quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

ORAÇÃO PELOS MORTOS - doutrina e refutação





            O culto aos mortos parece ser o centro de toda a fé do catolicismo romano. Cultuam os santos (pessoas já mortas) e pedem a sua intercessão, rezam por eles e lhes prestam homenagens. Mesmo afirmando que todo o fim deste culto é a glorificação do Nome de Deus, o que vemos é que os defuntos ocupam maior espaço que a própria Trindade na fé de seus fiéis. Rezar pelos que já morreram, pelas almas, é uma prática que o fiel católico aprende desde a mais tenra idade. Conforme vai crescendo, os fantasmas dos que já morreram o acompanham nos enterros, nas missas de sétimo dia, nas promessas (feitas a santos mortos) e nos sacramentos, principalmente na Eucaristia. Rezar pelos que já se foram é sinônimo de caridade cristã, além de uma forma eficaz de aliviar a pena deles do purgatório e dos que rezam, antes de irem para lá.
         O texto áureo para a compreensão desta doutrina é o apócrifo 2 Macabeus, capítulo 12, versículos 43 a 45. Sobre este texto sustenta-se toda a base da oração pelos mortos e dos sacrifícios em seu favor. A ele vêm-se juntar outros textos igualmente insuficientes para asseverar tal doutrina antibíblica. Para compreendermos o seu significado dentro do catolicismo romano, precisamos rever tudo o que já vimos sobre o purgatório e as indulgências. Conforme estudamos em capítulo anterior, o purgatório é um lugar de purificação através do fogo, onde aqueles cristãos que cometeram pecados leves (veniais) após o batismo e não tiveram a oportunidade de pagarem o mal que causaram a Deus e às suas almas vão para repararem o mal causado, dependendo, assim, das missas rezadas pelos vivos e das esmolas e sacrifícios oferecidos em sua lembrança. Não vão para o purgatório aqueles que cometeram pecados mortais; estes, nos parece, vão direto para o inferno, a não ser, é claro, que Maria tenha piedade deles e os introduza diretamente no paraíso, mesmo que, em vida, jamais tenham buscado a Deus e se arrependido dos seus pecados, como os que pecam contra o Espírito Santo.
         Nos documentos pesquisados, o texto de Macabeus parece ser o único do Antigo Testamento (lembrando que é um apócrifo) apresentado pela igreja romana para asseverar a doutrina da oração pelos mortos. Parece ser, também, o único a falar diretamente sobre o assunto, delineando-o claramente. Todavia, devemos analisá-lo em todo o seu contexto, levando em conta o que já citamos sobre o purgatório e as indulgências. Se é para este lugar de purificação que as almas vão, é certo que o livro de Macabeus faz aí alguma referência a tal doutrina, ainda que os sacrifícios do Antigo Testamento e o sacrifício de Cristo na cruz sejam totalmente diferentes no que diz respeito à salvação e o perdão dos pecados, e embora os sacrifícios que os antigos faziam sejam diferentes dos que são praticados hoje no catolicismo romano.

Contexto e refutação

         2 Macabeus 12 é o relato de uma batalha travada entre o povo judeu e Górgias, governador da Iduméia (v.32), que saiu para enfrentá-los comandando três mil soldados de infantaria e quatrocentos cavaleiros (v. 33). Assim que começou a batalha, alguns judeus caíram mortos (v.34). Porém, a vitória veio após Judas ter invocado o nome do Senhor, expulsando os soldados de Górgias (vs. 36, 37). Após a purificação e a celebração do Sábado, os homens de Judas foram recolher os que haviam sido mortos em batalha à fim de sepultá-los. Foi então que encontraram, por debaixo da roupa de cada um dos mortos, objetos consagrados aos ídolos de Jamnia, coisa proibida pela Lei para os judeus (v. 40). Ficou manifestado, então, o motivo da morte daqueles homens, o que levou os outros a louvarem a maneira de Deus agir com relação às coisas ocultas (vs. 40, 41). Até este ponto poderíamos concordar com todo o relato do texto, pois a idolatria sempre foi um pecado condenado por Deus, muitas vezes culminando com a pena de morte. Entretanto, a reação de Judas e do povo de Israel foi se colocarem em oração para suplicar a Deus pelo pecado cometido por aqueles homens (v. 42). Fazendo uma coleta, reuniram duas mil moedas de prata e enviaram a Jerusalém a fim de que fosse oferecido um sacrifício pelo pecado (v. 43; aqui podemos fazer uma ponte até as indulgências). O texto afirma a esperança de Judas e de todo o Israel na ressurreição dos que tinham morrido em batalha (v. 44), considerando que existe uma recompensa guardada “para aqueles que são fiéis até a morte”, por isso mandou Judas oferecer um sacrifício pelos mortos para que fossem libertos do pecado (v. 45).
         Sobre este texto, o comentário de rodapé da Bíblia Sagrada, edição pastoral, da editora Paulus, declara:

Pela primeira vez neste livro fala-se da morte dos judeus em pleno combate e da oração pelos mortos. O texto discorre sobre a ressurreição no mesmo contexto de 7, 1-42<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> (cf. nota). Esses que morreram na luta são considerados fiéis (v. 45) e, portanto, dignos da ressurreição. Entretanto, o v. 40 coloca uma questão: a morte deles teve outro motivo, além da luta pelo projeto do povo. Então, para que o erro deles não seja empecilho na participação da vitória final, é oferecido o sacrifício pelo pecado (cf. Lv 5), reintegrando esses irmãos mortos à comunidade de vida. É possível que o mesmo sacrifício tenha sido oferecido para a purificação da comunidade (cf. Js 7).

            Como apócrifo que é, este livro não nos oferece nenhuma credibilidade espiritual, nem mesmo reivindica ser divinamente inspirado. O modo como Deus age em muitas situações descritas pelo autor difere de maneira acentuada dos escritos canônicos aceitos pelo protestantismo e mesmo pelo judaísmo. Voltando nossos olhos para as Sagradas Escrituras e todos os seus textos divinamente inspirados e aceitos também pela igreja católica romana, veremos que este ensinamento que acabamos de transcrever em nada confere com o que Deus disse e fez no meio do seu povo. De fato não encontramos em nenhuma outra parte da Bíblia alguma alusão à oração pelas pessoas que já morreram, santas ou não, principalmente para que sejam purificadas dos erros cometidos em vida. O que a Palavra de Deus nos mostra é que nossos pecados, se não expiados por Cristo através da fé, nos acompanham na eternidade, o que pode nos custar o inferno como morada derradeira.
            É necessária uma rápida análise de 2 Macabeus 12:43-45 para que possamos entender o que de fato a Palavra de Deus diz sobre o assunto. Se for possível e necessária a intercessão pelos mortos, em algum lugar da Bíblia deveremos encontrar.

1 – O v. 45 afirma que há uma bela recompensa para aqueles que são fiéis até a morte. Mas aqueles homens que morreram foram fiéis a quê ou a quem? Eles partiram para a batalha pelo ideal do povo como todos os outros e aí pode estar a sua fidelidade. Fiéis à sua causa, à causa de seus companheiros, de seu líder, mas não fiéis a Deus. O v. 40 deixa claro que a morte daqueles homens foi pelo pecado da idolatria. Ora, a Palavra de Deus trata o pecado da idolatria como um pecado de infidelidade e desobediência contra Deus (Levítico 26:30). Como, portanto aqueles homens foram fiéis até a morte? Eles carregavam debaixo de suas vestes ídolos; talvez os tivessem furtado ou o estivessem utilizando como talismãs para lhes proteger naquele momento de luta. Seja como for, o caso é que estavam de posse daqueles objetos proibidos pela Lei de Deus aos judeus. Como poderiam, então, participar da ressurreição?

