terça-feira, 28 de julho de 2015

Mamãe, papai já está chegando?




Ronaldo está no trabalho; faltam poucos minutos para o término do seu expediente. Ele espera ansioso por esse momento. O telefone toca. Do outro lado a voz carinhosa de uma mulher. É a sua esposa.
- Olá, meu amor! – cumprimenta ela.
- Oi, minha vida – ele responde.
- Tem alguém aqui que quer falar com você.
- Oi, papai! – é seu filho do outro lado.
- Olá! Como vai o meu garotão? – ele não pode ver, mas os olhinhos do seu filho brilham ao falar com o pai pelo telefone.
- Papai, você vem pra minha festinha?
- Claro, meu filho. Assim que o papai sair do trabalho vai direto pra casa.
- Você vai trazer o meu presente?
- Já está dentro do carro, filhão.
            Após alguns cumprimentos, os dois se despem. Do outro lado, o filho de Ronaldo dá pulos de alegria. Ele o ama muito e vê nele um grande amigo e um herói. Hoje é a festa de aniversário de 5 anos do menino. Já está tudo pronto; em breve os convidados estarão chegando. Ele é único filho do casal. A esposa de Ronaldo é uma mulher maravilhosa, uma mãe e uma dona de casa dedicada. Eles dois se amam muito e se dão muito bem.
            Chega, em fim, o horário de sair. Ronaldo está ansioso. Sabe que seu filho o espera para a festa. Mas alguns colegas do trabalho o convidam para ir até o bar na esquina tomar uma “gelada”, afinal, é sexta-feira. Ele excita por alguns instantes.
- Mas é rapidinho, não custa nada – insistem os amigos.
Então ele entra no carro com a turma do escritório e vai tomar algumas geladas. Quando está no bar tomando a segunda cerveja, o telefone toca.
- Onde você está, meu amor? – é a sua esposa, um pouco já impaciente.
- Calma, querida. Dei uma passada rapidinha no bar com meus colegas para tomar uma e já estou indo para casa.
- Se apresse. O pessoal já está chegando. Seu filho quer tirar foto com você. Comprou o presente dele?
- Sim. Não demoro, não se preocupe.
            Antes de desligar o telefone, Ronaldo ouve ao fundo a voz eufórica e ansiosa do seu filho perguntando à mãe: “Mamãe, papai já está chegando?”. Mas ele decide que mais uma cerveja não vai demorar tanto. E toma mais uma, e outra, e mais outra.
            Depois de mais algumas garrafas, Ronaldo olha para o relógio e decide que já é hora de participar da festa do seu filho, algo tão importante para os dois. Ele está atrasado. Corre. Mas está mais alegre, diferente; seus reflexos não são mais os mesmos; ele se sente tonto. Um amigo se oferece para dirigir por ele, mas Ronaldo recusa; já está acostumado a dirigir assim; é normal. Sua casa não fica tão distante, ora! Entra no carro. Olha no banco do carona o grande pacote de presente. Liga o carro. Sai rapidamente. Seus olhos pesam. No rádio toca uma canção: “De bar em bar, de mesa em mesa, bebendo cachaça e tomando cerveja...”. É um forró daqueles que ele gosta, que geralmente incentivam as pessoas a fazerem esse tipo de coisa. E ele faz.
            Enquanto Ronaldo tenta dirigir até a sua casa, a festa já está rolando. Seu filho se diverte com os amiguinhos, brinca e ri com o palhaço. Mas ele sente a falta do pai. A festa não é a mesma sem o seu grande amigo, o seu herói. Ele pergunta constantemente a mãe: “Mamãe, o papai já ta chegando?”. “Claro, meu filho” – responde ela já duvidando de si mesma.
            No carro, Ronaldo olha para o relógio. Está bastante atrasado. Acelera mais um pouco. O carro parece passear na pista. Ele faz uma ultrapassagem perigosa, derrapa, perde o controle. Tenta manobrar o volante, mas está tonto, as toxinas do álcool minaram seus reflexos. O carro invade o canteiro central da avenida; atropela um indigente que pedia esmolas. Por fim, bate contra um poste, partindo-se ao meio, e Ronaldo é arremessado violentamente para fora do veículo, já que havia se esquecido de pôr o cinto de segurança. Seu corpo projeta-se velozmente contra o chão e seu crânio é esmagado, enquanto o resto do seu corpo é feito em pedaços. O sangue se espalha. Estilhaços de vidro batem contra a grande caixa com um lindo presente dentro. O barulho das sirenes ecoam em poucos minutos.
            O telefone toca na casa de Ronaldo pouco tempo depois. A festa já está quase no fim. Seu filho já não brinca nem ri tanto. Mas ao ouvir o som da campainha do telefone ele fica eufórico e começa a gritar:
- É o meu pai! É o meu pai!
A sua esposa atende.
- É você, meu amor?– indaga ansiosa.
O semblante dela transforma-se. Os olhos se enchem de lágrimas. Ela está paralisada. Alguém do outro lado acaba de lhe dar a notícia do acidente e da morte trágica do marido. Ela está em estado de choque. Seu filho puxa a barra do seu vestido. Ela olha para baixo, estarrecida. Ele pergunta:
- Mamãe, o papai já está chegando?
Com a voz sufocada na garganta, a única coisa que ela consegue fazer é largar o telefone, abraçar-se ao seu filho e chorar.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O VINGADOR





