quarta-feira, 29 de maio de 2013

Purgatório: verdade bíblica ou falsa doutrina? - PARTE 2


 

A Virgem Maria e o purgatório



            Não somente os sacerdotes da igreja e, acima deles, o papa têm poder sobre o purgatório. A mãe de Jesus tem participação direta sobre tudo o que ocorre dentro e fora deste lugar de prisão temporária. Embora esta participação não esteja definida através de dogmas bastante claros nos concílios, alguns dos mais renomados doutores e santos da igreja romana a tem com peça indispensável na salvação das almas do purgatório, antes ou depois de morrerem.
            Sabe-se, segundo a Tradição romana, que Maria cooperou com Cristo para a nossa redenção, e por isso é chamada de corredentora. Sabe-se, também, que ela, assim como Cristo, subiu aos céus e foi coroada como Rainha do universo, Rainha dos homens, dos santos e dos anjos, Senhora do céu e da terra, Medianeira de todas as graças, Advogada, Adjutriz, Intercessora, socorro dos aflitos, Mãe de Deus e da Igreja. Ela é portadora de todas as bênçãos de Deus e as distribui conforme lhe apraz. Ela é a porta do céu, a escada do paraíso; através dela encontramos a Cristo que nos leva a Deus. Ela tem poder sobre os vivos e os mortos, sendo assim, pode salvar o perdido ou lançar no inferno os que não a servem em escravidão cega. Pode também livrar as almas do fogo do purgatório e transferi-las automaticamente para o céu, mesmo que, em vida, não o tenham “merecido”. Traduzido para termos evangélicos: mesmo que em vida tenham rejeitado a Palavra de Deus, pois, por melhores que sejamos, somos imerecedores da Graça divina e do sacrifício de Cristo na cruz.[1]
            No livro Glórias de Maria encontramos os mais importantes fundamentos da doutrina que confere a Maria plenos poderes sobre as almas do purgatório. Segundo o autor desta obra clássica da Mariologia romanista, os devotos de Maria são muito felizes, porque ela não somente os socorre nesta vida, mas no purgatório também são assistidos por ela. As considerações que faremos a seguir serão baseadas nesta obra consagrada da igreja romana.

a) Maria consola as almas que estão cumprindo pena no purgatório. Maria tem domínio e poder sobre o purgatório, podendo livrar as almas completamente de suas penas. Principalmente os devotos de Maria são frequentemente assistidos por ela, obtendo para eles mais indulgências e alívio. Por ser mãe de todas as almas que ali cumprem pena, ela está constantemente orando por elas para que suas penas sejam mitigadas.

Assim também as almas do purgatório enchem-se de alegria, só em ouvir pronunciar o nome de Maria. – O nome só de Maria, nome de esperança e de salvação, que continuamente invocam naquele cárcere, lhes dá um grande conforto.[2]

b) Maria livra as almas do purgatório. Além de consolar os seus devotos, Maria os livra com a sua intercessão. Diz-se (Gerson) que na sua Assunção, esvaziou-se o purgatório, pois Maria havia pedido a Jesus que a deixasse levar todas as almas que estavam lá. Em dias de festividades, como o Natal e a Páscoa, Maria desce ao purgatório acompanhada de muitos anjos e livra muitas almas daquelas penas. Ela mesma prometeu ao papa João XXII que aqueles que trouxessem o Escapulário seriam livres do purgatório no primeiro Sábado depois da morte.

Se quisermos, pois, ajudar às santas almas do purgatório, procuremos rogar por elas à Santíssima Virgem em todas as nossas orações, aplicando-lhes especialmente o santo rosário, que lhes dá um grande alívio.[3]

c) Maria salva as almas destinadas ao inferno. Muitos estariam agora no céu se tivessem se deixado conduzir pela Virgem Maria. Ela tem as chaves das portas do paraíso; ela é a escada do céu; ela é cheia de graça e pode salvar quem rogar por ela. Como Senhora do céu ela pode introduzir ali quem bem quiser, desde que não lhe sejam postos obstáculos e desde que a tenham servido, atravessando por ela, que é a porta da salvação, para chegar até Deus. É certo que ninguém pode ter certeza da salvação – segundo o autor católico – mas basta o patrocínio de Maria para se salvar.

Rezando um dia a novena da Assunção, a serva de Deus Sóror Serafina Capri (como se lê na sua biografia), pediu à Santíssima Virgem a conversão de mil pecadores. Mas logo depois temeu fosse talvez muito ousado o seu pedido. Apareceu-lhe a Virgem e repreendeu-a de seu vão receio com as palavras: Por que duvidas? Por acaso não tenho tanto poder para alcançar de meu Filho a salvação de mil pecadores? Pois olha que eu vou obtê-la agora mesmo. E levada em espírito ao céu por Maria, viu Serafina inúmeras almas de pecadores que tinham merecido o inferno, mas que pela intercessão da Virgem estavam salvos e já gozavam da bem-aventurança.[4]

            O absurdo desmedido desta doutrina demonstra com clareza a incoerência que existe em todas as doutrinas e dogmas católicos. Apresenta-se Pedro e seus sucessores como detentores das chaves do Reino dos Céus, únicos capazes de ligar e desligar, de decidir quem entra e quem sai, de lançar no purgatório as almas ou livrá-las de lá. Ao mesmo tempo mostram todo este poder nas mãos de Maria, dependendo as almas da sua intercessão, do seu favor; dependendo também de terem vivido sob sua proteção e graça.
Além disso, tudo o que vimos sobre Maria e o purgatório exclui totalmente o livre agir do Espírito Santo e a operação da Graça salvadora de Deus em Cristo Jesus. Se isso não bastasse, Maria leva para o céu até mesmo aquelas pessoas que mereciam ter ido para o inferno. Que pessoas são essas? São aquelas que não fazem a vontade de Deus (Mateus 7:21), não ouvem nem praticam a sua Palavra (Mateus 13:19). Estes são os impuros, injustos, idólatras, adúlteros, efeminados, sodomitas, ladrões, avarentos, bêbados, maldizentes, roubadores, incontinentes, covardes, incrédulos, abomináveis, assassinos, feiticeiros e mentirosos que a Palavra de Deus garante que não herdarão o seu Reino (1 Coríntios 6:9; Efésios 5:5; Apocalipse 21:8). Isto é, embora tenham rejeitado a salvação e vivido segundo sua própria vontade, agora estão no céu, porque Maria, ofendida em seu orgulho, quis dar uma prova de que realmente tinha poder. Estará Maria acima de Deus e de sua Palavra?


[1] Para saber mais sobre estas doutrinas, consulte as seguintes seções do Compêndio do Vaticano II: 140, 141, 142, 144, 145, 147, 148, 149, 150, 151, 152, 153, 155, 157, 158, 159, 160, 695, 1144, 1204, 1283, 1349 e 1584.
[2] Liguori, op. cit., p. 192.
[3] Idem, p. 194.
[4] Idem, ibdem, p. 199.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Por favor, jamais comente anonimamente. Escrevi publicamente e sem medo. Faça o mesmo ao comentar. Grato.