quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

TRADIÇÃO E LEGALISMO NA IGREJA EVANGÉLICA



         Algo que tem atrapalhado o mover de Deus na sua igreja e paralisado o crescimento de muitos cristãos é aquilo que chamamos de tradição e legalismo. Conforme vimos no estudo sobre a graça de Deus, esses dois problemas surgem nas igrejas e tendem a enquadrar os crentes dentro de um sistema de práticas exteriores de usos e costumes, que não encontram respaldo bíblico nem acrescentam nada à nossa espiritualidade.
         Para o tradicionalista e legalista, a espiritualidade é algo meramente externo, como vestimentas, práticas religiosas e tantos outros atos infrutíferos que veremos a seguir. Mas sabemos que a espiritualidade é uma obra do Espírito Santo no coração do crente, e não algo que possamos obter por nós mesmos, pois somos de natureza carnal, pecaminosa. Somente a graça de Deus em nós pode nos tornar espirituais. É algo que vem de dentro para fora, e não o contrário.
         Usar um terno alinhado, orar de mãos levantadas, dizer Aleluia o tempo todo, não torna ninguém mais ou menos crente, a não ser que tudo isso seja fruto de um coração transformado, que arda de amor por Jesus, um coração que entende que o motivo da sua existência e a essência do seu chamado é a glorificação de Deus. Um crente sincero e piedoso, um verdadeiro adorador, é alguém que vive o ideal de João Batista: “Convém que ele [Cristo] cresça e que eu diminua.” (João 3:30). A tradição e o legalismo, ao contrário, exaltam o homem por suas prática exteriores e condicionam a vontade de Deus às suas doutrinas antibíblicas, inflando o ego do crente e apagando do seu coração a imagem de Jesus.
         Vejamos alguns pontos cruciais da tradição e do legalismo disseminados em muitas congregações.
          

Roupas

·         Muitas denominações criam um padrão de vestimenta para os crentes (paletó e gravata, saia até o tornozelo, não usar bermuda, etc.), acusando os que se vestem de forma diferente de não serem espirituais ou crentes verdadeiros.
·         Isso faz parte da natureza do homem, que vê o exterior, mas Deus vê o coração (1 Samuel 16:7).
·         Deus deseja que nos despojemos do velho homem e nos revistamos do novo (Romanos 6:6; Efésios 4:20-24; Colossenses 3:9). Deus está preocupado com a transformação do nosso caráter e não do nosso guarda-roupa. Basta apenas que tenhamos bom sendo e observemos a decência no vestir.
·         A vida é muito mais do que vestes (Mateus 6:25).
·         Os fariseus foram criticados por Jesus por sua religiosidade hipócrita, que envolvia também as vestes (Marcos 12:38-40).


Casa de Deus

·         Para afirmar que a igreja é a casa de Deus, as pessoas citam erradamente o Salmo 122:1 (cf. 2 Crônicas 29:16; Isaías 56:7; Mateus 21:13). A casa de Deus como um prédio é algo do Antigo Testamento, pois Deus “habitava” no santo dos santos (Êxodo 26:33; Levítico 16:12). Mas Jesus rasgou o véu que nos separava, como sacerdote perfeito, e agora temos livre acesso à presença de Deus (Hebreus 9:3-25; 10:19; 13:11)
·         O correto é que a casa do Senhor somos nós (Hebreus 3:1-6; 1 Pedro 2:5), edificados para a habitação de Deus no Espírito (Efésios 2:22), do qual nós somos santuário (1 Coríntios 3:16-17; 6:19).
·         A igreja não é um prédio, mas os crentes, o verdadeiro corpo de Cristo (1 Coríntios 12:27; Efésios 4:12). Jesus está onde os crentes estiverem reunidos, num prédio, nas catacumbas, nos lares, em qualquer lugar (Mateus 18:20).


