quinta-feira, 13 de novembro de 2014

QUANTO MAIOR A DESGRAÇA, MELHOR


 FOTO: INTERNET

A palavra “desgraça” é definida como um acontecimento funesto, um infortúnio e também como má sorte, infelicidade e miséria. Isso não diz muitas coisas, porque ainda precisaríamos definir que situações podem ser definidas como desgraçadas no sentido que os dicionários definem. A má sorte de um pode significar uma boa oportunidade para outro, da mesma forma que uma circunstancia infeliz pode ser vista como algo bom para quem passa pela mesma situação. Para quem participa de rachas, por exemplo, esta ação é uma aventura, um desafio, mas que pela lei e por causa de suas consequências é encarado pela maioria como um acontecimento funesto. E ainda deveríamos definir o que é felicidade antes de falarmos de infelicidade, ou entender em que circunstancia uma pessoa pode ser chamada de miserável. Ela não possui dinheiro, é “mão de vaca”. Muitos milionários vivem rodeados de dinheiro e suas vidas são miseráveis: preocupações, disputas, solidão, risco de sequestro, perda do convívio com a família, etc.
Aqui pretendo falar de desgraça como uma situação de miserabilidade e pobreza, como de alguém que vive em uma situação de risco, ou por escolha própria ou por imposição das circunstancias sociais. Apesar de que creio que toda situação em que se está hoje parte de uma escolha que fizemos ontem. A pobreza pode ter várias influências culturais, políticas e sociais, mas podemos escolher estudar e batalhar para vencermos na vida. O uso de drogas também encontra várias justificativas, como o meio social e a falta de oportunidades, mas sempre está em nossas mãos dizer sim ou não aos vícios. O importante é que as situações desgraçadas existem, seja uma situação de pobreza, de uso de álcool e drogas, de violência urbana, de desajustes familiares, de perdas repentinas de entes queridos em acidentes ou hecatombes. Todos nos encontramos numa situação de desgraça em algum momento de nossas vidas, de infortúnios, má sorte, infelicidade e miséria.
Tenho observado a vida de algumas pessoas que encontro pelo caminho, pessoas que vivem em situação de risco social, que enfrentam problemas sérios de desemprego e vícios. Uma coisa tenho percebido na vida de algumas destas pessoas: parece que quanto mais desgraça, melhor. Isto significa que, se já não bastasse a situação degradante de miséria em que se encontram, elas procuram formas de se afundar ainda mais. Não satisfeitas com as desgraças que já carregam em suas costas, elas pretendem aumentar ainda mais o seu infortúnio. Certo dia, um homem que deveria ter por volta dos seus cinquenta anos, andrajoso, mal vestido, sujo e embriagado entrou no supermercado onde trabalho atualmente com algumas moedas nas mãos e me pediu que as contasse para ver se ele tinha dinheiro o suficiente para comprar cachaça. Ele me deu as moedas e insistiu, porque queria comprar cachaça. Imaginei que aquele homem provavelmente teria conseguido aquele dinheiro pedindo nas ruas e depois de juntar certa quantia, estava pronto para alimentar o seu vício.
Eu insisti para que aquele pobre homem comprasse outra coisa que não fosse cachaça, enquanto ia contando as suas moedas. Em certo ponto, um colega meu interrompeu e disse a ele que o dinheiro não dava. Antes de o homem ir embora, eu o aconselhei a procurar uma igreja ao invés de ficar se embriagando. Ele simplesmente virou as costas e desapareceu. Então pensei: aquele homem vive esta vida desgraçada, mendigo, provavelmente morando nas ruas, longe da família, sem emprego, sem dignidade e ainda encontra forças para piorar a sua situação, mendigando para alimentar o seu vício em cachaça. Ao invés de buscar a Deus, procurar ajuda, estudar, trabalhar, ele prefere enfrentar a vida bêbado. Quanto mais desgraça, melhor para ele, pensei. É claro que desconheço a sua história, os motivos que o levaram a esta situação desgraçada e degradante, mas de uma coisa eu sei: ele não precisa de cachaça, mas de acordar – ou ser acordado – para a sua realidade e buscar ânimo para sair dela. Ele precisa enfrentar os seus problemas com soluções e não com mais problemas. Temo que a esta altura ele continue bêbado e bebendo ainda mais, piorando o que já está ruim.
