segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MARIA: MÃE DE DEUS?




Um dos símbolos máximos marianos é a visão de Maria como “mãe de Deus”. Tal simbologia também está diretamente ligada ao seu “sim”: tornando-se mãe de Jesus, Maria tornou-se mãe de Deus, e, por conseguinte, mãe da Igreja e da humanidade inteira. A função materna de Maria não se limita à concepção do menino Jesus, ela estende-se por toda a vida do Salvador e pode ser observada por meio das suas dores, momentos em que ela sofreu como mártir em prol da salvação da humanidade, como corredentora. Segundo Ligório (1987, p. 356 e 357), “Jesus é chamado Rei das dores e Rei dos mártires, porque em sua vida mortal padeceu mais que todos os outros mártires. Assim também é Maria chamada com razão Rainha dos Mártires, visto ter suportado o maior martírio que se possa padecer depois das dores de seu filho”. As “dores de Nossa Senhora” são conhecidas e reverenciadas. Elas são sete: 1) as profecias de Simeão; 2) a fugida de Jesus para o Egito; 3) a perda de Jesus no templo; 4) o encontro com Jesus no caminho para a morte; 5) a morte de Jesus na cruz; 6) a lançada e a descida da cruz; e 7) a sepultura de Jesus. Maria não é uma simples mãe, mas uma mãe que possui intensa participação na obra do seu Filho, cooperando com Ele para a redenção do gênero humano.
            De acordo com Bernard (op. cit., p. 1223), “O tema da Theotókos realmente é tão fundamental na espiritualidade do oriente, que passar por ele em silêncio significa suprimir a parte talvez mais bela e mais expressiva de toda a iconografia mariana”. As imagens de Maria segurando o menino Jesus nos braços demonstram essa relação materna entre os dois que se pretende perpetuar no imaginário católico romano. A maternidade divina de Maria sustenta-se na natureza divina do seu filho. No ano 428 d.C., o nestorianismo levantou a afirmativa de que em Cristo havia duas naturezas completas, a humana e a divina; não uma pessoa só, mas duas. De acordo com esse pensamento, quem morreu na cruz teria sido apenas o Jesus homem, não o divino. Um discípulo de Nestório, chamado Atanásio, chegou a afirmar que Maria não deveria ser chamada “mãe de Deus”, mas “mãe de Jesus”, visto ela ser mãe apenas da porção humana de Jesus. Ele indagava sobre como uma simples criatura poderia gerar Deus.
            Com a convocação do Concílio de Éfeso, em 341 d.C., a Igreja pretendia dar uma resposta a Nestório. Em parte a teologia nestoriana está completamente equivocada, pois nega a divindade de Cristo, totalmente homem e totalmente Deus, como o creem católicos e protestantes. O Concílio de Éfeso, por meio da carta de São Cirilo de Alexandria, vem defender o Concílio de Nicéia e mantém a crença no Jesus homem e Deus, afirmando: “A diversidade das naturezas não foi eliminada pela união, mas, sim, as naturezas unidas totalizaram, para nós, um só Senhor e Filho e Cristo, mediante a inexprimível e misteriosa conjunção da divindade e da humanidade numa unidade”. Esta certeza de fé viria a sustentar outra: a maternidade divina de Maria. A carta de São Cirilo procura deixar claro que Cristo não recebeu a sua natureza divina de Maria, nem tenha necessitado de uma segunda geração depois de ter sido gerado pelo Pai, mas “foi por nós e para a nossa salvação que ele se uniu hipostaticamente à humanidade duma mulher, sendo por isso que se diz ter ele nascido segundo a carne” (SKRZYPCZAK, 2000, p. 42 e 43). Em 451 d.C., o Concílio de Calcedônia repetirá a mesma declaração de fé.
            Embora a defesa da fé na divindade de Cristo tenha sido um ponto positivo nos dos concílios, começa-se a observar a pessoa de Jesus não a partir de uma visão cristológica, mas mariológica: entende-se Maria para se entender Jesus. Por outro lado, Atanásio estava absolutamente certo – embora baseado numa crença equivocada sobre a natureza de Cristo – em afirmar que Maria era mãe apenas da porção humana de Jesus. Os próprios concílios que citamos demonstram que a divindade de Jesus não foi gerada a partir do ventre de Maria, mas já existia desde a eternidade. Não é possível afirmar que Maria é a mãe de Cristo-Deus ou de Cristo-Homem, ou de Cristo-Deus-Homem, uma vez que a existência de Jesus não se deu a partir do seu nascimento carnal. Na verdade, Ele não “nasceu”, mas se encarnou num momento histórico. Tal encarnação não contou com qualquer participação de Maria, a não ser a de carregar dentro de si Aquele que já existia desde o princípio (João 1:1-5) e que para tal nascimento fora profetizado. A Palavra de Deus nos dá diversos exemplos da existência eterna do Senhor e da sua atuação no Antigo Testamento. Por exemplo: Gênesis 6:22; 16:7-14; 18:1; 28:13; 32:24-32; Miqueias 5:2; Isaías 9:6. Além de João 8:58 e Colossenses 1:16. Nenhuma porção de Cristo foi gerada ou teve a participação de Maria para vir a existir neste mundo, visto já existir desde a eternidade.
Embora estivessem presentes desde o embrião as duas naturezas de Cristo, não se pode afirmar que Maria é a mãe de Deus. Em diversos textos da Bíblia temos a confirmação da maternidade de Maria (cf. Marcos 6:3; Mateus 1:18; Lucas 1:26-38,43; João 2:1; 19:25). A visão mariológica da qual falamos que se impõe a visão cristológica que deveríamos manter sobre Jesus força não somente a natureza de Maria (sem pecado) como o caráter do seu ministério (corredentora). Crer na maternidade divina de Maria é um dos pilares para a crença na sua imaculada conceição, visto que, segundo os teólogos católicos, um ventre maculado pelo pecado original não poderia jamais conter a Semente divina. É também um passo para a sua virgindade perpétua, visto que a totalmente imaculada Maria, mãe de Deus, não poderia jamais ter contato carnal com homem algum. Por fim, a crença na maternidade de Maria sustenta a crença na sua assunção, visto que a predileta de Deus não poderia jamais conhecer a corrupção, de modo que convinha que ela fosse assunta ao céu em corpo e alma.
            Como dissemos no início, a maternidade divina de Maria liga-a diretamente à economia da salvação, por meio das suas dores, da sua participação ativa na obra da redenção efetuada por Jesus, a começar pelo seu humilde consentimento ao nascimento do Salvador.  A forma como o Vaticano II se expressa a respeito da maternidade divina de Maria demonstra o que estamos afirmando. Na Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 55), no capítulo que fala sobre “A missão da bem-aventurada virgem na economia da salvação”, afirma que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento apresentam o múnus da mãe do Salvador na economia da salvação. Ao referir-se ao Antigo Testamento como fonte da preparação para o advento do Salvador, o Concílio afirma: “Estes documentos primitivos, tais como são lidos na Igreja e entendidos à luz da revelação posterior e plena, manifestam com sempre maior nitidez a figura da mulher, Mãe do Redentor”. Além dos textos que de fato fazem alusão ao nascimento virginal do Messias (p. ex. Isaías 7:14; Miqueias 5:2,3), o Concílio acrescenta a vitória sobre a serpente, em Gênesis 3:15. O objetivo da maternidade divina de Maria é verdadeiramente embasar o seu ministério salvítico. Bem escreveu Serra (1995, p. 780): “Como lugar de encontro entre o divino e o humano, Maria não é o centro, porém é central no cristianismo”.
            Como a mariologia é de todo incoerente, podemos citar uma dessas incoerências ao referir-nos ao primeiro texto utilizado por Serra (idem, p. 776) na sua defesa do nascimento virginal de Cristo em Maria: Gálatas 4:4-6. O texto diz: “Quando, porém, chegou a plenitude do tempo, enviou Deus o seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para resgatar os que estavam sob a Lei, a fim de que recebêssemos a adoção filial. E porque sois filhos, enviou Deus aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama Abba, Pai”. A chegada do Messias cumpre a promessa da reparação da raça humana por meio do Cristo de Deus (cf. Marcos 1:15; Atos 1:7 ss.; Romanos 13:11 ss.; 1 Coríntios 10:11; 2 Coríntios 6:2 ss.; Efésios 1:10; Hebreus 1:2; 9:26; 1 Pedro 1:20). O termo “mulher” está ligado ao termo “lei” no mesmo versículo. O nascimento de Jesus é histórico e a sua vida submete-se a Lei judaica para resgatar-nos do seu poder (SHEDD). Ora, o que era a Lei senão a declaração verdadeira da pecaminosidade humana e da sua incapacidade de obedecer plenamente a Deus? No contexto bíblico Lei-Cristo, o primeiro refere-se à situação de condenação do gênero humano, pois a lei encerra tudo sob pecado (Romanos 3:9,20; 4:15; 5:21; 6:23; 1 Coríntios 15:56; Gálatas 3:13,22; Hebreus 7:19), enquanto  segundo refere-se a reparação desse erro por seu sacrifício vicário na cruz (Romanos 6:12,14,23; 7:14; 8:2,3; 10:4; 1 Coríntios 15;3; 2 Coríntios 5:21; Gálatas 3:13,24; Hebreus 9:7,26; 10:1; 1 Pedro 2:22).
            O homem nascido de mulher conota alguém nascido debaixo da lei, sujeito ao pecado. Não é este o caso de Jesus, que viveu sem pecado (cf. 1 Pedro 2:22), mas é o caso de Maria. O texto de Gálatas 4:4-6 deixa bastante clara a situação em que a humanidade se encontrava quando da encarnação de Jesus: submetida ao pecado. Nesse contexto está a mulher do qual Ele haveria de nascer, Maria, também nascida sob a Lei e sob o pecado. A ênfase do texto não está na maternidade de Maria, mas na situação histórica em que Jesus veio ao mundo. De acordo com Serra (op. cit., p. 777), o apóstolo Paulo faz uso da expressão “nascido de mulher” para enfatizar o abaixamento da humilhação a que se sujeitou o filho de Deus fazendo-se homem, o que condiz com Filipenses 2:8. O que escapa aos teólogos católicos ao referir-se à baixeza do ser humano caído com base nesse trecho de Gálatas, é que a mulher – Maria – está inserida neste contexto. Paulo não alude à necessidade de Cristo em nascer de um seio imaculado, mas o coloca como nascido de uma mulher que está debaixo da Lei. Tanto aqui quanto em todos os trechos que aludem ao nascimento de Jesus, tanto do Novo quanto do Antigo Testamento, não há nenhuma ênfase na maternidade de Maria ou na necessidade da sua imaculada conceição.
            Outros argumentos bíblicos utilizados por Serra para referir-se ao nascimento de Jesus e enfatizar a maternidade divina de Maria, são:

·         Textos que falam do envido do Filho de Deus ao mundo, como: Mateus 1:18-25; Romanos 8;3,4; João 3:16; 1 João 4:9
·         O Espírito Santo que ressuscitou Jesus dos mortos e nos é dado por meio dele para nos tornarmos filhos de Deus (Romanos 1:1-14; 2 Tessalonicenses 2:8; 2 Coríntios 3:17; Gálatas 4:6; Romanos 8:9; Filipenses 1:19).
·         Os textos sobre a encarnação do Verbo em Maria e diversos outros onde há referência à sua maternidade (Lucas 24:25; Marcos 6:3; Mateus 13:55; João 6:42; 9:11).
·         As obras de Cristo que demonstram claramente seu messianismo e sua divindade (Mateus 28:19; Atos 15:14; Hebreus 4:9; 10:30; 1 Pedro 2:10; Tito 2:14).
·         O povo pertence a Jesus (Mateus 1:21; 2:6; 16:18; 28:10,20).
·         A ênfase também recai sobre o poder de Jesus para perdoar e salvar os pecadores (Marcos 2:7; João 10:33; Mateus 1:21; Tito 2:13,14).
·         Jesus é o Deus conosco (Mateus 1:23; 12:6,41,42; 28:20).
·         O autor vê a figura da mãe de Deus na tenda descrita em Êxodo 40:34,35, e na arca da Aliança, em 2 Samuel 6:2-16. Sobre esse simbolismo estudaremos adiante.
·         A saudação de Isabel em Lucas 1:43 – “mãe do meu Senhor” – traz uma conotação mariológica, apontando não apenas para o senhorio de Cristo, o reconhecimento de Isabel da divina semente que Maria carregava. O entendimento da maioria dos escritores marianos cria uma paralelo que se traduz em: Jesus-Senhor – Maria-Senhora; Jesus-Rei – Maria-Rainha.

Embora Maria não seja o centro, como disse Serra, ela é verdadeiramente central no cristianismo católico romano. De certa forma ela está, sim, no centro, uma vez que não se pode separar o Filho da sua mãe; não se pode adorar a Cristo e desprezar Maria. E, de acordo com a teoria de Montfort da escravidão a Maria, somente por meio dela se pode conhecer e servir a Cristo. A maternidade divina de Maria serve ainda a outro propósito: como protótipo da maternidade da Igreja, como escrevem Müller e Sattler (2000, p. 163):

Em forma de pensamento tipológico, a maternidade de Maria pode ser considerada como protótipo da maternidade da Igreja. Também aqui fica preservado o traço cristológico: como uma mãe dá a seu filho a vida preparada por Deus, do mesmo modo a Igreja prepara para os crentes, que no Batismo morrem com Cristo e nele ressuscitam para uma vida incorruptível, o espaço, no qual se deve tornar vivenciável e experimentável uma existência redimida.

            A Igreja do Senhor Jesus tem em Maria o seu protótipo, porque através da sua mãe, Jesus vê nascer os seus filhos. O teólogo buscará na vida de Maria descrita no Novo Testamento os elementos para esse modelo: sua obediência, sua vida de oração, sua meditação na Palavra de Deus, sua humildade, sua abnegação e seu sacrifício.  De acordo com o Catecismo da Igreja Católica (n. 967), “Por sua adesão total à vontade do Pai, à obra redentora de seu Filho, a cada moção do Espírito Santo, a Virgem Maria é para a Igreja o modelo da fé e da caridade. Com isso, ela é ‘membro supereminente e absolutamente único da Igreja’, sendo até a ‘realização exemplar (typus)’ da Igreja” (cf. Lumen Gentium n. 53 e 63). O papel materno de Maria, porém, estende-se para além do antítipo da Igreja. Tendo ela cooperado de forma singular para a redenção por meio da sua predestinação para mãe do Verbo divino e de seu consentimento prestado na Anunciação, Maria tornou-se para a Igreja “mãe na ordem da graça” (LG, n. 61 e 62). Assunta ao céu, continua seu múnus salvítico, granjeando-nos os dons da salvação eterna por sua múltipla intercessão, sendo advogada, auxiliadora, adjutriz e medianeira.
            A tipologia de Maria como modelo da Igreja deveria encontrar seu fundamento na Bíblia, porém, não é o que ocorre. Em primeiro lugar, não existe nenhum texto bíblico que ligue direta ou indiretamente Maria à Igreja no sentido pretendido pela teologia católica. Não existem dados históricos intrabíblicos que assegurem tal teologia. Os dados históricos apresentados para o desenvolvimento desta crença são extra-bíblicos, partindo da Tradição, incluindo os santos Padres, e do Magistério da Igreja. Uma análise léxico-sintática do termo ekklésia no Novo Testamento não demonstrará qualquer ligação com o papel de Maria como tipo da Igreja. É difícil proceder a uma análise contextual, uma vez que a afirmação de que Maria é modelo e mãe da Igreja é totalmente estranha à Bíblia. O texto possível de ser estudado é João 19:25-27. De acordo com a maioria dos estudiosos e autores católicos, esse trecho simboliza a entrega de Maria à Igreja como sua mãe, o que podemos confirmar no comentário da Bíblia de Jerusalém a respeito desses versículos: “O contexto escriturístico (vv. 24.28.36.37) e o caráter singular do apelativo ‘Mulher’ parecem significar que o evangelista vê aqui um ato que transcende a simples piedade filial: a proclamação da maternidade espiritual de Maria, a nova Eva, sobre os fiéis, representados pelo discípulo amado (cf. 15:10-15)”.
            Todos os versículos citados entre parênteses no comentário acima não contêm nada que os ligue à afirmativa de que ali Jesus estaria dando Maria como mãe espiritual da Igreja. Se Maria é a mãe da Igreja, desde o Antigo Testamento e no Novo Testamento deveríamos poder averiguar isto, confrontando textos paralelos e o ensino geral das Escrituras. A partir dali, principalmente, não vemos qualquer alusão de que a Igreja, seja no livro de Atos, nas epístolas ou no livro do Apocalipse, tenha considerado Maria a sua mãe espiritual, modelo a ser seguido ou tipo da Igreja que dá a luz aos santos. Pessoalmente vejo em Maria um modelo para a espiritualidade cristã, acima de tudo a sua obediência a Deus, mas este é outro assunto.
            Se nos é impossível encontrar fundamento bíblico para a maternidade divina de Maria, sua tipologia como modelo da Igreja e a sua maternidade espiritual dos homens, que exegese será necessária para compreendê-la como “mãe espiritual dos anjos”? segundo Roschini (1960, p. 62), é uma verdade admitida por todos os teólogos que, “de algum modo”, Maria é mãe dos anjos, no mesmo sentido em que é mãe dos homens, de modo que sua criação, sua vida de graça e sua glória dependem totalmente de Cristo e de Maria. Roschini apela para a voz da Tradição, citando inúmeros santos, embora todos se refiram a Cristo. Maria, por tabela, tendo em vista a teologia que une indissoluvelmente a mãe do Filho, torna-se, com Cristo, a mãe espiritual de todas as criaturas.  A “voz da razão” (p. 68) de Roschini apela para: 1) a harmonia do plano divino, baseada na Escritura e na Tradição, admitindo que Cristo e Maria mereceram tudo para todos (anjos e homens); 2) a unidade da ordem sobrenatural, admitindo que a graça do primeiro homem inocente e dos anjos deveria ter sido derivada de Cristo e de Maria; 3) as três condições da mediação: estando entre Deus e os anjos; como os anjos é criatura pura, e com Deus, como sua mãe; ela deu a Cristo livremente nossa natureza humana; e foi delegada por Deus para unir, com Cristo, os extremos, Deus e os anjos. Como apoio escriturístico, Roschini limita-se a citar Colossenses 1:13-20, afirmando um primado absoluto e universal de Cristo e “por consequência” de Maria sobre os anjos.

            Sobre a questão da maternidade de Maria referente aos anjos, não devemos nos ater, pois a simples ideia exposta por Roschini por si só já nos serve como refutação. Devemos apenas observar a forma como se desenvolveu a teologia católica romana a respeito da maternidade de Maria e todas as doutrinas e dogmas que nela estão entrelaçados (imaculada conceição, virgindade perpétua, corredenção, etc.). Não há nenhum contexto bíblico que dê suporte a tais assertivas, muito pelo contrário. Qualquer tentativa de tipificar Maria como mãe da Igreja, dos homens e dos anjos só pode firmar-se no argumento da Tradição e do Magistério, além das interpretações fantasiosas, como as de Roschini, em parte rejeitadas pela própria Igreja católica, por extrapolarem o bom senso, mas que permanecem ocultas em diversos concílios, documentos e livros e, ainda de forma mais arraigada, na mariologia popular.


OBSERVAÇÃO: Todas as referências bibliográficas estão no meu livro: "DESVENDANDO O SEGREDO DE MARIA: ESTUDOS APOLOGÉTICOS SOBRE MARIOLOGIA".



domingo, 25 de setembro de 2016

A SEGURANÇA DA SALVAÇÃO NA CARTA AOS ROMANOS




Mortos para o pecado e vivos para Deus
Romanos 6:8-14

O cristão é um tipo de ser humano diferente de todos os outros. Ele é um morto-vivo. A sua natureza humana e caída está morta para o pecado (v. 2), crucificada com Cristo na cruz, enquanto vive para Deus através do seu novo nascimento. Muitos no mundo estão mortos-mortos: mortos em seus delitos e pecados e mortos para Deus. Como Cristo morreu pelos nossos pecados, nós também morremos (v. 2,3) e fomos nele batizados como o selo da nossa participação nessa morte e ressurreição, sendo este selo válido somente ao ser ratificado pela fé (Shedd). Quem morreu “está justificado do pecado” (v. 7). Se estamos justificados do pecado, cremos que já não podemos mais viver no pecado ou perder a justificação que nos foi outorgada. Alguns enxergam este fato de um ponto de vista equivocado. Já que estão salvos, seus pecados estão perdoados e seu lugar está garantido no céu, creem que podem viver pecando, confiando no perdão de Deus.
Contra a ideia de que é possível viver pecando para que a Graça seja sempre mais abundante, Paulo apresenta dois resultados decorrentes da nossa união com Cristo: a) a remoção de nossa culpa através do sacrifício de Cristo; b) a eficácia da ressurreição numa vida nova de santidade. A culpa foi removida e não pode ser recolocada sobre o cristão novamente. Mas cabe a nós compreendermos que morremos para o pecado e não devemos continuar pecando só porque não podemos perder a salvação. Se em nosso íntimo cogitamos a possibilidade de continuar em nosso pecado, devemos rever a nossa conversão, se realmente morremos com Cristo e somos novas criaturas (6:4). Certamente não nos transformaremos em pequenos deuses incapazes de pecar, mas ainda teremos que suportar a nossa natureza humana, caída. Mas a graça de Deus em nós e o seu Santo Espírito nos incomodam e nos estimulam a buscar a santidade, a viver de acordo com o nome que ostentamos pela fé: filhos de Deus.

