sexta-feira, 23 de setembro de 2016

HERESIA E APOSTASIA: O LIBERALISMO E A NEO-ORTODOXIA




1 INTRODUÇÃO

            Não é preciso voltar os olhos para os tempos idos do Iluminismo ou do Modernismo para compreender as consequências negativas causadas pelo liberalismo à teologia e à vida da Igreja de Cristo. Tais consequências não dizem respeito apenas ao modo de enxergar a Bíblia e o Deus da Bíblia, mas também a forma como certos grupos cristãos passaram a viver a sua fé na prática cotidiana. Se o liberalismo teológico enxerga Deus a partir de pressupostos meramente históricos e filosóficos, tira dele a sua essência divina e aproxima-o do ideal científico, no qual chega a negar-se a sua existência. Se Deus é um ser tão somente imanente e coexiste nos seres e nas coisas, deixa de ser transcendente, moral e relacional. A ideia da Queda é abolida e, como desejam os cientistas sociais e da mente, o pecado inexiste.
            O liberalismo teológico extrapolou questões meramente teológicas sobre a autenticidade da Bíblia e a existência de Deus, como apregoavam os deístas. Ele infiltrou-se mesmo nas confissões ortodoxas, que creem na existência de Deus, na inspiração das Escrituras e na divindade de Cristo, bem como na historicidade e na veracidade dos milagres Bíblicos, do nascimento virginal de Jesus, na sua ressurreição dentre os mortos, na sua volta gloriosa para o resgate da sua Igreja e o julgamento final. Tal liberalismo, reconhecendo as Escrituras, negam-na através de suas práticas antibíblicas, que não se resumem à criação de heresias – como existem nas Testemunhas de Jeová, no Mormonismo ou no Catolicismo Romano – mas que se estendem à moralidade e à ética cristãs. Temas polêmicos como o aborto, a eutanásia, a pena de morte e o homossexualismo são defendidos por tal teologia e por aqueles que dela se servem, segundo o que lhes for conveniente.
            A tentativa de tornar a fé um produto aceitável em um mundo dominado pela ciência e pela tecnologia, afastou e ainda tem afastado os cristãos da genuinidade da pregação evangélica, aceitando-se abrir mão da doutrina correta para abraçar uma nova forma de pensar Deus e a sua Palavra. O problema central parece ser a iluminação da Igreja pelo mundo, com suas crenças e valores, quando deveria ser o contrário. Neste ponto, lembrar do fundamentalismo teológico e muitos dos seus pontos obscuros é compreender a tentativa de alguns grupos religiosos de manter a crença correta em meio às influências modernistas perniciosas, que tendem a abrir mão do que é ortodoxo para lançar-se a todo vento de doutrina. Era necessária, então, uma nova ortodoxia, que seria, na verdade, uma volta às origens da fé genuinamente bíblica. Essa nova ortodoxia, porém, não seria suficiente para barrar o avanço das heresias e da apostasia, mas corroboraria com ambas.


