sábado, 30 de março de 2013

CRISTO: O VERDADEIRO FUNDAMENTO DA IGREJA


O verdadeiro fundamento


         Em primeiro lugar não é Pedro a pedra fundamental da igreja, mas o próprio Cristo. A passagem de Mateus 16:13-20 refere-se a Pedro na segunda pessoa (tu), mas “esta pedra” refere-se à terceira pessoa. “Pedro” (petros) é um termo masculino singular, e “rocha” (petra), é um termo feminino singular. Quando Jesus fez esta declaração, queria afirmar que Ele mesmo, “o Filho do Deus vivo”, seria a base da Nova Aliança, fundada não por mãos humanas, mas pelo seu sangue derramado na cruz para a salvação da humanidade. Pedro, homem pecador, jamais poderia ser uma base bastante sólida. Pedro, não morreu por nós nem ressuscitou. Cristo sim.
         Jesus Cristo é a pedra angular da sua igreja (Isaías 28:16; Salmo 118:22; Mateus 21:42-44; Atos 4:11; Romanos 9:33; 1 Coríntios 10:4; Efésios 2:20). O próprio Pedro, a quem os católicos romanos insistem em chamar de “Pedra fundamental da igreja”, afirma que é Jesus a pedra (1 Pedro 2:6-8). Porque escolher Pedro e não Cristo como fundador da igreja? Por que não aceitar a doutrina bíblica como ela é? Existe algum mal em se ter Jesus como o cabeça e fundamento seguro da igreja? Podemos arriscar aqui uma suposição para explicar este modo de pensar: sendo Jesus de sacerdócio eterno, seria inviável uma legião de papas eleitos de tempos em tempos. Pedro seria muito mais manipulável. Sendo Pedro sujeito ao erro, seria mais fácil justificar que os seus sucessores também pudessem errar. Mas sendo Jesus o próprio Deus e isento de culpa ou mácula, seria impossível justificar as centenas de erros cometidos no decorrer dos séculos. Sendo Pedro a pedra fundamental, a hierarquia estaria garantida. Mas e sendo Jesus? Seria inviável.
         Algumas literaturas católicas, para provar que Pedro foi o primeiro papa e que o atual é seu sucessor legal, apresentam uma lista de papas desde Pedro até João Paulo II, o atual Bispo de Roma, querendo com isso, inclusive, provar que a igreja católica romana é a verdadeira. Mas quem fez esta lista? Quem nomeou estes papas? Sucessores de Pedro? Pode até ser que sim, mas nenhum é sucessor de Cristo e é sobre Ele que o verdadeiro cristianismo, a verdadeira igreja de Cristo é fundamentada. É sobre Ele que a igreja católica estava baseada até entregar-se ao paganismo, permitindo a entrada de ídolos pagãos, crenças e festas pagãs em seu meio para ganhar a muitos, sem a qualidade que o Evangelho recomenda. O protestantismo surgiu como uma luz nas trevas, contra as indulgências heréticas e a idolatria generalizada. Deste fato histórico, através do instrumento Martinho Lutero, é que surgiram as igrejas protestantes, voltando às origens do cristianismo. É certo que com alguns erros e excessos, mas purificando-se a cada dia, o que não impede o surgimento de seitas, pois o homem é de todo mal e quer usar até mesmo a Bíblia para seus piores intentos.
         Além disso, a mesma autoridade que Jesus deu a Pedro também outorgou aos demais Apóstolos em Mateus 18:18. Se Pedro foi o primeiro papa da história, no mínimo foi um papa bastante diferente dos que o sucederam. Além de ter sido repreendido por Cristo imediatamente após a sua “ordenação” – o que denuncia a sua falibilidade (Mateus 16:23) – ele era financeiramente pobre, isto é, não morava numa suntuosa Catedral nem tinha um país só para ele. Além disso, ao contrário da maioria de seus posteriores colegas de Ordem, ele era casado (Mateus 8:14,15). Pedro também não aceitava que se ajoelhassem diante dele, lhe prestando homenagens, rejeitando a adoração pelo centurião Cornélio (Atos 10:25,26). Além de se achar repreensível por Jesus, Pedro também o foi para o Apóstolo Paulo (Gálatas 2:11-14). Não era Pedro, o “Príncipe dos Apóstolos”, o pastor da primeira comunidade cristã, em Jerusalém, mas Tiago (Atos 15).
         A autoridade papal sobre a igreja não tinha sido cogitada até o ano 440 d.C., quando Leão I foi o primeiro a sustentar sua autoridade sobre os demais. Ele é considerado pelos historiadores como sendo o primeiro papa, embora não o tenha sido oficialmente. Historicamente o papado começa no ano 609 d.C. como poder central, mantendo sob seu regaço toda a hierarquia católica romana. Nos Evangelhos, no livro de Atos ou nas epístolas não existe nenhuma indicação de que Pedro tenha feito uso do poder que a igreja romana pretende lhe conferir. Um exame honesto do Novo Testamento mostrará isto claramente.
         Ainda, embora Pedro tenha pregado o primeiro sermão após o recebimento do Espírito Santo, a sua participação na obra missionária da igreja está muito longe de ser a de apóstolo-chefe. Ele era, sim, um dos mais excelentes Apóstolos. Paulo, podemos supor, reuniria mais condições para ser considerado como apóstolo-chefe. Ele alegou ter recebido sua revelação independente dos outros Apóstolos (Gálatas 1:12; 2:2); estar no mesmo nível de Pedro (Gálatas 2:8), utilizando sua revelação para repreender a Pedro (Gálatas 2:11-14). Pedro foi enviado com João numa missão na Samaria, isto mostra que ele não era um apóstolo superior (Atos 8:14). Ele está em foco do capítulo 1 até o 12 do livro de Atos, mas do capítulo 13 ao 28 o foco principal é Paulo. Além disso foi Paulo quem escreveu a maioria das epístolas, inclusive com ensinos doutrinários que cabem, nos dias de hoje, ao papa, que no caso deveria ser Pedro.

A VERDADE SOBRE O DÍZIMO





Este estudo é apenas uma pequena parte de um estudo maior:

A graça de ofertar

Ofertando na Igreja com alegria e liberalidade



A verdade por trás do dízimo


“Você tem que chegar e se impor. Tem que mostrar (ao fiel) que se quiser ajudar amém,
Se não quiser ajudar Deus vai arrumar outra pessoa a ajudar...
Se não quiser que se dane. Ou dá ou desce...
Você nunca pode ter vergonha. Peça, peça, peça...
Se tiver alguém que não dê, tem um montão de gente que vai dar.[1]
(Bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal do Reino de Deus)



As pregações mais amenas acerca do dízimo afirmam que quando o crente o paga não está dando nada a Deus, porque Deus de nada precisa. O crente está apenas devolvendo uma pequena parte daquilo que Deus lhe deu. Não custa nada devolver 10% do que ganhamos a Deus, já que ficamos com a maior parte, isto é, 90%. Então, se esses 10% significam o valor que damos a Deus e a sua obra, os 90% mostram o quanto podemos ser egoístas. A despeito disso, mesmo as pregações mais despretensiosas acerca do dízimo não escondem alguns fatores de suma importância para algumas igrejas:

  • o crente só é considerado fiel a Deus quando paga o dízimo regularmente;
  • a recusa ou a impossibilidade de dizimar impede que o crente seja abençoado por Deus. Não dar o dízimo significa “reter a bênção”;
  • não dizimar denuncia que o crente está em pecado, é rebelde, ou está sob influência satânica;
  • o crente que não dá o dízimo atrai maldição sobre a sua vida, porque sem receber o dízimo, Deus não pode repreender o “devorador”;
  • o lado positivo é que, se pagar o dízimo regularmente, o crente será cumulado de ricas bênçãos e receberá de volta duas ou cem vezes mais aquilo que ofertou.

Esta matemática estranha esconde muitas controvérsias. Uma delas é o fato de que estamos devolvendo a Deus parte do que Ele nos deu para que Ele nos devolva o dobro ou o cêntuplo do que lhe demos. É um ótimo negócio, melhor que a poupança, aplicações na Bolsa, o rendimento do dólar. Ora, se estamos devolvendo a Deus esperando receber muito mais em troca, estamos realmente devolvendo alguma coisa a Ele ou aplicando nosso dinheiro numa conta no banco celestial? Quem dá algo espera receber de volta alguma coisa?
Mas existem questões muito mais profundas que envolvem o dízimo. A teologia formada em torno dele e que o sustenta não tem nada de despretensiosa. Quando falamos na teologia do dízimo não estamos nos referindo àquilo que a Bíblia ensina de maneira clara (ver Ml 3:6-12; 2 Co 9:6 e 9:7). Estamos, na verdade, falando daquilo que a Teologia da Prosperidade ensina e pratica através dos seus maiores divulgadores no Brasil e no mundo inteiro e que não tem nada a ver com o ensino sadio das Escrituras Sagradas. Como bem sabemos, o evangelho da prosperidade é um evangelho distorcido da realidade bíblica, uma nova revelação, como atestam os seus próprios criadores. E, infelizmente, muitas denominações que desaprovam a Teologia da Prosperidade, fazem uso do sistema de dízimos. É claro que nem todas as igrejas que se utilizam do dízimo o fazem com base nessa teologia.
Absolutamente todas as questões que envolvem o dízimo partem de um princípio: “Deus prometeu”. As promessas de Deus presentes na Bíblia que mostram a sua disposição em abençoar o seu povo são tomadas ao pé da letra pelos teólogos da prosperidade, não considerando qualquer contexto em que foram escritas – histórico, cultural, circunstancial – nem o fato de a maioria dessas promessas fazerem parte do Velho Testamento e já terem se cumprido em Jesus Cristo. As promessas de Deus são o atestado que os mestres da prosperidade possuem para comprovar que os crentes têm direito às bênçãos celestiais (de saúde total, felicidade plena e prosperidade financeira) e devem tomar posse delas, exigindo de Deus o cumprimento da sua Palavra. Essas bênçãos estão guardadas no céu e esperam apenas pela fé do crente. Sem fé é impossível agradar a Deus, por isso é preciso crer, não em Deus, mas em si próprio, na sua capacidade de decretar, profetizar, exigir e obter o maior número de bênçãos possível.
            O missionário R. R. Soares (2009:29) chega a afirmar:

A Palavra de Deus fará apenas aquilo que você determinar, o que você crer que lhe pertence e que, em Nome de Jesus, reivindicar. Se, nesse momento, você assumir a sua posição e exigir, em Nome de Jesus, os seus direitos, a Palavra de Deus realizará aquilo para o qual foi enviada.

Desta forma, basta crer que Deus tem reservado inúmeras bênçãos nos céu, conquistadas por Cristo na cruz, e que essas bênçãos estão disponíveis para nós. O fiel dizimista, que tem fé nas promessas de Deus apenas decreta a sua bênção, e Deus, obrigado por sua Palavra e suas promessas, dá aquilo que o crente exigiu, decretou e declarou.