Leitura complementar: 2 Coríntios 5:14; 2 Timóteo 2:11; Colossenses 2:12; Gálatas 6:15; João 5:28,29; 1 Coríntios 15:20-23; Efésios 4:21-24.


O pecado não tem domínio sobre nós
Romanos 6:8-14

Há algum tempo travei um diálogo com uma pessoa na Internet que insistia em dizer aquele que é convertido a Jesus não comente mais pecado. Difícil imaginar um ser humano que não peque, porque somente Jesus é sem pecado. Por outro lado, é fato bíblico que o cristão não deve viver pecando. Uma vez redimidos do pecado e selados com o Espírito Santo, somos estimulados e capacitados a fazer a coisa certa. Paulo ensina que a santidade é uma consequência da nossa união com Cristo. Se morremos com Cristo, devemos viver para Ele: mortos para o pecado e vivos para Deus (v. 11). Temos um corpo mortal, não somente espiritual (v. 12). Neste corpo ainda existe a semente do pecado e cabe a nós, por meio da Graça de Deus, mortificar a carne. De fato, se o pecado tem domínio sobre nós, se não procuramos viver uma vida de santidade, existe a possibilidade de que jamais tenhamos sido salvos.
O salvo entende que o pecado na sua vida deve ser um acidente de percurso e que ele deve abominá-lo. Quem tem prazer no pecado, não está em Cristo. É preciso, porém, fazer a diferença entre o pecado original e a Lei que nos condenavam, e a carne que habita em nós. Dos primeiros fomos justificados por Cristo;do segundo mortificamos dia após dia, pois a carne não se converte (cf. Rm 8:13). Os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus. Isto não quer dizer que não pecaremos mais, mas que o pecado não pode ter mais domínio sobre nós, pois agora estamos debaixo da maravilhosa Graça do Senhor. Alguns vivem a se martirizar porque não conseguem alcançar um nível de perfeição na medida do Senhor Jesus. Outras creem que podem continuar pecando porque já estão salvas. Ambas estão erradas. Fomos salvos para vivermos em santidade. A santificação é um processo diário operado por Deus. Se nós estamos pecando e isso faz doer o nosso coração, é um sinal de que estamos no caminho certo.

Leitura complementar: 2 Coríntios 5:21; Mateus 4:1; Hebreus 2:18; 4:15; Tiago 1:13; 1 Coríntios 10:12,13; 1 João 2:1-6; 2:15-17; 3:4-6; Romanos 6:16-22.


Somos servos da justiça
Romanos 6:14,18

Uma vez tendo o pecado cancelado por Cristo na cruz, o cristão não pode mais viver sob o seu domínio. Devemos entender aqui o pecado sob duas formas: a) o pecado original que condena o homem e o destitui da glória de Deus, o qual se deu a conhecer pela Lei. Se Cristo veio cumprir a Lei, o pecado não tem mais domínio sobre aquele que crê; b) o pecado da carne. A carne não se converte, ela se mortifica. Para o primeiro, Cristo já pagou a dívida, não é possível mais sermos condenados por causa do pecado originário da Queda, uma vez que, pela Graça, cremos para a salvação. O segundo, que continua a se fazer presente em nós, é mortificado pelo Espírito Santo, mas não pode nos condenar, pois nossa dívida já foi paga. A tentação não condena o cristão, pois já nenhuma condenação há para ele (Rm 8:1). Uma vez que ele se arrepende dos seus pecados, volta a ter comunhão com Deus e é feito servo da justiça.
Essa justiça não provém dos nossos mecanismos de autojustiça, com os quais muitas pessoas tentam se justificar diante de Deus e alcançar o seu favor. Ela parte de uma ação gratuita de Deus que nos imputa uma justiça que não temos nem podemos alcançar por nossos próprios méritos. Se a justiça que alcançamos e da qual somos servos não nos foi dada com base no merecimento, ela também não será tirada por desmerecimento. E se somos filhos da justiça, temos ainda mais certeza de não nos perdermos, pois o Senhor não abandona os seus filhos. Ele rejeita o incrédulo, a criatura que se mantém rebelde, 20mas jamais vira as costas àqueles que são seus. A promessa que Jesus fez aos seus discípulos é que estaria com eles até o final dos séculos. A nós que também cremos e o seguimos, a promessa permanece. Deus não muda, não volta atrás, não rasga a nossa certidão de adoção nem apaga o nosso nome do Livro da vida. A sua justiça é para sempre, não pode ser revogada. Se fosse possível o Senhor nos abandonar, certamente muitas doutrinas bíblicas estariam em cheque-mate.

Leitura complementar: 1 Coríntios 10:13; 2 Pedro 2:9; Josué 1:9; Salmo 117:2; João 14:16,17.


Nenhuma condenação para os que estão em Cristo
Romanos 8:1,2

Imaginemos esta cena: um homem é culpado de vários crimes, julgado e condenado. Seu pai, porém, oferece-se para tomar o seu lugar e pagar por sua dívida para com a sociedade. Então o juiz manda prender o pai do criminoso e sentencia-o à pena de morte. Logo após a execução, porém, o juiz revoga a sentença e, mesmo com o pai tendo sido morto em seu lugar, condena o seu filho. É exatamente isto que Deus “não faz” conosco! Seu Filho pagou o perco pelo nosso resgate, morreu no nosso lugar e nos livrou da condenação. Uma vez que cremos em Jesus Cristo, não estamos mais condenados nem é possível que Deus revogue a sua sentença e nos culpe novamente. O texto de Romanos 8:1 encerra toda a verdade desta epístola e da salvação. Nele compreendemos que existem duas realidades: a Lei, que condena o homem, e Cristo, que o liberta. O texto começa dizendo “Agora, pois...”. O termo grego usado é aqa e significa “portanto, consequentemente”, e é uma inferência tirada daquilo que a precede. Isto é, a consequência de tudo aquilo que Paulo vinha afirmando nos capítulos anteriores é que nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus.
A lei da vida, que é a lei de Cristo, a lei da Graça, nos livrou da Lei do pecado e da morte (v. 2). Aquele julgamento contrário que havia contra nós foi cancelado e a nossa dívida já foi paga. A consequência natural da Graça é o livramento do pecado e a certeza da nossa salvação. Se nenhuma condenação pode haver, como pode o cristão incorrer novamente nesta condenação da qual já foi liberto? Podemos estar certos de que estaremos com o Senhor quando Ele vier em glória levar a sua noiva para as bodas do Cordeiro. Alguns não creem dessa forma e precisamos respeitá-los. Mas crer na salvação eterna nos dá esperança no momento presente, porque sabemos que estamos com o Senhor.

Leitura complementar: Efésios 2:1; João 6:44; Filipenses 1:29; Romanos 2:4; João 10:27-29; Romanos 8:31-39; 1 João 1:9; 2:1,2; Judas 24,25.


Somos habitação do Espírito
Romanos 8:9-11

Certo dia, atendendo ao convite de uma amiga, participei de um culto em uma luxuosa igreja. Ao iniciar a reunião, o pastor gabou-se da suntuosidade do seu auditório, afirmando que na cidade não havia templo mais bonito e confortável do que aquele. Ele talvez desconheça que o templo de Deus somos nós, que um auditório bonito e confortável não garante santidade nem filiação divina. A beleza que Deus quer de nós é a do coração, nós os que somos salvos e selados com o Espírito Santo. A garantia da nossa salvação e ressurreição é a presença do Espírito de Cristo que habita em nós. O cristão é propriedade exclusiva de Jesus Cristo. Embora ainda possa incorrer no risco do pecado, este não tem mais domínio sobre ele, porque o que nele habita é a divina semente (cf. 1 Jo 3:9). A vivificação do nosso corpo mortal é uma promessa de Deus e o propósito da vinda de Cristo. Ele morreu para que tivéssemos vida em seu Nome e os que vão até Ele, de modo algum Ele os lançará fora (Jo 6:37). “Porque a lei do Espírito da vida, em Cristo Jesus, te livrou da lei do pecado e da morte” (v. 2).
Em 1 Coríntios 3:16, Paulo indaga aos crentes de Corinto: “Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?”. Para o apóstolo Paulo, mesmo os gentios, outrora desprezados por ele como raça inferior e indigna, são chamados de templo de Deus. Por ter o Espírito Santo habitando dentro de si, este novo homem não tem mais nenhum direito sobre si mesmo, mas é Deus quem deve governar a sua vida e as suas atitudes. Os sacrifícios oferecidos pelos judeus, que há muito já haviam perdido o sentido para Deus, foram de vez substituídos pelo sacrifício de Cristo e o sacrifício diário e individual de uma vida santa que glorifique o Senhor. Onde quer que estejamos, seja num prédio feito de madeira com chão de terra ou numa catedral luxuosa, o templo somos nós.

Leitura complementar: Efésios 1:13,14; 4:30; 2 Coríntios1:21,22; 5:5; João 20:31; Isaías 1:10-17; 1 Coríntios 6:19; João 14:16-26; Romanos 14:17; Hebreus 9:14; Atos 2:38.