Oração

·         Dependendo da denominação, existe um jeito certo de orar, uma tonalidade de voz mais perfeita, uma vestimenta mais decente, uma posição mais correta. Embora a Bíblia não nos apresente uma doutrina formulada sobre o assunto, a tradição e o legalismo sempre encontram um meio para dizer o que é certo e o que é errado.
·         Mas na Bíblia não existe uma fórmula pré-fabricada para a oração. Não existe uma posição correta de orar, mas várias: de pé (1 Reis 8:22; Marcos 11:25; Lucas 18:11); prostrado (Salmo 95:6); ajoelhado (2 Crônicas 6:13; Salmo 95:6; Lucas 22:41; Atos 20:36); de bruços (Números 16:22; Josué 5:14; 1 Crônicas 21:16; Mateus 26:39); de mãos espalmadas (Isaías 1:15); de mãos levantadas (Salmo 28:2; Lamentações 2:19; 1 Timóteo 2:8); elevando os olhos na direção de Deus (Salmo 123); inclinando-se (Gênesis 24:26; Êxodo 4:31; 12:27; 34:8); ajoelhando-se (1 Reis 8:54; 2 Crônicas 6:13; Esdras 9:5; Isaías 45:23; Daniel 6:10; Lucas 22:41; Atos 7:60; 9:40; 21:5; Efésios 3:14); de rosto em terra perante o Senhor (Números 20:6; Isaías 5:14; 1 Reis 18:42; 2 Crônicas 20:18; Mateus 26:39).


Ordem e decência

·         Cita-se erradamente o texto de 1 Coríntios 14:40 para falar da reverência no culto, envolvendo ler a Palavra de Deus de pé, não usar certas roupas, (como bermuda, p. ex.), louvar em pé, não bater palmas ou dançar, etc. Mas aqui o texto faz referência a manifestação dos dons espirituais. É certo que precisa haver limites, mas jamais legalismos.
·         O que Deus busca é adoradores que o adorem em espírito e em verdade (João 4:23). Como já dissemos, os tradicionalistas e legalistas reduzem a espiritualidade humana a práticas meramente exteriores e aparentes.


Batismo e ceia

·         Não é somente no catolicismo romano, onde se batizam crianças, que existe controvérsia com relação ao batismo. Também não é somente no catolicismo que há erros referentes à ceia do Senhor. Na igreja evangélica também existem alguns pontos conflitantes.
·         Quem deve batizar? Todos nós fomos chamados a batizar, e não somente os pastores (Mateus 28:19).
·         Quem pode ministrar a ceia? Não há nenhum mandamento afirmando que somente o pastor da igreja pode celebrar a ceia (Atos 2:42).
·         Não existe nenhuma referência que impeça as crianças de serem batizadas, caso tenham aceitado sinceramente a Jesus como Senhor e Salvador, e de receberem a ceia do Senhor.
·         Não há nem mesmo na tradição apostólica a prática de dar a ceia somente a quem foi batizado. Batismo não é condição para tomar a ceia, mas sim uma vida reta diante de Deus (1 Coríntios 11:26-34).
·         Também não há nada que impeça as crianças de cearem, a partir do momento em que consigam compreender o significado da ceia do Senhor e a necessidade do autoexame.


Estilo musical

·         Há muita discussão entre as denominações sobre qual a verdadeira forma de adorar a Deus e quais são as músicas verdadeiramente espirituais. Cantor cristão? Harpa Cristã? Rock? Rap? Forró? Axé music?
·         Em primeiro lugar, como avaliar se certo estilo de música (louvor) é ou não espiritual? O que são os cânticos espirituais citados em Efésios 5:19 e Colossenses 3:16?
·         Cânticos espirituais têm haver com a glorificação de Deus e com o Espírito Santo. Somos seres carnais e somente pela manifestação da graça de Deus pelo seu Santo Espírito nos tornamos espirituais. Logo, espiritualidade não é aquilo que fazemos, mas aquilo que o Espírito Santo faz em nós. Desse modo, cânticos espirituais dizem respeito a nossa resposta ao mover do Espírito Santo em nós, através da transformação do nosso caráter (santidade) que nos leva a sermos verdadeiros adoradores (João 4:23,24).
·         O Salmo 150 ainda nos dá uma resposta àqueles que criticam o louvor com vários tipos de instrumentos e com danças.