Evangelho da oferta e da procura

A Teologia da Prosperidade tira a ênfase no amor de Deus que perdoa os nossos pecados em Cristo por meio do arrependimento e da fé, e a coloca sobre a necessidade e o direito do ser humano de ser feliz. O objetivo principal do Evangelho de Cristo, segundo esta linha teológica, é ajudar o homem nos seus problemas e solucioná-los de maneira rápida e definitiva, sem levar em conta, no entanto, o seu maior problema, que é o pecado. Esse evangelho é de tal forma comercial que bem cabe na lei da oferta e da procura: ele oferece aquilo que as pessoas mais necessitam e procuram, como prosperidade financeira, sucesso profissional, status e uma vida isenta de tribulações e doenças. Dessa forma, não há como colocar a culpa somente naqueles que ofertam a mercadoria, pois se não houvesse quem comprasse, não haveria lucro. Se as bênçãos do Senhor são negociadas nas igrejas que pregam tal teologia, é porque a demanda é garantida e existem pessoas dispostas a comprar tal “evangelho” a qualquer custo.
Como tais pessoas se dizem “evangélicas” e não se sentem a vontade em fazer um despacho numa encruzilhada ou se prostrar aos pés de uma imagem de santo para fazer promessas, a Teologia da Prosperidade é a melhor saída. A benção é garantida juntamente com a paz de consciência. E qual o preço a pagar por essa mercadoria? O preço é o dízimo, além de muitas outras formas de arrecadação. A lógica corrente é supostamente baseada na Bíblia: quanto mais o fiel der, maiores serão as suas bênçãos. E é bom mesmo ter cada vez mais bênçãos, pois “a quem muito tem, muito lhe será dado”. E se Deus foi capaz de dar o seu bem mais precioso – a sua própria vida por meio de Cristo – não nos dará com ele graciosamente todas as coisas? Então, o que estamos esperando para tomar posse desse maravilhoso tesouro?
Esse evangelho encontra respaldo numa sociedade conturbada como a nossa, onde as desigualdades sociais e a desesperança alcançam as classes menos favorecidas que buscam formas de se superar e subsistir. Os benefícios oferecidos atendem perfeitamente aos anseios desta sociedade. Não existe uma área sequer da vida do crente que não possa ser transformada por esse evangelho. Mas para tão grandes benefícios não existem sacrifícios proporcionais, como luta, trabalho árduo, formação acadêmica, tratamentos médicos contra as doenças, tudo sob a direção e a graça de Deus. Tudo acontece por meio da Confissão Positiva.
Mas como toda mercadoria é negociada há sempre um alto preço a ser pago e é o que estamos estudando: o dízimo. Se o crente é massa de manobra, o evangelho é moeda de troca. Todavia, o alto preço está muito além de pagar dízimos. O preço mais alto a pagar por esse evangelho é a salvação da alma. Esta não se vende nos púlpitos nem pode surgir a partir de uma confissão positiva, mesmo na presença dos 70 anciãos, carregando o manto santo diante da fogueira santa no dia santo do ano santo. O dízimo e os seus múltiplos “benefícios” prendem os fiéis a uma vida de realizações terrenas e impede que eles enxerguem a eternidade.


O princípio de tudo

O dízimo, na perspectiva da Teologia da Prosperidade, nada mais é do que uma sociedade firmada entre Deus e os homens, onde cada sócio procura fazer a sua parte na sociedade para que todos tenham lucro. Segundo essa perspectiva, quando Adão e Eva estavam no paraíso, gozando das delícias que o Senhor criou, o diabo se intrometeu e desfez a sociedade entre o homem e Deus. Somente quando Deus enviou o seu Filho para salvar a humanidade é que esta sociedade foi refeita.
            Se estudarmos a fundo a Confissão Positiva, aprenderemos que a doutrina áurea da Teologia da Prosperidade é que o crente possui bênçãos que lhe foram garantidas por Jesus quando morreu e ressuscitou. Ele não só venceu a morte e o pecado para nos dar a salvação, como também nos garantiu prosperidade financeira e uma vida isenta de doenças e sofrimento. Kenneth Hagin, um dos maiores nomes dessa teologia, vai mais além e afirma que Jesus conquistou este direito quando desceu ao inferno após a sua morte, recebendo a natureza satânica e experimentando a morte espiritual. Depois de sofrer por três dias no inferno, Jesus renasceu vitorioso, porque conseguiu derrotar o Diabo em seu próprio território. Ricardo Mariano[2], estudioso do movimento neopentecostal brasileiro, conclui:

Desse modo, foram necessários o sacrifício de Jesus na cruz e sua vitória sobre o diabo no próprio inferno para o restabelecimento desta sociedade, na qual os homens, se cumprirem sua parte no contrato firmado na Bíblia por Deus, isto é, se pagarem fielmente o dízimo – o “sangue da igreja”, para Edir Macedo – e exigirem o que a Palavra declara pertencer-lhes, tornam a adquirir o direito à “vida abundante”.

Pagar o dízimo é, então, parte do contrato firmado entre Deus e o homem e sancionado pela ida de Cristo ao inferno, quando transformou-se em Satanás e derrotou o Diabo depois de ter morrido espiritualmente (Mariano). Isto é: o Deus Soberano, Onipotente, se humilhou ao ponto de se tornar homem, depender de uma mulher para se alimentar, foi humilhado, surrado e morto vergonhosamente numa cruz para pagar por pecados que Ele não cometeu, mas que a humanidade inteira cometeu contra Ele, para salvar o pecador miserável e ainda ficou lhe devendo! Deus dá a si mesmo pela salvação da humanidade e ainda fica lhe devendo!
O que entendemos de fato através disto é que antes de Jesus Cristo morrer e ressuscitar, éramos nós que tínhamos uma dívida impagável para com Deus – o pecado. Mas agora, é Deus quem tem uma eterna dívida para conosco – as bênçãos que Ele nos prometeu. Isto é: Cristo morreu na cruz por nós, o Justo pelos injustos (1 Pe 3:18), sendo nós ainda pecadores (Rm 5:8) e ainda ficou nos devendo dinheiro, saúde, sucesso e poder. O absurdo desta heresia só nos faz ter ainda mais certeza de que estamos tratando com algo terrivelmente demoníaco ao lidarmos com a Teologia da Prosperidade.
            Nesta sociedade inventada pelos gurus da prosperidade, nós damos a Deus aquilo que é nosso, acima de tudo nossos bens e nossas finanças, e recebemos em troca aquilo que pertence a Ele e que passa a nos pertencer, e que pode ser resumido em saúde plena, felicidade total e prosperidade financeira. O missionário R. R. Soares pensa da seguinte forma:

O negócio que Deus nos propõe é simples e muito fácil: damos a Ele, por intermédio da Sua Igreja, dez por cento do que ganhamos e, em troca, recebemos d’Ele bênçãos sem medida[3].

Mesmo que muitas igrejas históricas que costumam cobrar o dízimo não acreditem nem preguem desta forma, o princípio permanece: o dízimo é uma moeda de troca, uma forma de barganhar com Deus as bênçãos que Ele tem para nos dar e que são direitos nossos legalmente adquiridos por Jesus. Embora as igrejas evangélicas sérias jamais deem crédito à ida de Cristo ao inferno para metamorfosear-se em Satanás, a grande maioria “toma posse” das bênçãos que Ele conquistou na cruz.


A lei do dar e receber

Como dissemos anteriormente, o dízimo cabe bem na lei da oferta e da procura. Os pastores só mercadejam as bênçãos de Deus porque existem pessoas dispostas a investir o que tem e o que não tem para consegui-las. E este investimento é o dízimo. Sem dar, o crente não poder receber; sem plantar, ele não pode colher; sem investir, ele jamais poderá receber retorno algum. É a lei do dar e receber: é dando que se recebe, como podemos atestar no seguinte texto:

Campanha do Cheque da Abundância: Depois de cânticos, orações e exorcismos, o pastor pede as contribuições. Diante do silêncio, desânimo e constrangimento dos fiéis, pontifica: “Se Deus abençoasse sem que ninguém tivesse de fazer algo em troca, estariam todos contentes, é ou não é? Mas existe uma lei, é a lei do dar e receber. A lei do dízimo e da oferta é de Deus, não de homens, pastores, bispos, o Papa. O plantar e o colher, o dar e o receber é lei de Deus para os homens. Sem o dar nunca a verá o receber. Se você quiser ganhar dinheiro tem que trabalhar. Não é de mão beijada. Para receber, precisa dar. O que Deus pede? O dízimo e mais uma oferta. Quando você dá, pode exigir em troca. Quando não dá desobedece a lei de Deus. A desobediência é o pecado diante de Deus. Deus manda dar segundo a condição de cada um. Todos devem dar, porque é dando que se recebe. A Bíblia diz que as pessoas devem fazer ofertas a Deus. Deus prometeu abençoar financeiramente aquele que desse para Ele. Quem quer receber muito deve dar muito. Quem quer receber pouco deve dar pouco. Quem não quer receber nada, não dá nada”. Em seguida ele ora pelas ofertas recebidas até então. E, de imediato, desafia: “Quem tem fé para dar tudo o que tem venha para a frente”. Várias pessoas aproximam-se do púlpito, retiram dinheiro das carteiras e bolsos e o depositam sobre a Bíblia. “Este é o sacrifício maior, o sacrifício de fé”, garante o pastor. Em seguida, estipula valores para a assistência levar ao púlpito. Poucos fiéis o fazem. A medida que diminui progressivamente o valor dos pedidos, aumenta o número dos que se prontificam a contribuir. Ao atingir valores muito baixos, adverte: “Se a pessoa tem muito e dá pouco, isto não vale nada, isto é um desprezo a Deus.” “Eu não posso julgar porque não conheço ninguém, mas Deus conhece. Você deve dar o que for o seu sacrifício e não as sobras. Deus tem sentimentos, quem despreza a Deus será por Ele desprezado. Nunca dê o resto para Deus”. Ao orar para a prosperidade, ele roga a Deus para que abençoe cada um conforme a sua oferta. Pede 100% a mais para quem fez os maiores sacrifícios, 60% e 30%, respectivamente, para quem se sacrificou menos.[4]

Note-se na pregação do referido pastor – da IURD – a pressão psicológica realizada sobre os fiéis para que eles ofertem. Esta pressão vai muito além disso e inclui acusar os fiéis de estarem em pecado ou sob influência de Satanás quando não querem contribuir. Muitos crentes chegam a ser humilhados, tendo a sua condição de pobreza exposta diante de todos os presentes e ridicularizado. Além disso, existe o medo de não ser abençoado, o medo de estar desobedecendo a Deus e por isso estar em pecado. Não é o Espírito Santo que dirige o coração dos fiéis e os leva a contribuir amorosamente com a obra do Senhor, mas a pressão exercida pelos pastores e o medo de ir para o inferno ou não ter a bênção tão desejada.
            Esta lei do “dar para receber” contrasta com aquilo que o Senhor Jesus ensinava e com o que os seus apóstolos nos repassaram: “Tenho-vos mostrado em tudo que, trabalhando assim, é mister socorrer aos necessitados, e recordar as palavras do próprio Senhor: Mais bem-aventurado é dar que receber” (At 20:35). Se estudarmos 2 Coríntios 9:6 veremos mais aprofundadamente esta questão. O dízimo não existe para barganhar com Deus ou para exigir nada dele em troca. O dízimo “existia” no antigo Testamento para suprir as necessidades do Templo e dos necessitados daquela época. A oferta nos moldes do Novo Testamento não são para abençoar a vida do ofertante, mas a daqueles que a receberão.