2 O PROBLEMA DA IGREJA ATUAL

            Para Augustus Nicodemus (2012, p. 80), o Liberalismo Teológico é a maior causa para a apostasia da igreja, uma vez que ele adota conceitos contrários à Palavra de Deus. A presença das heresias na Igreja cristã vem desde os tempos apostólicos, tendo em vista que os próprios apóstolos e escritores do Novo Testamento já se viam obrigados a combater pensamentos e práticas contrários à Verdade, que se infiltravam nas comunidades eclesiais, como o gnosticismo e a questão dos judaizantes (p. ex., o livro de Gálatas). Tais heresias não somente pervertiam o Evangelho de Cristo, como afastavam dele as pessoas. Alguns crentes chegavam a apostatar da fé para abraçar uma nova maneira de pensar Deus e a sua Palavra (cf. 2 Tessalonicenses 2:9-11; 1 Timóteo 4:1; 6:20,21; Hebreus 3:12,13). Nicodemus (idem) cita alguns motivos externos que levavam à heresia e à apostasia: “amor ao dinheiro, orgulho, problemas morais não resolvidos, vaidade intelectual, falta de coragem para assumir a verdade e desejo de novidades”. Além disso, a falta de um coração verdadeiramente regenerado configura-se, talvez, o principal fator que leva alguém a apostatar da fé.
            Entra-se, aqui, numa questão importante: apostata-se da fé quando se renega a verdade Bíblia e se abandona a Igreja, ou é possível permanecer de posse da Bíblia e dentro da Igreja e ainda assim ser um apóstata? Esta é uma questão controversa que envolve o liberalismo teológico e a pregação de doutrinas contrárias à Bíblia, sem, no entanto, negá-la. Existem muitos pregadores apostatando da fé, pregando-a. isto significa caminhar por duas vertentes: dizer aquilo que a Palavra de Deus não diz como se fosse uma verdade revelada; ou distorcer aquilo que a Palavra de Deus diz para suprir interesses pessoais. Quando alguém diz, por exemplo, que o cristão só será abençoado se for fiel nos dízimos, está distorcendo o sentido do texto de Malaquias 3:10-12, ao passo que acrescenta uma doutrina estranha á Bíblia. Tal prática está maciçamente presente nas igrejas atuais, acima de tudo aquelas ligadas ao movimento neopentecostal. A criação de igrejas homoafetivas, onde a Bíblia é tida como Palavra de Deus e pregada, também é um exemplo de apostasia em que permanece a Bíblia, mas de forma distorcida.
Em um livro publicado no Brasil pela Editora Fiel (2012), Paul Washer traz ao público dez acusações contra a Igreja Moderna. A primeira diz respeito à negação da suficiência da Escritura, algo já praticado há séculos pelo Catolicismo Romano, que considera como igualmente inspirada a Tradição e o Magistério da Igreja. Em algumas denominações protestantes, são acrescidas novas revelações à Bíblia de acordo com o bel-prazer de pretensos profetas. A segunda é uma ignorância a respeito de Deus. Os crentes não somente conhecem pouco a respeito do Deus que creem, como também atribuem palavras, pensamentos e ações a Deus de forma indevida, distante da realidade bíblica. A quarta acusação é o fracasso em abordar o mal do homem, tratando o pecado de maneira superficial, como medo de falar aos homens da sua impiedade. A quarta é a ignorância quanto ao evangelho de Cristo, que, nas igrejas atuais, nem sempre aponta para a obra de Cristo na cruz, mas se contenta com temas periféricos, como prosperidade e vitória terrena. Como consequência, a quinta acusação é um convite antibíblico ao evangelho, que não traz conversão sincera do pecador nem transforma a sua vida moral. A ênfase atual não está naquilo que Deus quer para o homem em termos eternos, mas aquilo que o homem pode angariar de Deus em termos terrenos.
            A sexta acusação trazida por Washer é uma ignorância quanto à natureza da igreja. A igreja é mais compreendida de um ponto de vista mundano e utilitarista do que sob a óptica bíblica de instituição divina santa e imaculada. A sétima é uma falta de disciplina eclesiástica amorosa e compassiva. A carnalidade faz parte da vida de muitos pastores e a disciplina nem sempre envolve o amor e a misericórdia. A oitava acusação fala sobre um silêncio a respeito da separação ou santidade. Nem sempre o que se prega a respeito de santidade tem a ver com o que está escrito na Bíblia. A nona acusação é a substituição do ensino bíblico sobre família por psicologia e sociologia. O aconselhamento pastoral é substituído pela terapia grupal. A décima acusação mostra pastores mal nutridos na Palavra de Deus, que não leem nem estudam a Bíblia. Muitos têm grandes resistências quanto ao estudo teológico em seminários.
            Todas essas acusações refletem a influência liberalista na Igreja de Cristo. É necessário lembrar que o liberalismo teológico é muito mais que teorias errôneas acerca da Bíblia e de Deus, mas uma prática de vida que se inicia nessas concepções equivocadas e transporta-se para as comunidades eclesiásticas. A falta de preocupação com o estudo e o ensino das Escrituras pode partir da compreensão de que elas não são suficientes para a fé cristã e parecem ser facilmente substituídas por outras fontes. A falta de moralidade pode estar ligada à relativização do pecado e ao descomprometimento com o Evangelho puro e simples de Jesus Cristo. Lewis (2009, p. 121) escreve que “As pessoas normalmente encaram a moral cristã como uma espécie de barganha, na qual Deus diz: ‘Se você seguir uma série de regras, vou recompensá-lo; se não seguir, farei o contrário’”. A barganha é uma das marcas do neoliberalismo, pensamento filosófico-religioso que rege o movimento neopentecostal.