Dízimos e ofertas

·         Está claro que os crentes devem manter financeiramente o local onde a igreja se reúne, pois ela não dispõe de outros meios para prover recursos para si, como ONGs e instituições públicas. Desde os primórdios são os crentes que sustentam seu local de culto e pagam o salário do pastor. Mas os dízimos e as ofertas não podem ser vistos como uma doutrina legalista.
·         O dízimo como pregado em algumas denominações não faz parte da doutrina dos apóstolos. O texto muito utilizado de Malaquias 3:10 diz respeito a uma realidade do povo judeu que estava debaixo da lei, e não da graça, e que deveria manter a casa de Deus (cf. Neemias 10:38; Daniel 1:2). Mas se a casa de Deus não é mais um templo, mas nós mesmos, deveríamos dar os dízimos a quem?
·         O nosso mantimento, enquanto casa de Deus, é a Palavra de Deus, a oração e o enchimento do Espírito.
·         A palavra “dízimo” só aparece cinco vezes no Novo Testamento, em Mateus 23:23, Lucas 11:42, Lucas 18:12, Hebreus 7:2 e Hebreus 7:4. Em nenhum desses textos aparece uma doutrina formulada que obrigue os cristãos, herdeiros da Nova Aliança, a pagarem o dízimo de 10% de tudo o que adquirir.
·         O exemplo dos primeiros cristãos em Atos 2:42-45 pode ser imitado, mas não tomado por doutrina, pois ali aparece um relato histórico de como eles viviam, e não um mandamento formulado para dízimos e ofertas.
·         A responsabilidade de contribuir pertence aos membros do corpo de Cristo (Mateus 25:34-46), e a igreja de Corinto entendeu bem isso (2 Coríntios 9:6-15). Mas essa contribuição deve ser segundo o desejo do coração de cada um (v. 7).


Gíria evangélica

·         Não é errado que, ao aceitarmos a Jesus e passarmos a frequentar uma congregação e a ler a Bíblia, o nosso vocabulário sofra alguma mudança, pois acabamos nos impregnado com a novidade de vida que o Evangelho nos dá. Nosso linguajar muda, principalmente no que diz respeito às palavras torpes (Efésios 4:29) e a linguagem obscena (Colossenses 3:8).
·         Mas alguns crentes querem impor sobre os outros uma “gíria evangélica”, afirmando que o crente deve falar assim para ser verdadeiramente crente. Logo, não se contentam com um simples bom dia e se iram se o irmão não lhe disser A paz do Senhor, ou Graça e paz, ou A paz, ou Deus te abençoe.
·         Nos cultos públicos, a espiritualidade dos irmãos é medida pela quantidade de “Ô glória! Aleluia! Glória a Deus!”, que falam, mesmo que mecanicamente, sem verdade e vida.
·         Diante do inimigo, da doença e da tribulação o crente grita: Está amarrado, em nome de Jesus! Está repreendido! O sangue de Cristo tem poder!
·         Ao orar o crente declara: Eu profetizo! (mesmo sem ter o dom de profecia), Eu declaro! (mesmo sem ter obtido revelação se Deus já declarou aquilo no céu), Eu não aceito! (sem antes se questionar dos propósitos de Deus para aquela situação).
·         Estas gírias denunciam um cristianismo meramente exterior. As pessoas acabam vivendo uma espiritualidade de aparência, achando que falar essas coisas e agir dessa forma as torna mais espirituais que as outras.


Culto público

·         Muitos crentes valorizam mais o culto e o local do culto do que o Deus que deve ser cultuado. O culto de muitas congregações é algo meramente litúrgico, com palavras e ações já determinadas, como uma missa: oração, leitura da Bíblia (todos ficam de pé), louvor (todos “devem” louvar), ofertas, pregação, mais louvor, recados e avisos, despedida.
·         O modelo que temos de culto é importado dos Estados Unidos da América e veio com os primeiros missionários que aqui chegaram, sendo adequado aos nossos próprios costumes. Ao olharmos para as Escrituras, principalmente para o livro dos Atos dos apóstolos, não encontraremos modelo algum de culto, senão algumas passagens falando sobre a ordem e a decência no uso dos dons espirituais (1 Coríntios 14:26-40), a questão dos usos e costumes, como o dever da mulher orar com a cabeça coberta e não perguntar nada (1 Coríntios 11:1-16), a ceia do Senhor (1 Coríntios 11:17-34).
·         O culto não pode ser entendido de uma forma meramente litúrgica, apesar de que uma forma litúrgica possa expressar culto. A forma do culto não é o principal, mas a sua essência (cf. Isaías 1:1-17).
·         A legitimidade do culto se dá pela vida das pessoas que cultuam a Deus, pois culto tem haver com o coração, com a glória de Deus.
·         Se o nosso caráter não estiver dentro da perspectiva de Deus, o pastor e os ministros de louvor não passarão de “animadores de auditório”. No culto precisamos exteriorizar o caráter de Deus. A alegria de servir a Deus e viver para a sua glória deve se refletir no nosso culto litúrgico. Se o culto não acontecer primeiramente dentro de nós, estamos apenas perdendo o nosso tempo nas reuniões dominicais.