As promessas de Deus: o grande trunfo

O maior trunfo da Teologia da Prosperidade para cobrar de tal forma o dízimo e garantir aos seus fiéis que Deus cumprirá com a sua parte no contrato e eles receberão a bênção prometida, são justamente as promessas de Deus: “Deus não é homem, para que minta; nem filho do homem, para que se arrependa. Porventura, tendo ele prometido, não o fará? Ou, tendo falado, não o cumprirá?” (Nm 23:19). Outros pregadores não ligados a esta teologia também baseiam a sua segurança na mesma premissa. A ideia é que Deus está preso àquilo que Ele prometeu e não pode voltar atrás. As declarações do bispo Edir Macedo já são o suficiente para explicar esta questão:

“Comece hoje, agora mesmo, a cobrar dele tudo aquilo que Ele tem prometido (...) O ditado popular de que ‘promessa é dívida’ se aplica também a Deus. Tudo aquilo que Ele promete na sua Palavra é uma dívida que tem para com você (...) Dar dízimos é candidatar-se a receber bênçãos sem medida, de acordo com o que diz a Bíblia (...) Quando pagamos o dízimo a Deus, Ele fica na obrigação (porque prometeu) de cumprir a Sua Palavra, repreendendo os espíritos devoradores (...) Quem é que tem o direito de provar a Deus, de cobrar d’Ele aquilo que prometeu? O dizimista! (...) Conhecemos muitos homens famosos que provaram a Deus no respeito ao dízimo e se transformaram em grandes milionários, como o Sr. Colgate, o Sr. Ford e o Sr. Caterpilar”.[5]

E acrescenta ainda:

“Nós ensinamos as pessoas a cobrar a Deus aquilo que está escrito. Se Ele não responder, a pessoa tem de exigir, bater o pé, dizer ‘tou aqui, tou precisando”.[6]

Entendemos através destas declarações do fundador da IURD, que o homem, um ser miserável e pecador, que só pode tornar-se algo melhor que isto quando a misericordiosa graça do Senhor o encontra e muda a sua natureza, se vê no direito de olhar para Deus, encostá-lo contra a parede e “exigir” que Ele cumpra com o prometido. Deus, preso na própria armadilha das suas promessas, não encontra outra saída senão atender o dizimista, porque ele quer porque quer. Mas que promessas são estas que a Bíblia fala?
Ao estudarmos 2 Coríntios 9:7, vemos que existe uma grande diferença entre aquilo que Deus exigia no Antigo Testamento por meio da lei mosaica e aquilo que Ele espera de nós no Novo Testamento, através da sua maravilhosa Graça. Não somente as leis de Deus devem ser tomadas dentro do seu contexto histórico, religioso e circunstancial, mas também as suas promessas. Nem todas as promessas da Bíblia são para os dias de hoje. Um exemplo claro está em Deuteronômio 28:1-14. Deus não tem para nós uma terra que emana leite e mel, mas a sua promessa para o seu povo na Nova Aliança é uma pátria celestial (Fp 3:20). As bênçãos de prosperidade prometidas aos judeus não são as mesmas prometidas aos cristãos. Se estas coisas não forem levadas em conta, estaremos cobrando de Deus aquilo que Ele prometeu apenas a um povo, num tempo específico e num contexto histórico.
Não podemos generalizar, afirmando que absolutamente todas as promessas da Bíblia são para o nosso contexto. É claro que mesmo no Antigo Testamento existem promessas para nós hoje, como as conseqüências da obediência, do amor à Palavra, da confiança em Deus, da esperança em Cristo. Mas a grande maioria das promessas bíblicas era apenas sombra daquilo que a veria de vir e já veio: Jesus Cristo. Todavia, muitas promessas referentes a Cristo ainda estão para se cumprir, como Isaías 53:4, que se cumprirá quando Jesus vier em glória buscar os seus e levá-los para um lugar onde este versículo se tornará realidade e não a verá mais dores nem enfermidades, embora podemos crer que estas coisas dizem respeito ao pecado que Ele pagou por nós na cruz (cf. Ap 21:1-4).


A dura realidade

As grandiosas promessas de bênçãos proferidas pelos pastores da Teologia da Prosperidade nem sempre aparecem como os seus fiéis esperam. Na verdade, nesta sociedade, apenas os intermediários entre os dízimos dos fiéis e Deus – os líderes dessas igrejas – é que saem lucrando, tendo os seus bolsos e as suas contas bancárias engordando a custa das contribuições que são feitas. O crente simples, aquele que não ocupa nenhum cargo eclesiástico e está ali simplesmente porque lhe disseram que todos os seus problemas estariam resolvidos e ele iria enriquecer, dificilmente vê os frutos do seu investimento aparecerem. Ele amarga prejuízos e mais prejuízos, tendo vendido os seus bens e as suas propriedades, esvaziado a sua poupança, feito empréstimos a juros muito altos, entrado no cheque-especial. A bênção desejada não vem e ele ainda tem de ouvir do pastor: “A sua fé é muito pequena, por isso você não ganhou nada. Precisa dar mais.” Ou: “Você está com um encosto e é ele quem está te impedindo de prosperar”.
            A revista Veja, que em 19 de abril de 2009 publicou uma matéria denunciando a roubalheira dentro da IURD, mostrando a acusação do Ministério Público de São Paulo contra Edir Macedo e mais nove integrantes da igreja Universal pelo uso do dinheiro de doações dos seus fiéis para fazer negócios e engordar o próprio patrimônio, trouxe o testemunho de algumas pessoas que foram iludidas pelo discurso triunfalista desta Igreja, vindo a perder tudo. Destacamos dois:

“Em 2007, eu estava em dificuldades financeiras e pedi aconselhamento a um pastor da Universal. Ele disse que minha vida só melhoraria se eu doasse dinheiro à igreja. Contei a ele que meu marido estava com 2800 reais guardados em casa, pois havia vendido um carro. O pastor disse que era pouco e perguntou se eu não conseguiria mais. Respondi que havia também 400 reais separados para o aluguel. Ele pediu que eu inteirasse 3000 reais e levasse à igreja na mesma hora. Fiz o que ele mandou. Quando meu marido descobriu, ficou muito bravo. No dia seguinte, fomos ao templo pedir ao pastor para devolver o dinheiro. Ele disse que era impossível, falou que eu estava com um encosto e ainda mandou meu marido fazer um BO contra mim por furto. Hoje me arrependo de ter caído naquela conversa.” (Simone Vitório, 31 anos).
“Fiquei muito decepcionada com a Igreja Universal. Dei tudo o que podia em busca de uma vida mais feliz. Lá, me diziam que a fé se mede com dinheiro – quem tem mais fé doa mais à igreja. Quem tem fé pequena doa pouco. Numa das campanhas da Fogueira Santa, quando os fiéis dão o que podem e o que não podem, fiz um esforço enorme. Vendi uma chácara que eu tinha e dei tudo para a igreja. Também entreguei meus salários, 13º, férias, vale-transporte e tíquete-refeição. Pegava empréstimos em bancos para dar aos bispos. Eu só queria levar uma vida normal, curar minha depressão, casar, ter filhos. Fiz de tudo, mas nada aconteceu. O que restou foi tristeza e angústia. E muitas dívida também.” (Edson Luis de Melo, 45 anos).

Testemunhos como esses publicados em uma revista de alcance nacional somam-se a milhares de outros que envolvem pessoas decepcionados com a igreja e com Deus, porque lhes foi prometido algo que no fim não receberam. Disseram que bastava apenas dar tudo o que tinham e Deus lhes faria enriquecer, resolveria todos os seus problemas físicos, emocionais e profissionais e nada aconteceu, a não ser para a pior. Com certeza algo muito bom aconteceu com aquele pastor que recebeu e embolsou os 3000 reais da fiel: as cifras da sua conta bancária se multiplicaram. Essa é a verdadeira prosperidade escondida detrás do dízimo: a prosperidade dos charlatães que diariamente enganam o povo simples e desinformado, e muitas pessoas abastadas e cultas.
Entretanto, as conseqüências são ainda piores. A maioria das pessoas que se decepciona com a Igreja por qualquer coisa ruim que tenha lhes acontecido – e isto não acontece somente nas igrejas da prosperidade – não saem decepcionadas apenas com a denominação, com o pastor, com os irmãos, mas com a igreja enquanto criação divina, corpo de Cristo, e com o próprio Deus. Muitas pessoas desejam jamais voltarão a freqüentar uma igreja porque sofreram nas mãos de líderes inescrupulosos e se sentiram lesadas em sua moral e seus bens financeiros. O testemunho que levam para o mundo é que a Igreja é uma empresa, um antro de ladrões, um foco de toda sorte de problemas. Quem quer participar disto além de pessoas interesseiras? As essas que se submetem para verem as suas necessidades e ambições satisfeitas.
            Por fim, quem sai prejudicado é o testemunho do Evangelho, da verdadeira pregação que não envolve dízimos exorbitantes, mas a oferta voluntária, o sacrifício da própria vida a Deus, como veremos posteriormente. As igrejas sérias, que vivem piedosamente o Evangelho da Graça de Cristo, acabam sendo vitimadas por essas igrejas da prosperidade, que tratam a relação entre homem e Deus como um negócio comercial, onde cada sócio faz a sua parte e investe para que os frutos cheguem rápido. As pessoas acabam julgando todas as igrejas pelos atos escusos de muitas pseudo-igrejas que mercadejam a Palavra de Deus sem qualquer pudor, temor ou tremor.
            Aquelas igrejas que não estão ligadas ao esquema da Teologia da Prosperidade não podem ser enquadradas nessas observações ao cobrarem o dízimo, mas ainda assim pecam por cobrar o dízimo, mesmo com o discurso mais ameno. Acabando de vez com a cobrança indevida do dízimo e mudando o discurso teológico da contribuição financeira à Igreja, muitos excessos serão extintos e lobos em peles de pastores não terão mais base alguma para continuar agindo.



[1] Diálogo entre Edir Macedo e seus obreiros, transcrito no livro Ou dá o dizimo ou desce ao inferno, p. 17 e 18.
[2] Neopentecostais, sociologia do novo pentecostalismo no Brasil, p. 161
[3] Idem, p. 161.
[4] MARIANO, Ricardo, op. Cit., p. 167 e 168.
[5] MARIANO, Ricardo, op. Cit,. P. 162.
[6] Idem.




sábado, 23 de março de 2013

Igreja: ONG ou mensageira da cruz de Cristo?