Francisco está nervoso. Ele liga para um conhecido seu.
- Edgar? – pergunta ele.
- Sou eu – responde rispidamente a voz do outro lado. – Quem é?
- Francisco.
- Diz aí, cara.
- Você já tem aquilo que te pedi?
- Tá tudo ok, amigo velho. De três horas em frente à rodoviária.
- É negócio garantido?
- Cem por cento. Ele já fez uns serviços pra mim. É profissional; limpeza.
- Então me diz como ele é que é pra não ter erro.
- Anota aí. Mas olha, esquece que falou comigo sobre isso, hem!
- Tá certo. Fique frio. Pode falar... – Francisco anota os dados e desliga. – Dona Zilda, eu vou dar uma saída para resolver umas coisas.
- Espero que você esteja indo atrás de emprego. Não quero ficar a minha vida inteira sustentando você e Leonora – Dona Zilda é a sua sogra e faz jus a alcunha de “jararaca”.
- Olha como a senhora fala comigo!
- Olha o que, seu vagabundo? E não é verdade?
- Se a senhora não fosse mãe de Leonora, eu ia lhe mostrar quem é o vagabundo – disse Francisco cerrando os dentes num ódio que parecia querer explodir em fúria sobre a sogra.
- Eu bem que avisei pra minha filha que ela era muito nova para casar, ainda mais com um cabra sem futuro como você. Mas ela não me deu ouvidos. Agora está aqui, morando de favor na casa da mãe com um traste desses, trabalhando em dois empregos enquanto você só faz vegetar.
- Vou sair – Francisco resmunga contendo o seu ódio enquanto bate violentamente a porta da cozinha atrás de si.
- Aquele inútil – Dona Zilda começou a praguejar sozinha. – Mas um dia ainda me livro dele. A batata dele está assando já faz é tempo.
Francisco vai até o bar que fica duas quadras distante da sua casa e senta numa mesa armada na calçada.
- João – disse ele ao dono do bar, um amigo seu das antigas. – Solta uma meiota aí, que hoje eu mato ou morro.
- Se você ainda não morreu de tanto tomar cachaça, Chico – era assim que ele o chamava desde a sua adolescência, – não morre nunca mais.
- Homem, deixe de coisa.
- E o que foi dessa vez, meu amigo? – João lhe serve a cachaça.
- O de sempre – Francisco está visivelmente abatido e transtornado.
- É, velho, por essas e outras que eu nunca quis me casar. Se fosse só a mulher tudo bem, mas também tem sogro, sogra, cunhado, a família toda se metendo. É um inferno. Lá em casa era desse jeito. Todo dia meu pai dava uma surra na minha mãe. E quando a sogra se metia no meio, apanhava também.
- Sei. Mas eu não tenho coragem de fazer isso não. Vou lá – diz ele levantando-se após despejar a cachaça toda goela a baixo.
- Tão cedo, meu amigo? Ta doente?
- Deixe e brincadeira, João. Vou resolver a minha vida. De hoje não passa.
- É emprego?
- Não, mas é coisa muito melhor, mais garantida.
- Está certo. Vá com Deus, amigo velho, e se cuida.
- Deixa comigo. Tome aí o dinheiro.
Francisco anda mais uma quadra e entra numa pequena Lan House. Paga uma hora de uso e senta-se para acessar a Internet, porque em casa a sua sogra vive reclamando e ela mesma não sai do computador, atrás de receitas, diz ela. Ele entra num site de relacionamentos e espera que alguém apareça para conversar com ele. Deve ser alguém muito especial, pois pela primeira vez naquele dia ele sorri. Os seus olhos brilham como quem encontra uma enorme pepita de ouro.
- Oi, meu amor – teclou alguém com o apelido “Raio de sol.”
- Estava esperando por você – respondeu ele. O seu apelido era “o Vingador.”
- Quando você vai me deixar ver o seu rosto, meu amado?
- Quando você deixar eu ver o seu.
- Não. Eu já lhe disse que só mostrarei meu rosto quando nos conhecermos pessoalmente.
- Eu sei.
- E por falar nisso, você já fez o que tem de fazer?
- Vai ser hoje, eu prometo.
- E o seguro?
- Eu fiz no nome dela. É de R$ 50.000,00. Já é um começo.
- Tem certeza de que é isso que você quer?
- Claro que sim. Não aguento mais aquela megera. Mas não posso sair dessa com as mãos abanando. Eu mato ela, recebo o seguro e saio de casa. Daí podemos começar a nossa vida noutra cidade. Já está tudo planejado.
- E a sua esposa?
- Ela que fique sozinha. Não temos filhos, não vou fazer falta.
- Eu te amo, meu Vingador.
- Eu também te amo. Você é a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Acho que se não fosse por você eu não estaria aguentando passar por tudo isso, todas as humilhações.
- Sou muito feliz com você e sei que seremos felizes para sempre.
- Espero que sim, meu amor. Não consigo imaginar a minha vida sem você. Você é a minha razão de existir. Não vejo a hora de irmos embora juntos.
- Tenha calma, meu amor.
Enquanto Francisco encontrava o seu oásis naquela conversa pela Internet, com um amor que ele conhecera há cinco meses e que havia tomado conta completamente da sua vida e do seu coração, a sua esposa, Leonora, chegava em casa com uma sacola de compras nas mãos.
- Mamãe, a senhora está em casa? – ela não ouve resposta e entra na sala. – Mamãe, de novo na frente da televisão?
- Qual o problema, Leonora? Já que eu não saio de casa, pelo menos posso assistir um filme sossegada.
- Está certo, mamãe. Fiz umas compras básicas
