quinta-feira, 20 de outubro de 2016

ERROS A SEREM EVITADOS NA LEITURA E NO ESTUDO DA BÍBLIA



            Aqui aprenderemos formas geralmente aceitas pela Igreja cristã de interpretação das Sagradas Escrituras. Não é o objetivo deste estudo apresentar subsídios para estudos teológicos aprofundados, que requereriam o estudo dos manuscritos originais, entre outras coisas, mas oferecer ao estudante leigo e/ou iniciante da Palavra de Deus condições de entender o que a Bíblia nos diz na nossa própria língua. Uma das maiores barreiras para esta empreitada abençoada não é nem tanto o não saber como fazer, mas o fazer da forma incorreta. Existem muitos erros cometidos na interpretação da Bíblia, não somente por aqueles que não possuem ainda familiaridade com ela, mas também, e principalmente, por muitos que já a estudam a anos e o fazem cometendo sempre os mesmos erros. Então, antes de aprendermos o “como fazer”, vamos aprender o “como não fazer”.
            Alguns dos erros a serem evitados pelo estudioso da Bíblia são:



Fundamentalismo versus literalismo

            Algumas correntes cristãs criticam a leitura “fundamentalista” da Bíblia por confundirem-na com a leitura literalista. Para eles, o fundamentalismo se atém ao texto sem levar em conta a interpretação, praticando a Bíblia ao pé da letra. Esta informação é inverídica. Na verdade, o fundamentalismo e o literalismo se diferem bastante. O fundamentalismo foi um movimento americano surgido na primeira metade do século XX e buscava manter um firme compromisso com certos “fundamentos” da fé cristã, como uma reação à teologia liberalista ou modernista que se tornavam bastante populares nas igrejas e seminários protestantes. Dessa forma, o fundamentalismo defende as principais verdades bíblicas aceitas por católicos e protestantes, como os acontecimentos miraculosos registrados na Bíblia, a concepção e o nascimento virginal de Cristo, a sua ressurreição e a sua segunda vinda gloriosa. Os liberais ou modernistas rejeitarão essas crenças (GRENZ, GURETZKI, NORDILING, 2005). Logo, o fundamentalismo é sadio, ele defende as principais doutrinas cristãs contra as inovações teológicas que pretendem retirar da Bíblia a sua inspiração divina, tratando-a apenas como um livro de religião, histórias e fábulas.
            O literalismo também tem a sua funcionalidade. De acordo com os autores supracitados, o literalismo busca uma “Fidelidade rigorosa a determinada palavra ou significado, tanto na interpretação como na tradução de textos bíblicos”. O seu objetivo é compreender a intenção do autor dentro do próprio texto e do seu contexto, não para os dias de hoje, mas para os leitores originais para os quais o texto fora escrito. Busca-se o significado mais claro e evidente do texto, segundo a opinião do intérprete, alcançando o máximo de exatidão. Então onde está o erro a ser evitado? O erro está em não interpretar corretamente o que o texto diz, deixando de levar em conta as figuras de linguagem da Bíblia, produzindo uma interpretação equivocada. Aqueles que criticam o fundamentalismo e o literalismo, geralmente não levam ao pé da letra o que deveriam levar. Vamos a dois exemplos:

1) João 4:16-18. O texto completo (1-18) mostra o encontro de Jesus com a mulher samaritana. Em seu diálogo, o Senhor Jesus demonstra sua onisciência, demonstrando já conhecer a vida daquela mulher. Contra o fundamentalismo e o literalismo, alguns estudiosos afirmam que os versículos 16 a 18 não devem ser interpretados de forma literal, isto é, a samaritana não era uma prostituta nem alguém com um sério problema de relacionamento que já possuíra vários maridos, mas que Jesus estava falando simbolicamente, referindo-se à religião pagã dos samaritanos que adoravam diversas divindades. Todavia, todo o texto nos mostra claramente que a fala de Jesus dizia respeito á vida pessoal da samaritana, e isso é comprovado mais adiante, no v. 29. Sendo assim, a interpretação aqui deveria ser literalista.


2) Mateus 5:27-32. Este é um texto que não deve ser compreendido de forma literalista, no sentido de tomá-lo ao pé da letra. Jesus não está dizendo que devemos arrancar o olho fora ou cortar a mão. Ele está usando esses termos de maneira simbólica para demonstrar como deve ser o nosso trato com o pecado, porque o pecado não é culpa nem do objeto do nosso desejo nem do nosso olho ou da nossa mão, mas do nosso coração. Leia Marcos 7:21,22 e veja como está no coração o que faz os olhos desejarem e as mãos pegarem. Então devemos arrancar o coração? Certamente que não! O remédio verdadeiro é a conversão e a santificação.