obs: texto revisado


            A primeira homilia realizada pelo novo líder da Igreja católica romana, o papa Francisco, é um chamado aos fiéis à proclamação da mensagem da cruz de Cristo. Ele afirmou: "Nós podemos caminhar como queremos, podemos construir muitas coisas, mas, se não confessamos Jesus Cristo, algo está errado. Tornamo-nos uma ONG piedosa, mas não a Igreja, a esposa do Senhor". Essa declaração é pertinente, uma vez que nos lembra que a caridade faz parte do credo da maioria das religiões, mesmo as politeístas que negam um único Deus e a divindade de Cristo. Crer no Senhor envolve atitudes coerentes que se demonstram primeiramente num compromisso de vida com o seu Evangelho. O papa Francisco afirmou que é necessário "andar sempre na presença do Senhor, tentando viver de forma irrepreensível".
            Francisco afirmou ainda: "Eu gostaria que todos nós, depois desses dias de graça, tivéssemos a coragem de caminhar na presença do Senhor, com a Cruz do Senhor, de construir a Igreja no sangue do Senhor, derramado na Cruz, e confessar a única glória, Jesus Crucificado". Essa é uma declaração da verdadeira vocação cristã: servir ao Senhor da glória, o nosso único e verdadeiro Deus. Esquecendo-se de Jesus e dando ênfase apenas à nossa capacidade de construir igrejas, de socorrer os necessitados, de buscar revoluções sociais, não estamos vivendo o real cristianismo. O papa também disse: "Quando caminhamos sem a cruz, quando edificamos sem a cruz e quando confessamos um Cristo sem a cruz, não somos discípulos do Senhor, somos mundanos, somos bispos, sacerdotes, cardeais, papas, mas não discípulos do Senhor".
            Não se pode negar que existem coisas dentro da própria igreja que afastam os crentes da cruz de Cristo. Especialmente nesta época em que a Teologia da Prosperidade tem-se firmado como crença predileta dos novos crentes, o que temos visto é um afastamento contínuo da verdade bíblica e da simplicidade da mensagem do Evangelho da salvação. Por outro lado, excetuando-se a pregação mesquinha dos apóstolos da prosperidade, até mesmo as obras de misericórdia da igreja devem ser revistas. Para onde eles estão apontando? Quem está em evidência todas as vezes que a igreja do Senhor pratica o bem ao próximo? Quais as suas motivações? Em que isso tem contribuído para atrair as pessoas à Jesus? As afirmações de Francisco são pertinentes e merecem ser debatidas por toda a cristandade.
            Os miseráveis e os oprimidos do mundo necessitam da atenção e do nosso amor solidário. Como cristãos que pregam a justiça, temos o dever ético e moral de estender a mão àqueles que necessitam de cuidados. É o amor prático, essa capacidade de nos doar por pessoas que sequer conhecemos que nos identifica como filhos Deus e discípulos de Cristo. A mensagem da cruz é uma mensagem integral, que revela o amor de Deus pelo pecador e lhe fornece o caminho da salvação, mas é, também, é um apelo à prática das boas obras, à luta política e humanitária pelos pobres e oprimidos do planeta. Todavia, embora a igreja católica latino-americana tenha feito uma opção pelos pobres como legitimidade do evangelho, a mensagem da cruz é um apelo à adesão a Cristo por meio da fé na sua obra expiatória, e isto envolve pessoas de todas as classes, etnias e nacionalidades. A cruz nos mostra que muito mais que pão para saciar a fome, teto para se abrigar, roupas para se vestir, escolas para se educar, hospitais para se cuidar, saneamento básico para viver sem doenças e trabalho para ter dignidade e acesso aos bens materiais, o mundo necessita de salvação. Desta forma, pobres e ricos são a opção de Deus, porque todos fazem parte de um mesmo grupo de seres condenados e carentes de salvação.
             Como despenseira das multiformes graças de Deus, a Igreja organizar campanhas de arrecadação de alimentos para doar a ONGs que atendem a desabrigados e moradores de rua. Ela pode organizar passeatas, abaixo-assinados e mobilizar a opinião pública contra a opressão às minorias e conseguir que o Congresso Nacional aprove leis mais justas. Pode também investir em cursos profissionalizantes para quem não tem condições de pagá-los, em estrutura médica e em toda sorte de aparato para devolver a dignidade ao pobre e libertar o oprimido, como a própria Bíblia nos ordena. Porém, ainda assim ele pode morrer sem jamais ter aceitado a Jesus. Se isto acontecer, a vontade de Deus não se cumpriu em sua vida, pois a vontade de Deus é que nenhum se perca, mas que todos cheguem ao arrependimento. O Evangelho Integral nos chama para um compromisso social com o mundo, mas é preciso entender que a salvação que o mundo precisa é pela fé, e nisso estão os muito pobres e os muito ricos.
Isto nos chama a uma nova prática evangelística: o evangelho que liberta o espírito e repara as feridas do corpo. Esta é a razão de existir da missão cristã: libertar e salvar vidas integralmente. O corpo sem pão perece hoje, a alma sem Jesus perece eternamente. A Missão Integral precisa exalar o perfume de Cristo, o poder da cruz para não se tornar apenas mais uma organização que faz o bem social. A nossa motivação precisa ser a glória do Senhor. Como bem afirmou o papa Francisco, a Igreja do Senhor não pode ser uma ONG, um grande celeiro de caridade que deseja libertar o oprimido, sem contudo levá-lo ao conhecimento de Jesus. Caridade sem Jesus é caridade mundana. A mensagem que a Igreja precisa propagar através das suas ações sociais é de existe um Deus de amor e caridade, mas que também é justiça e juízo. Embora a ação social possa criar simpatizantes do Evangelho e um exército de assistidos gratos a Deus pelas obras de misericórdia da Igreja, não gera a salvação da alma, com exceções, é claro. A Igreja pode até conquistar a simpatia da população e da mídia, mas não produz verdadeiros discípulos de Jesus.
Eis a grande dificuldade em equacionar pregação da salvação e responsabilidade social. A resposta foi dada e resume-se no fato de que Deus ama a humanidade integralmente. Ele mesmo criou o homem “alma vivendo”, num corpo que criou do pó da terra e que dotou de sentidos, de necessidades físicas, psicológicas, cognitivas, sociais e espirituais. Não existe mistério algum na Missão Integral. Como salvos permanecemos num corpo corruptível e carecemos de atenção integral. Essa mesma atenção devemos direcioná-la para os perdidos. Muitos se converterão e serão salvos, outros apenas serão salvos de suas misérias sociais, mas o bem foi feito, a Palavra foi pregada de forma prática. Importa que o Reino seja mostrado, que a cruz de Cristo seja pregada e que toda ação da Igreja tenha como fim primeiro e único a glorificação do Nome de Deus. Quem crê será salvo e aqueles que não crerem, que apenas se satisfizerem com o pão, sairão ainda vazios e com a alma por ser saciada.
O verdadeiro discípulo de Jesus não está entre aqueles que comeram os pães e os peixes multiplicados, mas entre os que, independente da comida que receberam e dos milagres que presenciaram, permanecem ao lado do Senhor por entender que só Ele tem as palavras de vida eterna. Todos estão perdidos e necessitam de Cristo. É Cristo o diferencial das obras evangélicas para as obras das outras crenças, igualmente caridosas, como o espiritismo. São crenças que investem em toda sorte de ações sociais em prol dos pobres da sociedade, algumas vezes de maneira assistencialista, outras como ações para reintegrá-los à comunidade e garantir seus direitos. Não é necessário crer em Cristo para ser caridoso, mas é necessário crer nele para se salvar e para apresentar a salvação além do corpo. Somente a fé em Cristo salva. A partir da salvação, as obras de misericórdia encontram a sua legitimidade, dignificam o crente como despenseiro das multiformes graças de Deus e fornecem o testemunho vivo da Igreja que demonstra na prática o amor que prega nos púlpitos, nas praças e nas casas. Uma das bandeiras levantadas pelos ateus é a de que não é necessário crer em Deus para fazer boas obras. Deus é inútil para eles, acima de tudo quando observam o péssimo exemplo de muitos crentes e denominações.
Uma das críticas à Missão Integral é que a igreja deve se preocupar apenas com a pregação verbal do Evangelho para a salvação. De fato, todo cristão deve ter uma prática de vida coerente com a fé que professa. Embora isso seja necessário como testemunho diante do mundo do nosso compromisso com o Reino de Deus, a fé na vida dos outros vem pelo ouvir a pregação da Palavra, não apenas o observar das nossas obras. Esta Palavra ouvida e confirmada pode ser recebida com fé e produzir salvação (cf. Hb 2:1-4), ou pode não significar nada para aqueles que a escutaram (cf. Hb 4:1,2). Embora haja resistência à verdade salvadora da cruz, a pregação é necessária para que haja fé. É o que o apóstolo Paulo esclarece na sua epístola aos romanos (10:13-17):

Porque: Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo. Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão, se não forem enviados? Como está escrito: Quão formosos são os pés dos que anunciam coisas boas! Mas nem todos obedeceram ao evangelho; pois diz Isaías: Senhor, quem acreditou na nossa pregação? E, assim, a fé vem pela pregação, e a pregação, pela palavra de Cristo.

            Observar o nosso procedimento cristão, receber as obras de misericórdia que praticamos e até mesmo ouvir a Palavra de Deus não é garantia que alguém se converta. Deus sabe os que são seus e o Espírito Santo é quem convence o homem do pecado, da justiça e do juízo (Jo 16:8). Como discípulos de Jesus, a nossa missão é apresentar a mensagem da cruz, o Evangelho da salvação, tanto de forma verbal quanto através da prática desse Evangelho. Não a mensagem que as pessoas esperam ouvir de um Deus que é dono do ouro e da prata e que encherá as contas bancárias dos seus filhos de dinheiro e suas vidas de alegria plena e saúde total. Não a mensagem triunfalista que insiste em afirmar que crente não sofre e transforma a fé em moeda de barganha. A fé que o mundo precisa é a do Cristo que morreu pelos nossos pecados, porque nascemos sob condenação e sem Ele nosso destino é o inferno. Longe de ser uma pregação de condenação, essa é uma mensagem sobre o amor e a misericórdia de Deus para conosco, seres imerecedores do seu amor e da sua sublime graça.
            Sobre o nosso procedimento diante das pessoas que jazem no mundo, a Bíblia nos apresenta duas descrições. A primeira diz que os discípulos de Jesus são o sal e a luz do mundo, demonstrando a sua influência e a sua responsabilidade (Mt 5:13-16). O sal deve acrescentar sabor e a luz deve brilhar para que as trevas sejam dissipadas. Diante deste testemunho vivo e coerente do crente com a sua natureza santa, o mundo é obrigado a glorificar a Deus: “Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (v. 16). Investir no social e acrescentar sabor à vida de pessoas desesperadas e desamparadas, além de aliviar a sua dor, leva-as a dar glória a Deus por nosso intermédio. Mesmo sem reconhecerem a Jesus como Senhor e Salvador, elas olham para as obras da Igreja e dão glórias a Deus, mesmo que jamais frequentem um culto ou a escola bíblica dominical, mesmo que nunca pousem seus olhos sobre a Bíblia para lê-la e aprender dela.
            A segunda descrição, relatada em 2 Pe 2:11,12, diz respeito às injúrias que estavam sendo lançadas sobre os cristãos nos primeiros séculos, como crimes e imoralidades. O chamado do apóstolo é para que aqueles irmãos vivam uma vida santa e irrepreensível, mantendo um procedimento exemplar naquilo em que estavam sendo acusados. Observando as boas obras daqueles irmãos, os gentios glorificariam a Deus no dia da visitação (v. 12). O apóstolo Pedro chama-os a uma fé prática compatível com o seu caráter santo como forma de testemunhar de Cristo: “Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos” (v. 16; cf. Tt 2:8). Novamente vemos que o testemunho da fé evangélica, do procedimento santo daquele que se confessa discípulo de Jesus, leva os descrentes a glorificarem a Deus. Em momento algum, porém, Paulo ou Pedro afirmam que essas pessoas foram salvas, que elas fizeram uma opção por Cristo por meio do testemunho da Igreja.
            Por outro lado, as obras são importantes e são o atestado da nossa fé. Independente se os infiéis aceitarão ou não a Cristo, somos salvos e chamados para as boas obras (Ef 2:8-10). É através da prática das boas obras que demonstramos nosso compromisso com aquilo que cremos. Embora as obras não salvem ninguém, mas apenas a fé na obra salvítica de Cristo, elas confirmam que servimos ao Senhor e que estamos vivos, alicerçados sobre fundamento sólido e seguro. A fé sem obras, de acordo com Tiago, por si só é morta (Tg 2:14-26). Algo morto é algo que não possui vida, que existe, mas não pode produzir nada porque está inanimado. Se por um lado não é certo que as pessoas se converterão ao contemplar nossas obras caridosas, por outro lado é muito pouco provável que elas aceitarão uma mensagem que não produz transformação e atitude na vida dos seus próprios promulgadores, uma mensagem incapaz de sensibilizá-los diante das misérias do ser humano. Daí surgem as críticas contra a Igreja do Senhor, com crentes “sentados, salvos e satisfeitos”; sal que não salga, luz que não ilumina.
            Não é esta a pregação da cruz de Cristo (cf. 1 Co 2:1-2). Ela não é nem fundamentada nas obras de caridade nem é isenta delas. A centralidade da cruz é Jesus Cristo e este ressuscitado. Os apóstolos não apresentam Jesus como o Cristo pendurado no madeiro apenas, mas procuram enfatizar a sua vitória sobre a morte, ressuscitando dentre os mortos. Se olharmos as mensagens no livro de Atos, veremos que elas giram em torno do Jesus ressuscitado (cf. 2:24,32; 3:15,26; 4:10; 5:30; 10:40; 13:30; 17:31). Outros ensinos das epístolas também corroboram com a mensagem triunfal de Jesus (cf. Rm 1:14; 4:25; 6:9; 8:34; 1 Co 6:14; cap. 15; Ef 1:20; 2:6; Cl 2:12; 3:1; 2 Tm 2:8; 1 Pe 3:21). É esta a mensagem que o mundo necessita ouvir: Cristo ressuscitou! Ele vive eternamente e em breve virá buscar os que são seus, dando-lhes a vida eterna para sempre nos céus. É uma mensagem escatológica e ao mesmo tempo atual e transformadora, porque resgata o pecador do império das trevas e torna-o filho de Deus. A cruz transforma a vida, muda o caráter, santifica, justifica, purifica. Mas a cruz também promove o desejo de justiça, a solidariedade, o compromisso responsável por aqueles que padecem de opressão neste mundo caído.
            Os sinais que Jesus fazia (curas e milagres), o perdão aos pecadores, a proclamação da boa nova do Reino dos céus, não eram um fim em si mesmo. Todas estas coisas eram sinais do Reino de Deus, sua presença atual (na época de Jesus e na nossa) e vindoura (a parousia). Todos eles eram acompanhados da mensagem de Cristo: arrependimento e conversão para a vida eterna; obediência a Deus e fé na sua Palavra. O próprio Senhor Jesus enxergava na multidão ávida por caridade, pessoas que de modo algum criam nele e nos seus sinais, mas agiam motivadas por seu próprio interesse: “Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes os sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que prece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo” (Jo 6:26,27).
Jesus os chama a irem além de seus desejos mundanos, de suas preocupações mesquinhas. Muito mais que pão para saciar a fome do corpo, as pessoas precisam de Jesus para saciar a fome da alma. Por isso o papel da Igreja se torna ainda mais importante. As empresas e as estrelas hollywoodianas investem pesado em ações sociais no cuidado com o pobre, com os desabrigados, com os esfomeados, com os despossuídos, com os indígenas, com as marginalizados. Comparada com eles, a Igreja tem feito muito pouco e a grande maioria das denominações, nada. Mas quando a Igreja age, quando ela intervém, quando ela se importa, quando ela se propõe a mudar a sociedade, deve fazê-lo no poder de Jesus Cristo, seguindo a orientação do Espírito Santo e para a glória de Deus. A Igreja não é uma ONG, não é mais um órgão secular preocupado com o bem-estar das pessoas: ela é o corpo de Cristo preocupado com o bem-estar das pessoas.
Os sinais da igreja precisam ser sinais de salvação da alma, sem deixar de se importar com a libertação do corpo. Isto significa não desprezar o valor das obras sociais da Igreja e afirmar que elas são necessárias. Mas a Igreja não pode fugir à sua missão de conduzir as pessoas à fé para a salvação. Esta é a essência da Grande Comissão. Que sinais a Igreja tem mostrado no mundo para apresentar a presença viva do Reino de Deus? Tais sinais são verdadeiramente frutos da mensagem da cruz e da transformação causada por ela na vida dos cristãos? Ou eles fazem apenas propaganda das igrejas e dos pastores? Não basta a caridade, é preciso viver a cruz, apontar para a cruz. Como já dissemos, mesmo aqueles que se declaram ateus podem praticar obras de caridade, distribuir cestas básicas, visitar campos de refugiados, criar campanhas de arrecadação de donativos para vítimas de catástrofes naturais, fazer doações em dinheiro para ONGs seculares que ajudam os necessitados e oprimidos.
            O mundo produz caridade, mas não tem a autoridade e a comissão dadas aos cristãos de pregar o Evangelho. Eles matam a fome do pobre, ensinam os miseráveis a batalhar pelo pão de cada dia, mas não são capazes de indicar-lhes o caminho que pode lhes dar a verdadeira vida em abundância nos céus. Eles ajudam os pobres a se tornarem empreendedores de sua própria libertação social, mas continuarão perdidos e sem Cristo no mundo. Somente a Igreja de Cristo pode oferecer a libertação integral. Então não basta a caridade, é preciso apontar para a cruz, viver plenamente a cruz em cada passo que a Igreja dá. Precisamos lembrar porque que os discípulos não abandonaram Jesus quando todos já tinham ido embora. É o apóstolo Pedro quem nos faz recordar: “Senhor, para quem iremos nós? Tu tens as palavras de vida eterna. E nós temos crido e conhecido que tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo” (Jo 6:68,69). A obra de Deus é que creiamos naquele que Ele enviou: o Senhor Jesus Cristo (v. 29).
            Transformar a Igreja numa ONG é ir na contramão da verdade bíblica, mas negar a realidade da Responsabilidade Social cristã presente na Missão Integral é um erro ainda maior. O próprio Senhor Jesus operou milagres, multiplicou pães, ressuscitou mortos, e ainda assim muitos, talvez a grande maioria, não creram nele, “Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder se serem feitos filhos de Deus, a saber: aos que creem no seu nome” (Jo 1:12). Levar ao mundo a Palavra viva de Deus é o chamado da Igreja. Esta Palavra deve refletir nosso caráter cristão, deve fazer sentido através da prática das boas obras. Ela precisa ser pregada com a vida e com o exemplo, com a prática do amor abnegado e incondicional pelas almas perdidas, pelos oprimidos do mundo. Ela precisa ser verbalizada, pregada. As igrejas neopentecostais e sua Teologia triunfalista da prosperidade têm levado muitas pessoas a crer nas bênçãos de Deus, nos seus direitos aos tesouros dos cofres celestiais, no poder do Nome de Jesus, na conquista de empregos e empreendimentos, mas não tem mostrado o sangue derramado na cruz do calvário pelo perdão dos nossos pecados.
            A Igreja do Senhor é chamada a fazer diferença no mundo, o que significa ser diferente dele. O mundo, embora caído e opressor, tem erguido frentes de batalha contra a opressão, as ditaduras, o capitalismo selvagem, o preconceito e a discriminação; tem aberto sua mente e coração para a liberdade, a igualdade e a fraternidade. A intolerância tem sido combatida, os corruptos têm sido presos, a justiça social tem sido pregada. Nisto tudo podemos enxergar o mover de Deus, a sua graça comum trabalhando no mundo para diminuir um pouco do sofrimento humano. Mas a Igreja é portadora da solução verdadeira, da chave para uma vida plena que Deus entregou nas suas mãos a pregação do Evangelho Integral. Eis o nosso diferencial, a nossa missão, a nossa razão de existir. Ou pregamos a integralidade da cruz de Cristo, ou já não somos Igreja. Somos uma ONG, mas jamais a verdadeira Igreja do Senhor.