2 – O v. 45 também nos mostra a tolerância de Judas para com o pecado da idolatria. Em outros textos do Antigo Testamento a forma como Deus trata este pecado é bastante diferente. Por exemplo:

a) O livro de Gênesis em seu capítulo 32 mostra a impaciência do povo de Israel ante a demora de Moisés no Monte Sinai (v. 1). Eles não sabiam o que havia acontecido com seu líder e decidiram agir por conta própria, fabricando o seu próprio deus, dizendo: “São estes, ó Israel, os teus deuses, que te tiraram da terra do Egito” (vs. 2-4), colocando-o sobre um altar (v. 5). O dia seguinte foi de festas e holocaustos, assentando-se o povo para comer e beber e levantando-se para se divertir (v. 6). Mas Deus viu que seu povo estava trilhando caminhos errados e disse a Moisés que descesse do Monte e fosse ver, pois Ele acenderia contra eles o seu furor e os consumiria, fazendo de Moisés uma grande nação (vs. 7-10). Neste momento “houve intercessão pelos que cometeram o pecado da idolatria por parte de Moisés” (vs. 11-13). “Então, se arrependeu o Senhor do mal que dissera havia de fazer ao povo” (v. 14). Todavia, ao descer do Monte com as tábuas da Lei, foi a ira de Moisés que se acendeu contra o povo em sua festa idólatra (vs. 15-19). Arão, interpelado por Moisés, reconheceu que aquele povo era propenso para o mal e havia arquitetado tudo aquilo (vs. 21-24). O final desta história foi trágico, mesmo depois de suplicar Moisés pelo povo. Ele mesmo ordenou que aqueles que haviam se contaminado com a idolatria fossem mortos, irmãos, amigos e vizinhos (vs. 25-28), caindo do povo, naquele dia, uns rês mil homens.
         Este texto nos mostra claramente a intolerância de Deus para com aqueles que o trocam por ídolos mortos. Embora tenha “se arrependido” do mal que disse que iria fazer contra o povo, ouvindo a intercessão de Moisés, a sua palavra se cumpriu através do próprio Moisés, que mandou matar os idólatras. Aqui existem muitas diferenças da forma como o líder Moisés conduz o povo e a forma como Judas Macabeu conduzia o seu. O primeiro zelava pelo Nome de Deus, o segundo era tolerante com os idólatras. Outro fato que devemos observar é que Moisés intercedeu pelo povo de Israel enquanto ainda estavam vivos e tinham condições de se arrepender, como mostra o v. 26. No caso do livro de Macabeus, Judas oferece sacrifício pelos que já haviam morrido, sem condições de se arrependerem do mal que causaram.
Mais adiante no livro de Gênesis, capítulo 32, os vs. 30-35 mostram nova intercessão de Moisés pelo povo: “Vós cometestes grande pecado; agora, porém, subirei ao Senhor e, por ventura, farei propiciação pelo vosso pecado” (v. 30). Esta nova intercessão, todavia, recebeu de Deus uma reprimenda, pois Deus riscaria a todos os que pecaram contra Ele do seu livro (v. 33): “Feriu, pois, o Senhor ao povo, porque fizeram o bezerro que Arão fabricara” (v. 35). Não houve por parte de Moisés nenhum sacrifico pelo povo que havia morrido para que seus pecados fossem perdoados após a sua “passagem”; também não houve sacrifico pelos pecados daqueles que ficaram vivos, porque Deus já decretara a sua sentença. O que o catolicismo romano pretende com a oração pelos mortos é tentar mudar a sentença de Deus, isto é, tentar introduzir à força no céu aquelas pessoas que, para Deus, devem ir para o inferno. Para isso contam com os santos já mortos e com Maria, mãe de Jesus. Talvez eles que estão tão próximos de Deus podem conseguir tal “milagre”.

b) O livro de Deuteronômio mostra a preocupação de Deus com o seu povo quando este invadia as cidades e as tomava pelo Seu poder. Ele sabia, assim como Arão no texto anterior, que o seu povo era propenso ao mal, principalmente à idolatria. Por isso exorta que, caso haja alguém no meio do povo que praticou abominação, procedendo mal aos olhos do Senhor, transgredindo a sua aliança, servindo a outros deuses, adorando o sol, a lua ou a todo o exército do céu<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]-->, seja levado às portas da cidade e apedrejado (17:1-7). Não foi instituído aqui nenhum sacrifício por este pecado, mas este levaria ao perigo de uma morte judicial, onde testemunhas deporiam contra o que praticara a idolatria<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]-->.

