domingo, 31 de maio de 2015

O NEVOEIRO - Parte 7 – O livro esconde a redenção




O Cardeal, em seus aposentos, acercava-se das notícias
Imaginando que atitude seria a mais propícia
O terror da sua alma fazia-o temer por seu destino
Se revelassem suas verdades juntamente com seu desatino.

“Preparem a minha carruagem, é necessário partir
Este lugar é perigoso, já não tenho negócios aqui.”
Os seus cavaleiros prepararam o transporte e a bagagem
O baú era o item mais precioso da sua viagem.

Não muito longe dali, reunidos em uma taberna
Alguns homens debatiam sobre sua desgraça hodierna
Buscavam explicações para maldição tão enfadonha
Que naquele dia apagara as suas caras risonhas.

“Agora me lembrei de algo, sei que vocês vão concordar”
Disse um homem velho encostado ao balcão do bar
“Toda essas desavenças que nos trazem grande desgraça
Aconteceram logo após aquele espetáculo na praça.”

“Depois que a bruxa foi queimada!”, exclamou outro cidadão
“Agora nós sabemos: ela nos lançou uma maldição!”
“Mas como nos livraremos do feitiço da besta-fera?
Morta está a bruxa e voltou ao pó que era.”

“O seu livro de bruxarias o Cardeal tem guardado
Aquele livro satânico deve conter um antídoto revelado
Que nos livre desta amargura e nos devolva a sanidade
Para de novo encher de paz a nossa tranquila cidade.”

Aqueles homens decididos correram até o delegado
E juntos chamaram o prefeito, que logo foi acordado
Conversaram sobre o assunto e chegaram à conclusão:
“Precisamos daquele livro para quebrar a maldição.”

Uma turbe de uns trinta homens se dirigiu até a igreja
Não sabendo que haveriam de encontrar grande peleja
Assim que lá chegaram o Cardeal já entrara na carruagem
E o cocheiro com um aceno pedia-lhes passagem.

“Esperem só um instante e não nos levem a mal
Temos um assunto urgente a tratar com o Cardeal
Peçam a ele que desça e aceite nos receber
Só ele tem a solução para a nossa alma devolver.”

O Cardeal contrariado e tentando conter o seu furor
Desceu da carruagem decidido a não ouvir tal clamor
“Senhores, ouçam o que vos digo, retornem aos seus lares
Lá estarão seguros na presença dos seus pares.”

“Perdão, vossa eminência”, disse sem temor o delegado
“Mas somente o senhor tem a cura para nosso mal logrado”
O que faria o Cardeal agora se era impossível mentir?
Se lhes desse o livro da bruxa tudo iriam descobrir.

“Eu de fato tenho a cura, mas será impossível lhes dar
Minha obediência é à Santa Sé e a ela devo respeitar.”
Então o Cardeal ordenou que seus homens fortemente armados
Abrissem caminho à espada contra o povo desesperado.

E no meio do nevoeiro, deu-se uma peleja fatal
Para voltarem às suas mentiras, lutou o mal contra o mal
Após mortos e feridos derramarem o seu sangue ao chão
O Cardeal sentindo-se acuado acabou perdendo a razão.

“Afastem-se, seus malditos, em nome do papa vos esconjuro
Se se aproximarem morrereis, pela minha alma juro!”
Mas sozinho diante do povo o seu poder já não valia nada
Embora tentasse lutar, morreu ferido por uma espada.

A carruagem foi vasculhada e o baú foi recuperado
Dentro dele estava a cura para o povo amaldiçoado
Que sentindo coceira nos ouvidos não suportava a verdade
Queria a sua vida de volta e esperava já não ser tarde.


CONTINUA...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, jamais comente anonimamente. Escrevi publicamente e sem medo. Faça o mesmo ao comentar. Grato.