LIDERANDO OS PROBLEMAS - sobre liderança cristã



Por quê?

         As circunstâncias normalmente vêm travestidas de problemas. Para ter problemas, basta-nos estar vivos. Jesus enfrentou muitos problemas durante o seu ministério, como incompreensão, perseguição e a falta de fé de seus discípulos. Ele teve de passar pela experiência do deserto, foi traído por Judas e até mesmo Pedro o negou depois de sua declaração de que jamais o abandonaria. Paulo também passou por inúmeros problemas em seu ministério, mas isso não o impediu de se tornar o maior missionário que se tem conhecimento na História do cristianismo. O problema dos pregos perfurando a sua carne não representou obstáculo ao sacrifício de Cristo.
         Quando os problemas surgem, temos a tendência de nos desesperar e fazer de tudo para nos livrar deles. A nossa primeira pergunta é: “Por quê?”. Mas essa pergunta não é feita no sentido de tentar compreender a lição que o problema pode estar querendo nos passar, mas reflete a nossa indignação e a nossa insatisfação diante daquilo que estamos vivendo. Por não encontrar uma explicação que nos satisfaça, ou por não querer reconhecer que o motivo do problema pode estar em nós mesmos, tendemos a erguer as nossas mãos para os céus e gritar: “Meu Deus, o que foi que eu fiz para merecer isso?”.
         Sempre que algo sai errado conosco, sempre que a desgraça bate a nossa porta – a perda repentina do emprego, a morte inesperada de um parente, uma doença incurável, etc. – tendemos a colocar sobre Deus a culpa. Foi isso que aconteceu com os discípulos de Jesus. Estando em Jerusalém, eles se depararam com um cego de nascença. A sua pergunta para Jesus foi: “Mestre, quem pecou, este ou sés pais, para que nascesse cego?” (João 9:2,3). Da mesma forma, quando nos encontramos em aperto, estamos sempre questionando o agir de Deus na nossa vida, culpando-o pelas nossas crises.
         Todavia, os problemas não fazem parte de um plano maquiavélico de Deus para nos punir pelos nossos pecados. Se nós estamos sofrendo por causa do pecado, este sofrimento é apenas uma consequência natural do nosso erro. A Palavra de Deus nos exorta a não sofrer por fazer aquilo que é errado (1 Pedro 4:15). Portanto, Deus jamais será o culpado pelos nossos erros.
         Ao perguntarmos “Por quê?”, a nossa motivação deve ser a de compreender as causas que nos levam a sofrer para que possamos buscar as melhores soluções, mesmo que a causa sejamos nós mesmos. Mas pode ser que os nossos problemas não estejam acontecendo como uma consequência de algo, mas com um propósito de Deus.


Para quê?

Antes de acusar a Deus e nos perguntar “por quê?”, deveríamos nos perguntar: “Para quê?” O que poderemos ganhar com essa situação? Que lição que este problema poderá nos trazer para nos tornar mais fortes e mais maduros? E foi justamente essa a proposição de Jesus à pergunta dos discípulos: “Nem ele pecou, nem seus pais; mas foi para que se manifestem nele as obras de Deus.” (João 9:3). Enquanto os discípulos enxergavam naquele problema uma punição divina, Jesus encontrou ali uma oportunidade para Deus ser glorificado.
Quantos de nós conseguimos enxergar nos nossos problemas, mesmo os mais atordoantes, uma oportunidade para que as obras do Senhor se manifestem na nossa vida? A teologia da prosperidade nos ensina que somos vencedores à medida que somos abençoados financeiramente; que somos amados e cuidados por Deus à medida que nossos negócios prosperam; que estamos na graça à medida que temos rios de bênçãos para contar de casamentos perfeitos e relacionamentos impecáveis. Se por acaso algo vai mal, ou se por ventura adoecemos, a culpa é do nosso pecado, nossa falta de fé e do maligno, o “devorador de bênçãos”.
O motivo do nosso sofrimento pode ser algo que Deus deseja nos ensinar. Mas nós só enxergamos a glória de Deus brilhando na nossa vida quando tudo vai bem. Mas quando simplesmente tentamos nos livrar dos nossos problemas, estamos jogando fora preciosas chances de aprendizado e crescimento. Ao invés disso, deveríamos quebrar com tudo aquilo que nos impede de enfrentar os nossos problemas e vencê-los: o comodismo, a tradição, a nossa visão míope da realidade, nossos valores errados, nossas “muletas” espirituais e psicológicas.
Como Jesus foi aperfeiçoado? Como Ele aprendeu a obediência? A resposta é apenas uma: “... embora sendo Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu e, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem.” (Hebreus 5:8,9). Quando enxergamos os nossos problemas como parte de um propósito maior de Deus para nós, podemos estar seguros dos inúmeros e eternos benefícios que eles nos trarão. A cura do cego de nascença nos mostra que Deus tem coisas para nós superiores às nossas próprias expectativas. Ele quer mostrar algo além da nossa compreensão e que a nossa visão limitada nos impede de vislumbrar.


A construção do caráter

         Está claro nas Escrituras que um dos maiores propósitos do sofrimento é aperfeiçoar o nosso caráter. Palavras como crescimento, amadurecimento, santificação, perfeição andam de mãos dadas com provação, tentação, tribulação, apuração. É impossível extrair beleza e brilho de um diamante bruto sem que ele passe pelo duro processo de lapidação. Da mesma forma, o ouro que é encontrado na natureza, só irá reluzir após passar pelo fogo. Deus deseja tirar o melhor de nós, e para isso precisa nos limpar de nossas impurezas, nos lapidar e apurar.
         Os nossos problemas podem ser encarados como um contrapeso ao nosso caráter imperfeito, destinando-se a nos tornar novamente à imagem e semelhança de Deus. Paulo passou por essa experiência de contrapeso quando teve a oportunidade de ser arrebatado ao mais alto céu. Aquela experiência poderia representar para ele motivo de orgulho, de modo que ele viesse a se gabar de tudo que viu e ouviu. Mas Deus providenciou um contrapeso, um espinho na carne, mensageiro de Satanás para colocá-lo em seu devido lugar e barrar a sua soberba (2 Coríntios 12:1-10).
          As nossas limitações são colocadas por Deus para que não ultrapassemos os seus limites. Mas existem aquelas limitações que nós mesmos nos impomos, pelo nosso pecado e nossa falta de fé. Quando limitamos a nós mesmos, estamos impedindo o mover de Deus em nós. Mas quando ultrapassamos aqueles limites impostos por Ele, incorremos no mesmo erro de Adão e Eva. Se não aceitamos que os problemas são parte natural da maturidade cristã, jamais poderemos crescer, jamais poderemos aceitar a correção de Deus.
         Olhando para a situação de Paulo, podemos meditar sobre a frase que muitos cristãos amam repetir: “Deus tem um plano na minha vida”. Mas quantos admitem que esse plano pode envolver passar pelo sofrimento? O espinho da carne de Paulo não foi conseqüência de pecado, mas algo planejado por Deus. Deus tinha um plano na vida dele e esse espinho fazia parte desse plano. Pode ser que os planos de Deus para nós envolvam disciplina, quebra de barreiras emocionais, arrependimento, restauração, e tudo isso envolve sacrifício, envolve luta, envolve abrir mão de muitas coisas que amamos e valorizamos. Isso traz sofrimento.
A nossa fé ingênua nos leva a crer que o simples fato de termos o Espírito Santo e confiar na sua poderosa ação já nos garante uma vida vitoriosa, sem sofrimento, sem pecado. Mas Deus quer ver a nossa parte, os nossos esforços. Lucas deixa claro que entrar pela porta certa requer esforço da nossa parte (Lucas 13:24). Porém, a porta larga não requer esforço algum, basta apenas entrar, pois o seu caminho é espaçoso. Na porta estreita não podemos entrar carregando o fardo do nosso pecado, na porta larga, sim. Mas esta porta tão espaçosa nos conduz à perdição! Muitos crentes estão errando de porta.
Com certeza Deus tinha planos maravilhosos na vida de todos os seus discípulos, a começar por Estêvão. Viveu Estevão regaladamente, usufruindo dos maravilhosos planos de Deus? Podemos conferir a resposta em Atos 7:54-60. Estêvão, que esperava em Deus, contemplou a Sua glória antes de morrer. E o que Judas, que buscava apenas os seus próprios interesses, contemplou antes de morrer senão a sua própria derrota? O caráter dos líderes de Deus é forjado no fogo da batalha. Quem passa pela prova, recebe o galardão; mas aquele que nem pensa em enfrentar o fogo, recebe a derrota e a vergonha.