Outra cena que observei fez com que eu quase tivesse uma crise de nervos, tamanha a minha indignação. Algumas vezes observei uma mulher que se sentava à porta do mercado com o seu filho, que não deve ter mais de dois anos, para pedir esmolas. Aparentemente, o único problema desta mulher é ser pobre, assim como eu e milhões de outros cidadãos brasileiros. Ela não é deficiente (o que também não justificaria estar ali naquela situação) e não demonstra ter nenhum problema grave de saúde que a impeça de trabalhar. Também não sei de sua história, o que a levou a estar ali, mas sei que milhares de pessoas preferem pedir esmolas, preferem se sujeitar a esse tipo de situação degradante do que enfrentar o batente. Não descarto a possibilidade de ela participar de algum desses planos assistencialistas do governo federal. Além disso, o que me chamou a atenção foi ela colocar seu filho de castigo porque ele não parava quieto. Claro que uma criança não para quieta! Senti uma vontade imensa de lhe dizer: minha senhora, estar nesta calçada com este sol escaldante e essa sujeira já é um castigo para ele.
O pior, porém, ainda estava por vir. Após alguns minutos envolvido com o meu trabalho, voltei a observar aquela mulher com o seu filho e vi que ele tinha em suas mãos um brinquedo: uma arma de plástico, réplica de uma pistola 9mm. De cor laranja, mas a réplica de uma arma de fogo. Imaginei aquele menino com sua mãe entrando em alguma loja e, neste clima de medo e insegurança em que nos encontramos, aquele brinquedo ser confundido com uma arma de verdade. Quem vai parar para perguntar? Além disso, imaginei como aquele tipo de brinquedo influenciaria a mente daquela criança, que tipo de pessoa ela seria no futuro, que valores aprenderia com uma arma nas mãos. Quem sabe um dia, em sua adolescência, ou antes disso, trocaria aquela pistola 9mm de brinquedo por uma de verdade. Nem de brincadeira uma arma é algo que se coloque nas mãos de uma criança, mesmo de plástico. Isto é um violento atentado contra a sua infância, contra tudo que é digno e sadio. Ainda me lembro de que, na minha infância, podia-se ir às Lojas Americanas, em Petrópolis, Rio de Janeiro, comprar armas de brinquedo de vários calibres e espoletas para simular um tiro. Um absurdo que, felizmente, acabou.
Diante desta cena não pude me calar. Tentei a todo custo convencer àquela mãe a jogar aquele maldito brinquedo fora, explicando que ele só traria desgraça. Ela afirmou que o brinquedo havia sido dado por alguém e que era o único que o seu filho possuía e que não tinha problema nenhum. Insisti e cheguei a prometer dar um carrinho em troca da arma para que ela a tirasse da criança e jogasse fora. Alguns minutos depois ele pareceu convencida, mas foi embora e não a vi novamente. Pesei: quanto mais desgraça, melhor. Se já não bastasse a sua situação de pobreza e mendicância, se já não bastasse levar seu filho pequeno para as ruas para pedir esmolas, aquela mãe não via problema em seu filho brincar com uma pistola de plástico, não pensava nas terríveis circunstâncias, no problema que estava semeando na vida daquele inocente. Parece-me que quanto pior for a situação, pior as pessoas tentarão torná-la. Falta de Deus, de orientação, de conhecimento, de oportunidade, de solidariedade nossa, de amor, de fraternidade, de políticas públicas, de envolvimento da Igreja com as causas sociais? Na minha opinião: falta de tudo.
Outra cena que observei também me chocou bastante. Já tenho há algum tempo observado que as pessoas entram no supermercado para fazer compras e enquanto escolhem os produtos que irão levar, bebem à vontade. No final, compram bebidas para levar para casa, muitas bebidas, principalmente vodca e cerveja. Atendi um trio de jovens que não deveria ter mais de 20 anos cada um; eles compraram vodca. Beber já é uma desgraça, por mais lacinhos coloridos que coloquem no embrulho na tentativa de mostrar a ingestão de bebidas alcoólicas como algo bom, social. Hoje o jornal noticiou que a média do consumo de bebidas alcoólicas entra a população jovens no Brasil está acima de todos os outros países do mundo. A AMBEV deve estar festejando! Mas o caso principal que presenciei vai mais além e mostra como são feitos os alcoólatras. Imagina-se que a influência das más amizades leva crianças, jovens e adolescentes a se iniciarem no mundo dos vícios diversos, mas essa influência satânica pode ocorrer dentro do lar, a partir de quem deveria amar, proteger e ensinar coisas boas e saudáveis aos seus filhos queridos: os pais.