c) A idolatria jamais trouxe boas conseqüências para o povo de Israel. Em Jeremias 8:2,3 e, principalmente, 16:1-11 vemos que terríveis conseqüências ela lhes causou, de modo que nem mesmo pranto deveria haver pelos que morriam por este pecado. Em outros textos ela é punida com o banimento<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> (Oséias 8:5-8; Amós 5:26,27).

d) É no Novo Testamento, porém, que a punição ao pecado da idolatria se mostra mais severa, pois os idólatras são excluídos do céu (1 Coríntios 6:9,10; Apocalipse 22:15) e, finalmente, partem para o seu destino final, os tormentos eternos do inferno (Apocalipse 14:9-11; 21:8). Entretanto deve-se salientar que não estamos mais debaixo da Lei e sim da Graça, de modo que o idólatra que se arrepender e se converter ao Deus vivo e Verdadeiro pela fé em Cristo Jesus, abandonando a idolatria, tem o seu ingresso no céu garantido pela Palavra de Deus. E esta é uma decisão a ser tomada ainda em vida, pois depois que a morte chega, iremos para o destino que escolhemos: céu ou inferno, sem chance de oração pelos mortos e purgatório para pagar pelo que não pôde ser pago a tempo.

3 – Se compararmos estes textos com o de Macabeus, veremos que em momento algum eles se equiparam. Pelo contrário, o apócrifo utilizado pelo catolicismo romano contradiz as verdades bíblicas e anula a Palavra de Deus. Nos textos inspirados os idólatras pagam pelo seu pecado; já no texto apócrifo, apesar do aparente castigo sofrido pela ocultação das coisas proibidas na Lei, existe uma chance para o perdão após a morte, através de sacrifícios pelos pecados, mesmo sem arrependimento por parte dos pecadores que trocaram o Deus vivo e verdadeiro por ídolos mudos.

4 – O texto de Levítico 5 citado pelo comentarista da bíblia católica diz respeito aos sacrifícios pelos pecados ocultos (vs. 1-13), pelo sacrilégio (vs. 14-16) e pelos pecados de ignorância (vs. 17-19). Os três sacrifícios estão relacionados àqueles pecados cometidos pelo povo de Israel, mas nada nos leva a crer que eles adiantariam para os que já morreram. Pelo menos não há relatos bíblicos de Deus entregando a Moisés mandamentos referentes aos sacrifícios pelos pecados dos defuntos. Aqui, inclusive, necessita-se da confissão dos pecados (v. 5). Após o sacrifício, o pecado era imediatamente perdoado (vs. 10,16 e 18). Estando já mortas, como poderiam as pessoas se arrepender do pecado que haviam cometido? Mesmo que se arrependam (e isto provavelmente pode acontecer assim que enxergam a Glória de Deus e pensam em quanto tempo perderam podendo se emendar e não o fizeram, estando agora destinados à tortura eterna), o seu tempo já passou, a sua chance já foi dada e desperdiçada.