Enfrentando os leões

         Assim como Estêvão, a grande maioria dos discípulos de Jesus sofreu todo tipo de perseguição e martírio: Pedro, Barnabé, Paulo, Silas e tantos outros milhares após eles tiveram de enfrentar muitas dores por causa do Evangelho. Ainda hoje muitos missionários estão sendo ferozmente assassinados nos países comunistas e de religião islâmica. Mas nós, aqueles que não se arriscam tanto pela pregação da Palavra, nos incomodamos com os problemas mais simples, com a tribulação mais branda, com a adversidade mais tranquila.
         Uma história que adoramos ao falar dos nossos problemas é aquela em que Daniel foi lançado na cova dos leões e o modo assombroso como Deus o livrou (Daniel 6). “Ele livra, e salva, e faz sinais e maravilhas no céu e na terra; foi ele quem livrou a Daniel do poder dos leões”. (v. 27). Mas por que não mencionamos outros fatos referentes a história do cristianismo envolvendo essas temíveis feras? Nos primórdios da igreja, os cristãos eram perseguidos e lançados na arena do Coliseu para serem comidos pelos leões, enquanto o povo aplaudia eufórico. Mas durante o martírio eles não gritavam, não lamentavam, não murmuravam. Os relatos históricos nos contam que os cristãos lançados aos leões – tal qual Daniel – louvavam a Deus enquanto eram despedaçados pelas feras, a ponto de o imperador tapar os ouvidos para não ouvi-los cantar.
         Queremos que Deus nos livre da cova dos leões, que abra para nós o mar vermelho de nossa existência, que coloque uma coluna de fogo para nos guiar pelo deserto, que esteja conosco dentro da fornalha. Mas não queremos louvá-lo enquanto os leões nos devoram, enquanto o deserto fica cada dia mais escaldante e o fogo nos consome. “Se diante de mim não se abrir o mar, Deus vai me fazer andar por sobre as águas”, diz uma canção. Mas e se Ele não fizer? E se o desejo de Deus for que enfrentemos a fúria do mar? Será que só vamos romper em fé se nossos problemas foram logo solucionados? Em meio a dor não podemos romper em fé, mesmo que a dor jamais acabe? Se for assim, que consolo daremos a um paciente terminal de câncer?


O problema é uma realidade

         A Palavra de Deus nos dá lições sobre levar as cargas uns dos outros (Gálatas 6:2), sobre o fardo que cada uma tem de carregar (Gálatas 6:5), sobre a cruz que nos cabe tomar para seguir a Cristo (Lucas 9:23), sobre as aflições que passaremos neste mundo (João 16:33). Deus não nos ensina a nos livrar dos nossos problemas, do nosso fardo, mas a carregá-los e compartilhá-los com os dos outros. Os problemas muitas vezes nos trazem ansiedade, e é justamente isso que o Senhor quer tratar: “Humilhai-vos, portanto, sob a poderosa mão de Deus, para que ele, em tempo oportuno, vos exalte, lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós.” (1 Pedro 5:6,7), e: “Portanto, não vos inquieteis com o dia de amanhã, pois o amanhã trará os seus cuidados; basta ao dia o seu próprio mal.” (Mateus 6:34).
         Não há como negar a realidade sempre presente do fardo, da cruz e das aflições que recaem sobre nós. A maioria dos grandes homens e mulheres da história do cristianismo foi forjada na dor, na falta de tudo, no preconceito, no abandono, na incompreensão, na doença, no risco sempre iminente de morte. Se olharmos para a História de José, de Moisés, de Daniel e tantos outros personagens bíblicos confirmaremos essa verdade. A maioria das epístolas de Paulo foi escrita da prisão. Pedro escreveu o seu Apocalipse quando estava preso na ilha de Patmos. Jesus selou o destino da humanidade enquanto agonizava na cruz. Porque nós desprezaríamos o sofrimento?
         Receber os louros da vitória é prazeroso; ter a sua pessoa e o seu trabalho reconhecido trazem satisfação e motivo de orgulho. Mas nem todos querem passar pelo processo do sofrimento para conseguir isso. A maioria de nós, principalmente se estamos numa posição de liderança, quer vencer com o mínimo de luta possível, porque nos ensinaram que sofrimento é sinônimo de falta de fé, de derrota, de pecado. Então Jesus não tinha fé? Paulo foi um homem derrotado? Certo dia conversei com um irmão que realmente acreditava que o motivo da doença em um crente era a sua falta de fé.
         O líder segundo a vontade de Deus precisa viver plenamente a realidade deste versículo: “Meus irmãos, tende por motivo de toda alegria o passardes por várias provações, sabendo que a provação da vossa fé, uma vez confirmada, produz perseverança. Ora, a perseverança deve ter ação completa, para que sejais perfeitos e íntegros, em nada deficientes.” (Tiago 1:2-4). A provação da fé é que produz a perfeição, o pleno desenvolvimento. Queimar etapas, abrir mão dessa provação e impedir que ela tenha ação completa sobre a sua vida, produzirá no líder um caráter deficiente e inconsistente, muito diferente do ideal de Jesus (Gálatas 6:16; Filipenses 3:3).
         Não devemos nos esquecer do clima de perseguição em que foi escrita a primeira epístola de Pedro. Naquela época os cristãos haviam sido dispersos e eram odiados, tendo de se esconder nos túmulos para cultuar a Deus, caso contrário virariam comida dos leões para divertir os romanos. O incêndio de Roma, provocado por Nero, foi atribuído aos cristãos, o que aumentou ainda mais a perseguição. E nessa atmosfera o apóstolo Pedro escreve aos cristãos perseguidos: “ Nisso exultais, embora, no presente, por breve tempo, se necessário, sejais contristados por várias provações..”(1:6). Embora perseguidos, eles tinham a certeza de serem os eleitos de Deus santificados pelo Espírito Santo (1:2), regenerados para uma viva esperança (1:3), uma herança incorruptível nos céus (1:4). Eles eram guardados pelo poder de Deus (1:5) e isso era motivo de grande alegria, mesmo diante da tristeza da tribulação.
         Pior do que ter fardos pesados nas costas para carregar é não ter fardo algum, é viver uma vida cristã ociosa, inoperante e estagnada. A falta de problemas, de lutas e angústias pode significar falta de ação, de atitude. Nós nos acomodamos em nossa vida normal para não termos de enfrentar barreiras. Enquanto estamos quietos no nosso canto, a tendência para o sofrimento parece ser menor. Triste ilusão. Não existe arco-íris sem tempestade ou colheita sem semeadura. Só seremos consolados se chorarmos, só seremos fartos de justiça se ansiarmos por ela, só veremos o reino de Deus se formos perseguidos por causa dele (Mateus 5:1-12).


O real problema do problema

         Como já dissemos, basta estar vivo para o crente ter problemas. Todos adoramos a frase: “Deus faz chover sobre justos e injustos” (Mateus 5:45). Mas e quando essa chuva traz uma enchente que leva a casa de ambos? O problema não é ter problema, o problema não é nem mesmo o problema em si, mas a forma como lidamos com ele, a nossa reação às circunstâncias e situações difíceis que se apresentam diante de nós, ou mesmo nos rodeando por todos os lados.
         John C. Maxwell nos fala de um estudo realizada com 300 pessoas altamente qualificadas, pessoas que muitos não dariam, e não deram, nada por elas, mas que superaram os seu problemas e foram grandes empreendedores, artistas, líderes políticos e religiosos. Entre eles se destacam: Franklin Delano Roosevelt, Helen Keller, Winston Churchill, Albert Schweitzer, Mahatma Gandhi e Albert Einstein. Poderíamos acrescentar a essa lista Aleijadinho, Tiradentes e tantos outros personagens da nossa História.
Mas o que de extraordinário aconteceu na vida dessas pessoas que as levou tão alto? O segredo é que elas não se conformaram com os problemas, com as suas limitações, com as limitações que a sociedade tentava impor sobre elas. Não se sentiram frustradas ou derrotadas, não permitiram que aquelas situações determinassem as sua vidas. Elas foram maiores! O que dizer de nós que não lutamos com nossa força humana e limitada, mas no poder de Deus? O que dizer daquele que é comissionado por Deus e enviado para a sua obra? Se Deus é por nós, quem será contra nós? (Romanos 8:31).
É a forma como encaramos os nossos problemas que decidirão nossa vitória ou nossa derrota. Os problemas são aquelas pedras que podemos permitir que barrem o nosso caminho ou podemos usá-las como degraus para a nossa subida. O próprio Jesus, que é descrito como pedra pode se tornar dois tipos de pedra, dependendo de quem estiver avaliando. Ele pode ser a pedra angular para aqueles que nele creem (Mateus 21:42; Atos 4:11; Efésios 2:20; 1 Pedro 2:4), ou pedra de tropeço e rocha de escândalo para os que permanecem descrentes (Romanos 9:32; 1 Pedro 2:6-8). O próprio Evangelho, que é a solução para todos os problemas da humanidade, pode significar destruição (1 Coríntios 1:18-25). É tudo uma questão de ponto de vista.
Nossas escolhas é que determinam as nossas atitudes diante das circunstâncias problemáticas. Os problemas podem determinar o nosso curso de ação, mas não podem determinar a nossa vida. Eles devem existir por nossa causa, e não nós por causa deles. Em outras palavras, devemos controlar os problemas e não ser controlados por eles. Se permitirmos que os nossos problemas nos controlem, certamente desanimaremos; mas se controlamos o que está a nossa volta, com oração e dependendo sempre de Deus, veremos que as circunstâncias podem ser transformadas e que os problemas podem se transformar em soluções.