Dom de variedade de línguas

·         Para muitas denominações, o dom de línguas é superior a todos os outros dons, ao contrário do que afirma a Palavra de Deus através do apóstolo Paulo (1 Coríntios 14:1-19).
·         Essas denominações acreditam que somente quem fala em línguas está cheio do Espírito Santo, que um crente que fala em línguas é mais espiritual que os outros, que para o crente exercer um ministério na igreja precisa falar em línguas, que falar em línguas significa “revestimento de poder”, que falar em línguas significa que o crente foi batizado no Espírito.
·         A igreja de Corinto se gabava por ter todos os dons, principalmente o dom de línguas, e Paulo os chamou de carnais (1 Coríntios 3:1-3). E esses crentes de Corinto, “revestidos de poder”, praticavam toda sorte de pecados na igreja (cf. 1 Coríntios, capítulos 5 e 6).
·         Não somente o dom de línguas, mas nenhum dom nos torna mais espirituais, pois ele não é dado por merecimento, mas conforme a vontade do Espírito (1 Coríntios 12:1-11). Dons espirituais são “coisas controladas ou caracterizadas pelo Espírito” (do grego ton pneumatikon).
·         Os dons não são dados em proporção à santidade ou qualquer outra coisa, por isso não podemos afirmar que alguém que possui o dom de línguas ou outros dons é mais espiritual que os outros. São dons da graça (carismáticos), não há mérito.

Esses são apenas alguns pontos principais de muitas tradições e legalismos que emperram a igreja do Senhor, que aprisionam os crentes a crenças inúteis que em nada contribuem para o crescimento do Reino de Deus e a glorificação do seu Santo Nome em toda a Terra. Poderíamos ainda falar de outras coisas. Muitas denominações chegam ao absurdo de impedir que os seus membros pratiquem esportes, principalmente o futebol, e frequentem praias. Outras apregoam que não se deve doar sangue; outras não comem carne de porco, não violam o sábado como se fossem judeus.
Há dois mil anos atrás Jesus já combatia esse tipo de religião feita de práticas exteriores, usadas para esconder um interior sujo e fétido, como sepulcros caiados. Os fariseus talvez sejam a fonte de inspiração dos que criam tradições e legalismos nas igrejas (cf. Mateus 23 e Lucas 6 e 11). Deus não está preocupado com essas coisas, Ele está mais preocupado com o nosso interior, com a nossa santidade. Ele quer ver os seus filhos se santificando, amando uns aos outros fraternalmente, cumprindo os seus mandamentos, pregando a sua Palavra, glorificando o seu Nome Santo.
Existe um único culpado por detrás disso tudo, além do diabo: a falta de conhecimento da Palavra de Deus. Os crentes não leem e Bíblia, não a estudam. É mais fácil aceitar as coisas como são, crer que o que o seu líder fala é o correto e não há mais o que ver. É tudo muito superficial e acaba-se engolindo qualquer coisa, como os crentes da Galácia (Gálatas 1:16-9; 3:1-5). Ao contrário disso, deveríamos ser todos crentes bereianos, recebendo a doutrina que nos é pregada e examinando as Escrituras para ver se de fato as coisas são realmente assim ou se estamos dando ouvidos a heresias (Atos 17:10,11).


Mizael de Souza Xavier
14 de junho de 2008





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