3 A NEO-ORTODOXIA

            O liberalismo teológico, em sua roupagem moderna, vem configurando-se como estilo de vida e de pensamento da Igreja desde as suas raízes: a ideia da morte de Deus apregoada pelo filósofo Friedrich Nietzche. Conforme afirma Geisler (2012, p. 124): “uma vez que eles declaram que Deus está morto, então o resto do pós-modernismo é o resultado lógico”, o que envolve a quebra de questões ortodoxas como a lei moral absoluta, o significado absoluto e a verdade absoluta, que leva à morte de todas as outras áreas do pensamento e da vida humana, incluindo a teologia. Se Deus está morto, instaura-se o ateísmo, o relativismo, o pluralismo, o convencionalismo, o anti-fundacionismo, o desconstrucionismo e o subjetivismo. Tal pós-modernismo tem trazido para a Igreja uma nova maneira de enxergar Deus e de vivenciar a sua fé, através de uma teologia da pós. Ainda conforme Geisler (idem, p. 124), o pós-modernismo tem se chamado na Teologia de pós-protestante, pós-ortodoxo, pós-denominacional, pós-doutrinário, pós-individual, pós-funcional, pós-credo, pós-racional, pós-absoluto, configurando-se, na verdade, um “anti” tudo aquilo que conhecemos como Palavra de Deus e a correta ortodoxia bíblica.
            A neo-ortodoxia (nova ortodoxia) vinha resgatar o lugar de Deus e da Bíblia na vida da Igreja, colocando freios ao idealismo pós-moderno e liberal, bem como pós-neoliberal, para trazer a cristandade de volta à forma correta de entender e viver a sua fé. Os neo-ortodoxos, segundo Nicodemus (op. cit., p. 87), levantaram-se contra a rigidez e o ceticismo do liberalismo, que não deixava a voz de Deus ser ouvida através da Bíblia. Os neo-ortodoxos, porém, mantêm a visão equivocada de que a Escritura está repleta de erros e contradições, afirmando que, ainda assim, Deus fala hoje. Segundo eles, “O maior de todos os milagres é exatamente que Deus nos fala através de palavras imperfeitas, erradas, imprecisas e equivocadas desse livro” (NICODEMUS, idem). Sem descartar a posição dos liberais, a neo-ortodoxia desejava manter a relevância bíblica, criando um paradoxo teológico insustentável à luz da ortodoxia.
            De acordo com o blog novomanifestoreformado.blogspot.com.br (2013):

O Século XX foi marcado por uma série de inovações na teologia. Desde o advento da neo-ortodoxia, com a publicação da Carta aos Romanos de Karl Barth em 1919 – obra clássica que veio contestar a teologia liberal sem, contudo, promover um retorno à ortodoxia tradicional – passando por Rudolf Bultmann e seu programa de demitologização (um autêntico retorno ao ceticismo dos liberais), Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann e Wolfhart Pannenberg dentre outros, os seminários teológicos experimentaram uma miscelânea de ideias e conceitos a respeito da Bíblia e de Deus, influenciando gerações de pastores, inclusive muitos dos que hoje ocupam o púlpito e a direção de certas igrejas.

            Para os neo-ortodoxos, a Bíblia não é a Palavra de Deus inspirada, mas somente Jesus Cristo. Ela pode se tornar a Palavra de Deus, caso Jesus fale com o leitor e o conduza a Deus. De acordo com o pastor Marcos Granconato (2009): “Não há nenhuma igreja específica ligada à neo-ortodoxia. Trata-se de uma doutrina que está disseminada entre pastores das mais diversas denominações, especialmente as tradicionais. Porém, como seu ensino é sutil (afinal, quem questionaria a afirmação de que Cristo é a Palavra de Deus? João 1.1-14 não ensina isso?), muitas vezes sua ameaça deixa de ser percebida”.
            Segundo o site teologiacontemporanea.wordpress.com (2009), o tema mais debatido da neo-ortodoxia é o conceito de revelação. De acordo com o site:

A revelação, segundo Barth, é uma perpendicular que vem de cima, e que por isso não pode se comparar com as melhores intuições humanas. A revelação é um evento no qual Deus toma a iniciativa. Também é dito que a revelação não pode comparar-se com a Bíblia, pois é superior a ela. A Bíblia e suas afirmações são testemunhas, são sinais indicadores da revelação, mas não é a revelação em si. A Escritura não é a Palavra de Deus, e nem as afirmações da Escritura são revelação. Segundo Barth, comparar a Bíblia com a Palavra de Deus é objetivar e materializar a revelação.