- Que bom minha filha – Dona Zilda sai da frente da TV e volta para a cozinha, onde Leonora já está guardando na geladeira as compras que fez. – Aquele inútil do seu marido já saiu de novo. Aposto como ele foi beber.
- Mãe, a senhora precisa parar de pegar no pé de Francisco. Se já não bastasse ele não arranjar emprego, ainda precisa ficar ouvindo a senhora chamando ele de vagabundo o tempo todo.
- Minha filha, você acha que alguém que vive bebendo todo santo dia está atrás de trabalho? Eu bem que te disse...
- Mãe, por favor, chega! Eu mesma já não estou mais aguentando isso.
Enquanto a conversa entre Leonora e Dona Diva se acalorava, Francisco sai da Lan House em direção à rodoviária. Ele vai a pé, fumando um cigarro após o outro, sem se importar com o mal que está causando aos seus pulmões. Não tinha dinheiro para o ônibus, o que tinha havia deixado no bar e na hora que gastou falando com o seu grande amor. Na rodoviária, um homem aparentando ter uns cinquenta anos o esperava inquieto. De braços cruzados olhava para todos os lados encostado ao seu carro, um fusca preto com películas bem escuras. Parecia mais um daqueles carros de funerária. De longe, pelas suas características, Francisco já deduziu que fosse ele mesmo.
- Você que é Francisco? – perguntou o homem com um olhar sinistro.
- Sim.
- Está tudo certo? – indagou o homem assim que Francisco encostou também no carro.
- Está. Precisa ser esta noite.
- Mas escuta aqui, seu amigo combinou comigo dois mil. Não vá dar pra trás.
- Tenha paciência. Assim que eu receber o seguro eu lhe dou.
- Não pense em me passar a perna – diz o homem mostrando a Francisco um revólver calibre 38 que carrega preso na cintura.
- Fique frio. Agora faz conforme o combinado. Tudo precisa parecer um assalto. Se alguém desconfiar de assassinato eu vou me dar muito mal. Tome aqui o endereço.
- Sou um profissional, meu amigo – diz o matador pegando um pedaço insignificante de papel com o endereço de Dona Zilda. – Depois eu desapareço e fico esperando o seu contato. E lembre-se: do mesmo jeito que ela vai, você pode ir também.
- Deixa comigo.
Francisco acende mais um cigarro e volta para a sua casa. Está nervoso, mas feliz o suficiente para conseguir disfarçar. Era preciso manter-se firme, afinal, não é todos os dias que se contrata um matador profissional para dar cabo de alguém. Ele pensava se conseguiria viver o resto da sua vida com essa morte na consciência, mas todas as vezes que se lembrava das humilhações a que a sua sogra o sujeitava, sentia que não seria tão difícil assim. Outra coisa que o confortava e o encorajava era o amor do seu “Raio de sol”, uma mulher carinhosa e meiga que ela havia conhecido na Internet. Ela sim o tratava bem, elogiava-o e não vivia condenando-o por ser como era. Eles tinham planos. Iriam ser muito felizes. Só faltava tirar aquela pedra do seu caminho.
- Onde você esteve, Francisco? – pergunta Leonora assim que ele entra em casa.
- Fui procurar emprego. Tenho a impressão que em breve a nossa vida vai mudar, e para melhor.
- Por quê? – indaga com um tom bastante zombeteiro Dona Zilda – Você pretende se matar?
- Humf! – Francisco engoliu seco. Faltava muito pouco, não valia à pena a discussão.
Após o almoço, Leonora foi para um de seus dois empregos como diarista na casa de uma médica no centro da cidade. Há dois anos ela sustentava a casa com a ajuda da pensão que a sua mãe recebia, desde que Francisco foi mandado embora do emprego que tinha de vigia noturno. Foi acusado de tentar estuprar uma moça enquanto estava de serviço, mas nada ficou provado. Francisco aproveita a tarde para dormir e sonhar, sonhar com a liberdade e com o seu grande amor, que em breve estaria para sempre em seus braços. Dona Zilda, sem imaginar o que lhe esperava, pegou uma revista de artistas de novelas e tranca-se no seu quarto para ler. Não suportava a presença do genro.
            Quando a noite cai, Francisco já está acordado e toma um forte café preto. Aproxima-se da porta do quarto da sogra e encosta o ouvido para ver se ouve alguma movimentação. Ela estava roncando. “Roncando como uma grande porca”, pensa ele. Antes de sair, apaga todas as luzes e deixa a porta apenas encostada. Não haveria problema algum se tivesse que explicar isto, porque normalmente esquecia mesmo a porta sempre aberta. Isto era mais uma das coisas que enlouqueciam Dona Zilda. Tão logo sai, vai mais uma vez até a Lan House, onde poderia conversar com o seu amor enquanto o matador fazia o serviço.
- Oi, meu grande amor – disse “Raio de sol” assim que ele abriu o site.
- Falta muito pouco, meu amor, para eu me ver livre daquele problema e podermos viver a nossa vida juntos.
- Se não fosse porque nos amamos tanto, não sei se eu concordaria com isso. Mas se você diz que é o único jeito.
- É o único jeito.
- Eu sei. Também quero muito sair daqui dessa casa. A minha vida aqui não tem sido muito boa.
- Você nunca me contou direito o que se passa aí. De repente eu poderia dar um jeito.
- Não se preocupe, meu Vingador, nossos problemas em breve acabarão. O passado será passado.
- Fico feliz. Fiz uma poesia para você, meu amor. Quer que eu escreva aqui para você ler?
- Com certeza, meu amado!
- Lá vai:

O meu mundo era só ilusão
Eu vivia triste e sozinho
Nada para mim dava certo
Até que você surgiu no meu caminho.
Então vivi um sonho
Sem querer um dia acordar
Agora e para sempre eu sei
Estarei a te amar.

- Nossa, que linda, meu amor! Espere, acho que ouvi alguém chegando...
Francisco esperou durante um minuto, dois, cinco, dez...
- Meu amor, você está aí? Meu amor? – ele tecla várias vezes chamando o seu “Raio de sol”, mas não obtém mais resposta. A janela dela continua aberta, mas onde ela estará? A única hora que ele tinha pagado aos poucos foi acabando, mas a sua amada não voltou. – O que terá acontecido? – pensa ele enquanto volta para casa apressadamente. Àquela hora o serviço já deveria ter sido feito.
- Você não pode passar, meu amigo. Fique detrás da faixa – avisa um policial que barra a sua entrada em casa. Havia várias viaturas e uma ambulância estacionadas. Algumas pessoas iam chegando e se aglomerando, perguntando o que estava acontecendo.
- Mas eu moro aqui – diz Francisco esboçando um ar de desespero.
- Francisco, o que está havendo? – pergunta Leonora que acabara de chegar de mais um dia de trabalho. – Cadê a mamãe?
- A senhora também mora aqui? – indaga o policial.
- Claro que sim. Cadê a minha mãe?
- Acalme-se, minha senhora.
- Eu quero ver a minha mãe! – Leonora tenta furar o bloqueio, mas é barrada pelos policiais.
            O policial acompanha Francisco e Leonora até o interior da casa. Está tudo muito bagunçado, os móveis foram revirados. Deitada no chão, próximo à geladeira, Dona Zilda está morta, com três tiros, dois no tórax e um na nuca. Leonora vomita ali mesmo e depois entra num choro estridente e desesperado. Francisco tenta consolá-la em seus braços afetuosos. A cena é muito forte, há sangue espalhado por todo o chão da cozinha.
- Boa noite – cumprimenta-lhes outro policial que se aproxima. – Eu sou o detetive Romualdo e gostaria de lhes fazer algumas perguntas.
- Pois não, doutor. – Francisco e Leonora sentam-se no sofá. O detetive senta-se numa cadeira bem na frente deles. Parecia mais um interrogatório.
- Até aqui parece que foi um assalto, mas precisamos trabalhar com todas as hipóteses.
- Como assim, doutor? Minha sogra não tinha inimigos. É claro que deve ter sido um assalto.
- Calma, meu amigo. Vamos averiguar todas as possibilidades. Onde o senhor estava há mais ou menos uma hora atrás, seu Francisco? – pergunta lendo o nome de Francisco numa caderneta que traz consigo.
- Eu? Bem, eu estava atrás de emprego, como todos os dias faço – a voz de Francisco quase engasgou.
- Não é muito tarde para procurar emprego, seu Francisco? E você, senhora – lê o nome na caderneta – Leonora?
- Bom, eu estava no centro da cidade. Trabalho de diarista na casa de uma médica. Mas por quê? Por acaso vocês acham que eu matei a minha mãe? – Leonora esta muito transtornada, quase fora de si. Francisco a abraça ainda mais afetuosamente. Quase se pode ver uma lágrima rolar dos seus olhos.
- Mantenha-se calma, minha senhora. Não estamos aqui para acusar ninguém. São apenas perguntas de praxe. Vocês têm conhecimento se ela possuía algum tipo de relacionamento com alguém?
- Minha mãe? Jamais! Ela é viúva há cinco anos e nunca foi de ficar namorando ninguém.
- Ela era uma senhora jovem ainda, de boa aparência – diz o detetive. – Tem certeza de que não sabem de ninguém que ela podia estar namorando ou coisa parecida?
- Coisa parecida? O que significa coisa parecida? – Explodiu Leonora. A minha mãe está morta e o senhor fica querendo saber da vida pessoal dela? Por que não vai atrás do monstro que fez isso?
- Calma, meu amor. Assim ninguém resolve nada – Francisco tenta acalmar a sua mulher. Quer demonstrar equilíbrio, pois ele mesmo está muito nervoso.
- Acompanhem-me, por favor, até a sala.
- O que foi? – pergunta Leonora acompanhando o detetive, abraçada por Francisco, que não a larga um só minuto. Ele era bastante solidário.
            No meio do caminho um policial chega com um insignificante pedaço de papel dentro de um saco de evidências.
- Detetive – diz o policial – achamos esse papel caído na entrada da casa. Está escrito o endereço daqui. – O coração de Francisco acelera.
- Guarde junto com as outras evidências. Pelo jeito quem veio aqui sabia para onde estava vindo.
- E o que iria fazer – completa o policial e sai.
- Quando a viatura da polícia foi acionada por vizinhos que ouviram o barulho dos disparos, os policiais encontraram a sua mãe caída na cozinha. Mas também encontraram isto – o detetive Romualdo aproxima-se do computador e vira a tela na direção de Francisco e Leonora. – Antes de ser morta, a sua mãe estava num site de relacionamentos conversando com alguém, provavelmente um homem – os olhos de Francisco arregalam-se. – Ela atendia pelo apelido de “Raio de sol” – Francisco não podia acreditar. – E seja lá quem for que estivesse conversando com ela, atendia pelo apelido de “o Vingador.” A última mensagem bate com o horário provável que ela foi morta. Pelo diálogo que eles vinham mantendo, eles se amavam muito e estavam prestes a viver juntos.
- E quem poderá ser? – perguntou Leonora.
- Ainda não sabemos. Mas eu tenho um palpite de que se chegarmos até esse Vingador, ficaremos muito próximos de conhecer o assassino da sua mãe. Vamos levar o computador para a perícia.
            O chão some debaixo dos pés de Francisco, ou melhor dizendo, “o Vingador.”