  
Em busca de solução

         Na busca pela solução para os problemas é preciso saber primeiro quais os problemas que requerem solução. Às vezes nos debatemos de um lado para outro, tentando resolver a nossa vida sem tentar entender ou aceitar qual o real problema que está merecendo a nossa atenção, direcionando nossos esforços para os lugares e as causas erradas.
         A conversão, por exemplo, serve para por fim a um problema: o pecado e a morte. O desejo de Deus é que todos nós nos arrependamos porque estamos destituídos da sua glória e nos convertamos para alcançarmos a salvação pela sua graça. Entretanto, muitas pessoas se convertem para resolver outros problemas: ter prosperidade profissional e financeira, não ter mais tribulações, não ficar mais doente, participar de um grupo que as ama, ficar perto de alguém que pretendem namorar. Mas conforme o tempo vai passando, elas descobrem que nada muda, o dinheiro não vem, o sucesso não aparece e a doença e a tribulação não desaparecem.
         Como poderemos implementar uma mudança na nossa vida se não sabemos o que realmente precisa ser mudado? Como encontraremos a melhor solução para os nossos problemas se não temos certeza de qual é realmente o “x” da questão? Se as pessoas estão acostumadas a se atrasar para o culto, será que a solução é começar o culto mais tarde? Certamente não, pois as pessoas passarão a chegar ainda mais tarde. Sempre que tentamos resolver os problemas superficialmente, tendemos a esconder a verdadeira realidade. O que nos motiva a isso, na verdade, é a nossa incapacidade de admitir que estamos passando por dificuldades.
Mas será que todos os problemas têm uma solução? Pode ser que sim, mas também pode ser que não. Existem problemas que são fatos da vida que precisamos aprender a conviver com eles da melhor maneira possível. Uma pessoa cega de nascença, por exemplo, pode ter um problema irreversível, isto é, terá de conviver para sempre com a sua cegueira. Existem fatos que o líder precisa aceitar, fatos que não podem ser mudados e que pedem uma nova mentalidade, uma forma de trabalhar construtiva e eficaz.
A habilidade do líder está em reconhecer os problemas quando eles surgem e solucioná-los de maneira rápida e eficaz. O líder proativo, antes de implementar a visão, cerca-se de todas as informações dos possíveis problemas que possam ocorrer em todos os níveis do ministério e da ação, antecipando a busca pelas melhores soluções. Se existe algum problema que jamais poderá ser resolvido, a sua habilidade de líder o levará a planejar as formas de implementar a visão, independente do problema.

A cooperação na identificação e na solução dos problemas

         Quando estamos adoentados, com dor de cabeça e com febre, a nossa primeira atitude é a de buscar auxílio na automedicação, abusando dos antibióticos para aliviar o nosso mal estar. Mas o que estamos fazendo é apenas aliviar os sintomas ao invés de tratar o problema principal, a doença por detrás desses sintomas.
Ouvi a história de uma menina que ninguém gostava dela porque ela chorava demais. Achavam-na muito chata e quase ninguém queria ficar com ela. Certo dia, sua mãe a estava olhando brincar quando observou que ela pegava um brinquedo e o aproximava muito dos olhos para enxergar. Ao notar isso, essa mãe levou a menina até o médico e foi constatado que ela tinha um temor no cérebro. Enquanto observavam os aspectos exteriores daquela menina, seu choro constante e irritação, todos negligenciaram o fato de que algo mais profundo poderia estar causando tudo isso.
Dessa mesma forma tendemos a agir com os nossos problemas particulares e com aqueles que aparecem no nosso ministério. Tentamos resolver os seus sintomas ao invés de focarmo-nos nas suas reais causas. Murmuramos demais e não agimos. Mas qual é o real problema? Se não conseguirmos responder a esta pergunta, estaremos nos esforçando inutilmente. Quando conseguimos definir qual o nosso problema, as soluções aparecerão com mais facilidade.
Mas essa identificação do problema e a busca por soluções não devem partir de uma única perspectiva quando envolver todo um grupo. Mesmo nos nossos problemas individuais precisamos aplicar esta realidade. É importante uma reunião de várias informações discutidas e coletadas a fim de descobrir a melhor solução possível. Muitos líderes tendem a querer impor as suas soluções para os problemas que surgem no ministério. Eles se esquecem que essas soluções são parte de um ponto de vista pessoal deles, baseados na sua perspectiva pessoal do problema. Pode ser que estejam errados. Pode ser que estejam aumentando o problema ou tentando resolvê-lo perifericamente, sem dar muita importância às suas causas centrais. Pode ser que nem saibam realmente qual o problema.
Eis a importância do trabalho em equipe, onde várias cabeças pensam melhor que uma. Deus nos dotou de dons e talentos para serem usados, jamais desprezados ou relegados a segundo plano. Nestes momentos não podemos nos limitar, mas agir como o verdadeiro corpo de Cristo. Ele é a cabeça do corpo, o Cristo ressuscitado, revestido de poder, glória e majestade. Ele bem poderia agir sozinho na sua igreja, sem depender da boa vontade dos crentes que nem sempre estão dispostos a cooperar. Mas Jesus quer ter um corpo para agir na história humana, quer que cada membro tenha a sua função específica e trabalhe conjuntamente em benefício de todo o corpo. Quando um membro do corpo está mal, todos sofrem com ele; quando ele é restaurado, o corpo todo sente o bem-estar que isso traz.
Da mesma forma deve proceder o líder. Ele não deve trabalhar sozinho, não deve buscar sozinho a solução para todos os problemas. É preciso se envolver com o corpo, interagir com ele, conhecê-lo profundamente. Esse envolvimento o ajudará a reconhecer e antecipar os possíveis problemas, podendo efetivar uma solução mais rápida e eficaz. Conhecendo cada membro do corpo, seus dons e talentos, o líder saberá com quem poderá contar e de que forma ele atuará na solução do problema.
Após identificar o problema e a sua verdadeira causa, o líder deverá buscar, com a cooperação de todos os seus colaboradores, as melhores soluções e implementá-las. É importante saber que um mesmo problema pode apresentar várias soluções, e essas soluções mudarão de acordo com a evolução do problema. Logo, quando mais cedo o problema for resolvido, melhor. A procrastinação é um mal que precisa ser extirpado do meio do povo de Deus, pois denota irresponsabilidade e irreverência com relação a oba do Senhor.
A solução (ou soluções) encontrada deve ser aquela com a maior chance de sucesso, que realmente preencha os interesses do Reino de Deus e não da vontade humana. Muitas vezes achamos que sabemos a solução, mas ela nem sempre é a ideal do ponto de vista de Deus. Não basta ter ideias brilhantes para solucionar os nossos problemas, é preciso a atitude correta de implementar essas ideias.
Durante a solução dos problemas, todos os esforços dos membros do grupo estarão canalizados para esse fim, possibilitando o desenvolvimento das habilidades de cada um, do seu dom e talentos. Por fim, todos serão responsáveis pelo sucesso das mudanças que forem implementadas. É necessário, porém, haver uma constante avaliação para saber se as soluções apresentadas estão surtindo o efeito esperado ou se será necessário novas soluções, refazendo todo o processo.
Muito cuidado! Embora Deus nos tenha enchido de dons, nos dado talentos e capacidades naturais, todas as soluções para os nossos problemas devem ser buscadas a base de muita oração. O que estamos buscando é a glorificação de Deus e só Ele é capaz de fazer o melhor para a sua obra. Nós atuamos apenas como seus instrumentos, suas ferramentas. Uma solução precipitada pode ser a solução errada e acrescentar outro problema ao que já existia ou agravá-lo.
Ouro cuidado a ser observado pelo líder é o de não criar pessoas dependentes dele para a solução dos seus problemas. Existem crentes que não sabem dar um passo sem a presença do líder, que não conseguem tomar decisão alguma para o seu ministério, mesmo as mais simples, se o líder não estive por perto. Quando delegamos autoridade aos nossos colaboradores, estamos certos de estar contando com pessoas responsáveis e capacitadas, capazes de tomar decisões. Existem aqueles problemas que precisam da participação de todos, mas existem aqueles que podem ser resolvidos mais facilmente.
Líderes e colaboradores precisam ser estimulados a buscar soluções para os seus próprios problemas, acima de tudo os pessoais. A igreja atua como corpo, usando os seus dons para exortar, aconselhar, contribuir, exercer a misericórdia, mas não há como criar uma dependência doentia, onde o indivíduo é incapaz de cuidar de si mesmo, como uma eterna criança de peito que depende da mãe para absolutamente tudo.

A solução está nas pessoas

         Quem faz o tamanho do problema somos nós, nossa capacidade de enxergá-los grandes (pessimismo) ou pequenos demais (negligência) e a nossa disposição para solucioná-los. Maxwell afirmou que: “Nosso foco como líder deve ser estruturar uma pessoa para que seja maior que seus problemas. Esse tipo de pessoa lida com grandes questões de forma eficaz.” (pg. 101). Quanto mais nos assenhorearmos dos nossos problemas, menos seremos controlados por eles e poderemos encontrar grandes soluções.
         Com já vimos, o problema não está no problema, mas na forma como o enxergamos e lidamos com ele. Estamos mais acostumados a tentar desesperadamente buscar soluções paliativas para os nossos problemas e esquecemo-nos de lidar conosco, nosso interior, com a visão que temos e que alimenta as nossas escolhas e forjam as nossas atitudes. Logo, se o problema é a nossa reação a ele, devemos mudar a nós mesmos. Mudando nossa maneira de agir frente aos problemas, um grande passo terá sido dado na busca por soluções reais e estratégicas.
         O líder deve dedicar a maior parte do tempo às pessoas, pois elas são a razão da sua existência. Os seus colaboradores devem ser estimulados a pensar sobre os seus próprios problemas, a entendê-los profundamente e compreender a sua reação a eles. Mas o líder não deve se deixar envolver de tal forma que acabe por resolver os problemas dos outros, impedindo que eles ajam, que aprendam, ma s atuar como um coordenador, um facilitador na busca por soluções.
         Com relação aos problemas que dizem respeito ao ministério e não apenas a uma pessoa apenas, o mesmo fator deve ser levado em conta. Se algo vai mal não devemos nos concentrar nisso, mas nos motivos que ocasionaram esse mal. A nossa atitude diante dos problemas do ministério deve ser a mesma quando encaramos nossos próprios problemas. A igreja precisa aprender a lidar com os seus problemas dessa forma, encarando a realidade como ela é, procurando entender o que se passa num nível mais profundo ao invés de se preocupar com aquilo que é superficial.
         A igreja de Corinto era uma comunidade que não estava sabendo lidar com os seus problemas, por isso não encontrava uma solução. E se não encontrava, certamente era porque nem sequer a buscava. Podemos ver na epístola de Paulo a sua indignação frente a muitos problemas enfrentados por aquela igreja. Mas alguns pontos nos mostram como aqueles irmãos lidavam com isso:
·         Eles não reconheciam os seus problemas como sendo de fato problemas. Havia imoralidade, sensualidade, soberba, falta de comunhão, mau uso dos dons espirituais, mas eles não viam isso como sendo algo que precisava ser tratado.
·         Eles eram incapazes de resolver sozinhos os seus problemas ao ponto de irmão levar irmão a juízo perante os injustos (1 Coríntios 6:1).
·         Eles não olhavam para dentro de si para reconhecer que o problema real estava dentro deles.

Os erros dos coríntios eram uma ameaça a sua sobrevivência como igreja, pois a cada dia mais se afastavam da realidade do Evangelho. Por causa desses erros, a unidade da igreja estava sendo quebrada. E onde estava o erro, ou, qual era o fico do problema? Paulo, como líder, soube ver além das aparências e tratar o problema no seu âmago. No capítulo 13 ele resume o problema dos crentes de Corinto: total falta de amor. A partir do momento que eles trouxessem para dentro de si a realidade do amor de Deus, todos aqueles problemas seriam solucionados. Não adiantaria impedir os profetas que profetizassem ou acabar com a celebração da ceia para resolver a questão. Bastava a prática do que realmente faltava: o amor.


A atitude correta para a mudança

         Se de um lado temos aquilo que denominamos “problema” e por outro lado temos a nossa reação diante deste problema, a nossa primeira atitude deverá ser a de mudar a nossa perspectiva do problema, encarando-o de uma forma mais positiva e construtiva.
         A história de Davi, a qual muito já mencionamos, pode nos dar um exemplo de como um mesmo problema pode ser encarado sob duas perspectivas diferentes. A situação narrada no capítulo 17 de 1 Samuel era apenas uma: os filisteus guerreavam contra Israel, quando surgiu do meio deles um gigante chamado Golias, com aproximadamente 2,92m de altura, armado até os dentes. Ele desafiou o povo de Israel a ir pelejar contra ele, mas “Ouvindo Saul e todo o Israel estas palavras do filisteu, espantaram-se e temeram muito.” (v. 11). Na perspectiva do povo judeu, o problema se agigantava ainda mais, e isso fez com que eles temessem muito. Israel se sentiu impotente diante daquele desafio, incapaz de solucionar a questão.
         Mas quando Davi soube do problema com o gigante filisteu, encarou-o de uma perspectiva totalmente diferente. O gingante já não era tão enorme assim, também não causava tanto medo e pavor. Davi olhou o problema na perspectiva do poder de Deus (v. 26). Mesmo diante de Saul que tentou persuadi-lo a não pelejar contra o gigante por causa da sua mocidade (v. 33), Davi não se deteve e solucionou aquele problema de maneira tremenda, com apenas uma funda em suas mãos adiante de Golias totalmente equipado (vs. 49,50).
         Quando Davi permitiu que o seu pensamento fosse impregnado pelo poder absoluto do Deus de Israel, a sua atitude diante do problema foi diferente da de todo o Israel. Enquanto o povo enxergava uma iminente destruição. Davi via ali uma oportunidade de mostrar a glória de Deus. Ao usar a funda, Davi nos mostrou que a solução pode partir de pequenos gestos, quando esses são feitos na grandeza do poder de Deus. O modo como encaramos o problema é a chave da questão, e não o problema em si.

