quarta-feira, 29 de maio de 2013

Purgatório: verdade bíblica ou falsa doutrina? - PARTE 1



Lê-se na vida de sóror Catarina de S. Agostinho que havia, no lugar em que morava esta serva de Deus, uma mulher chamada Maria. A infeliz levara uma vida de pecados durante a mocidade. E já envelhecida, de tal forma se obstinara na sua perversidade, que fora expulsa pelos habitantes da cidade, e obrigada a viver numa gruta abandonada. Aí morreu finalmente, sem os sacramentos e sem a assistência de ninguém. Sepultaram-na no campo como um bruto qualquer. Sóror Catarina costumava recomendar a Deus em grande devoção as almas de todos os falecidos. Mas, ao saber da terrível morte da pobre velha, não cuidou em rezar por ela, pensando, como todos os outros, que já estivesse condenada. Eis que, passados quatro anos, em certo dia se lhe apresentou diante uma alma do purgatório, que lhe dizia: Sóror Catarina, que triste sorte é a minha! Tu encomendas a Deus as almas de todos os que morrem e só da minha alma não tens tido compaixão? – Mas quem és tu? – disse a serva de Deus. – Eu sou, – respondeu ela, – aquela pobre Maria, que morreu na gruta. – E como te salvaste? – replicou sóror Catarina. – Sim, eu me salvei por misericórdia da Virgem Maria. – E como? – Quando eu me vi próxima à morte, estando juntamente tão cheia de pecados e desamparada de todos, me voltei para a Mãe de Deus e lhe disse: Senhora, vós sois o refúgio dos desamparados. Aqui estou neste estado abandonada por todos. Vós sois a minha única esperança, só vós me podeis valer; tende piedade de mim. Então a Santíssima Virgem obteve-me a graça de eu poder fazer um ato de contrição[1]; depois morri e fui salva. Além disso, esta minha Rainha alcançou-me a graça de ser abreviada minha pena por sofrimentos mais intensos, porém menos demorados. Só necessito de algumas missas para me livrar mais depressa do purgatório. Rogo-te que faças celebrar. Em troca prometo-te pedir sempre a Deus e à Santíssima Virgem por ti.[2]

            A doutrina das indulgências nos remete automaticamente a do purgatório, pois é para as almas que ali cumprem pena que elas servem. Assim decretou o concílio de Trento:

983. Já que a Igreja Católica, instruída pelo Espírito Santo, apoiada nas Sagradas Letras e na antiga Tradição dos Padres, ensinou nos sagrados Concílios e recentemente também neste Concílio Ecumênico, que existe purgatório [cfr. n° 840], e que as almas que nele estão detidas são aliviadas pelos sufrágios dos fiéis, principalmente pelo sacrifício do altar [cfr. n° 940, 950], prescreve o santo Concílio aos bispos que façam com que os fiéis mantenham e creiam a sã doutrina sobre o purgatório, aliás transmitida pelos santos Padres e pelos Sagrados Concílios, e que a mesma doutrina seja pregada com diligência por toda parte. Sejam, outrossim, excluídas das pregações populares à gente simples as questões difíceis e sutis e as que não edificam (cfr. l. Tim l, 4) nem aumentam a piedade. Igualmente não seja permitido divulgar ou discorrer sobre assuntos duvidosos ou que trazem a aparência do falso. Sejam ainda proibidas como escandalosas e prejudiciais aos fiéis aquelas coisas que têm em vista provocar a curiosidade ou que rescendem a superstição ou a um torpe lucro...

            À doutrina do purgatório segue-se a exclusão de “questões difíceis e sutis e as que não edificam”. Que questões seriam estas? Não seriam aquelas que, inevitavelmente, refutem o purgatório com base nas Sagradas Escrituras? Ora, se o concílio de Trento nasceu para frear o protestantismo que pregava a salvação pela fé somente, colocando em risco os cofres de Roma, não há como duvidar que estas questões são justamente aquelas levantadas pelos reformadores! Estes “assuntos duvidosos” certamente eram parte da doutrina bíblica da salvação, da justificação mediante a obra redentora de Cristo e o perdão total dos pecados por Deus. E o que poderíamos entender por “torpe lucro”? não seria a cobrança indevida por indulgências através da celebração de missas? Não seria a tão afamada frase “Dinheiro que na caixa cai, alma que do purgatório cai”?


O que é o purgatório?


