sexta-feira, 29 de maio de 2015

O NEVOEIRO - Parte 5 – Afogados no desespero




Quando o dia amanheceu, o sol não trouxe sua claridade
O grande nevoeiro abatera-se como a morte sobre a cidade
As pessoas, atordoadas, comentavam o acontecido
Mas não podiam imaginar que enfrentavam o desconhecido.

Bem em frente à igreja uma terrível cena se descortinou
Despencando de cima da torre ao solo alguém se lançou
Diante de um grupo de freiras o seu corpo chegou ao chão
Trazendo gritos aterrorizantes e grande desolação.

A guarda logo interveio enquanto o povo queria saber
Quem era aquela pobre alma que tal destino pôde ter
Ao virarem o corpo para cima, o espanto foi horrendo
O homem que ali jazia era o juiz sanguinolento.

Nem todos ficaram tristes com tal morte e tal horror
No fundo muitos abominavam aquele juiz inquisidor
Teria sido suicídio ou sua morte fora encomendada?
Ele tinha muitos inimigos que queriam sua alma desgraçada.

Pela brecha da porta da igreja o Cardeal observava
O juiz era o responsável pelas vítimas que ele assassinava
Que morte súbita e misteriosa, era melhor manter distância
Porque nada poderia atrapalhar a sua cega ganância.

Enquanto o delegado investigava as causas da morte do juiz
Coisas estranhas aconteciam bem longe da igreja matriz
Casais que outrora se amavam brigavam como inimigos
Tanto homens como mulheres afirmavam terem sido traídos.

Os filhos que eram exemplos de fé e de devoção
Agora brincavam nos bares e nos bordéis faziam sermão
As meninas que de tão recatadas lembravam seres angelicais
Desvairadas, gritavam pelas ruas: “Nós já não suportamos mais!”

O que estaria acontecendo àquela pacata cidade
Que aos poucos se transformava em grande calamidade?
Todos achavam que o mal havia batido em seus portões
Conturbando as suas famílias, dilacerando os seus corações.

Havia choro e gritos, pessoas estavam sendo mortas
As ruas ficaram desertas, o comércio fechou suas portas
O prefeito da cidade reuniu as autoridades presentes
Algo deveria ser feito e precisava ser urgente.

A algazarra era tanta na reunião apressada
Todos falavam ao mesmo tempo, ninguém entendia nada
“Silêncio, senhores, silêncio”, gritou da tribuna o prefeito
“Se não nos organizarmos, nada faremos a respeito.”

Disse o prefeito após todos finalmente silenciarem:
“Devemos tomar medidas com as forças que nos sobrarem
A situação é delicada e a cidade está em conflito
O nosso Cardeal Alexandre afirmou já estar aflito.”

“E quem terá condições de resolver tal empreitada?
O senhor, prefeito corrupto, cuja autoridade é questionada?”
“Cale-se ou se retire, você não passa de um embusteiro!”
“Se o cão deve ir embora, o porco precisa ir primeiro!”

A confusão só aumentava e ninguém se entendia
A cidade parecia uma fornalha que com muito fogo ardia
Na escola, os professores se declaravam ignorantes
As freiras tão recatadas se mostravam extravagantes.

No teatro os atores também não conseguiam se entender
Todos diziam ser estrelas e queriam aparecer
A ponto de o diretor cancelar o espetáculo
“A arte está esquecida, perdeu o seu sustentáculo.”


CONTINUA...

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