5 – Outro texto citado (Josué 7) mostra que a ira do Senhor se acendeu contra o povo de Israel, porque Acã, da tribo de Judá, havia tomado coisas condenadas (v.1). O relato aqui possui algumas semelhanças com os fatos ocorridos em 2 Macabeus. Josué enviara alguns homens até Ai para espiar aquela terra (v. 2). Ao voltarem aqueles homens, disseram a Josué que não enviasse todo o povo, mas apenas uns dois ou três mil homens (v. 3). Estes foram e fugiram diante dos homens de Ai (v. 4). Foram feridos uns 36 e o restante foi perseguido até que foram derrotados (v. 5). Então Josué rasgou suas vestes e pranteou junto com os anciãos de Israel, murmurando pelo que acontecera, chegando a dizer que deveriam ter permanecido além do Jordão (vs. 7-9). Deus, então, o repreendeu, dizendo que Israel havia violado a sua aliança, roubando as coisas proibidas e chegando a ocultá-las debaixo da sua bagagem, por isso Deus já não era por eles e permitiu que fossem derrotados (vs. 10-12). Disse, também, o Senhor a Josué que deveriam se santificar, pois não estaria com eles até que eliminassem do seu meio as coisas proibidas que estavam escondidas (v. 13). Disse-lhes ainda que lançassem a sorte sobre as tribos e, sobre quem a sorte caísse, deveria ser eliminado, ele e tudo quanto tiver, porque violou a aliança do Senhor e fez loucura em Israel (vs. 14,15). A sorte caiu sobre aquele que havia cometido tal pecado. Disse, então, Josué: “Filho meu, dá glória ao Senhor, Deus de Israel, e a ele rende louvores; e declara-me, agora, o que fizeste; não mo ocultes” (vs. 18,19). Acã reconheceu o seu erro (vs. 20,21), mas ainda assim pagou pelo que fez diante de Deus (vs. 22-26). O desfecho desta triste história mostra a intolerância de Deus para com o povo idólatra. Não houve aqui, como houve em Gênesis 32, intercessão pelo pecador, muito menos oração pela sua alma após a morte, como em Macabeus. Ao contrário, o povo saiu para guerrear e voltou vencedor (cf. capítulo 8).

         Esta breve explanação nos mostra que a idolatria é um pecado condenado por Deus e que no Antigo Testamento Deus se mostrava muitas vezes radical contra aqueles que a praticavam, como forma de zelar pelo seu Nome e pela santidade do povo que Ele escolhera. Ainda hoje a idolatria é condenada e os seus praticantes são chamados ao arrependimento. Deus não pede mais que sejam exterminados, queimados, apedrejados, mas seu destino, se não se converterem ao Deus vivo e verdadeiro, será muito pior do que isso: o lago a arder eternamente com fogo e enxofre. Para estes não cabem orações, indulgências ou mortificações e esmolas, pois em vida escolheram o seu destino pós-morte. A oração de intercessão cabe aos vivos pelos vivos que ainda tem a chance de se emendarem de seus pecados e voltarem-se para Deus, aceitando pela fé a Cristo Jesus e buscando cumprir a sua Palavra.
         Um outro texto nos revela a insistência romanista em apregoar a oração a favor dos mortos, como uma tentativa última e extremada de ver seus entes queridos gozando da paz do Paraíso, mesmo sem haver, em vida, crido em Deus e na sua Palavra. Mas não é somente isto. Como já vimos anteriormente, a relação dos fiéis católicos romanos com os mortos é bastante conveniente do ponto de vista do Vaticano, pois através desta relação é que surgem as Missas e indulgências pagas em favor dos defuntos, rendendo verbas para a Santa Sé. O texto abaixo mostra que a oração também tem poder “retroativo”, isto é, pode-se orar hoje por coisas que aconteceram ontem, podendo, portanto, um vivo orar pelo pecado que o morto cometeu antes de falecer.

E sabemos que a oração tem efeito retroativo, isto é, vale também para o passado. Podemos rezar hoje para que uma pessoa falecida à dez anos tenha encontrado o perdão junto de Deus na hora de sua morte. A oração não está presa no tempo. Ela vale para o passado, para o futuro e para o presente (...) Sem dúvida, rezar pelos defuntos é certo e bom. Mas tem uma coisa: o mais importante é a nossa vida (...) Creio firmemente no poder da oração, mas não sei se alguém que viveu como pagão, desprezando a graça de Deus, será salvo com missa de sétimo dia e aquela cruz sobre a sepultura.<!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]-->

         A incerteza do autor expressa a certeza bíblica da salvação pela fé em Cristo Jesus, nosso Senhor e Salvador. Mas como o catolicismo romano não permite a seus fiéis terem certeza do perdão de Deus e da sua salvação, a oração pelos mortos aparece como uma forma de abrandar o sofrimento deles no purgatório e abreviar suas dores, além de reparar os “estragos” causados pelos pecados cometidos em vida, como afirma Pe. Artur Betti:

Além das orações a Deus pelos falecidos, cujos pecados não são “... para a morte” (1 Jo 5,16-17), existe outra dimensão da oração pelos mortos, esquecida ou ignorada por muitos. É a oração pelos falecidos em razão do pecado perdoado, ou melhor, em razão das marcas, dos estragos que, por acaso, o pecado tenha deixado na pessoa.<!--[if !supportFootnotes]-->[6]<!--[endif]-->

         O que podemos extrair deste texto? Simplesmente que, mesmo depois que Deus perdoa o pecador, ainda resta a restauração pelo estrago que o pecado lhe causou, isto é, o perdão de Deus não tem poder regenerador e purificador, mas apenas judicial: a dívida é perdoada, mas as conseqüências acompanham a alma no além-túmulo. Mas que estragos são esses? Se formos pensar em termos de pecado original, as marcas que carregamos são do próprio pecado em si, que macula a nossa alma e a deixa suja diante de Deus. Assim exclamou o profeta Isaías ao contemplar a Deus: “Ai de mim! Estou perdido! Porque sou homem de lábios impuros, habito no meio dum povo de impuros lábios, e os meus olhos vira mo Rei, o Senhor dos Exércitos!” (Isaías 6:5). Todavia, o profeta teve os seus lábios purificados pela brasa viva do altar e os seus pecados perdoados (vs. 6,7). Da mesma forma temos o nosso coração purificado pelo sangue de Cristo de todo pecado (1 João 1:7), obtendo através dele remissão e redenção (Efésios 1:7). Conforme já tivemos a oportunidade de aprender no breve estudo sobre o perdão de Deus, as nossas faltas são perdoadas, esquecidas e não mais levadas em conta.
         Se pensarmos em termos de pecados praticados após a conversão do pecador ao Evangelho da Salvação, devemos levar em conta a natureza humana pecaminosa. Não é o ato pecaminoso que macula a alma do cristão, como se ele se tornasse impuro somente depois de cometer adultério, por exemplo. O pecado já está dentro dele, esperando o momento de aflorar, a oportunidade de se pôr em prática. Não é necessário que ele peque para sujar seu coração, pois este já é naturalmente sujo (cf. Mateus 15:17-20). Dentro dele há uma (ou algumas) cobiça específica que o tenta a fazer o que é errado. No entanto, Deus se compadece do pecador que se arrepende e se aproxima dEle com coração humilde em busca de perdão; mesmo que este esteja tendencioso a cair novamente, o ato praticado é perdoado e esquecido, não deixando marca alguma na alma. O perdão de Deus alivia nossa alma e a deixa preparada para fazer a sua vontade. A misericórdia de Deus – como já vimos várias vezes aqui – é eterna e perfeita. O pecador pode morrer em paz, sabendo que suas vestes já foram alvejadas e que seu Advogado, Jesus Cristo, pleiteia a sua causa. Como argumento ao nosso favor Ele usa a sua própria morte vicária, que pagou nossa conta com o Pai Celeste.
         No dia do juízo cada um dará conta de si a Deus. Mas quando estiverem diante do seu tribunal, já estarão julgados: os que creram em Jesus irão para a vida eterna e os que se mantiveram rebeldes à salvação gratuita de Deus, irão para o inferno. São duas ressurreições: a ressurreição da morte e a ressurreição da vida (cf. Apocalipse 20:1-6,14; 21:8; 1 Tessalonicenses 4:16; João 6:40; Judas 7; etc.) Os que morreram com Cristo morreram resgatados (Gálatas 3:13; 4:5; 1 Pedro 1:18; 2 Pedro 2:1; Mateus 20:28; 1 Timóteo 2:6; Efésios 1:14), regenerados (1 Pedro 1:23), santificados (Atos 26:18; 1 Coríntios 6:11; 1 Tessalonicenses 5:23; Hebreus 2:11; 10:10,14; 13:12), purificados (2 Coríntios 7:1; Efésios 5:26; Hebreus 9:14; Tiago 4:8; 1 Pedro 1:22; 1 João 3:3) e salvos (Romanos 1:16; 5:9; 10:9; 1 Tessalonicenses 5:9; Hebreus 9:27; 1 Coríntios 15:2; 2 Timóteo 1:9;  2:4; Tito 3:5). Das trevas passaram para a luz e da vontade da carne para a verdade de Deus.

Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus, nosso Salvador, a fim de que, justificados por graça, nos tornemos seus herdeiros, segundo a esperança da vida eterna (Tito 3:3-7; grifo nosso).

            Não há mais o que reparar, pois toda reparação foi efetuada por Cristo na cruz do Calvário através da fé, pelo Santo Espírito de Deus. Dizer que, mesmo depois de perdoado, já falecido, o cristão necessite de obras de purificação (feitas por outros, deve-se salientar), é negar o perdão de Deus, o sangue de Cristo e o poder do Espírito Santo (Gálatas 4:6). No purgatório o defunto está em estado “passivo”, isto é, nada mais pode fazer por si mesmo ou pelos vivos. Se nossas orações, esmolas, missas e sacrifícios pelos mortos surtissem algum efeito, estaríamos fazendo a obra do Espírito Santo!


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<!--[if !supportFootnotes]-->[1]<!--[endif]--> A citação deste texto pelo comentarista é equivocada. No texto em questão, vemos a história de uma mãe que perdeu todos os seus filhos, vindo ela mesma a morrer depois, porque não quiseram comer carne de porco que lhes era obrigada. Ao invés de comê-la e ferir a Lei de Deus, preferiram ser fiéis até a morte, após muitas torturas. Neste texto, sim, podemos ver a fidelidade até o último instante de vida.
<!--[if !supportFootnotes]-->[2]<!--[endif]--> Podemos aqui pensar sobre o prática romanista do “culto aos anjos”.
<!--[if !supportFootnotes]-->[3]<!--[endif]--> Esta prática de obterem-se testemunhas contra os hereges foi amplamente utilizada pelo catolicismo romano durante a “Santa” Inquisição.
<!--[if !supportFootnotes]-->[4]<!--[endif]--> Também aqui a Inquisição aparece, trazendo um novo nome ao banimento: a excomunhão. Esta foi praticada não somente na Inquisição, mas durante toda a história do catolicismo romano, como uma forma de manter o poder, obter lucros financeiros e favores políticos ou mesmo manipular reis e imperadores, incucando-lhes o medo de estarem desprovidos dos santos sacramentos e da salvação eterna (esta também facilmente comprada a preços exorbitantes).
<!--[if !supportFootnotes]-->[5]<!--[endif]--> PE. LUIZ Cechinato, A Missa parte por parte, p. 138 (Aqui se deve levar em conta duas coisas: 1) normalmente a igreja católica romana considera como pagãos aquelas pessoas que não se batizam quando crianças e insistem em não receber o batismo de seus sacerdotes; 2) podemos crer que desprezar a graça de Deus aqui esteja ligado à participação efetiva nos sacramentos e a uma permanência constante na igreja católica romana que, segundo consta em suas doutrinas, é a despenseira de todas as graças de Deus e fonte segura de salvação).

3 comentários:

  1. Obrigada por tão valioso estudo. Irei compartilhar com meus colegas de Escola dominical.
    Quisera nos dia de hoje as igreja tivessem mais interesse em estudar a palavra de Deus de maneira mais profunda através de estudos como este. Deus o abençoe.

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  2. Analise respeitosa,equilibrada e o mais importante,baseado nas Escrituras,Deus continue abençoando!Ja compartilhei,vai me ajudar ao evangelizar tb,gloria a Deus!

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  3. Analise respeitosa,equilibrada e baseada nas Escrituras,parabens,Deus continue abençoando,ja compartilhei,vai me ajudar no evangelismo,paz do Senhor!

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