Mizael de Souza Xavier
28 de outubro de 2009.
           
           



domingo, 28 de junho de 2015

ATITUDES CRISTÃS DIANTE DO HOMOSSEXUALISMO




1. O crente não deve odiar os homossexuais nem ser intolerantes com relação a eles. Não foi isso que Jesus nos ensinou. O Senhor Jesus nos ensinou um novo mandamento: amar uns aos outros. Qualquer atitude de ódio, preconceito ou intolerância é uma quebra do mandamento do Senhor. Nossas palavras e ações devem ser baseadas no amor e na misericórdia. Deus nos trata com graça e com graça devemos tratar as pessoas.

2. Os homossexuais não devem ser evitados ou expulsos, mas amados e acolhidos. Devemos lembrar que Jesus não andava no meio dos santos, mas dos pecadores. Fomos chamados do mundo para Deus, mas enviados de volta ao mundo como testemunhas do Evangelho.

3. Não existe diferença alguma entre qualquer membro da igreja e os homossexuais que não fazem parte dela. Todos somos pecadores e alvos do amor de Deus. A única diferença é de posicionamento diante de Deus; salvos e não-salvos. Os que são salvos não o são porque não são homossexuais, mas porque Cristo os salvou da morte e do pecado através do seu sangue derramado na cruz. Não por obras foram salvos, mas por fé.

