quinta-feira, 28 de maio de 2015

O NEVOEIRO - Parte 3 – A bruxa queima na fogueira




Durante o restante do dia todos estavam em seus afazeres
Felizes por resistirem a todos os seus prazeres
Eram pessoas santas que valorizavam as suas liturgias
Diferentes daquela mulher e das suas perversas bruxarias.

Já antes da meia-noite, a praça aos poucos se lotava
Curiosa pelo espetáculo macabro, a multidão se aglomerava
Ao centro havia uma estaca rodeada de toras de madeira
E carrascos seguravam tochas, esperando acenderem a fogueira.

À meia-noite daquela sexta-feira os sinos da igreja soaram
Uma por uma as pessoas com reverência se ajoelharam
Seguido de cavaleiros, religiosos e autoridades civis
O Cardeal entrou com pompa trazendo a mulher de atos vis.

Com um manto todo branco a perversa estava vestida
Mãos e pés amarrados, mas mantendo a face erguida
A multidão furiosa dava-lhe tapas, socos e pontapés
Jogavam-lhe pedras e paus: “Morte à prostituta dos infiéis!”

Chegando ao centro da praça, na estaca ela foi amarrada
E com óleo feito de oliva a sua roupa foi encharcada
“Queimem a bruxa!”, a plebe gritava desejosa por contemplar
Seu corpo ardendo na fogueira e sua alma no inferno a queimar.

A mulher olhou para o céu com o coração repleto de dor
Os seus olhos vertiam lágrimas diante de tanto terror
“Renegue a Satanás e reconheça a Santa Sé
Salve ao menos a tua alma e morra nos braços da fé.”

O Cardeal esperava ansioso ouvir a sua confissão
Mas a mulher disse apenas: “Eu creio na minha salvação
Se a Deus me aprouve o martírio, aceito carregar minha cruz
Mas saibam todos que a minha fé está firmada em Jesus.”

Um raio cortou o céu e nuvens pesadas pairaram
As pessoas indignadas ainda mais forte gritaram
“Heresia”, girou o Cardeal, “A sua alma condenada vai tarde
Acendam a fogueira, vamos ver como ela arde!”.

Os carrascos atenderam a voz do seu comandante
Após acenderem a fogueira, ouviram um grito cortante
A mulher, olhando pro céu, sentindo as chamas ardendo
Disse: “Pai, perdoa-lhes. Eles não sabem o que estão fazendo.”

Logo morta estava a bruxa e o seu instinto satânico
Nunca mais ela infringiria terror, maldade ou mesmo pânico
Todos da cidade dormiriam sentindo paz no coração
“Está morta a semente do mal. Cumprimos nossa missão.”

Naquela noite fatídica em que a fogueira ainda ardia
E a pobre mulher sucumbira a tal ato de covardia
O silêncio foi tão profundo como nem na morte existe
Que se a alguém fosse revelado, deixaria a sua alma triste.

CONTINUA...

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