de Salomão para que desista de pecar contra Deus. Um líder não pode ser conivente com o pecado, não pode permitir que no meio dos seus colaboradores existam pessoas que estejam contaminando os outros com práticas contrárias ao ideal de Deus. Um pouco de fermento leveda toda a massa (Gálatas 5:9). Para controlar o ambiente em que atua e influenciar de maneira positiva as pessoas, o líder precisa reparar as falhas no se caráter mediante a atuação do Espírito Santo e a prática da Palavra de Deus. Em Mateus 13:1,14, vemos que a falha dos líderes não está no seu conhecimento, pois existem muitos homens sábios na Palavra de Deus que caem em pecado e são péssimos exemplos de liderança.
O problema real está no caráter, nos valores pessoais que nem sempre são valores bíblicos. Podemos lembrar aqui de outro grande líder: Moisés. Sendo criado e educado no palácio do faraó, chegou um momento na vida de Moisés em que ele precisava escolher o tipo de líder que gostaria de ser. Ele escolheu não ser faraó com todo o poder e as regalias que o cargo lhe confeririam, mas ser desprezado e maltratado guiando o povo de Deus (Hb 11:23-29). Moisés não tinha em vista o que era propriamente seu, não atentou para a lógica mundana da carne, mas anelava por uma recompensa superior (Hb 11:39,40). A aversão ao pecado é consequência do viver no Espírito e possui duas mãos: a primeira é deixar de fazer o que é errado; a segunda é passar a fazer o que é certo. O líder precisa escolher onde ele lançará a sua semente: na carne ou no Espírito: “Porque quem semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção; mas quem semeia no Espírito, do Espírito ceifará a vida eterna” (Gl 6:8).

Leitura complementar: Romanos 3:23; 7:14-17; Isaías 64:6; 1 João 3:4-8; Salmo 32:1-5; Efésios 4:26.




[1] Parte das considerações feitas aqui são fruto do curso Liderança e Integridade, ministrado em 07 de abril de 2008, na Igreja de Cristo no Brasil, em Natal, Rio Grande do Norte, com a participação do Dr. Russel Shedd e outros preletores.





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