Espiritualização indevida

            A leitura antifundamentalista das Escrituras acaba pendendo para dois lados: o liberalismo, que veremos mais adiante, e a espiritualização dos textos. Espiritualizar (ou alegorizar) é ir além daquilo que o texto realmente diz na tentativa de encontrar um sentido mais profundo. Muitas igrejas pentecostais e, acima de tudo, neopentecostais, costumam usar desse artifício em seus ensinos e pregações. Esse tipo de leitura retira totalmente o sentido original do texto e leva-o a dizer aquilo que o estudioso ou pregador deseja que ele diga. Por exemplo, usar o texto da passagem do povo hebreu pelo deserto para dizer que estamos enfrentando um deserto na nossa vida, mas Deus está conosco e vai nos dar a vitória. Ou o de Davi e Golias para falar dos nossos inimigos ou das nossas dificuldades. Embora seja uma aplicação prática do texto, não é sobre isso que ele fala. Deus não vai abrir o mar na nossa vida, nem vai fazer cair maná do céu, muito menos derrubar as muralhas como fez em Jericó. São interpretações espiritualizadas e equivocadas. É preciso diferenciar o que a Bíblia diz à nação de Israel e o que diz a nós, Igreja.


O liberalismo teológico e a neo-ortodoxia

            O pior erro na interpretação da Bíblia é o liberalismo teológico. Ele desconstrói praticamente tudo aquilo em que os cristãos ortodoxos acreditam. O liberalismo teológico extrapolou questões meramente teológicas sobre a autenticidade da Bíblia e a existência de Deus, como apregoavam os deístas. Ele infiltrou-se mesmo nas confissões ortodoxas, que creem na existência de Deus, na inspiração das Escrituras e na divindade de Cristo, bem como na historicidade e na veracidade dos milagres Bíblicos, do nascimento virginal de Jesus, na sua ressurreição dentre os mortos, na sua volta gloriosa para o resgate da sua Igreja e o julgamento final. Tal liberalismo, reconhecendo as Escrituras, negam-na através de suas práticas antibíblicas, que não se resumem à criação de heresias, mas que se estendem à moralidade e à ética cristãs. Temas polêmicos como o aborto, a eutanásia, a pena de morte e o homossexualismo são defendidos por tal teologia e por aqueles que dela se servem, segundo o que lhes for conveniente. Para os liberais, não existem milagres na Bíblia, a criação do mundo e do homem são baseadas em mitos, o dilúvio não existiu nem a passagem do Mar Vermelho. Eles creem que a Bíblia não é a Palavra de Deus e está repleta de erros.
            A neo-ortodoxia (nova ortodoxia) vinha resgatar o lugar de Deus e da Bíblia na vida da Igreja, colocando freios ao idealismo pós-moderno e liberal, bem como pós-neoliberal, para trazer a cristandade de volta à forma correta de entender e viver a sua fé. Os neo-ortodoxos, segundo Nicodemus (2012, p. 87), levantaram-se contra a rigidez e o ceticismo do liberalismo, que não deixava a voz de Deus ser ouvida através da Bíblia. Os neo-ortodoxos, porém, mantêm a visão equivocada de que a Escritura está repleta de erros e contradições, afirmando que, ainda assim, Deus fala hoje. Segundo eles, “O maior de todos os milagres é exatamente que Deus nos fala através de palavras imperfeitas, erradas, imprecisas e equivocadas desse livro” (NICODEMUS, idem). Sem descartar a posição dos liberais, a neo-ortodoxia desejava manter a relevância bíblica, criando um paradoxo teológico insustentável à luz da ortodoxia. Eles criam que a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas “contém a Palavra de Deus”, que deve ser descoberta pelo intérprete. Um grande equívoco.



Eisegese ou Exegese?