Somos filhos de Deus
Romanos 8:16,17

Muitos que ainda não fazem parte da família de Deus creem que todos os seres humanos são filhos de Deus. Mas para ser filho de Deus, é necessário passar por um processo de adoção que obedece a uma única regra: fé em Jesus Cristo (Jo 1:12,13). O Espírito Santo testifica que somos filhos de Deus, o que quer dizer que somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. (cf. Ef 1:4). Assim que cremos, fomos selados com o Espírito Santo, o qual é o penhor da nossa herança e a garantia de que seremos resgatados por Deus. Independente de cair ou não em pecado, de desviar-se ou manter-se firme a vida inteira, o cristão estará no céu, pois a presença do Espírito Santo dentro dele lhe dá essa garantia. Isto não abre espaço para que ele viva pecando por já estar seguro da sua salvação. O verdadeiro cristão não permanece no pecado, não sente prazer em pecar (Rm 6:1-4). O simples pensamento de aproveitar-se da segurança da salvação para viver pecando, já é o suficiente para mostrar que tal pessoa nunca foi salva, nunca pertenceu de fato a Deus e que o Espírito Santo não habita nela. 
A salvação não é fruto da nossa justiça, como o apóstolo Paulo afirma: “não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Romanos 3:11,12). A justificação é “unicamente” pela Graça de Deus (Rm 3:24; 5:9). Somos salvos pela justiça de Cristo imputada a nós (cf. 2 Co 5:21; Tito 3:5-7). Aqueles que não creram em Cristo para a salvação, não fazem ainda parte da família divina, não são filhos de Deus, mas criaturas apenas. Além disso, não possuem a salvação, não tem esperança de entrar no céu, mas permanecem sob a ira de Deus (Jo 3:36). Se estamos em Cristo, podemos estar certos de termos um Pai fiel, amoroso, misericordioso, que em breve nos levará de volta ao nosso verdadeiro lar.

Leitura complementar: 1 João 3:1,10; 5:12; Marcos 3:35; Romanos 8:14-17; Gálatas 4:4,5; 2 Coríntios 6:17; Mateus 5:9.


Temos a esperança eterna
Romanos 8:24

Enquanto está no mundo perdido e sem Deus, o homem está desesperado, embora muitos não se deem conta disto nem o admitam por não crerem na existência de Deus e na vida após a morte. Todavia, aqueles que estão em Cristo podem crer e esperar por uma vida eterna além desta vida terrena. Embora não possamos contemplar com os nossos olhos as promessas de Deus para nós, aguardamos o momento em que a vida se manifestará e nos glorificará juntamente com Cristo nos lugares celestiais. Alguns creem que podemos perder a salvação, o que equivale a crer que Deus não pode realizar aquilo que nos prometeu. Mas se de fato cremos em Deus, temos a esperança da vida eterna que Ele nos prometeu. O apóstolo João nos confirma que somos filhos de Deus e ainda o veremos como Ele é e seremos como Ele (1 Jo 3:2). E é esta esperança que desperta em nós o desejo de santidade, de ser como Cristo agora, nesta vida (Tt 2:12-14).
Sem esta esperança na vida eterna não há o desejo ardente de santidade, mas apenas o desânimo de saber que, a qualquer momento, podemos nos perder novamente. A busca por santidade sem a esperança na promessa de Deus transforma-se em ativismo religioso, onde corremos em busca de ser aquilo que não somos, de crescer por nossos próprios esforços. Se a esperança de Deus não está em nós, não é Ele quem opera a santidade, mas a nossa própria capacidade. Juntamente com a fé e o amor, a esperança é aquilo que permanece no cristão (1 Co 13:13). Nesta esperança temos a plena convicção de que já somos herdeiros de Deus e co-herdeiros com Cristo. A nossa esperança está além daquilo que os nossos olhos podem ver e a nossa mente pode compreender, porque a nossa pátria está nos céus e a nossa esperança não está limitada às coisas desta vida.

Leitura complementar: 1 Coríntios15:19; Romanos 12:12; 1 Pedro 1:3; Colossenses 1:27; Efésios 4:4; 1 Tessalonicenses 2:16; 1 Timóteo 4:10; Tito 2:13; Hebreus 10:23.


A obra de Cristo é completa
Romanos 8:29,30

O ser humano é um ser inconstante. Ele vive de modismos: hoje ama uma coisa, e amanhã a abandona por outra mais nova, mais na moda. Nem sempre ele consegue levar até o fim os seus sonhos, planos e projetos, mas abandona-os pelo meio do caminho, por se achar incapaz, por comodismo, por falta de recursos ou porque encontrou cosia melhor para fazer e investir, deixando o que começou para trás, inacabado. Assim também são os seus relacionamentos. Parece que cada namoro é um teste em busca do aperfeiçoamento até chegar à pessoa ideal, deixando para trás muitos corações machucados. Os casamentos dificilmente duram até que a morte os separe. As obras das mãos dos homens são tão volúveis quanto o seu coração. Louvado seja Deus, porque com Ele é tudo muito diferente. A sua vontade soberana não fica incompleta nem é abandonada, mas executada cabalmente. Como ensina o apóstolo Paulo aos romanos, a obra de Deus na vida do cristão redimido é completa, definitiva e eficaz: Ele conhece (v. 29) predestina, chama, justifica e glorifica.
A glorificação é o clímax do chamamento cristão, onde seremos como Deus é e o veremos como Ele é (cf. 1 Jo 3:2). Esta é uma promessa que não pode falhar, pois Deus já determinou que fosse assim. Como poderia Deus nos perder? Os seus planos para nós seriam frustrados e essa sequência de bênçãos seria perdida. O texto não afirma que de “todos” os que foram conhecidos, predestinados, chamados e justificados, apenas “alguns” chegariam à eterna glória. Os que Ele de antemão conheceu, com certeza serão glorificados. Uma vez que entramos no barco de Deus para passarmos para o outro lado da margem, nada pode nos fazer naufragar e perecer. É o Senhor quem nos conduz em segurança. Ele nos dá essa certeza e podemos confiar em seus soberanos e maravilhosos planos.

Leitura complementar: Filipenses 1:6-11,27,28; 2:2-16; 3:13-16; 4:8,9 1 Pedro 1:3; 1 João 3:9.


O cristão vence o mundo
Romanos 8:35-39

O cristianismo de hoje vive na era da vitória. Esta é cantada em todos os louvores e faz parte de grande parte das pregações triunfalistas em diversas igrejas. Não está em vista, porém, a vitória de Cristo sobre a morte e o inferno, uma vitória que nos concede, por meio da sua graça, redenção e vida eterna nos céus. É uma vitória material, geralmente financeira. A vitória dessas pessoas que assim pregam e vivem está em viver feliz e satisfeito neste mundo. Mas para a Palavra de Deus, o cristão obtém vitória sobre o mundo. Paulo deixa bem claro aos cristãos de Roma que Deus é por nós e, portanto, nada nem ninguém poderá ser contra nós ou nos separar do seu amor (vs. 31-35). Ele indaga: “Quem intentará acusação contra os eleitos de Deus?” E afirma: “É Deus quem os justifica” (v. 33). E ainda: “Quem os condenará? É Cristo Jesus quem morreu ou, antes, quem ressuscitou, o qual está à direita de Deus e também intercede por nós” (v. 34).
Em Cristo, o cristão está definitivamente ligado a Deus e não há nada que possa separá-lo do seu amor, nem mesmo os seus pecados, pois já foram cancelados. Essa vitória talvez não faça mais sentido na vida de cristãos que possuem o seu coração e a sua esperança naquilo que é terreno e passageiro, sem anelar por algo superior guardado nos céus. Para nós que esperamos no Senhor e que fomos chamados segundo o seu propósito, a vitória é certa e nada poderá tirá-la de nós. Não nos importa se andaremos de ônibus ou de carro importado; não nos importa se a nossa casa será na periferia ou de frente para o mar. O que realmente tem importância é que pertencemos a Deus, somos seus filhos e estaremos com Ele nos céus. As ondas do mar da vida podem tentar nos afogar, os grandes precipícios do pecado podem tentar nos destruir, mas o Senhor está conosco e jamais nos abandonará.

Leitura complementar: 1 João 2:15,16; 5:4,5; Romanos 12:3; Hebreus 10:22; 2 Coríntios 4:13.


Quem está em Cristo não é confundido
Romanos 9:31-33

O mundo vive em constante insegurança, por isso colocamos tantas cercas elétricas nos protegendo dos perigos fora dos muros das nossas casas. Na nossa vida espiritual ocorre o mesmo. Afiramos: “sei em quem tenho crido”, mas essa certeza não garante segurança alguma para a vida de alguns. Alguns se confundem porque creem em seu próprio poder para desenvolver a sua santidade e manter-se firme na graça de Deus. Confiam em suas próprias forças porque no fundo não acreditam que Deus é poderoso para mantê-los firmes até o dia do juízo. E mais: acreditam que Deus pode descartá-los facilmente. Os judeus viviam firmes na sua crença em Jeová, mas rejeitaram aquele que o próprio Jeová enviou. A Rocha que os judeus rejeitaram e nela tropeçaram, mantém o cristão em pé e ele não pode tropeçar (Jo 11:9). O cristão não está seguro pelos seus méritos, pelo seu excelente grau de santidade alcançado por meio de orações e jejuns, de esmolas e dons espirituais. Os Coríntios, por exemplo, possuíam muitos dons e eram reputados por Paulo como carnais (1 Co 3:2).
O que firma os passos do cristão é o alicerce sobre o qual está edificado: Jesus Cristo. Ele pode pecar, mas os seus pecados já foram expiados; ele pode até se desviar, mas o alicerce continua firme e não pode ser abalado (1 Co 3:10,11). Isto não significa que ele pode viver pecando, porque o seu novo nascimento o estimula a não pecar mais. Quem crê em Cristo não será confundido. Não é preciso insegurança quanto a obra que Deus realizou em nós, sobre o fato de sermos santos, sobre o perdão dos nossos pecados, sobre recompensa eterna nos céus. Deus não mentiu nem se arrependerá. Ele não voltará atrás no seu decreto nem nos rejeitará. Os judeus perderam a bênção, mas aqueles que creem, vão sendo salvos, porque jamais serão confundidos.

Leitura complementar: Salmo 89:20-30; João 10:28,29; Efésios 4:30; Hebreus 13:5; Deuteronômio 29:19.