            O purgatório não é uma morada eterna, mas um lugar transitório de purificação, onde as almas que não foram totalmente purificadas de seus pecados em vida vão esperar o momento de subir aos céus. A palavra “purgatório” não é encontrada na Bíblia, mas o catolicismo romano apresenta vários textos que pretendem indicar claramente a sua existência. De fato a Bíblia não fala sobre este lugar, mas os textos utilizados pelos doutores de Roma, inclusive de livros apócrifos como II Macabeus, nos dão a entender que a passagem por ele é real e necessária. Todavia, as fontes mais abrangentes sobre tal doutrina não partem das Sagradas Escrituras, mas da Tradição. Conforme podemos ver em Tertuliano (160-240): “Uma vez por ano oferecemos os sacrifícios pelos mortos, como se fosse o seu dia de aniversário”. Nos túmulos dos primeiros cristãos, segundo relada José Antônio Jorge (1999) podemos ler até hoje: “Lembrai-vos de nós nas vossas orações, nós que morremos antes de vós”.
            Se todas as coisas que nossos antepassados disseram devêssemos tomar ao pé da letra como sendo doutrinas a serem seguidas, deveríamos cultuar os deuses gregos, egípcios, deveríamos crer na religião que os escravos trouxeram da África e que exaltam o demônio em sua maioria. Deveríamos, também, cultuar as mesmas entidades que os índios. Em matéria de moral, ética e espiritualidade, deveríamos nos tornar iguais aos nossos antepassados? Então teríamos de voltar a seguir a Lei de Moisés, de acreditar no Alcorão, pois ele é antiquíssimo. E as religiões da China, do Tibet, do Japão, com todas as suas milenares crenças? Teríamos que acatá-las. Mas não é só porque uma doutrina é milenar que ela seja correta, do contrário teríamos que continuar sacrificando crianças e virgens ao deus Sol!
            O purgatório não é mencionado na Bíblia, embora inúmeros textos tenham sido utilizados durante os séculos para comprovarem a sua existência (conforme veremos na refutação). Na verdade, este dogma começou a ser ensinado na igreja somente a partir do ano de 593 (século VI), vindo a ser transformado em artigo de fé muito mais tarde, no ano de 1439 (século XV), isto é, mais de mil anos após a morte e ressurreição de Cristo e o início da igreja cristã. Este dogma veio evoluindo conforme a conveniência da igreja romana. Tudo o que dissemos no capítulo A verdade sobre as indulgências, pode-se aplicar também ao purgatório, visto, como já dissemos, estas doutrinas estarem intimamente ligadas, juntamente com a Missa.
            Pela descrição anterior da agonia sofrida pelas almas no purgatório feita por João Tetzel, podemos imaginar que tipo de lugar é este. Almas em meio a um fogo purificador, queimando-as (pois todo fogo queima!), consumindo-as. Elas, ali, presas por tempo indeterminado, lembram do seu batismo infante que lhes prometia comunhão com Deus, da sua crisma, das missas assistidas, das procissões, das novenas com o Rosário em mãos, da confiança depositada nos santos e santas, das esmolas, das celebrações eucarísticas onde comiam a Cristo ... Lembram disso tudo e vêem que nada disso pôde livrá-las do purgatório, nada lhes garantiu passagem direta para o céu. E agora dependem das orações de seus entes queridos. E se eles esquecerem? E se não tiverem dinheiro o bastante para mandar rezar missas ou dar esmolas? E se, por uma infelicidade do destino, todos morrerem no mesmo acidente? Quem rezará? Infelizes almas, estão para sempre condenadas ao fogo purificador. Quando sairão de lá? Somente quando Jesus vier em glória e ressuscitar os mortos para levá-los ao céu? Mas como estas almas irão se não foram purificadas? Estarão condenadas ao inferno? E agora?


O sistema do purgatório


            A doutrina do purgatório pode ser dividida nas seguintes explicações:

1.    A libertação de Cristo efetuada na cruz é somente do pecado original e da morte eterna. Com isso deve-se entender que o batismo, apesar de restaurar a amizade do homem com Deus e livrá-lo do inferno – caso ele permaneça sob os domínios da igreja romana – é incapaz de purgar totalmente seus pecados, de modo que, mesmo depois de morto, o fiel ainda necessita passar pela agonia do fogo do purgatório por causa dos pecados cometidos após o batismo.

2.    Por isso, mesmo depois do batismo, que é um sacramento para anular a culpa original, o cristão deve se empenhar em praticar obras de caridade para amenizar suas futuras dores no purgatório. Além de realizar obras em favor da própria justificação necessita ainda rezar pelas almas que já estão dentro do fogo purificador, oferecendo-lhes esmolas e missas. É interessante notar que o católico romano não tem certeza da sua salvação, mas tem convicção de sua ida para o purgatório, senão não precisaria preocupar-se com obras a favor de sua alma neste lugar tenebroso.