            Tal crença dá ensejo não somente ao descrédito do conteúdo bíblico, como também a novas revelações ou a adoção de outras fontes de revelação divina, como a Tradição e o Magistério do Catolicismo Romano. Como ocorre com o liberalismo teológico, a neo-ortodoxia traz consequências tanto no campo doutrinário, como na realidade prática da fé, a forma como as pessoas vivem aquilo que acreditam. É natural que crenças erradas levam a práticas igualmente erradas.  A descrença na inerrância da Bíblia promovida tanto pelo liberalismo quanto pela neo-ortodoxia, permitem a formulação de crenças baseadas em conceitos mundanos sobre Deus, sobre bondade e justiça, baseados naquilo que é politicamente correto, mesmo em conflito com as Escrituras. Tal postura reflete nas pregações evangélicas atuais, onde novas revelações são trazidas e introduzidas nas igrejas, apresentando um cristianismo genérico que em tudo se distancia daquilo que está contido no que a ortodoxia chama acertadamente de Palavra de Deus inspirada: a Bíblia, Antigo e Novo Testamento.
            Já que a Bíblia não é inerrante, aceita-se o pluralismo de crenças, onde todos os caminhos levam a Deus e Deus está presente em todas as religiões, pessoas e coisas. Tanto a pregação liberal quanto a neo-ortodoxa, retiram da fé cristã o seu principal sustentáculo: a cruz de Cristo. A cruz é para onde todas as letras das Escrituras convergem. Tudo o que aconteceu antes e depois da morte vicária de Cristo têm ali a sua razão de existir. O que acontece quando se tira o milagre da cruz da vida cristã e de toda a humanidade? O que ocorre quando se nega a morte e a ressurreição de Cristo como um ato providencial de Deus para permitir que todo o que crê seja salvo? Além de se negar a realidade da Queda, nega-se a necessidade de um salvador e a existência da própria Igreja. E o que dizer de uma igreja – se é que se pode chamar assim – que não crê na veracidade dos milagres bíblicos nem na autenticidade da paixão de Cristo? Que consequências morais, espirituais e eternas tal igreja pode experimentar?
            Um dos pontos-chave da teologia liberal e neo-ortodoxa é permitir que a fé se expanda àqueles que não conseguem crer no extraordinário, o que remonta ao racionalismo científico. Dessa forma, abre-se mão da crença no sobrenatural e nos milagres para permitir que a razão conceba Deus. Sem dúvida, de acordo com Craig (2012, p. 237), “um dos principais impedimentos para muitas pessoas se tornarem cristãos hoje em dia é que o cristianismo é uma religião de milagres”. Ele ainda afirma: “O problema é que esse tipo de fato miraculoso parece pertencer a uma cosmovisão estranha ao homem moderno – uma cosmovisão pré-científica, supersticiosa, que combina com a Idade Antiga e Média” (idem). As pessoas necessitam crer naquilo que podem comprovar de maneira racional e científica, sem prejuízos à sua inteligência. Figuras como Bultmann reduziram o cristianismo a uma forma de ateísmo onde Deus está presente, mas ao mesmo tempo não está, negando ao homem caído a chance da regeneração e a possibilidade da imortalidade.
            Por outro lado, o fenômeno religioso brasileiro atual alavancado pelo neopentecostalismo, faz uso demasiado e irrestrito da crença nos milagres e nos sinais extraordinários. A sua fé triunfalista insiste no sobrenatural, no poder da fé e na influência sempre constante de Satanás na vida do crente. Temas como a Queda e as suas consequências à vida humana, a mensagem salvadora da cruz e a escatologia são deixados de lado em nome de um cristianismo voltado para os bens terrenos, a felicidade plena e a prosperidade financeira. Deus é apresentado como o Deus de promessas (materiais) e de milagres (financeiros). Jesus é mostrado como aquele que morreu na cruz para nos dar juntamente com Ele todas as coisas (vitória e prosperidade). A ética e a moralidade cristã dão lugar a práticas supersticiosas (como fogueiras santas e lenços ungidos com o suor do líder religioso), os movimentos de cura e libertação, onde o exorcismo é o caminho para a libertação do fiel de problemas puramente morais, que deveriam ser resolvidos com arrependimento, conversão e santidade de vida.


4 O DESPREZO PELO ESTUDO DA BÍBLIA

Todas essas questões refletem drasticamente na forma como os crentes encaram o estudo da Palavra de Deus. Não é de hoje que os pastores têm visto minguar a frequência dos crentes nos cultos de doutrina e na escola bíblica dominical. Este é um fenômeno que atinge a todas as igrejas evangélicas e que tem preocupado muitos líderes comprometidos com o ensino da Palavra de Deus. Por outro lado, outros tipos de cultos e eventos das igrejas têm recebido um número cada vez maior de crentes, independente do dia da semana e do horário em que são realizados. Em sua maioria, são cultos ligados a temas como cura, libertação, vitória e prosperidade financeira. As igrejas que investem nesse tipo de pregação estão sempre lotadas. Essas mesmas igrejas também veem o número de fies reduzir drasticamente nos dias de culto de doutrina, quando eles existem. Essa situação nada mais é do que o reflexo dessa nova teologia, dessa nova forma de pensar Deus e o seu agir no mundo.
Pode-se pensar em algumas prováveis razões ou justificativas para essa evasão do ensino bíblico.