Os dons de Deus são irrevogáveis
Romanos 11:29

Paulo fala aos romanos que os dons e a vocação de Deus são “irrevogáveis”. Isto é, Deus não se arrepende, não voltará atrás em seus atos de Graça, dos quais o maior de todos é a salvação em Cristo Jesus. As promessas de Deus para o povo de Israel deveriam se cumprir e tiveram o seu termo em Cristo. Deus não voltará atrás. Da mesma forma para conosco, o seu povo escolhido em Cristo, Ele não voltará atrás. Deus não revoga a sua aliança, o seu perdão, a sua justificação, a redenção, a salvação e a ressurreição. Quem salva é Ele e Ele é poderoso para nos levar seguros para a glória nos céus. Não são os nossos pecados que podem nos separar de Deus, mas a nossa falta de fé: “Quem nele crê não é julgado; o que não crê já está julgado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus” (Jo 3:18). Uma leitura sincera da Bíblia mostrará que a única forma de nos excluirmos para sempre da presença de Deus é pela incredulidade. Essa incredulidade não significa duvidar por algum momento que Ele está no controle da nossa vida ou entrar em desespero no momento de uma grande tribulação.
Por vezes Jesus censurou os apóstolos por conta da sua pequena fé, da sua incredulidade, mas isso não os excluiu dos seus planos eternos. A incredulidade que nos afasta de Deus completa e eternamente é a rejeição da sua graça em Cristo, a rebeldia insistente de não crer que Ele existe e que é Soberano. É a incredulidade dos apóstatas, que experimentam o dom de Deus, visitam a igreja e depois de um tempo saem escarnecendo dos crentes, de Deus, de Jesus, da Bíblia, do Espírito Santo. Deus jamais nos abandona, jamais nos deixa de lado. Se cada vez que pecássemos Deus apagasse o nosso nome do Livro da Vida, nunca teríamos nosso nome lá, porque nascemos em pecado e em pecado vivemos. Apenas da graça de Deus dependemos e é ela quem nos conduz à vitória final no céu.

Leitura complementar: Romanos 11:30-32; Lucas 8:13; 1 Timóteo 4:1-13; 3:1-7; 2 Pedro 3:3-7; Apocalipse 13:3,4.


O Senhor é poderoso para nos suster
Romanos 14:4

O Senhor é poderoso para suster o seu servo. Mesmo se cair não ficará prostrado. Quem defende a perda da salvação afirma que o cristão desviado, se morrer desviado, não vai para o céu. Entretanto, a salvação é algo que acontece aqui e se estende à eternidade. Estamos salvos, mas ainda não participamos da ressurreição final para a vida. Deus é poderoso para salvar o cristão aqui e na glória. Se ele vier a morrer estando desviado, a glória de Deus o acompanhará, pois quando creu, foi salvo para a eternidade. O corpo pode morrer, mas a alma vive para Cristo. Como já vimos, aqueles que crêem em Cristo já foram salvos desde a eternidade. A vida eterna não é algo ainda a se revelar, mas é algo já presente. O que ainda se revelará é a vida eterna com Deus nos céus, sem a morte física e sem o pecado para sempre. Parece-nos que alguns têm em mente que, uma vez convertido, o crente não pode pecar. Somente uma vida totalmente isenta de pecado ou até mesmo da capacidade de pecar pode levar o convertido a jamais cair em qualquer tipo de pecado. Isso é impossível e não é bíblico.
O pecado sempre estará presente na nossa carne, tentando-nos. Cabe a nós, pelo poder do Espírito Santo, mortificar a carne e seus feitos. Se por ventura cairmos, o Espírito Santo não nos abandona, mas Ele próprio nos incomoda e nos coloca de pé novamente. A vida cristã é de dependência total e diária de Deus. não são os nossos esforços, o poder da nossa fé, a nossa alta espiritualidade que fortalecem a nossa alma, mas o agir de Deus. Somos apenas vasos nas mãos do Senhor, servos que só são úteis porque são usados por Ele. Ninguém pode nos separar do seu amor nem apagar os seus planos para nós. nenhum pecado que cometemos é maior que a graça que em nós habita. Graças damos a Deus pelo seu maravilhoso poder que nos leva até onde, sozinhos, jamais iríamos.

Leitura complementar: Salmo 37:23,24; 145:14; Provérbios 24:16; Jó 4:4; Miqueias 7:8.


Somos confirmados segundo o Evangelho
Romanos 16:25,26

O cristão é guardado pelo poder de Deus que o confirma segundo o Evangelho de Paulo e a pregação de Jesus Cristo (2 Tm 1:12; Jd 24). Que Evangelho? Que pregação? A própria epístola é a resposta a esta pergunta: o Evangelho da Graça de Deus, onde somos salvos por meio da fé, independente das obras. É a Graça de Deus que nos salva e nos leva firmes para a glória. Se perdêssemos a salvação todas as vezes que pecássemos, estaríamos anulando a cruz de Cristo, pois na cruz ele nos perdoou de todos os nossos pecados, cumpriu a Lei e nos deu salvação em seu Nome (Ef 2:11-16; Cl 1:20; 2:14). O cristão já está confirmado por Cristo diante de Deus, que o confirmará até o fim (1 Co 1:8). Paulo diz que somos confirmados segundo o seu Evangelho e a pregação de Jesus Cristo, “conforme a revelação do mistério guardado em silêncio nos tempos eternos”. Que mistério é este? É o Evangelho da Graça de Deus para a obediência por fé entre todas as nações (v. 26).
O cristão é confirmado na Graça de Deus abundante em Cristo Jesus, independente da Lei e das obras. Se não são as obras ou a Lei que confirmam a nossa salvação, porque haveremos de perdê-la por meio delas? Se já não estamos mais debaixo da Lei e se Cristo já a cumpriu por nós, porque por ela haveria ainda de nos condenar? Em Romanos 1:16, Paulo diz não se envergonhar do Evangelho, porque ele é poder de Deus para salvar aquele que crê. Imaginar que, após sermos salvos pelo Senhor Jesus, poderíamos entrar novamente em condenação, significa questionar o poder que o Evangelho possui de salvar totalmente o pecador. A pregação de Jesus nos garante a vida eterna (Jo 3:36), ela nos promete a ressurreição e a subida com o Senhor aos céus. Se o Senhor nos prometeu, Ele cumprirá.  Não por nossas obras, mas pelo seu sangue vertido na cruz.

Leitura complementar: 1 Coríntios 1:17; 15:1-4; 2 Coríntios 11:4; Efésios 6:15; 1 Tessalonicenses 1:4,5.






sexta-feira, 23 de setembro de 2016

HERESIA E APOSTASIA: O LIBERALISMO E A NEO-ORTODOXIA




1 INTRODUÇÃO

            Não é preciso voltar os olhos para os tempos idos do Iluminismo ou do Modernismo para compreender as consequências negativas causadas pelo liberalismo à teologia e à vida da Igreja de Cristo. Tais consequências não dizem respeito apenas ao modo de enxergar a Bíblia e o Deus da Bíblia, mas também a forma como certos grupos cristãos passaram a viver a sua fé na prática cotidiana. Se o liberalismo teológico enxerga Deus a partir de pressupostos meramente históricos e filosóficos, tira dele a sua essência divina e aproxima-o do ideal científico, no qual chega a negar-se a sua existência. Se Deus é um ser tão somente imanente e coexiste nos seres e nas coisas, deixa de ser transcendente, moral e relacional. A ideia da Queda é abolida e, como desejam os cientistas sociais e da mente, o pecado inexiste.
            O liberalismo teológico extrapolou questões meramente teológicas sobre a autenticidade da Bíblia e a existência de Deus, como apregoavam os deístas. Ele infiltrou-se mesmo nas confissões ortodoxas, que creem na existência de Deus, na inspiração das Escrituras e na divindade de Cristo, bem como na historicidade e na veracidade dos milagres Bíblicos, do nascimento virginal de Jesus, na sua ressurreição dentre os mortos, na sua volta gloriosa para o resgate da sua Igreja e o julgamento final. Tal liberalismo, reconhecendo as Escrituras, negam-na através de suas práticas antibíblicas, que não se resumem à criação de heresias – como existem nas Testemunhas de Jeová, no Mormonismo ou no Catolicismo Romano – mas que se estendem à moralidade e à ética cristãs. Temas polêmicos como o aborto, a eutanásia, a pena de morte e o homossexualismo são defendidos por tal teologia e por aqueles que dela se servem, segundo o que lhes for conveniente.
            A tentativa de tornar a fé um produto aceitável em um mundo dominado pela ciência e pela tecnologia, afastou e ainda tem afastado os cristãos da genuinidade da pregação evangélica, aceitando-se abrir mão da doutrina correta para abraçar uma nova forma de pensar Deus e a sua Palavra. O problema central parece ser a iluminação da Igreja pelo mundo, com suas crenças e valores, quando deveria ser o contrário. Neste ponto, lembrar do fundamentalismo teológico e muitos dos seus pontos obscuros é compreender a tentativa de alguns grupos religiosos de manter a crença correta em meio às influências modernistas perniciosas, que tendem a abrir mão do que é ortodoxo para lançar-se a todo vento de doutrina. Era necessária, então, uma nova ortodoxia, que seria, na verdade, uma volta às origens da fé genuinamente bíblica. Essa nova ortodoxia, porém, não seria suficiente para barrar o avanço das heresias e da apostasia, mas corroboraria com ambas.