Certo dia, havia uma família fazendo compras com uma criança de pelo menos dois anos de idade. O menino andava pelo mercado, gritava e fazia o que toda criança faz. O homem do grupo, um senhor que deveria ter seus sessenta anos de idade, tomava a sua cerveja após as compras, enquanto esperava que suas mercadorias fossem encaminhadas para o carro que as deixaria em casa. Até aí, mais uma cena banal, afinal é comum ver pessoas bebendo todos os dias, o dia inteiro, e crianças brincando. Mas algo me chamou a atenção e fez despertar em mim uma indignação sem tamanho. Enquanto aquele homem bebia a sua cerveja, a criança, no colo de uma mulher, provavelmente esposa do homem, esticava os braços e pedia um gole da bebida insistentemente. Embora indignado, achei normal uma criança pedir algo que alguém está tomando. Mas para a minha surpresa, aquele homem começou a encher a tampa da garrafa de cerveja e tencionava dar para a criança degustar. Pasmem! Repreendido pela mulher, ele não cometeu essa atrocidade, mas deu a tampa da garrafa para a criança lamber.
Na primeira oportunidade que eu tive, já quase passando mal de nervoso, fui conversar com aquele cidadão. Descobri que o menino era de criação e tinha problemas mentais. Falei com ele do absurdo de se oferecer bebida alcoólica a uma criança e das consequências desastrosas para a vida daquele menino. Eu lhe disse que se ele tivesse um pouco de amor por aquele inocente, jamais repetisse isso novamente. Ele disse que nunca mais faria isso e partiu. Quanto mais desgraça, melhor! Para aquele cidadão não bastava ele próprio ser um consumidor de bebida alcoólica, um líquido aclamado e reverenciado, mas que representa desgraça e morte na vida de milhões de pessoas pelo mundo inteiro. Ele precisava iniciar seu filho de criação na arte da desgraça. Imaginem uma criança que começa a ter contato direto com a bebida aos dois anos de idade, em que ela vai se tornar. Que qualidade de vida ela terá? Um alcoólatra precoce que terá a sua vida inteira desgraçada. Um dia conheci uma menina de sete anos de idade que era forçada por seu padrasto a ingerir conhaque para se manter tranquila, somente porque a menina era muito traquina. Por vezes senti seu hálito cheio de álcool. Conversei com o médico da comunidade sobre o assunto e ele não fez absolutamente nada!
Histórias tão simples, mas que mostram como uma pessoa em situação de desgraça pode atrair ainda mais desgraça para si e para aqueles que estão ao seu redor. Como diz o adágio popular: desgraça pouca é bobagem. Tudo o que algumas pessoas puderem fazer para piorar ainda mais a sua situação, elas o farão. Tem coisas que não podem significar motivo de felicidade para ninguém, mesmo que a considerem. Conformar-se com a pobreza, embriagar-se ou incentivar crianças a isso, não é bom nem legal em parte alguma do mundo. Infelizmente, a nossa sociedade tem engolido a mentira de que não existe o certo e o errado, o bem e o mal, mas que tudo é relativo e depende das circunstâncias de cada pessoa num determinado momento e cultura. Somos obrigados a aceitar a nossa condição por entender que é um direito nosso nos autodestruir. Somos levados a nos conformar com o que a mídia nos empurra pela goela a dentro, uma cultura lixo que cheira somente a sexo e embriaguez. As pessoas se conformam em ser nada porque acham que não tem direito de ser alguém; ser alguém é para os artistas de TV e os ricos. O pobre e miserável deve se resignar: quanto mais desgraça, melhor.

Mas artistas de TV e ricos também têm as suas desgraças existenciais, por mais dinheiro e fama que possuam. Eles não aparecem no Domingão do Faustão cheirando cocaína, fumando crack ou se acabando de beber nas baladas, onde namoram com quem encontram pelo caminho. Eles aparecem como anjos, seres dignos de serem imitados. São tão desgraçados espiritualmente quanto os pobres o são financeiramente. Por fim, ricos e pobres, anônimos e famosos desfrutam da mesma desgraça de uma vida sem Deus, semeando furacões para colher destruição. Ao invés de investirem em tudo o que poderia lhes trazer uma vida digna e saudável, seguem absorvendo somente o que pode lhes destruir. Quanto mais desgraça, melhor. Não há como semear erva daninha e colher rosas perfumadas; não há como escapar de morrer cozido numa frigideira pulando dela para dentro do fogo.

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