3.    Esta purificação deve ser completa, isto é, a alma deve ser plenamente purificada antes da sua entrada no céu, onde não pode haver podridão e impureza da qualquer espécie.

4.    Caso o cristão não consiga alcançar a sua purificação em vida, ele inevitavelmente terá de passar pelo purgatório para ser purificado.

5.    A Eucaristia é um sacramento que beneficia, tanto os que ainda estão vivos, como os que já morreram. Em vida este benefício é ativo (assistira a Missa, comungar, etc.); no purgatório ele é passivo.

6.    O papa tem o poder de perdoar os pecados e emitir indulgências plenárias, onde não existe a necessidade de penitência por parte do pecador, tanto vivo, quanto morto.

7.    As almas do purgatório podem ser aliviadas pelas orações e esmolas da igreja.

Este sistema, vale a pena salientar, não é um sistema de doutrinas bíblicas, mas, conforme veremos adiante, um engodo da igreja de Roma cuja finalidade única é manter sobre seu regaço o maior número de pessoas possível. Roma tem o poder e usa-o conforme suas conveniências. Quanto é conveniente apoiar um doutrina, eles apoiam, mas quando ela deixa de ser conveniente e passa a ser uma pedra no sapato, eles se desculpam e renovam seus concílios.


Quem irá para o purgatório?


            Como a maioria das doutrinas e dogmas do catolicismo romano, o purgatório é repleto de contradições, a começar pelas pessoas que são condenadas a ele. Quem são elas? O que elas fizeram ou deixaram de fazer para merecer tal punição? O papa Pio IV responde:

1. – Os que morrem culpados de pecados menores, que costumamos chamar veniais, e que muitos cristãos cometem – e que, ou por morte repentina, ou por outra razão, são chamados desta vida, sem que se tenham arrependido destas faltas ordinárias. 2. Os que, tendo sido formalmente culpados de pecados maiores, não deram plena satisfação deles à justiça divina.[3]

            Embora estas almas penadas tenham já se purificado no batismo, conforme atesta a doutrina romanista, Deus parece não estar satisfeito; ainda resta algo a ser purgado, pago, regenerado. Desta forma se expressou o concílio de Trento sobre o assunto:

840. Cân. 30. Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus — seja excomungado [cfr. n° 807].

            Desta forma, a Graça de Deus torna-se insuficiente e é manipulada conforme os dogmas do catolicismo. O que mais impressiona, porém, é o fato de haver uma classe de pessoas escolhidas para ir para o purgatório baseado na quantidade e qualidade de seus pecados. O tanto que sofrerão lá e o tanto de tempo que por lá penarão dependerá da forma como viveram na terra. Todavia, diante de Deus não existe pecado maior ou menor, mortal ou venial, e todos são justificados mediante a fé em Cristo Jesus:

Mas agora, sem lei, se manifestou a justiça de Deus testemunhada pela lei e pelos profetas; justiça de Deus mediante a fé em Jesus Cristo, para todos [e sobre todos] os que crêem; porque não há distinção, pois todos pecaram e carecem da glória de Deus, sendo justificados gratuitamente, por sua graça, mediante a redenção que há em Cristo Jesus, a quem Deus propôs, no seu sangue, como propiciação, mediante a fé, para manifestar a sua justiça, por ter Deus, na sua tolerância, deixado impune os pecados anteriormente cometidos; tendo em vista a manifestação da sua justiça no tempo presente, para ele mesmo ser justo e o justificador daquele que tem fé em Jesus. (Romanos 3:21-26)

            Não há aqui distinção entre pecado maior ou menor, muito menos vestígio da insuficiência da Graça de Deus, uma vez que “todos” pecaram e são “justificados” mediante a “redenção” que há no sangue de Cristo, e não no fogo do purgatório romano. Se existisse distinção entre graus de pecado, o céu seria um lugar elitizado: os grandes pecadores de um lado e os pequenos pecadores do outro. Estes últimos teriam um lugar mais distinto ao lado do Senhor. Mas Deus não faz acepção de pessoas. Não é pelo tamanho do pecado ou pelo grau de santidade que herdamos as coisas futuras (céu ou inferno), mas pelo tamanho desmedido da sua Graça e pelo sangue derramado na cruz do Calvário como propiciação dos pecados do mundo.