4.1 Falta de orientação

Em primeiro lugar está a falta de orientação dos pastores, tanto pelo fato de não serem orientados por seus líderes maiores a estudarem com afinco as Escrituras, quanto o fato de eles mesmos não orientarem os seus fiéis a estudá-las. Este problema deve ser encarado sob duas ópticas:

·         Existe de fato uma má vontade que é produto da má fé. Isto é: tais líderes não desejam que seus fiéis estudem a Bíblia para poderem manter o poder sobre eles e a sua fé. Se as pessoas começassem a ler e entender as Escrituras Sagradas, poderiam passar a questionar as doutrinas da sua denominação e a não se conformar mais com certas pregações. Desta forma, muitas denominações não realizam culto de doutrina, limitando-se ao cardápio teológico oferecido pelo neopentecostalismo de cura, libertação e prosperidade financeira.
·         Outro fato é a tradição pentecostal, ainda mais acentuada na teologia neopentecostal, de dependência total do Espírito Santo, ao ponto de não valorizar o estudo da Bíblia, alegando ser esta uma forma de impedir que o Espírito Santo fale a aja. Dentro desta óptica, o estudo da Palavra de Deus é tanto incorreto como desnecessário, uma vez que o Espírito é quem inspira no crente o que ele precisa saber e falar no momento exato, interpretando de maneira equivocada o texto de Mateus 10:19,20.


4.2 Despreparo

            Quando o problema não é a falta de orientação, o despreparo está presente. O ensino correto e sadio da Bíblia depende da preparação de pessoas para realizá-lo. A boa vontade em fazer algo pode ser parte dos ingredientes, mas não é nem o único nem o principal. Ela precisa estar aliada à preparação daqueles que irão ministrar à Igreja o estudo da Bíblia. Essa preparação ocorre em dois níveis. O primeiro é o espiritual, isto é, quem se prontifica em ensinar a Palavra de Deus deve fazê-lo com a autoridade de quem acredita na Bíblia e a pratica. Isto não significa que o professor de ensino bíblico deva ser perfeito, mas que precisa ser alguém comprometido com a fé evangélica, com os valores do Reino de Deus. Logo, ele precisa ensinar primeiramente para si, tornar real na sua própria vida aquilo que aprendeu e que pretende ensinar. É esta a sensível diferença entre o ensino dos doutores da lei e do Senhor Jesus (Mt 7:28,29). Muitos pregadores e mestres nas igrejas não ensinam corretamente porque não possuem autoridade. Pode ser que um dos grandes motivos para a pouca frequência nos cultos de doutrina e na EBD esteja na observação da vida espiritual dos professores por parte da Igreja, quando percebem que aqueles que lhes ensinam não praticam o que eles mesmos ensinam.
            O segundo nível da preparação é a técnica. Como foi dito, boa vontade não é o suficiente. Pode-se afirmar, também, que santidade também não basta, embora seja o fator decisivo. A Igreja precisa investir na capacitação da sua liderança naquilo que diz respeito ao ensino das Sagradas Escrituras. Numa reunião de professores de EBD de certa denominação de linha pentecostal, foi sugerido ao pastor e líder que naquele ano se investisse na capacitação técnica dos professores, por meio de cursos, palestras e participação em congressos ligados ao ensino da Bíblia na Igreja. A ideia foi imediatamente rechaçada pelo líder, que afirmou que os professores possuíam o Espírito Santo e a Bíblia e que isso era suficiente. De fato, nenhuma técnica de ensino poderá substituir e atuação poderosa do Espírito Santo, mas isso não significa que o crente não deva aprender “como ensinar”, como utilizar o conhecimento dado por Deus e aplicá-lo de maneira eficaz.
            Esse pensamento distorcido da realidade tem esvaziado as EBDs, uma vez que o nível de ensino oferecido não é de qualidade, mas repetitivo, sem atrativo algum e sem consistência. Muitas igrejas passam anos ensinando as mesmas coisas, os mesmos temas, invariavelmente. Aquilo que o aluno aprendeu hoje, aprenderá no próximo mês com palavras diferentes. O ensino na Igreja nem sempre acompanha o nível de desenvolvimento espiritual e intelectual dos fiéis, oferecendo àquele que possui vinte anos de Evangelho o mesmo conteúdo que oferece a um novo convertido. Líderes, pregadores e professores precisam investir constantemente em atualização, novas técnicas de ensino, treinamento. Tudo isso não significa desprezo pela atuação do Espírito Santo, muito pelo contrário: é um respeito à excelência do estudo e do ensino do Livro que Ele inspirou.


