sábado, 30 de maio de 2015

O NEVOEIRO - Parte 6 – Amaldiçoados pela verdade




O dia já ia morrendo e o nevoeiro não se ausentava
Presenciando a discórdia que aquela cidade tomava
Pessoas outrora direitas, religiosas e de alta moral
Agora estavam enterradas nas trevas do seu próprio mal.

O delegado logo enviou de casa em casa um aviso
Reunir o povo na igreja era urgentemente preciso
Juntos poderiam encontrar uma solução para tal dilema
Deveriam também e rezar e fazer uma novena.

Às sete horas da noite todos já estavam acomodados
Esperando a chegada dos guardas com o delegado
Todos vinham atordoados e, em silêncio, rangiam os dentes
Sentiam-se como vivendo em um mundo diferente.

Quando o delegado chegou e se colocou na frente do altar
Disse: “Povo desta cidade, chegou a hora de desvendar
Tais conflitos e revezes que perturbam a nossa paz
Este mal que nos assola de forma tão mordaz.”

A balbúrdia iniciou-se, todos falavam ao mesmo tempo
O delegado gritou: “Isto não está a contento!
Se todos não colaborarem não resolveremos o problema
Como pode tanta desgraça em cidade tão pequena?”

Um homem até então calado levantou-se e pediu a vez
O delegado deu um grande grito e o silêncio se fez
“Será que vocês não percebem o que existe na realidade?
O problema é somente um: só conseguimos dizer a verdade.”

O silêncio que já havia tornou-se ainda mais intenso
“Eu vou dizer a vocês o que sobre tudo isso penso
Não existem mais mentiras, só a verdade pode ser dita
Apenas mostramos quem somos, nossa existência maldita.”

“Você fala como um lunático”, disse uma senhora idosa
“Cale-se se não é capaz de dizer coisa proveitosa.”
“Não sou nenhum lunático, consulte a sua própria consciência
A senhora é capaz de dizer o contrário do que pensa?”

A idosa ficou calada, o homem estava certo
Se ela abrisse a boca, seus pecados seriam descobertos
Então todos se deram conta finalmente da situação
Só podiam dizer a verdade, como se fosse uma maldição.

“Então o que faremos?”, o delegado quis saber
Mas ninguém tinha coragem de qualquer coisa dizer
Aos poucos foram se retirando, cada um para o seu lar
Emudecidos pela verdade que estava a lhes torturar.

Naquela noite não houve rezas, nem diálogo entre as famílias
O padre não rezou a missa, não fez a sua homilia
Todos se trancaram em casa e não ousavam sair
Pois estavam certos de uma coisa: era impossível mentir.

Como conviver com isso e também manter as aparências
Sem revelar sentimentos maus, crueldades e indecências
Atitudes concupiscentes, desejos dos mais bestiais
Pais que maltratavam os filhos, filhos que odiavam os pais?

Religiosos que fornicavam e poderosos que oprimiam
Tantas famílias desajustadas que sempre à missa iam
Escondidos detrás das máscaras da sua religiosidade
Agora eram confrontados por sua ganância e maldade.

O nevoeiro dominava a vida daquelas pessoas
Que sempre se gabavam de fazerem coisas boas
E quando a noite cerrada caiu como um manto enegrecido
A cidade lembrava um cemitério há muito tempo esquecido.


CONTINUA...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, jamais comente anonimamente. Escrevi publicamente e sem medo. Faça o mesmo ao comentar. Grato.