            Para interpretar a Bíblia é preciso mergulhar em seu conteúdo para extrair dele o seu real significado, aquilo que o autor quis dizer para os leitores originais. Somente após fazer este caminho, chegando a uma interpretação correta do texto, é podemos aplicá-lo corretamente na nossa própria realidade. Dificilmente textos como Deuteronômio 21:18-21, Levítico 19:27 e Números 5:1-4 terão algum significado para nós nos dias de hoje. Por outro lado, não podemos espremer a Bíblia para forçá-la a dizer o que queremos que ela diga. Os espíritas hão de encontrar em suas páginas textos que supostamente apóiam a teoria da reencarnação. Os teólogos da prosperidade irão até ela e tirarão os textos que, segundo eles, comprovam que Deus quer que fiquemos todos financeiramente ricos. Os teólogos da libertação acharam que a libertação do homem pouco ou nada tinha a ver com a salvação da alma, mas com a libertação social. Todos mergulharam na Bíblia e a interpretação do seu ponto de vista, não do que Deus havia escrito.
            Este é um dos maiores problemas na leitura e na interpretação da Bíblia, especialmente para os iniciantes. O leitor está passando por problemas pessoais e tem se sentido triste e oprimido. Ele então abre a Bíblia e busca nela textos que digam algo ao seu coração. Claro que encontrará, mas nem sempre será o texto correto. Sempre nos aproximaremos da Palavra de Deus em busca de respostas para as nossas dores e crises existenciais, o que não é errado. Mas é necessário fazer uma interpretação correta antes de aplicarmos qualquer texto à nossa vida pessoal. Esse movimento errôneo ao qual estamos nos referindo chama-se “eisegese”. Em seu livro, Correia Júnior (2006, p. 9), traz como primeiro passo da análise do texto bíblico a eisegese. Ele explica que esta palavra vem do grego, sendo formada por eis (“para dentro”) + egese (“movimento”, “condução”). É aquilo que, segundo o autor, motiva-nos a buscar o texto bíblico, o interesse que nos impulsiona às Sagradas Escrituras. Embora seja verdade que ninguém se aproxima do texto sem fazer questionamentos da vida cotidiana, o autor erra ao afirmar que “São nossos interesses hermenêuticos que darão início à análise e, provavelmente, percorrerão todo o trabalho até a reflexão hermenêutica final” (idem). Essa forma equivocada de interpretação bíblica é que tem gerado inúmeros equívocos interpretativos e não poucas heresias. Quem assim procede, não está interessado em conhecer o que a Bíblia diz, mas encontrar apoio bíblico para aquilo que se quer dizer. Então, o que é correto fazer ao abrirmos a Bíblia para lê-la e interpretá-la? O correto é fazer a “exegese”, como veremos mais adiante.


A Bíblia serve ao que ela se propõe

            A Bíblia trata sobre a Revelação de Deus, aquilo que Ele escolheu nos revelar acerca da sua pessoa e da sua vontade. Nela encontraremos a direção de Deus para todas as áreas da nossa vida e até para a nossa eternidade. Logo, a Bíblia contém respostas para tudo dentro daquilo que ela se propõe a responder. Não adianta buscarmos na Palavra de Deus explicações para eventos científicos, pois não encontraremos. De onde vêm os dinossauros? A Bíblia não explica.
            A Bíblia também não se propõe a ser um livro de sortes. Não existe nada de místico nela. Ela não é um talismã. Algumas pessoas abrem a Bíblia a esmo, apontam para ela, lendo o primeiro versículo onde o dedo tocar. Ao fazerem isso, creem que Deus está falando com elas naquele momento. Não importa o tempo e o texto, a Bíblia sempre será Deus falando conosco, mas não é assim que devemos fazer. Não podemos escolher um texto aleatoriamente para segui-lo sem estudá-lo primeiramente, pois corremos inúmeros riscos. O primeiro é de não ter a real vontade de Deus para nós naquele momento, o segundo é fazer a coisa errada, dependendo do texto que escolhemos. Costuma-se dizer que uma pessoa que estava passando por terríveis problemas pegou a Bíblia e a abriu aleatoriamente, lendo o versículo em que o seu dedo pousou. Ela leu Mateus 27:5: “Então Judas jogou o dinheiro dentro do templo e, saindo, foi e enforcou-se”. Julgando ter lido o texto errado, fez nova tentativa. O seu dedo caiu em Lucas 10;37, bem onde diz “Vá e faça o mesmo”.
            Não adianta ter a Bíblia aberta em casa no Salmo 91, porque ela não vai proteger o nosso lar contra coisa alguma. Não adianta recitar o Salmo 23 (ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum...) ao passar por uma rua escura de madrugada, porque isso não vai nos proteger contra assaltos. Não resolve nada, no momento da aflição, dizer: Tudo posso naquele que me fortalece. Os textos bíblicos não são mantras! A Palavra de Deus foi escrita para ser lida, estudada, compreendida e obedecida, isto é: ela precisa se transformar em prática na nossa vida. Muitos leitores se atém somente ao livro dos Salmos, enquanto outros preferem ler apenas os Evangelhos. Tanto um quanto outro estão em busca daquilo que é do seu interesse. Mas a Bíblia deve ser entendida como um todo. Os Evangelhos são o cumprimento do que foi escrito nos outros livros do Antigo Testamento. As epístolas são as diretrizes para a Igreja. muitos pregadores se atém apenas aos livros do Antigo Testamento e sustentam a fé da Igreja apenas com eles, acima de tudo os textos que falam de promessas. Mais adiante veremos mais a fundo essa questão.