4.3 Preconceito

            A falta de amor pelo estudo da Palavra de Deus também está ligada ao preconceito que muitos cristãos irracionalmente nutrem contra o ensino teológico. Para muitos, o ensino da teologia em seminários endurece o coração do crente, apaga a luz do Espírito no seu coração e produz nela uma fé totalmente racional e desprovida de intimidade com Deus. de fato, muitos cristãos fracos na fé não conseguem aliar o estudo sistemático das Escrituras a uma fé viva, quando na verdade um fator depende do outro. A espiritualidade não pode ser desprovida de conhecimento bíblico nem este pode estar desvinculado da uma vida espiritualmente ativa, com oração, leitura devocional da Bíblia, comunhão com os irmãos e santidade de vida. Mesmo fora dos seminários, nos cultos e na EBD, o preconceito ainda existe, o medo de se tornar um crente meramente racional, desprovido de emoção e experiência mística com Deus.


4.4 A preferência pelo testemunho pessoal

Tem-se ouvido muitas pregações que afirmam que para pregar o Evangelho não é necessário ser um estudioso da Bíblia ou fazer um curso de teologia. Essas pregações estimulam os fiéis a pregarem através do seu testemunho, contar o que Jesus fez na sua vida. E insistem que o testemunho vale mais do que muita teologia. Existem algumas mensagens perigosas por trás disso. A primeira é a desvalorização do próprio Evangelho: ele pode ser facilmente trocado pelo testemunho pessoal de alguém, que, diga-se de passagem, nem sempre condiz com o Evangelho. A segunda é que o teólogo não possui testemunho. Para muitas pessoas, ou o crente tem muito conhecimento ou tem testemunho; os dois não caminham juntos, o que é um julgamento preconceituoso e equivocado. A terceira mensagem afirma que o ensino teológico não é tão importante quanto parece, que é possível construir uma teologia própria baseada nas próprias experiências pessoais.
A situação degradante da igreja evangélica, puxada pelo carrossel do neopentecostalismo, mostra-nos o resultado de uma pregação sem teologia, de um testemunho sem base bíblica, de uma religiosidade baseada apenas na experiência dos outros. Não é preciso ser cristão para ter testemunho de cura e mudança de comportamento. Todas as religiões possuem essas coisas. Mas é preciso conhecimento bíblico da doutrina da salvação para levar um pecador à verdadeira conversão, não aquela que se emociona com o testemunho do pregador e quer ser igual, mas aquela que é convencida do pecado pelo Espírito Santo e escolhe viver para Deus. O apóstolo Paulo não pregava a si mesmo, embora testemunhasse das maravilhas que o Senhor operava na sua vida. Ele pregava o Evangelho da graça, fundamentado nas Sagradas Escrituras, que citava abundantemente. O testemunho precisa caminhar ao lado da Bíblia e para isso é preciso compreendê-la por meio da sua leitura e estudo.