4. O homossexual não precisa de salvação porque é homossexual, mas porque é pecador, herdeiro do pecado original como qualquer ser humano que nasceu a partir da expulsão de Adão e Eva do paraíso. Não existe diferença entre um homossexual e um heterossexual diante de Deus, pois todos pecaram e carecem da sua glória. Ser tolerante com relação ao pecador não significa, porém, ser tolerante com relação ao seu pecado. O homossexual deve abandonar o seu homossexualismo da mesma forma que qualquer outro pecador deve abandonar qualquer outro pecado.

5. Homossexualismo não é uma doença que precise de cura. Não existe a tal da “cura gay”. O que existe é uma pessoa pecadora que precisa se arrepender e crer em Jesus Cristo para se salvar. A transformação promovida na vida do indivíduo através da ação regeneradora e santificadora do Espírito Santo é que transformará a sua condição natural, como acontece com qualquer outro pecador. Em Cristo, o homossexual é nova criatura, as coisas antigas passaram, eis que se fizeram novas.

6. Não é pecado ter amigos gays, frequentar suas casas ou participar de qualquer evento social com eles, contando que seja algo sadio. Pecado é considerar-se tão santo ao ponto de não poder andar com um pecador. Jesus andava, comia e bebia com pecadores. Jesus era Deus, era perfeito, então o que devemos fazer?

7. Não devemos pregar contra o homossexualismo, mas a favor da conversão do pecador. Não fomos chamados para sermos ativistas anti-gays, mas para sermos sal da terra e luz do mundo. Que diferença há entre homossexualidade e um heterossexual promíscuo? Um homossexual pode ser muito mais direito que um heterossexual. A maioria dos políticos que roubam o país não são gays. O problema não está em ser homossexual, mas em ser pecador condenado e carente de salvação.

8. A grande maioria dos homossexuais não está envolvida nas questões polêmicas do ativismo gay. As ações praticadas por essa minoria antidemocrática e reacionária não deve ser revidada na mesma moeda, mas tolerada. O mundo odeia a Cristo e, como consequência, nos odeia também. As ações antievangélicas praticadas pelos ativistas gays devem ser combatidas pela prática do amor, da misericórdia, da graça. Não devemos revidar o mal com o mal, mas com o bem, dando a outra face, caminhando mais uma milha, dando-lhes a túnica, promovendo a paz, amando e orando por eles.

9. A arma do crente é a Bíblia. Contudo, ela não é uma arma de fuzilamento, mas de salvação. O que precisamos saber para defender a nossa fé está nela. É ela quem nos mostra que não é natural a prática homossexual, que esta é uma aberração diante de Deus. Mas a mesma Bíblia relaciona outros pecados igualmente condenados. Como já foi dito, o problema do homem não está no pecado que ele pratica, mas no pecado original. É por causa do pecado original que precisamos de salvação. Os pecados pessoais ou existenciais, são apenas frutos, consequencias, sintomas do grande pecado herdado na Queda.

10. A igreja não está preparada para acolher o homossexual que se converte. É preciso haver essa preparação, entendendo que ele deverá enfrentar um longo processo de transformação (acima de tudo no caso dos transexuais). Neste processo ele precisa contar com o amor, a compreensão, o apoio e o carinho da igreja, sem qualquer preconceito ou cobrança indevida. O amor é o dom supremo e a lei suprema. Se não amarmos uns aos outros, não cumpriremos o mandamento do Senhor. O amor é o fiel da nossa balança.

11. A igreja deve, porém, exercer o seu papel profético e missionário, pregando o Reino de Deus, defendendo e vivendo os valores cristãos. O casamento e a família como Deus os criou devem ser valorizados e promovidos. Qualquer ação contra a instituição familiar deve ser rechaçada com amor e misericórdia. A igreja deve fazer uso da sua liberdade religiosa garantida pela Constituição Federal e exigir das autoridades proteção às suas liturgias e aos seus locais de culto, bem como o respeito ao conteúdo da sua fé. Como estamos neste mundo, devemos saber, porém, que em algum momento deveremos sofrer agravo, apanhar, pois o mundo jaz no maligno e não possui compromisso algum com Deus e a sua Palavra. Com relação ao mundo, a certeza que podemos ter é que seremos odiados e perseguidos, sem revide ou vingança.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

O NEVOEIRO – Uma breve explicação histórica




Esta é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com pessoas ou fatos reais terá sido mera coincidência. Ela, porém, tem como pano de fundo um período negro da história da Igreja em diversos países, inclusive no Brasil: a “Santa Inquisição”, quando a Igreja Católica Apostólica Romana perseguia, torturava, condenava e assassinava pessoas contrárias à Santa Sé, incluindo judeus, protestantes e supostas bruxas. A Inquisição fez parte do movimento de contra-Reforma. O Concílio Ecumênico de Trento (1545-1563), trazia diversos cânones e anátemas contra as ‘inovações doutrinárias dos protestantes. Em sua sessão IV, cânones 785 e 786 sobre “A edição da Vulgata da Bíblia e o modo de interpretação”, o Concílio de Trento traz as seguintes afirmações:

785. Além disso, considerando que poderá resultar em não pequena utilidade para a Igreja de Deus, dando-se a conhecer qual de tantas edições latinas que correm dos Livros Sagrados se deve ter por legítima, esse mesmo sacrossanto Concílio determina e declara: que nas preleções públicas, nas discussões, pregações e exposições seja tida por legítima a antiga edição da Vulgata, que pelo longo uso de tantos séculos se comprovou na Igreja; e que ninguém, sob qualquer pretexto, se atreva ou presuma rejeitá-la.

786. Ademais, para refrear as mentalidades petulantes, decreta que ninguém, fundado na perspicácia própria, em coisas de fé e costumes necessárias à estrutura da doutrina cristã, torcendo a seu talante a Sagrada Escritura, ouse interpretar a mesma Sagrada Escritura contra aquele sentido, que [sempre] manteve e mantém a Santa Madre Igreja, a quem compete julgar sobre o verdadeiro sentido e interpretação das Sagradas Escrituras, ou também [ouse interpretá-la] contra o unânime consenso dos Padres, ainda que as interpretações em tempo algum venham a ser publicadas. Os que se opuserem, sejam denunciados pelos Ordinários e castigados segundo as penas estabelecidas pelo direito. [Seguem uns preceitos sobre a impressão e aprovação dos livros, onde se estabelece entre outras coisas o seguinte:] que para o futuro a Sagrada Escritura, principalmente essa antiga edição da Vulgata, seja publicada do modo mais exato possível; e que a ninguém seja permitido imprimir ou fazer imprimir qualquer livro sobre assuntos sagrados sem o nome do autor, nem vendê-los ou retê-los consigo, se não forem primeiro examinados e aprovados pelo Ordinário…

            A sociedade européia e as demais sofreram por longos séculos as consequências da perseguição do Santo Ofício, e a História está aí para nos dar seus exemplos e provas. Apesar disso, a Reforma Protestante avançou e jamais retrocedeu. Muitos homens e mulheres comprometidos com a Palavra da verdade foram perseguidos e mortos. A Igreja de Cristo firmou suas raízes no mundo, a despeito da vontade de homens inescrupulosos e gananciosos, que tentaram a todo custo calar a voz do Espírito Santo na terra. Embora hoje convivamos com muitas seitas pentecostais e neopentecostais que se autointitulam igreja sem o ser, deturpando e envergonhando o Evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, os verdadeiros cristãos permanecem firmes, pregando o Reino de Deus e espalhando pelo mundo inteiro a sua maravilhosa Palavra, confeccionando e distribuindo Bíblias.
            Se o leitor pesquisar na Internet sobre os objetos de tortura medievais utilizados pela Inquisição, ficará perplexo.
            Deus seja louvado pela liberdade conquistada!


Mizael de Souza Xavier

24, 25 e 26/05/2015

ALGUNS OBJETOS E SUAS RESPECTIVAS TORTURAS:









terça-feira, 2 de junho de 2015

O NEVOEIRO - Final – E a verdade te libertará




E assim aconteceu naquela cidade tão pequena
Não havia mais velas acesas, nem procissões ou novenas
A Bíblia era copiada e entregue a cada morador
Que reunia a família e estudava a Palavra do nosso Senhor.

Findou-se a subserviência à tirania que os maltratava
Que com ameaças de excomunhão cada vida aprisionava
Libertos pelo Santo Espírito, eram livres verdadeiramente
Para servirem de coração a Deus e a Cristo somente.

Não demorou o nevoeiro para longe se dissipar
Deixando que o céu se abrisse para o sol os iluminar
Quanto mais liam e obedeciam as Palavras do Livro Santo
Mais risos eram semeados e diminuído o pranto.

As pessoas perceberam que podiam viver a verdade
Sem temê-la e sem serem escravas da sua religiosidade
Não mais queimariam bruxas, nem julgariam o seu irmão
Mas pregariam as boas-novas que levam à salvação.

Famílias foram reconciliadas, pecados foram abandonados
A esperança tornou-se brilhante como um dia ensolarado
A lição ali ensinada jamais iria ser esquecida
Enquanto eles meditassem na Palavra de Deus tão querida.

Mas é necessário dizer que também houve perseguição
Aquela cidade tornara-se um centro de peregrinação
Pessoas de todas as partes empreendiam longa viagem
Para ouvir a Palavra de Deus revelada em sua própria linguagem.

As autoridades de Roma prenderam o padre em grilhões
Ele foi injustamente acusado de promover fornicações
Julgado pelo Santo Ofício foi condenado por heresia
O seu destino foi a forca, que naquele tempo ainda havia.

