quarta-feira, 27 de maio de 2015

O NEVOEIRO - Parte 2 – Queimem a bruxa!




Num dia doze de dezembro, por perto do meio dia
Ouviu-se gritos na praça e depois grande correria
Dois cavalos puxando uma carruagem muito bem fortificada
Seguidos por dez cavaleiros faziam a sua entrada.

O Cardeal Alexandre comandava a guarnição
Vinha na frente de todos segurando uma espada na mão
Assim que parou seu cavalo todos os outros pararam
Sob o olhar estarrecido das pessoas que se aglomeraram.

“Moradores desta cidade, eu lhes trago boas-novas
Quem algum dia contestou a nossa fé, agora verá as provas
Vereis que não há mortal que atente contra a verdade
E que voltar-se contra a Sé é sinônimo de iniquidade!”

O Cardeal ordenou que abrissem a porta da carruagem
E trouxessem para que todos vissem o resultado da sua viagem
Acorrentada a grilhões uma mulher foi-lhes apresentada
O seu corpo estava sangrando e vinha muito assustada.

“Esta mulher que vedes”, bradou alto o cardeal
“É esposa de Satanás e prostituta de Belial
Ela foi presa em flagrante acusada de bruxaria!”
Naquele instante deu-se início a uma grande gritaria.

A mulher amarrada a correntes lutava para se libertar
Dizia: “Eu sou cristã! Vocês não podem me condenar
Nunca cometi sacrilégios nem jamais neguei a minha fé
Digam-me, acusadores, que pecados cometi contra sua Sé?”

“Cale-se, desafortunada, você é uma criatura maldita
Para trazer pragas ao mundo a sua existência já foi predita.”
O povo começou a gritar: “A bruxa deve ser queimada
Do nosso meio seja banida esta mulher amaldiçoada!”

O cardeal ficou satisfeito ao presenciar aquela reação
E aproveitou para proferir naquele instante a condenação:
A sentença da mulher era ser queimada à meia-noite
Após uma intensa sessão de torturas e açoites.

“Eu vos peço misericórdia, não me matem pelo amor de Deus
Vossa iminência declare quais são os pecados meus.”
“A bruxa tenta se defender e usa o nome de Deus em vão
Mas eu trago aqui comigo o motivo da sua prisão.”

O Cardeal ordenou que trouxessem o motivo daquela sentença
“Eis aqui meus irmãos diante de vossa presença
O livro infame que esta mulher mantinha em sua residência
Mesmo sabendo ser proibida até mesmo a sua existência!”

“Estás louco, eu declaro, há muito perdestes a sanidade!”
“Calem esta bruxa que atenta contra a verdade!”
Um cavaleiro agrediu a mulher com um soco em seu rosto
Fazendo que do próprio sangue ela sentisse o gosto.

“Esta escrava de Belzebul merece uma morte cruel!”
Gritou o Cardeal furioso erguendo o livro pro céu
“Vejam vocês que infâmia esta bruxa estava a portar
Um livro negro de Satã para as suas maldades tramar.”

As pessoas davam gritos e urravam diante de tal heresia
Rasgavam as suas vestes como há muito não se fazia
Aquela mulher tinha em mãos um livro proibido
Que o Cardeal afirmava ser o livro de feitiços malditos.

O Cardeal ordenou que a levassem para a prisão
E após combinar os detalhes, despediu a população
Todos deveriam se preparar para aquela meia-noite sangrenta
A turbe estava ansiosa, de justiça bufava sedenta.

CONTINUA...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, jamais comente anonimamente. Escrevi publicamente e sem medo. Faça o mesmo ao comentar. Grato.