4.5 A Teologia da Prosperidade

            O liberalismo teológico e o neopentecostalismo implantaram na mentalidade evangélica a compreensão de que o objetivo claro da Bíblia é satisfazer às necessidades particulares do crente, de modo que as pessoas que recorrem às igrejas que pregam e vivem esse tipo de ensino estão em busca de resolver os seus problemas pessoais e obter as vantagens oferecidas por uma fé triunfalista e vazia. A teoria vigente na Teologia da Prosperidade é a de que o crente não precisa esperar chegar ao Paraíso para desfrutar de todos os direitos prometidos por Deus na sua Palavra e adquiridos por Cristo na sua expiação. Ao contrário, ele pode desfrutar hoje mesmo de todos os benefícios de uma vida no céu, onde não existe doença e pobreza, onde só há saúde e prosperidade. Não é feito, no entanto, alusão alguma ao fato de que no céu não existe dinheiro ou um corpo físico para ter ou não saúde, portanto todas as bênçãos desfrutadas são espirituais. Mas a falta de formação teológica dos pregadores da prosperidade e a sua cegueira espiritual justificam essa gafe.
            Hagin, um dos grandes gurus desse tipo de teologia, afirma: “Uma razão porque nós, cristãos, vivemos em descrença e nossa fé tem sido obstruída, é a falta do conhecimento da redenção e dos nossos direitos na redenção, e essa falta de conhecimento é a maior inimiga da fé.” (in PIERATT, 1993, p. 66). Ele e tantos outros pregadores da prosperidade insistem em afirmar que os crentes têm direitos conquistados e outorgados por Cristo, direitos à saúde física e prosperidade financeira, que são efeitos da libertação efetuada por Cristo na cruz. Se todas estas coisas eram consequências do pecado e Cristo morreu para refazer tudo o que pelo pecado fora desfeito, então elas são um direito que a igreja deve gozar aqui e agora. Se os crentes estão em situação difícil, é porque lhes falta o conhecimento dessas coisas. A falta de conhecimento dos direitos do cristão é que faz com que tantos permaneçam na miséria e adoeçam.
            Esse tipo de ensino está presente de forma aberta nas igrejas da prosperidade e tem penetrado de forma embrionária em denominações consideradas históricas. A preferência geral é por cultos de cura e libertação, por pregações triunfalistas e antropocêntricas, levando os cultos de doutrina e a EBD a um estado crítico de quase inexistência. O conhecimento incentivado atualmente ao crente é o necessário para que ele adquira aquilo que lhe pertence, que lhe foi dado por Cristo na cruz. A partir do momento em que o crente “toma posse” dos seus direitos e crê que Deus fará tudo conforme o prometido, ele deve passar a “exigir” a sua bênção. Comentando João 14:13, Soares (2009, p. 17) traz ao leitor uma “grande revelação”: a palavra “pedirdes”, nesse texto, foi mal traduzida. O correto seria traduzi-la como “determinardes”. Segundo ele, o verbo pedir é sozo no original grego e tem o sentido de determinar, exigir, mandar. Por isso, não é preciso pedir nada a Deus, mas apenas exigir que Ele manifeste aquilo que já nos foi dado segundo a sua Palavra.