            Outra forma errada de lidar com a Palavra de Deus é explicá-la baseados em “achismos”. Já participei de alguns cursos bíblicos onde as pessoas eram indagadas a respeito de algum tema bíblico e iniciam as suas explicações afirmando categoricamente: “Eu acho...”. Após essa declaração, as explicações que se seguem não são acompanhadas de qualquer base bíblica. Por exemplo: “Eu acho que após a morte ficamos num estado de suspensão espiritual aguardando a volta de Jesus”; “Eu acho que ninguém pode afirmar que é salvo”; “Eu acho que a pessoa não peca nunca mais depois de convertida”, “Eu acho que a salvação está só em Jesus”. São muitas afirmações, algumas verdadeiras, outras falsas, mas todas desprovidas dos devidos textos bíblicos. Tudo o que afirmamos, falamos, escrevemos ou ensinamos a respeito da Palavra de Deus deve ter base bíblica sólida. Não basta dizermos que achamos que vamos para o céu, é preciso comprovar isso através da Bíblia.


O perigo da leitura tendenciosa

Certo dia, ao orar, veio-me à mente o livro do profeta “Jeremias 33 e 34”. Após terminar a oração, peguei a Bíblia para ler e constatei que não existia versículo 34 no capítulo 33 e que este só ia até o versículo 26, mas o versículo 3 do capítulo 33 estava sublinhado. Está escrito: “Invoca-me, e te responderei; anunciar-te-ei coisas grandes e ocultas que não sabes”. Somente este versículo bastaria para me alegrar durante o dia inteiro e me colocar a espera da minha “vitória oculta” que o Senhor iria me trazer. Mas eu sabia que o que Deus queria era que eu lesse os capítulos 33 e 34 inteiros. E foi o que eu fiz. Descobri que as coisas ocultas que Deus queria revelar ao profeta Jeremias eram, na verdade, o pecado do povo de Israel e a forma como o Senhor os entregaria nas mãos dos caldeus, por conta da sua desobediência aos seus mandamentos. Com o objetivo santo e soberano de corrigir e purificar o seu povo, Deus retribuiria com juízo o mal que eles estavam causando. O Senhor diz a Jeremias: “Eis que darei ordem, diz o Senhor, e os farei tornar a esta cidade, e pelejarão contra ela, tomá-la-ão e a queimarão a fogo; e as cidades de Judá porei em assolação, de sorte que ninguém habite nelas” (34:22).
Essa experiência me lembrou o quanto somos tendenciosos a buscar versículos na Bíblia que vão ao encontro das nossas necessidades, e dizemos que Deus falou, revelou e confirmou nossos anseios e questionamentos. Mas a Bíblia deve ser lida em todo o seu contexto e o versículo que escolhemos deve dizer aquilo que ele realmente diz e não o que queremos que ele diga. Deus não vai usar a sua Palavra de forma equivocada e até mesmo deturpada para nos comunicar algo. Pecamos por nossa ignorância ou por má fé. Além de contar com a iluminação do Espírito Santo na nossa leitura da Bíblia, é muito interessante aprendermos uma ciência interpretativa chamada Hermenêutica, que nos ensina como fazer a correta interpretação de um texto bíblico.


REFORÇANDO O APRENDIZADO


1) Busque em dicionários bíblicos ou na Internet o significado do seguintes termos: alegoria, deísmo (deísta), ortodoxia, nascimento virginal, eutanásia, pós-neoliberal, ceticismo, paradoxo.

2) O que é a eisegese e qual o seu risco para o estudo da Bíblia?

3) Por que o liberalismo é nocivo ao estudo das Sagradas Escrituras?

4) Qual a visão neo-ortodoxa da Bíblia?

5) Quê textos bíblicos você sempre leu ou escutou alguma pregação de forma espiritualizada e fora do contexto?

6) Quais os benefícios de uma leitura fundamentalista da Bíblia?

7) Na sua opinião, qual a maneira mais incorreta de se estudar a Bíblia?

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