2 O PROBLEMA DA IGREJA ATUAL

            Para Augustus Nicodemus (2012, p. 80), o Liberalismo Teológico é a maior causa para a apostasia da igreja, uma vez que ele adota conceitos contrários à Palavra de Deus. A presença das heresias na Igreja cristã vem desde os tempos apostólicos, tendo em vista que os próprios apóstolos e escritores do Novo Testamento já se viam obrigados a combater pensamentos e práticas contrários à Verdade, que se infiltravam nas comunidades eclesiais, como o gnosticismo e a questão dos judaizantes (p. ex., o livro de Gálatas). Tais heresias não somente pervertiam o Evangelho de Cristo, como afastavam dele as pessoas. Alguns crentes chegavam a apostatar da fé para abraçar uma nova maneira de pensar Deus e a sua Palavra (cf. 2 Tessalonicenses 2:9-11; 1 Timóteo 4:1; 6:20,21; Hebreus 3:12,13). Nicodemus (idem) cita alguns motivos externos que levavam à heresia e à apostasia: “amor ao dinheiro, orgulho, problemas morais não resolvidos, vaidade intelectual, falta de coragem para assumir a verdade e desejo de novidades”. Além disso, a falta de um coração verdadeiramente regenerado configura-se, talvez, o principal fator que leva alguém a apostatar da fé.
            Entra-se, aqui, numa questão importante: apostata-se da fé quando se renega a verdade Bíblia e se abandona a Igreja, ou é possível permanecer de posse da Bíblia e dentro da Igreja e ainda assim ser um apóstata? Esta é uma questão controversa que envolve o liberalismo teológico e a pregação de doutrinas contrárias à Bíblia, sem, no entanto, negá-la. Existem muitos pregadores apostatando da fé, pregando-a. isto significa caminhar por duas vertentes: dizer aquilo que a Palavra de Deus não diz como se fosse uma verdade revelada; ou distorcer aquilo que a Palavra de Deus diz para suprir interesses pessoais. Quando alguém diz, por exemplo, que o cristão só será abençoado se for fiel nos dízimos, está distorcendo o sentido do texto de Malaquias 3:10-12, ao passo que acrescenta uma doutrina estranha á Bíblia. Tal prática está maciçamente presente nas igrejas atuais, acima de tudo aquelas ligadas ao movimento neopentecostal. A criação de igrejas homoafetivas, onde a Bíblia é tida como Palavra de Deus e pregada, também é um exemplo de apostasia em que permanece a Bíblia, mas de forma distorcida.
Em um livro publicado no Brasil pela Editora Fiel (2012), Paul Washer traz ao público dez acusações contra a Igreja Moderna. A primeira diz respeito à negação da suficiência da Escritura, algo já praticado há séculos pelo Catolicismo Romano, que considera como igualmente inspirada a Tradição e o Magistério da Igreja. Em algumas denominações protestantes, são acrescidas novas revelações à Bíblia de acordo com o bel-prazer de pretensos profetas. A segunda é uma ignorância a respeito de Deus. Os crentes não somente conhecem pouco a respeito do Deus que creem, como também atribuem palavras, pensamentos e ações a Deus de forma indevida, distante da realidade bíblica. A quarta acusação é o fracasso em abordar o mal do homem, tratando o pecado de maneira superficial, como medo de falar aos homens da sua impiedade. A quarta é a ignorância quanto ao evangelho de Cristo, que, nas igrejas atuais, nem sempre aponta para a obra de Cristo na cruz, mas se contenta com temas periféricos, como prosperidade e vitória terrena. Como consequência, a quinta acusação é um convite antibíblico ao evangelho, que não traz conversão sincera do pecador nem transforma a sua vida moral. A ênfase atual não está naquilo que Deus quer para o homem em termos eternos, mas aquilo que o homem pode angariar de Deus em termos terrenos.
            A sexta acusação trazida por Washer é uma ignorância quanto à natureza da igreja. A igreja é mais compreendida de um ponto de vista mundano e utilitarista do que sob a óptica bíblica de instituição divina santa e imaculada. A sétima é uma falta de disciplina eclesiástica amorosa e compassiva. A carnalidade faz parte da vida de muitos pastores e a disciplina nem sempre envolve o amor e a misericórdia. A oitava acusação fala sobre um silêncio a respeito da separação ou santidade. Nem sempre o que se prega a respeito de santidade tem a ver com o que está escrito na Bíblia. A nona acusação é a substituição do ensino bíblico sobre família por psicologia e sociologia. O aconselhamento pastoral é substituído pela terapia grupal. A décima acusação mostra pastores mal nutridos na Palavra de Deus, que não leem nem estudam a Bíblia. Muitos têm grandes resistências quanto ao estudo teológico em seminários.
            Todas essas acusações refletem a influência liberalista na Igreja de Cristo. É necessário lembrar que o liberalismo teológico é muito mais que teorias errôneas acerca da Bíblia e de Deus, mas uma prática de vida que se inicia nessas concepções equivocadas e transporta-se para as comunidades eclesiásticas. A falta de preocupação com o estudo e o ensino das Escrituras pode partir da compreensão de que elas não são suficientes para a fé cristã e parecem ser facilmente substituídas por outras fontes. A falta de moralidade pode estar ligada à relativização do pecado e ao descomprometimento com o Evangelho puro e simples de Jesus Cristo. Lewis (2009, p. 121) escreve que “As pessoas normalmente encaram a moral cristã como uma espécie de barganha, na qual Deus diz: ‘Se você seguir uma série de regras, vou recompensá-lo; se não seguir, farei o contrário’”. A barganha é uma das marcas do neoliberalismo, pensamento filosófico-religioso que rege o movimento neopentecostal.


3 A NEO-ORTODOXIA

            O liberalismo teológico, em sua roupagem moderna, vem configurando-se como estilo de vida e de pensamento da Igreja desde as suas raízes: a ideia da morte de Deus apregoada pelo filósofo Friedrich Nietzche. Conforme afirma Geisler (2012, p. 124): “uma vez que eles declaram que Deus está morto, então o resto do pós-modernismo é o resultado lógico”, o que envolve a quebra de questões ortodoxas como a lei moral absoluta, o significado absoluto e a verdade absoluta, que leva à morte de todas as outras áreas do pensamento e da vida humana, incluindo a teologia. Se Deus está morto, instaura-se o ateísmo, o relativismo, o pluralismo, o convencionalismo, o anti-fundacionismo, o desconstrucionismo e o subjetivismo. Tal pós-modernismo tem trazido para a Igreja uma nova maneira de enxergar Deus e de vivenciar a sua fé, através de uma teologia da pós. Ainda conforme Geisler (idem, p. 124), o pós-modernismo tem se chamado na Teologia de pós-protestante, pós-ortodoxo, pós-denominacional, pós-doutrinário, pós-individual, pós-funcional, pós-credo, pós-racional, pós-absoluto, configurando-se, na verdade, um “anti” tudo aquilo que conhecemos como Palavra de Deus e a correta ortodoxia bíblica.
            A neo-ortodoxia (nova ortodoxia) vinha resgatar o lugar de Deus e da Bíblia na vida da Igreja, colocando freios ao idealismo pós-moderno e liberal, bem como pós-neoliberal, para trazer a cristandade de volta à forma correta de entender e viver a sua fé. Os neo-ortodoxos, segundo Nicodemus (op. cit., p. 87), levantaram-se contra a rigidez e o ceticismo do liberalismo, que não deixava a voz de Deus ser ouvida através da Bíblia. Os neo-ortodoxos, porém, mantêm a visão equivocada de que a Escritura está repleta de erros e contradições, afirmando que, ainda assim, Deus fala hoje. Segundo eles, “O maior de todos os milagres é exatamente que Deus nos fala através de palavras imperfeitas, erradas, imprecisas e equivocadas desse livro” (NICODEMUS, idem). Sem descartar a posição dos liberais, a neo-ortodoxia desejava manter a relevância bíblica, criando um paradoxo teológico insustentável à luz da ortodoxia.
            De acordo com o blog novomanifestoreformado.blogspot.com.br (2013):

O Século XX foi marcado por uma série de inovações na teologia. Desde o advento da neo-ortodoxia, com a publicação da Carta aos Romanos de Karl Barth em 1919 – obra clássica que veio contestar a teologia liberal sem, contudo, promover um retorno à ortodoxia tradicional – passando por Rudolf Bultmann e seu programa de demitologização (um autêntico retorno ao ceticismo dos liberais), Paul Tillich, Emil Brunner, Jürgen Moltmann e Wolfhart Pannenberg dentre outros, os seminários teológicos experimentaram uma miscelânea de ideias e conceitos a respeito da Bíblia e de Deus, influenciando gerações de pastores, inclusive muitos dos que hoje ocupam o púlpito e a direção de certas igrejas.

            Para os neo-ortodoxos, a Bíblia não é a Palavra de Deus inspirada, mas somente Jesus Cristo. Ela pode se tornar a Palavra de Deus, caso Jesus fale com o leitor e o conduza a Deus. De acordo com o pastor Marcos Granconato (2009): “Não há nenhuma igreja específica ligada à neo-ortodoxia. Trata-se de uma doutrina que está disseminada entre pastores das mais diversas denominações, especialmente as tradicionais. Porém, como seu ensino é sutil (afinal, quem questionaria a afirmação de que Cristo é a Palavra de Deus? João 1.1-14 não ensina isso?), muitas vezes sua ameaça deixa de ser percebida”.
            Segundo o site teologiacontemporanea.wordpress.com (2009), o tema mais debatido da neo-ortodoxia é o conceito de revelação. De acordo com o site:

A revelação, segundo Barth, é uma perpendicular que vem de cima, e que por isso não pode se comparar com as melhores intuições humanas. A revelação é um evento no qual Deus toma a iniciativa. Também é dito que a revelação não pode comparar-se com a Bíblia, pois é superior a ela. A Bíblia e suas afirmações são testemunhas, são sinais indicadores da revelação, mas não é a revelação em si. A Escritura não é a Palavra de Deus, e nem as afirmações da Escritura são revelação. Segundo Barth, comparar a Bíblia com a Palavra de Deus é objetivar e materializar a revelação.