4.6 Individualismo descompromissado

            Toda essa teologia triunfalista e desprovida de apoio escriturístico, tem criado uma nova forma de pensar, sentir e viver o Evangelho. Esse novo formato gera crentes que não compreendem a razão do seu chamado ou sequer se entendem como pessoas salvas, com uma nova natureza, um novo padrão de vida e uma missão a cumprir. O neoliberalismo teológico fomentou um individualismo que impede que aqueles que se “convertem” se sintam de alguma forma comprometidos com a fé que abraçaram. Esse problema se inicia nas pregações que oferecem ao pecador a oportunidade de vencer as suas dores e as suas crises financeiras por meio do poder que há no Nome de Jesus, alcançando pessoas desesperadas, que procuram soluções rápidas e fáceis para vencer suas agruras. A solução apresentada na pregação neopentecostal é um Deus que está obstinado em abençoar o “pobre pecador”, a curar todas as feridas da sua alma, a satisfazer todos os seus desejos e vontades, a cobri-lhe de ricas bênçãos materiais. Desde cedo, os fiéis desse tipo de teologia aprendem que o seu objetivo de vida é pedir e a obrigação de Deus, é dar.
            Essa pregação tem exercido influência tal na cristandade, que mesmo as igrejas tradicionais têm sofrido com a falta de frequência dos seus membros em cultos de doutrina e na EBD. A razão é que as pessoas de fato estão em busca daquilo que massageie o seu ego e supra as suas expectativas. Não há tempo para o aprendizado sistemático, apenas para a apresentação de soluções rápidas para os seus problemas. O que se espera ouvir são pregações triunfalistas que falem das promessas de Deus, que preguem a vitória do crente aqui e agora, que deem às pessoas uma razão para adorar a Deus. Isto é: Deus só merece a atenção dos seus filhos enquanto os estiver abençoando, enchendo seus corações de promessas maravilhosas. Uma das consequencias naturais desse tipo de fé é a falta de compromisso com o Evangelho, tanto na observação dos seus mandamentos quanto na prática das boas obras e no envolvimento ativo na obra do Senhor. As igrejas estão lotadas de convertidos às bênçãos de Deus e vazias de convertidos ao Deus das bênçãos. Uma conclusão sincera dessa situação afirmaria que a razão pelo desprezo do estudo da Bíblia é a falta de conversão.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Com o desenvolvimento histórico do liberalismo teológico e a ascensão da neo-ortodoxia e a influência exercida por ambas no pensamento e na prática cristãs, fica difícil delimitar as bases do pensamento evangélico atual. O neoliberalismo e a teologia neopentecostal parecem beber de ambas as fontes, reinventando a fé cristã e as maneiras de interpretá-la e expressá-la. A neo-ortodoxia não ofereceu uma saída correta que levasse a Igreja a uma práxis baseada nos principais fundamentos da fé cristã. Antes, criou uma nova apostasia em cima daquilo que o liberalismo já vinha ensinando. Alguns pontos mudaram, mas a essência permaneceu inalterada: o Deus do cristianismo reformado está morto. Ele não é mais que um relojoeiro cego, conforme apregoam ateus, como Richard Dawkins.
            Ainda que a crença em Deus permaneça e a Bíblia encontre-se no seio do cristianismo como uma bússola para a fé e a prática da cristandade, doutrinariamente, os cristãos parecem viver um período de Idade das Trevas doutrinárias. Tanto algumas denominações históricas quanto as denominações ligadas ao movimento neopentecostal cedem a modismos, praticam o sincretismo religioso, curvam-se diante do racionalismo, abraçam o pós-modernismo, abrem espaços para que as ciências sociais e da mente tomem o lugar da Bíblia nas pregações e nos aconselhamentos. Por um lado existe a exacerbação no uso dos milagres, por outro o desprezo pelos dons espirituais e a demitologização muito difundida por Bultmann. A Igreja moderna urge uma volta ao cristianismo primitivo, ao exemplo de fé e de prática presente na era apostólica e na Igreja do primeiro século, a uma fé ortodoxa e genuinamente fundamentada na Bíblia, sendo fundamentalista sem ser tradicionalista.
            Para frear o avanço liberal (e neoliberal) e neo-ortodoxo que avassala as igrejas, é necessário o regresso ao ortodoxismo, devolvendo à Bíblia o seu lugar de proeminência entre a cristandade. Um dos ideais para este regresso é pensar o conservadorismo cristão como algo não prejudicial, mas salutar, onde se preserva não somente os fundamentos doutrinários da fé, como também os valores morais e espirituais que sempre permearam a vivência cristã. Como já foi dito, crenças erradas levam a práticas igualmente erradas. O conservadorismo nada mais é que um apelo à prática saudável do Evangelho, num contraponto á teologia liberal que tira o pecado de cena e instaura a libertinagem doutrinária e moral. De acordo com Vênâncio (2012, p. 47):

Por causa desse tremendo desequilíbrio entre as forças conservadoras e progressistas hoje, considero muito saudável, e verdadeiramente contracultural, o posicionamento cristão de tendência conservadora, que em nossa época deve assumir a defesa de pontos básicos e biblicamente legítimos [...] A firmeza nesses assuntos é necessária e tem seu lugar, desde que, evidentemente seja madura e bíblica (e não histérica e legalista), sem alçar a militância conservadora à categoria de identidade cristã.

            Fato é que a cristandade necessita de um cristianismo genuinamente bíblico, que forneça uma crença correta a respeito não somente da divindade de Cristo, da veracidade dos milagres e da inerrância bíblica, como também da maneira como esses temas impactam a vida prática dos fieis. Isto envolve as famílias, a responsabilidade social da Igreja, o engajamento político, a posição da Igreja diante das demandas pós-modernas, como a homofobia, o aborto e a eutanásia. São temas que nem o liberalismo nem a neo-ortodoxia se preocupam em resolver. Liberalismo teológico envolve liberalismo moral, logo tudo é aceitável, contanto que seja politicamente correto, ainda que biblicamente condenável. Se por um lado não se pode ceder a um dogmatismo superficial e castrador, por outro não se pode sucumbir a uma fé desprovida de conteúdo bíblico.


BIBLIOGRAFIA

CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012.

GEISLER, Normam. In Apostasia, Nova Ordem Mundial e Governança Global: uma compreensão cristã do fim dos tempos. Paraíba: Visão Cristocêntrica, 2012.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

LOPES, Augustus Nicodemus. In Apostasia, Nova Ordem Mundial e Governança Global: uma compreensão cristã do fim dos tempos. Paraíba: Visão Cristocêntrica, 2012.

PIERATT, Alan B. O evangelho da prosperidade: análise e resposta. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SOARES, R. R. Como tomar posse da bênção. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2009.

VENÂNCIO, Norma Graga. Mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012.

WASHER, Paul. 10 Acusações contra a Igreja Moderna. São Paulo: Editora Fiel, 2012.


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