Uma abordagem equivocada

         No início deste capítulo já abordamos temos relevantes como o “por quê” e o “para quê” do problema, e aprendemos que nossos problemas podem ter uma conotação muito positiva do ponto de vista da operosidade de Deus. Vamos finalizar a questão dos problemas apresentando uma abordagem completamente equivocada cantada e pregada na maioria das denominações.
O cantor Mattos Nascimento retrata bem essa maneira que muitos crentes compreendem e encaram os seus problemas e as soluções para eles. Parece verdade que a maioria dos crentes se desespera muito mais com seus problemas do que muitos que não têm Deus em suas vidas. Duas estrofes de uma de suas canções dizem assim:

“Eu não sei quanto tempo você tem orado
Se tem chorado, eu confesso que não sei
Deus tem te usado e muitos não acreditam
Te perseguem só criticam, mas vai chegar a tua vez.

Irmão dê graças pela luta que te vem
Se Deus te prova é porque te ama também
Quando tu oras toda luta se desfaz
Jesus manda um anjo forte, vem e expulsa Satanás.”

         Mattos Nascimento inicia o hino falando de críticas e perseguições, comuns a todo cristão verdadeiramente piedoso. Isso nos faz lembrar as palavras de Jesus nos sermão do monte, em Mateus 5:11 e 12: “Bem-aventurados sois quando, por minha causa, vos injuriarem, e vos perseguirem, e, mentindo, disserem todo mal contra vós”. Devemos nos desesperar, orar a Deus que afaste a perseguição, amaldiçoar nossos perseguidores, fazer cultos de libertação? Muito pelo contrário: “Regozijai-vos e exultai, porque é grande o vosso galardão nos céus; pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós”.
         Hoje estive participando de uma aula da escola bíblica dominical de uma congregação da igreja que frequento. O assunto era a “morte”. Um dos pontos da lição dizia que o crente não deve temer a morte, porque ela nos traz as recompensas que o Senhor nos prometeu, segundo o bem ou o mal que tenhamos feito (2 Coríntios 5:10). Logo, a discussão girou em torno do galardão que os crentes recebem pelas suas obras quando chegam ao céu. É interessante notar que o galardão está sempre associado a boas obras, mas aqui o Senhor Jesus associa o sofrimento por causa do Evangelho ao nosso galardão nos céus (cf. Mateus 5:10).
         Podemos nos perguntar: Quantos estão dispostos a aumentar o seu galardão nos céus através do sofrimento, da tribulação, da provação? Temos medo de não fazer boas obras para não perder o galardão, mas não temos medo de deixar de sofrer, sem imaginar que esse sofrimento aumenta o nosso galardão no Reino de Deus.
         A segunda estrofe inicia-se com uma grande verdade: devemos dar graças a Deus diante das provas que passamos, pois elas são destinadas a nos aprovar e demonstram o amor e o cuidado de Deus por nós (Hebreus 12:4-8). Se Deus não nos amasse, se Ele não se importasse conosco, não nos corrigiria, não nos envolveria em situações onde a nossa fé é constantemente provada. Mas pelo fato de Ele nos amar tanto, o seu desejo é o nosso crescimento na fé, a nossa maturidade espiritual. Muitos cristãos querem ser uma pedra preciosa para Deus, mas sem desejar passar pelo duro processo de lapidação.
         Nos dois versos seguintes da segunda estrofe, Mattos Nascimento faz cair por terra tudo o que estava cantado até então. Em primeiro lugar, ele diz que a oração coloca fim a toda luta do cristão, o que é uma mentira e um erro teológico tremendo. Quantas vezes Jesus orou para deixar de ser perseguido e ameaçado de morte o tempo todo? A única vez que encontramos Jesus orando para ser poupado do sofrimento é no Getsêmane, mas ainda assim ele permitiu que a vontade de Deus fosse feita, e não a dele.
         E o que dizer do espinho da carne de Paulo? Por três vezes ele orou pedindo a Deus que lhe fosse afastado esse espinho, mas Deus não o atendeu, apenas disse: “A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza.” (2 Coríntios 12:7-10). E por amor a Cristo, Paulo sentia prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias (v. 10). Como já vimos, mesmo depois de perseguido e açoitado, Paulo encontrava forças para animar os irmãos a jamais desistirem da fé (Atos 14:22).
         Ora, se devemos dar graças a Deus pelas lutas que nos sobrevém, destinadas a nos provar e aperfeiçoar, porque devemos orar a Deus para que elas se desfaçam? Ao contrário disso, a Palavra de Deus nos motiva a encarar os nossos problemas de uma maneira positiva, enxergando as bênçãos que se escondem por detrás deles. Com isso não queremos dizer que devemos nos acomodar, permitir que os problemas nos dominem sem jamais lutar. Pelo contrário, devemos lutar sim, mas aproveitando os problemas para crescer, entendendo todas as lições que eles querem nos passar.
         No mundo passaremos aflições (João 16:33), mas devemos ser alegres (Tiago 1:2) e pacientes (Romanos 12:2). Mas este hino reflete bem a atitude de muitos cristãos diante dos seus problemas, querendo que Deus resolva tudo, abrindo mão da responsabilidade pelo que está acontecendo. Esperamos sempre um milagre de Deus para nossas crises, mas não queremos enxergar a crise positivamente, arrancando dela todas as lições que o Senhor tem para nos ensinar enquanto damos os passos necessários para sair dela. É no momento da crise que Deus molda o nosso caráter.
         Deus deseja fazer o impossível por nós. Mas naquilo que é possível, que podemos resolver com todos os dons, talentos e habilidades naturais que Ele nos deu, ele não fará nada. Se não fosse assim, bastava apenas orar e a fome do mundo cessaria, o câncer e a AIDS desapareceriam, não haveria mais violência, drogas e prostituição.
         Para incrementar essa abordagem equivocada dos problemas e da nossa atitude diante deles, Mattos Nascimento canta que “Jesus manda um anjo forte, vem e expulsa Satanás.” Podemos entender que Deus “terceiriza” a solução para as nossas crises. Segundo esse cantor, a resolução dos nossos problemas não está na nossa mudança de atitude, no arrependimento, em um compromisso maior com Deus, numa vida mais intensa de oração, no trabalho árduo, na fé que opera em conjunto com as obras, na nossa disposição de nos ajudar uns aos outros, mas nas mãos dos anjos. Não precisamos fazer nada por nós mesmos, pois os operários celestiais farão o que for preciso para garantir o nosso sucesso. Será?
         É certo que “o anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem e os livra.” (Salmo 34:7); também é certo que os anjos são “espíritos ministradores, enviados para serviço a favor dos que hão de herdar a salvação.” (Hebreus 1:14). No Antigo Testamento, os anjos tiveram um papel importante na vida do povo de Deus: “Feriram os egípcios; foram usados na promulgação da lei no monte Sinai; assistiram os israelitas durante sua peregrinação; destruíram seus inimigos; e acamparam ao redor do povo de Deus em sua defesa nos momentos de perigo.” (Charles Hodge, pg. 476). Eles também estiveram presentes predizendo e celebrando o nascimento de Jesus (Mateus 1:20; Lucas 1:11), na sua tentação e sofrimentos (Mateus 4:11; Lucas 22:43), no anuncio da sua ressurreição e ascensão aos céus (Mateus 28:2; João 20:12; Atos 1:10,11).
         Os apóstolos e depois o apóstolo Pedro puderam escapar da prisão através da intervenção de Deus com o auxílio de um anjo (Atos 5:19; 12:11). Estes e muitos outros textos nos mostram anjos ministrando na vida dos discípulos, mas não nos dão a entender que esses seres celestiais resolverão todos os nossos problemas. Porque nenhum anjo livrou Paulo dos açoites e de um naufrágio? Por que a igreja perseguida não orou a Deus que um anjo viesse livrá-la da sua tribulação e da boca dos leões na arena do Coliseu?
Os anjos acampam-se ao nosso redor, nos dão livramento e pelejam conosco contra as forças do mal. Mas mesmo nessa batalha espiritual, da qual muitos crentes fazem de tudo para fugir, não são os anjos que intervém, não é um milagre de Deus que nos dá a vitória, mas a nossa atitude de nos revestir da armadura de Deus. Ao lermos Efésios 6:10-20, encontramos vários imperativos: sede (v. 10), revesti-vos (v. 11), tomai (v. 13, 17), estai (v. 14), calçai (v. 15). Todos esses imperativos nos impelem a uma ação, a tomar uma atitude. Deus nos oferece as armas necessárias para resistirmos ao diabo e vencermos no dia mau (v. 13). Ele nos chama a lutar, não a cruzar os braços e esperar que anjos com espadas de fogo façam aquilo que compete a nós.
E completando a sucessão de equívocos, o hino de Mattos Nascimento diz que a função desse anjo forte é expulsar a Satanás, sendo este fato relacionado ao problema que vinha cantando. Ora, afinal, de onde vêm essas lutas cantadas nesses versos: de Deus, como uma prova do seu amor, ou de Satanás? Essa tendência de jogar a culpa no diabo por todas as nossas lutas e problemas é perigosa e antibíblica. Não podemos procurar bodes expiatórios para as nossas crises, principalmente quando temos plena convicção de que elas são, em sua grande parte, culpa do nosso próprio pecado. O diabo lança o anzol, mas cabe a nós morder ou não a sua isca.
Antes mesmo de Satanás colocar no coração de Judas o desejo de trair Jesus, aquele discípulo já mostrava ter um caráter duvidoso, roubando o dinheiro que era colocado na bolsa que carregava (João 12:26). A ganância estava ali presente, o diabo apenas se utilizou deste artifício para encher o coração dele. E em troca de quê Judas traiu Jesus? De dinheiro! (Mateus 26:15).

Novamente o problema do problema

         Voltamos a dizer que o problema não está no problema em si, mas na maneira como o enxergamos e lidamos com ele. Da mesma forma, a solução dependerá da nossa capacidade de ter uma visão clara da realidade do problema. Antes de encontrarmos os culpados por aquilo que estamos passando, devemos nos perguntar qual a nossa parcela de responsabilidade. Antes de implementarmos qualquer solução para as nossas crises, devemos ter certeza de que não estamos querendo fugir dos nossos problemas, queimar as etapas do nosso crescimento como cristãos e como líderes na obra do Senhor.
         O líder eficaz deve auxiliar os seus colaboradores na compreensão dos seus problemas, enfatizando que esses problemas podem e devem ser resolvidos, jamais evitados ou tratados como uma maldição, a não ser que provenham de pecado. Existe um processo para a solução que não é algo mágico, não tem a intervenção de anjos com espadas de fogo, não conta com os céus se abrindo e as montanhas se movendo, mas apenas com as nossas atitudes de fé e esperança no Deus do impossível.
         O líder deve estar sempre presente, colocando a mão no arado junto com seus colaboradores, aproveitando cada crise para fomentar o crescimento e a maturidade do corpo. Quando os primeiros dentes de uma criança estão nascendo, ela sente dor e incômodo. Sem esse processo, os dentes não podem nascer e crescer. Eles precisam romper a barreira da carne, fincar suas raízes, abrir espaço. A dor pode estar presente, mas é necessária. No final, um lindo sorriso se abrirá.