 

O poder das chaves



            O dogma que confere ao papa o poder das chaves do céu é bastante conveniente dentro do contexto do purgatório. A infalibilidade papal decretada em 1870 afastou todas as possibilidades de refutação das atitudes e doutrinas dos pontífices romanos, antes e depois deste dogma ser estabelecido. Tendo a igreja o poder sobre as portas do céu e do inferno, seria muito mais fácil manipular a seu favor o ânimo dos fiéis, podendo sustentar a doutrina das indulgências e do purgatório, condenando como herege, excomungado, qualquer que por ventura viesse a discordar. O poder das chaves nas mãos dos sacerdotes romanos vai muito além do que a Bíblia propõe, isto é, de pregar o Evangelho da Salvação pela fé em Cristo, que é a verdadeira chave do Paraíso.
            Para que o catolicismo romano se estabelecesse e se fortalecesse seria inviável ter Cristo com o a pedra fundamental da igreja, pois as suas palavras são eternas e jamais mudam: “Passará o céu e a terra, porém as minhas palavras não passarão” (Mateus 24:35). A palavra de Cristo não pode ser revista em concílios nem renovadas em súmulas, nem desmentida através de um pedido de perdão por coisas faladas no passado. Cristo é Deus e Deus não erra jamais. Era necessário fundamentá-la em alguém volúvel, como o apóstolo Pedro. Ele negou a Cristo três vezes e teve a chance de se arrepender. Ora, por que seus sucessores não poderiam, também, cometer erros a exemplo de seu primeiro papa? Por isso assim decretou o Concílio do Vaticano II:

Para estabelecer esta Sua Santa Igreja em todo mundo até a consumação dos séculos, Cristo outorgou ao Colégio dos Doze o ofício de ensinar, reger e santificar. Dentre eles escolheu a Pedro, sobre quem, após a profissão de fé, decidiu edificar a Sua Igreja. A ele prometeu as chaves do Reino dos Céus e depois da profissão de seu amor, confiou-lhe a tarefa de confirmar na fé todas as ovelhas e de apascentá-las em perfeita unidade, continuando a ser eternamente, o Próprio Cristo Jesus, a suprema pedra angular e o pastor de nossas almas. (Seção 756).

            Todavia, em momento algum de suas pregações ou epístolas o apóstolo Pedro renegou as verdades pregadas por seu Mestre, Senhor e Deus. Em momento algum fez uso do suposto poder das chaves da eternidade nem sequer tocou neste assunto. Também não pregou a doutrina do purgatório[4]em parte alguma. Pedro conhecia bem o plano de Deus e sabia que a salvação estava em Cristo. Ele reconheceu no seu Mestre o Senhor e Deus, o Cristo, Filho do Deus vivo. Embora confuso, amedrontado com a prisão de Cristo, manteve firme a sua fé até a morte, fé no Evangelho de Deus.
            Os seus sucessores, porém não raciocinam desta forma. Eles criaram a doutrina das chaves e fazem questão de utilizá-las ao seu bel-prazer. Alguns teólogos católicos ainda afirmam que Maria, mãe de Jesus, é Senhora do céu e comanda quem entra ou sai, escolhendo entre as almas que sobem as que mais se devotaram a ela em vida. E quem controla o que Maria diz em suas aparições? A quem ela se reporta? Quem tem o poder de dizer que tal aparição foi verdadeira ou mero engodo? Quem declara ser digno de fé o que os santos e santas dizem aos vivos? Decididamente o poder das chaves é o “Ás” do baralho do Vaticano, a cartada definitiva rumo ao domínio exercido sobre seus próprios fiéis e a cristandade em geral.



[1] 897. A contrição, que tem o primeiro lugar entre os mencionados atos do penitente, é uma dor da alma e detestação do pecado cometido, com propósito de não tornar a pecar. Este movimento de contrição foi necessário em todo tempo para se alcançar o perdão dos pecados. No homem que cai depois do Batismo, ela é como que uma preparação para a remissão dos pecados, se estiver unida à confiança na divina misericórdia e ao propósito de executar tudo o mais que se requer para receber devidamente este sacramento. (Concílio de Trento).
[2] S. AFONSO de Ligório, op. cit., p. 42 e 43.
[3] A base da doutrina católica contida na profissão de fé, apud. Raimundo F. de Oliveira, Seitas e Heresias, p. 23.
[4] Confira os sete pontos sobre o sistema do purgatório e compare-os com as pregações de Pedro no livro dos Atos dos Apóstolos e nas suas três epístolas.




Um comentário:

  1. MUY INTERESANTE, BIEN EXPLICADO Y DEFINITIVAMENTE NECESARIO. AMÉN

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