Alguns moradores da cidade foram obrigados a fugir
Temendo um destino tenebroso para quem ousava infringir
As regras da Santa Sé contra pensamentos dissidentes
Quem atentasse contra o Concílio queimava no fogo ardente.

Outros temendo serem mortos negaram a fé abraçada
Voltaram às suas origens e mantiveram a boca calada
O prefeito fugiu da cidade e o delegado perdeu sua patente
Um novo Cardeal foi eleito, mais astuto que uma serpente. 

Muitos preferiram morrer ao negar o Senhor Jesus
Diziam: “Eu já não me pertenço, a minha vida está na cruz!”
O seu testemunho de fé conquistava outros seguidores
A semente que fora plantada dava frutos de muitos sabores.

Os moradores que haviam fugido levaram Bíblias escondidas
Assim a Palavra se espalhou, transformando muito mais vidas
Pessoas e cidades inteiras que viviam na escuridão
Agora podiam ouvir as palavras da redenção.

Este é o fim da história de uma cidade que acordou
Deixou cair todas as máscaras e do medo se libertou
Reconheceu os seus erros, mas deles não se fez cativa
Mesmo sofrendo perseguições, a cidade estava viva.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

O NEVOEIRO - Parte 8 – A verdade revelada




O baú foi levado para a igreja onde o povo se concentrou
Ávido por se libertar do mal que o assombrou
“Caros irmãos”, disse o prefeito, “Eis a nossa libertação
Finalmente estaremos livres desta perigosa maldição.”

O baú foi violentamente aberto e o livro, recuperado
Diante de aplausos e gritos, ele foi apresentado
Mas alguém na multidão gritou: “Este livro é de feitiçaria
Queimamos alguém por isso, por que nossa alma não queimaria?”

“Cale-se”, o prefeito ordenou, “Todos esperam a cura
A maldição que nos lançaram já cava a nossa sepultura
Não deve haver remorso pela bruxa que foi queimada
Que descanse no inferno aquela alma amaldiçoada.”

O padre foi convocado a ler diante da multidão
O feitiço que poderia livrá-los daquela perturbação
E ao abrir aquele livro que o Cardeal deixou ocultado
O padre caiu de joelhos diante do que lhe foi revelado.

As suas lágrimas escorreram e um forte grito deu
Ergueu as mãos para o céu e quase desfaleceu
Todos estavam atônitos sem saber o que se passava
Alguns queriam explicações, um ou outro rezava.

“O que dizes deste livro?”, o delegado quis saber
“Existe nele algum feitiço que possa nos absolver?”
Com dificuldade o padre se ergueu e tomou o livro nas mãos
“Isto aqui não é bruxaria, eu lhes garanto, meus irmãos.”

“Então nos revele o segredo, não estamos a entender nada!”
“Este livro que tenho em mãos é a santa Bíblia Sagrada!”
“Você deve estar louco”, muitos gritaram a revelia
“Este era o livro da bruxa usado para feitiçarias!”

“Se vocês não creem leiam e suas dúvidas irão tirar”
O delegado pegou o livro e começou a folhear
“Por Deus, eu não creio, é verdade. É este o Livro Sagrado”
Então o povo se deu conta de que havia sido enganado.

“Porque o Cardeal nos escondeu esse tesouro precioso
E nos fez acreditar que o seu conteúdo era maldoso?
Uma mulher morreu inocentemente clamando pelo Senhor Jesus
Grande é o nosso pecado, pesada é a nossa cruz!”

“Esperem”, disse o padre, “esta é uma Bíblia sem par
Não é escrita em Latim, mas na nossa língua popular.”
Todos se admiraram diante de tal revelação
A Bíblia escrita na sua língua de tão fácil compreensão.

Agora podiam entender o cuidado que o cardeal empregou
Em ocultar aquele tesouro que com a mulher encontrou
A Palavra de Deus proibida pela igreja em língua accessível
Agora para toda a cidade a sua leitura era possível.

Alguém, no entanto afirmou: “Continuamos com nossa desdita
Presos à maldição lançada por aquela bruxa maldita!”
“Será que não entendeste, tua mente está embotada?
Aquela mulher era inocente e morreu martirizada.”

O padre apaziguou os ânimos do povo já tão aflito
“Irmãos, ouçam o que vos digo, não entremos em conflito
Procurávamos um livro de bruxas que nos desse a solução
Mas eis que temos aquele que nos trará a salvação.”

“Vejo que não fomos amaldiçoados, mas abençoados por Deus
Que nos chama a viver em verdade os caminhos seus
De hoje e para sempre a sua Palavra vamos ler
Nossos pecados serão perdoados e abençoados iremos ser.”


CONTINUA...