            Tal crença dá ensejo não somente ao descrédito do conteúdo bíblico, como também a novas revelações ou a adoção de outras fontes de revelação divina, como a Tradição e o Magistério do Catolicismo Romano. Como ocorre com o liberalismo teológico, a neo-ortodoxia traz consequências tanto no campo doutrinário, como na realidade prática da fé, a forma como as pessoas vivem aquilo que acreditam. É natural que crenças erradas levam a práticas igualmente erradas.  A descrença na inerrância da Bíblia promovida tanto pelo liberalismo quanto pela neo-ortodoxia, permitem a formulação de crenças baseadas em conceitos mundanos sobre Deus, sobre bondade e justiça, baseados naquilo que é politicamente correto, mesmo em conflito com as Escrituras. Tal postura reflete nas pregações evangélicas atuais, onde novas revelações são trazidas e introduzidas nas igrejas, apresentando um cristianismo genérico que em tudo se distancia daquilo que está contido no que a ortodoxia chama acertadamente de Palavra de Deus inspirada: a Bíblia, Antigo e Novo Testamento.
            Já que a Bíblia não é inerrante, aceita-se o pluralismo de crenças, onde todos os caminhos levam a Deus e Deus está presente em todas as religiões, pessoas e coisas. Tanto a pregação liberal quanto a neo-ortodoxa, retiram da fé cristã o seu principal sustentáculo: a cruz de Cristo. A cruz é para onde todas as letras das Escrituras convergem. Tudo o que aconteceu antes e depois da morte vicária de Cristo têm ali a sua razão de existir. O que acontece quando se tira o milagre da cruz da vida cristã e de toda a humanidade? O que ocorre quando se nega a morte e a ressurreição de Cristo como um ato providencial de Deus para permitir que todo o que crê seja salvo? Além de se negar a realidade da Queda, nega-se a necessidade de um salvador e a existência da própria Igreja. E o que dizer de uma igreja – se é que se pode chamar assim – que não crê na veracidade dos milagres bíblicos nem na autenticidade da paixão de Cristo? Que consequências morais, espirituais e eternas tal igreja pode experimentar?
            Um dos pontos-chave da teologia liberal e neo-ortodoxa é permitir que a fé se expanda àqueles que não conseguem crer no extraordinário, o que remonta ao racionalismo científico. Dessa forma, abre-se mão da crença no sobrenatural e nos milagres para permitir que a razão conceba Deus. Sem dúvida, de acordo com Craig (2012, p. 237), “um dos principais impedimentos para muitas pessoas se tornarem cristãos hoje em dia é que o cristianismo é uma religião de milagres”. Ele ainda afirma: “O problema é que esse tipo de fato miraculoso parece pertencer a uma cosmovisão estranha ao homem moderno – uma cosmovisão pré-científica, supersticiosa, que combina com a Idade Antiga e Média” (idem). As pessoas necessitam crer naquilo que podem comprovar de maneira racional e científica, sem prejuízos à sua inteligência. Figuras como Bultmann reduziram o cristianismo a uma forma de ateísmo onde Deus está presente, mas ao mesmo tempo não está, negando ao homem caído a chance da regeneração e a possibilidade da imortalidade.
            Por outro lado, o fenômeno religioso brasileiro atual alavancado pelo neopentecostalismo, faz uso demasiado e irrestrito da crença nos milagres e nos sinais extraordinários. A sua fé triunfalista insiste no sobrenatural, no poder da fé e na influência sempre constante de Satanás na vida do crente. Temas como a Queda e as suas consequências à vida humana, a mensagem salvadora da cruz e a escatologia são deixados de lado em nome de um cristianismo voltado para os bens terrenos, a felicidade plena e a prosperidade financeira. Deus é apresentado como o Deus de promessas (materiais) e de milagres (financeiros). Jesus é mostrado como aquele que morreu na cruz para nos dar juntamente com Ele todas as coisas (vitória e prosperidade). A ética e a moralidade cristã dão lugar a práticas supersticiosas (como fogueiras santas e lenços ungidos com o suor do líder religioso), os movimentos de cura e libertação, onde o exorcismo é o caminho para a libertação do fiel de problemas puramente morais, que deveriam ser resolvidos com arrependimento, conversão e santidade de vida.


4 O DESPREZO PELO ESTUDO DA BÍBLIA

Todas essas questões refletem drasticamente na forma como os crentes encaram o estudo da Palavra de Deus. Não é de hoje que os pastores têm visto minguar a frequência dos crentes nos cultos de doutrina e na escola bíblica dominical. Este é um fenômeno que atinge a todas as igrejas evangélicas e que tem preocupado muitos líderes comprometidos com o ensino da Palavra de Deus. Por outro lado, outros tipos de cultos e eventos das igrejas têm recebido um número cada vez maior de crentes, independente do dia da semana e do horário em que são realizados. Em sua maioria, são cultos ligados a temas como cura, libertação, vitória e prosperidade financeira. As igrejas que investem nesse tipo de pregação estão sempre lotadas. Essas mesmas igrejas também veem o número de fies reduzir drasticamente nos dias de culto de doutrina, quando eles existem. Essa situação nada mais é do que o reflexo dessa nova teologia, dessa nova forma de pensar Deus e o seu agir no mundo.
Pode-se pensar em algumas prováveis razões ou justificativas para essa evasão do ensino bíblico.


4.1 Falta de orientação

Em primeiro lugar está a falta de orientação dos pastores, tanto pelo fato de não serem orientados por seus líderes maiores a estudarem com afinco as Escrituras, quanto o fato de eles mesmos não orientarem os seus fiéis a estudá-las. Este problema deve ser encarado sob duas ópticas:

·         Existe de fato uma má vontade que é produto da má fé. Isto é: tais líderes não desejam que seus fiéis estudem a Bíblia para poderem manter o poder sobre eles e a sua fé. Se as pessoas começassem a ler e entender as Escrituras Sagradas, poderiam passar a questionar as doutrinas da sua denominação e a não se conformar mais com certas pregações. Desta forma, muitas denominações não realizam culto de doutrina, limitando-se ao cardápio teológico oferecido pelo neopentecostalismo de cura, libertação e prosperidade financeira.
·         Outro fato é a tradição pentecostal, ainda mais acentuada na teologia neopentecostal, de dependência total do Espírito Santo, ao ponto de não valorizar o estudo da Bíblia, alegando ser esta uma forma de impedir que o Espírito Santo fale a aja. Dentro desta óptica, o estudo da Palavra de Deus é tanto incorreto como desnecessário, uma vez que o Espírito é quem inspira no crente o que ele precisa saber e falar no momento exato, interpretando de maneira equivocada o texto de Mateus 10:19,20.


4.2 Despreparo

            Quando o problema não é a falta de orientação, o despreparo está presente. O ensino correto e sadio da Bíblia depende da preparação de pessoas para realizá-lo. A boa vontade em fazer algo pode ser parte dos ingredientes, mas não é nem o único nem o principal. Ela precisa estar aliada à preparação daqueles que irão ministrar à Igreja o estudo da Bíblia. Essa preparação ocorre em dois níveis. O primeiro é o espiritual, isto é, quem se prontifica em ensinar a Palavra de Deus deve fazê-lo com a autoridade de quem acredita na Bíblia e a pratica. Isto não significa que o professor de ensino bíblico deva ser perfeito, mas que precisa ser alguém comprometido com a fé evangélica, com os valores do Reino de Deus. Logo, ele precisa ensinar primeiramente para si, tornar real na sua própria vida aquilo que aprendeu e que pretende ensinar. É esta a sensível diferença entre o ensino dos doutores da lei e do Senhor Jesus (Mt 7:28,29). Muitos pregadores e mestres nas igrejas não ensinam corretamente porque não possuem autoridade. Pode ser que um dos grandes motivos para a pouca frequência nos cultos de doutrina e na EBD esteja na observação da vida espiritual dos professores por parte da Igreja, quando percebem que aqueles que lhes ensinam não praticam o que eles mesmos ensinam.
            O segundo nível da preparação é a técnica. Como foi dito, boa vontade não é o suficiente. Pode-se afirmar, também, que santidade também não basta, embora seja o fator decisivo. A Igreja precisa investir na capacitação da sua liderança naquilo que diz respeito ao ensino das Sagradas Escrituras. Numa reunião de professores de EBD de certa denominação de linha pentecostal, foi sugerido ao pastor e líder que naquele ano se investisse na capacitação técnica dos professores, por meio de cursos, palestras e participação em congressos ligados ao ensino da Bíblia na Igreja. A ideia foi imediatamente rechaçada pelo líder, que afirmou que os professores possuíam o Espírito Santo e a Bíblia e que isso era suficiente. De fato, nenhuma técnica de ensino poderá substituir e atuação poderosa do Espírito Santo, mas isso não significa que o crente não deva aprender “como ensinar”, como utilizar o conhecimento dado por Deus e aplicá-lo de maneira eficaz.
            Esse pensamento distorcido da realidade tem esvaziado as EBDs, uma vez que o nível de ensino oferecido não é de qualidade, mas repetitivo, sem atrativo algum e sem consistência. Muitas igrejas passam anos ensinando as mesmas coisas, os mesmos temas, invariavelmente. Aquilo que o aluno aprendeu hoje, aprenderá no próximo mês com palavras diferentes. O ensino na Igreja nem sempre acompanha o nível de desenvolvimento espiritual e intelectual dos fiéis, oferecendo àquele que possui vinte anos de Evangelho o mesmo conteúdo que oferece a um novo convertido. Líderes, pregadores e professores precisam investir constantemente em atualização, novas técnicas de ensino, treinamento. Tudo isso não significa desprezo pela atuação do Espírito Santo, muito pelo contrário: é um respeito à excelência do estudo e do ensino do Livro que Ele inspirou.


4.3 Preconceito

            A falta de amor pelo estudo da Palavra de Deus também está ligada ao preconceito que muitos cristãos irracionalmente nutrem contra o ensino teológico. Para muitos, o ensino da teologia em seminários endurece o coração do crente, apaga a luz do Espírito no seu coração e produz nela uma fé totalmente racional e desprovida de intimidade com Deus. de fato, muitos cristãos fracos na fé não conseguem aliar o estudo sistemático das Escrituras a uma fé viva, quando na verdade um fator depende do outro. A espiritualidade não pode ser desprovida de conhecimento bíblico nem este pode estar desvinculado da uma vida espiritualmente ativa, com oração, leitura devocional da Bíblia, comunhão com os irmãos e santidade de vida. Mesmo fora dos seminários, nos cultos e na EBD, o preconceito ainda existe, o medo de se tornar um crente meramente racional, desprovido de emoção e experiência mística com Deus.


4.4 A preferência pelo testemunho pessoal

Tem-se ouvido muitas pregações que afirmam que para pregar o Evangelho não é necessário ser um estudioso da Bíblia ou fazer um curso de teologia. Essas pregações estimulam os fiéis a pregarem através do seu testemunho, contar o que Jesus fez na sua vida. E insistem que o testemunho vale mais do que muita teologia. Existem algumas mensagens perigosas por trás disso. A primeira é a desvalorização do próprio Evangelho: ele pode ser facilmente trocado pelo testemunho pessoal de alguém, que, diga-se de passagem, nem sempre condiz com o Evangelho. A segunda é que o teólogo não possui testemunho. Para muitas pessoas, ou o crente tem muito conhecimento ou tem testemunho; os dois não caminham juntos, o que é um julgamento preconceituoso e equivocado. A terceira mensagem afirma que o ensino teológico não é tão importante quanto parece, que é possível construir uma teologia própria baseada nas próprias experiências pessoais.
A situação degradante da igreja evangélica, puxada pelo carrossel do neopentecostalismo, mostra-nos o resultado de uma pregação sem teologia, de um testemunho sem base bíblica, de uma religiosidade baseada apenas na experiência dos outros. Não é preciso ser cristão para ter testemunho de cura e mudança de comportamento. Todas as religiões possuem essas coisas. Mas é preciso conhecimento bíblico da doutrina da salvação para levar um pecador à verdadeira conversão, não aquela que se emociona com o testemunho do pregador e quer ser igual, mas aquela que é convencida do pecado pelo Espírito Santo e escolhe viver para Deus. O apóstolo Paulo não pregava a si mesmo, embora testemunhasse das maravilhas que o Senhor operava na sua vida. Ele pregava o Evangelho da graça, fundamentado nas Sagradas Escrituras, que citava abundantemente. O testemunho precisa caminhar ao lado da Bíblia e para isso é preciso compreendê-la por meio da sua leitura e estudo.


4.5 A Teologia da Prosperidade

            O liberalismo teológico e o neopentecostalismo implantaram na mentalidade evangélica a compreensão de que o objetivo claro da Bíblia é satisfazer às necessidades particulares do crente, de modo que as pessoas que recorrem às igrejas que pregam e vivem esse tipo de ensino estão em busca de resolver os seus problemas pessoais e obter as vantagens oferecidas por uma fé triunfalista e vazia. A teoria vigente na Teologia da Prosperidade é a de que o crente não precisa esperar chegar ao Paraíso para desfrutar de todos os direitos prometidos por Deus na sua Palavra e adquiridos por Cristo na sua expiação. Ao contrário, ele pode desfrutar hoje mesmo de todos os benefícios de uma vida no céu, onde não existe doença e pobreza, onde só há saúde e prosperidade. Não é feito, no entanto, alusão alguma ao fato de que no céu não existe dinheiro ou um corpo físico para ter ou não saúde, portanto todas as bênçãos desfrutadas são espirituais. Mas a falta de formação teológica dos pregadores da prosperidade e a sua cegueira espiritual justificam essa gafe.
            Hagin, um dos grandes gurus desse tipo de teologia, afirma: “Uma razão porque nós, cristãos, vivemos em descrença e nossa fé tem sido obstruída, é a falta do conhecimento da redenção e dos nossos direitos na redenção, e essa falta de conhecimento é a maior inimiga da fé.” (in PIERATT, 1993, p. 66). Ele e tantos outros pregadores da prosperidade insistem em afirmar que os crentes têm direitos conquistados e outorgados por Cristo, direitos à saúde física e prosperidade financeira, que são efeitos da libertação efetuada por Cristo na cruz. Se todas estas coisas eram consequências do pecado e Cristo morreu para refazer tudo o que pelo pecado fora desfeito, então elas são um direito que a igreja deve gozar aqui e agora. Se os crentes estão em situação difícil, é porque lhes falta o conhecimento dessas coisas. A falta de conhecimento dos direitos do cristão é que faz com que tantos permaneçam na miséria e adoeçam.
            Esse tipo de ensino está presente de forma aberta nas igrejas da prosperidade e tem penetrado de forma embrionária em denominações consideradas históricas. A preferência geral é por cultos de cura e libertação, por pregações triunfalistas e antropocêntricas, levando os cultos de doutrina e a EBD a um estado crítico de quase inexistência. O conhecimento incentivado atualmente ao crente é o necessário para que ele adquira aquilo que lhe pertence, que lhe foi dado por Cristo na cruz. A partir do momento em que o crente “toma posse” dos seus direitos e crê que Deus fará tudo conforme o prometido, ele deve passar a “exigir” a sua bênção. Comentando João 14:13, Soares (2009, p. 17) traz ao leitor uma “grande revelação”: a palavra “pedirdes”, nesse texto, foi mal traduzida. O correto seria traduzi-la como “determinardes”. Segundo ele, o verbo pedir é sozo no original grego e tem o sentido de determinar, exigir, mandar. Por isso, não é preciso pedir nada a Deus, mas apenas exigir que Ele manifeste aquilo que já nos foi dado segundo a sua Palavra.


4.6 Individualismo descompromissado

            Toda essa teologia triunfalista e desprovida de apoio escriturístico, tem criado uma nova forma de pensar, sentir e viver o Evangelho. Esse novo formato gera crentes que não compreendem a razão do seu chamado ou sequer se entendem como pessoas salvas, com uma nova natureza, um novo padrão de vida e uma missão a cumprir. O neoliberalismo teológico fomentou um individualismo que impede que aqueles que se “convertem” se sintam de alguma forma comprometidos com a fé que abraçaram. Esse problema se inicia nas pregações que oferecem ao pecador a oportunidade de vencer as suas dores e as suas crises financeiras por meio do poder que há no Nome de Jesus, alcançando pessoas desesperadas, que procuram soluções rápidas e fáceis para vencer suas agruras. A solução apresentada na pregação neopentecostal é um Deus que está obstinado em abençoar o “pobre pecador”, a curar todas as feridas da sua alma, a satisfazer todos os seus desejos e vontades, a cobri-lhe de ricas bênçãos materiais. Desde cedo, os fiéis desse tipo de teologia aprendem que o seu objetivo de vida é pedir e a obrigação de Deus, é dar.
            Essa pregação tem exercido influência tal na cristandade, que mesmo as igrejas tradicionais têm sofrido com a falta de frequência dos seus membros em cultos de doutrina e na EBD. A razão é que as pessoas de fato estão em busca daquilo que massageie o seu ego e supra as suas expectativas. Não há tempo para o aprendizado sistemático, apenas para a apresentação de soluções rápidas para os seus problemas. O que se espera ouvir são pregações triunfalistas que falem das promessas de Deus, que preguem a vitória do crente aqui e agora, que deem às pessoas uma razão para adorar a Deus. Isto é: Deus só merece a atenção dos seus filhos enquanto os estiver abençoando, enchendo seus corações de promessas maravilhosas. Uma das consequencias naturais desse tipo de fé é a falta de compromisso com o Evangelho, tanto na observação dos seus mandamentos quanto na prática das boas obras e no envolvimento ativo na obra do Senhor. As igrejas estão lotadas de convertidos às bênçãos de Deus e vazias de convertidos ao Deus das bênçãos. Uma conclusão sincera dessa situação afirmaria que a razão pelo desprezo do estudo da Bíblia é a falta de conversão.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

            Com o desenvolvimento histórico do liberalismo teológico e a ascensão da neo-ortodoxia e a influência exercida por ambas no pensamento e na prática cristãs, fica difícil delimitar as bases do pensamento evangélico atual. O neoliberalismo e a teologia neopentecostal parecem beber de ambas as fontes, reinventando a fé cristã e as maneiras de interpretá-la e expressá-la. A neo-ortodoxia não ofereceu uma saída correta que levasse a Igreja a uma práxis baseada nos principais fundamentos da fé cristã. Antes, criou uma nova apostasia em cima daquilo que o liberalismo já vinha ensinando. Alguns pontos mudaram, mas a essência permaneceu inalterada: o Deus do cristianismo reformado está morto. Ele não é mais que um relojoeiro cego, conforme apregoam ateus, como Richard Dawkins.
            Ainda que a crença em Deus permaneça e a Bíblia encontre-se no seio do cristianismo como uma bússola para a fé e a prática da cristandade, doutrinariamente, os cristãos parecem viver um período de Idade das Trevas doutrinárias. Tanto algumas denominações históricas quanto as denominações ligadas ao movimento neopentecostal cedem a modismos, praticam o sincretismo religioso, curvam-se diante do racionalismo, abraçam o pós-modernismo, abrem espaços para que as ciências sociais e da mente tomem o lugar da Bíblia nas pregações e nos aconselhamentos. Por um lado existe a exacerbação no uso dos milagres, por outro o desprezo pelos dons espirituais e a demitologização muito difundida por Bultmann. A Igreja moderna urge uma volta ao cristianismo primitivo, ao exemplo de fé e de prática presente na era apostólica e na Igreja do primeiro século, a uma fé ortodoxa e genuinamente fundamentada na Bíblia, sendo fundamentalista sem ser tradicionalista.
            Para frear o avanço liberal (e neoliberal) e neo-ortodoxo que avassala as igrejas, é necessário o regresso ao ortodoxismo, devolvendo à Bíblia o seu lugar de proeminência entre a cristandade. Um dos ideais para este regresso é pensar o conservadorismo cristão como algo não prejudicial, mas salutar, onde se preserva não somente os fundamentos doutrinários da fé, como também os valores morais e espirituais que sempre permearam a vivência cristã. Como já foi dito, crenças erradas levam a práticas igualmente erradas. O conservadorismo nada mais é que um apelo à prática saudável do Evangelho, num contraponto á teologia liberal que tira o pecado de cena e instaura a libertinagem doutrinária e moral. De acordo com Vênâncio (2012, p. 47):

Por causa desse tremendo desequilíbrio entre as forças conservadoras e progressistas hoje, considero muito saudável, e verdadeiramente contracultural, o posicionamento cristão de tendência conservadora, que em nossa época deve assumir a defesa de pontos básicos e biblicamente legítimos [...] A firmeza nesses assuntos é necessária e tem seu lugar, desde que, evidentemente seja madura e bíblica (e não histérica e legalista), sem alçar a militância conservadora à categoria de identidade cristã.

            Fato é que a cristandade necessita de um cristianismo genuinamente bíblico, que forneça uma crença correta a respeito não somente da divindade de Cristo, da veracidade dos milagres e da inerrância bíblica, como também da maneira como esses temas impactam a vida prática dos fieis. Isto envolve as famílias, a responsabilidade social da Igreja, o engajamento político, a posição da Igreja diante das demandas pós-modernas, como a homofobia, o aborto e a eutanásia. São temas que nem o liberalismo nem a neo-ortodoxia se preocupam em resolver. Liberalismo teológico envolve liberalismo moral, logo tudo é aceitável, contanto que seja politicamente correto, ainda que biblicamente condenável. Se por um lado não se pode ceder a um dogmatismo superficial e castrador, por outro não se pode sucumbir a uma fé desprovida de conteúdo bíblico.


BIBLIOGRAFIA

CRAIG, William Lane. Apologética contemporânea: a veracidade da fé cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012.

GEISLER, Normam. In Apostasia, Nova Ordem Mundial e Governança Global: uma compreensão cristã do fim dos tempos. Paraíba: Visão Cristocêntrica, 2012.

LEWIS, C. S. Cristianismo puro e simples. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

LOPES, Augustus Nicodemus. In Apostasia, Nova Ordem Mundial e Governança Global: uma compreensão cristã do fim dos tempos. Paraíba: Visão Cristocêntrica, 2012.

PIERATT, Alan B. O evangelho da prosperidade: análise e resposta. São Paulo: Vida Nova, 1993.

SOARES, R. R. Como tomar posse da bênção. Rio de Janeiro: Graça Editorial, 2009.

VENÂNCIO, Norma Graga. Mente de Cristo: conversão e cosmovisão cristã. São Paulo: Vida Nova, 2012.

WASHER, Paul. 10 Acusações contra a Igreja Moderna. São Paulo: Editora Fiel, 2012.


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